Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

domingo, 30 de agosto de 2026

Do Inorgânico ao Orgânico Tudo é História

Do inorgânico ao orgânico, tudo é história. A frase não é um voo poético solto no vazio: é a síntese mais dura do materialismo dialético. A matéria não é estática. A natureza não é um cenário parado onde os seres vivos entram e saem. A pedra, a água, o gás, o mineral, tudo isso é matéria em movimento, carregando em si uma história anterior à vida. O inorgânico já é processo. O ferro que hoje vira máquina já foi poeira estelar, já foi magma, já foi montanha desgastada pelo tempo. Nada é imóvel.

Quando do inorgânico emerge o orgânico, não há milagre. Há salto qualitativo. A vida não é uma exceção à matéria; é uma forma superior de organização da matéria. A célula, o tecido, o organismo, tudo isso continua sendo matéria, mas matéria que se reproduz, que metaboliza, que age sobre o ambiente. E, nesse salto, a história muda de ritmo, mas não de substância. A matéria orgânica passa a ter outra relação com o tempo, com o espaço, com a reprodução. Mas segue sendo história.

O ser humano nasce aí, dentro dessa cadeia. Não é um estranho que desceu de outro mundo. É matéria orgânica que, pelo trabalho, se tornou social. O trabalho é o ato fundante. Não é a consciência que cria a humanidade; é a ação sobre a natureza que, aos poucos, gera a consciência. A mão que agarra, o gesto que repete, a ferramenta que se interpõe entre o corpo e o mundo, tudo isso vai esculpindo um cérebro que pensa, que projeta, que transforma. A história natural do inorgânico ao orgânico deságua na história social. Mas não desaparece. Ela permanece como base, como chão, como determinação material.

Sob o capitalismo, essa história viva é sequestrada. O trabalho vivo, que é a forma social da matéria orgânica agindo sobre o inorgânico, vira mercadoria. O homem transforma a natureza e o fruto dessa transformação lhe é roubado. O capital é trabalho morto (inorgânico socializado) que suga trabalho vivo. A história, que ia do mineral ao músculo, do músculo à ferramenta, da ferramenta à consciência, é invertida. O morto domina o vivo. A mercadoria domina o produtor. E essa inversão é apresentada como eterna, como natural, como fim da história.

Mas a história não acaba, porque a matéria não para. A contradição entre trabalho vivo e trabalho morto é objetiva. Ela se expressa na crise, na fome, na guerra, na destruição da natureza. E se expressa também na consciência de classe, que é a história voltando a si mesma, a matéria orgânica se reconhecendo como sujeito. A classe que produz tudo é a herdeira de toda a cadeia: do inorgânico que virou ferramenta, do orgânico que virou corpo, do corpo que virou trabalho, do trabalho que virou história. Ela não pode se libertar sozinha sem libertar também a natureza que o capital esmaga.

Por isso, dizer que do inorgânico ao orgânico tudo é história é afirmar que o comunismo não é um sonho no céu das ideias. É a continuidade material da própria história. É o momento em que os produtores, conscientes de sua posição na cadeia, retomam o controle do metabolismo entre a humanidade e a terra. O trabalho associado não é fuga da matéria; é reconciliação com ela. É a história da pedra, da célula, do corpo e da consciência se reencontrando, não mais como dominação do morto sobre o vivo, mas como cooperação consciente.

A frase, portanto, não é um enfeite. É um programa. A história não é só a luta de classes; a luta de classes é a forma atual da história da matéria. E a revolução, quando vier, será a matéria orgânica, social, consciente, tomando nas mãos o fio da própria história e decidindo, enfim, o próximo capítulo.Do inorgânico ao orgânico, tudo é história. A frase é a síntese do materialismo dialético: a matéria não é estática, e a história humana é a continuidade desse movimento, agora sob a forma da luta de classes. O trabalho vivo é a ponte entre o mineral e o músculo, entre a ferramenta e a consciência. Sob o capital, o morto domina o vivo; a revolução é a matéria consciente retomando o fio da própria história.

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