Lumpemproletariado: Marx e Fanon Diante da Mesma Exploração
A discussão sobre o lumpemproletariado costuma ser apresentada como uma divergência entre dois autores, dois contextos, duas visões de mundo. De um lado, Marx, em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, descreve o lumpemproletariado como escória, refugo, massa de manobra da reação. Do outro, Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra, enxerga nessa mesma figura uma centelha revolucionária, a força mais radical da luta anticolonial. Aparentemente, estão em lados opostos. Mas essa aparência se desfaz quando se compreende que ambos estão falando da mesma coisa: a exploração do homem pelo próprio homem e, por meio dela, a exploração da natureza. O lumpemproletariado não é um fenômeno à parte. Ele é uma das expressões diretas da mesma causa que gera o proletariado, o campesinato expropriado, a miséria urbana e a devastação ambiental. A raiz é uma só. As ramificações são múltiplas.
O ponto de partida é a exploração. A humanidade se constituiu pelo trabalho, pela transformação da natureza para satisfazer necessidades. Durante a maior parte da história, essa relação foi de cooperação e respeito aos ciclos naturais. A terra era comum, os frutos eram partilhados, a produção visava ao valor de uso. O capitalismo rompeu essa unidade. Instaurou a propriedade privada dos meios de produção, separou o produtor da terra, transformou a força de trabalho em mercadoria. A partir desse momento, a relação entre os seres humanos e a natureza passou a ser mediada pelo lucro. Não se produz mais para viver; produz-se para acumular. A exploração do homem pelo homem (a extração de mais-valia) tornou-se o motor da sociedade. A exploração da natureza (a transformação de tudo em matéria-prima e depósito de rejeitos) tornou-se sua consequência inevitável.
É dessa dupla exploração que nascem todas as figuras sociais do capitalismo. O proletário é o produtor direto, aquele que transforma a natureza com seu trabalho e gera mais-valia. O burguês é o parasita que se apropria dessa mais-valia. O capitalista agrário esgota o solo, o capitalista industrial polui o ar, o capitalista financeiro especula com a dívida pública. E o lumpemproletariado? Ele é o produto negativo, o resíduo, a sobra. É o que sobra quando a exploração já não consegue absorver todos os corpos que expulsou da terra, que arruinou no artesanato, que descartou da fábrica. Ele não está fora da exploração; é gerado por ela. É a prova viva de que a exploração do homem pelo homem produz, necessariamente, uma massa de excluídos que o sistema não sabe para que serve.
Marx, no 18 de Brumário, analisa o lumpemproletariado parisiense de 1851. Ele o descreve como "refugo de todas as classes": vagabundos, prostitutas, mendigos, ladrões, soldados desmobilizados, presidiários libertos. Essa massa heterogênea foi recrutada por Luís Bonaparte para servir de base social ao seu golpe. Formou a Sociedade 10 de Dezembro, uma milícia que aterrorizava operários e garantia a ascensão do aventureiro. Por que essa massa se prestou a esse papel? Porque sua condição material a tornava disponível para a compra. Arrancada de qualquer vínculo comunitário, desenraizada da terra e da produção, atomizada, ela sobrevivia de expedientes. Não tinha consciência de classe porque não compartilhava a experiência coletiva da fábrica, da greve, da organização. Sua miséria era tão profunda quanto sua fragmentação. Bonaparte ofereceu dinheiro, emprego, impunidade, um lugar no cortejo. O lumpemproletariado aceitou.
Mas por que essa massa existia? Por que Paris estava cheia de vagabundos, prostitutas e mendigos? A resposta está na exploração. A acumulação primitiva havia expulsado os camponeses de suas terras, arruinado os artesãos, enchido as cidades de despossuídos. A indústria nascente não absorvia todos. O exército industrial de reserva inchava. A exploração do campo gerava a miséria urbana. A exploração da natureza (a privatização das terras comunais, a transformação das florestas em propriedade, a drenagem dos bens comuns) produzia esse refugo humano. O lumpemproletariado não era um acidente. Era o efeito colateral necessário da acumulação capitalista. Bonaparte apenas o instrumentalizou.
Fanon escreve Os Condenados da Terra um século depois, no auge da guerra de independência da Argélia. O colonialismo é a forma mais brutal da exploração. Ele não apenas extrai mais-valia; ele divide a humanidade em duas espécies, o colono e o colonizado. Para impor essa divisão, o colonialismo precisa destruir as sociedades nativas. Toma a terra, suga os recursos naturais, desorganiza a produção local, arruina o artesanato, impõe o trabalho forçado. A natureza é pilhada: florestas derrubadas, solos exauridos, rios desviados, minérios exportados. O colonizado é expulso de sua relação ancestral com a terra. É confinado em reservas, em favelas, em bidonvilles.
Dessa violência nasce o lumpemproletariado colonial. Ele é o camponês sem terra, o artesão sem ofício, o jovem sem futuro, o migrante que troca o campo pela cidade e não encontra nada além de miséria. Fanon olha para essa massa e vê ali uma potência revolucionária. Por quê? Porque ela não tem nada a perder. Não tem salário a defender, não tem patrão a quem pedir, não tem propriedade a preservar. A cidade colonial não lhe oferece nada além de opressão. Sua raiva é total. Quando essa raiva encontra direção política, quando se articula com a luta de libertação, o lumpemproletariado pode se tornar "a força mais radical", aquela que não recua, que não negocia, que vai até o fim.
A divergência entre Marx e Fanon é, portanto, uma divergência de contexto, não de essência. Ambos compreendem que o lumpemproletariado é produto da exploração. Ambos sabem que ele não é sujeito autônomo; é uma força que pode ser arrastada para um lado ou para o outro. O que decide seu destino é a direção política que se impõe sobre ele. Na França de 1851, a burguesia já era a classe dominante, o proletariado fabril já existia como força organizada, e o lumpemproletariado foi recrutado pela reação. Na Argélia de 1961, a burguesia colonial era estrangeira, o proletariado urbano era numericamente fraco, e a luta anticolonial era liderada por uma frente de libertação que soube canalizar a revolta dos descartados para a revolução. A causa é a mesma: a exploração. As funções políticas são diferentes porque as condições históricas são diferentes.
A raiz comum é a exploração do homem pelo homem e da natureza. Essa raiz precisa ser enfatizada, porque é ela que unifica todas as figuras da opressão. O proletário que vende sua força de trabalho, o camponês expulso de sua terra, o indígena confinado em reserva, o negro criminalizado pela cor da pele, a mulher explorada no trabalho doméstico não remunerado, o jovem descartado pelo desemprego estrutural, a floresta derrubada para pasto do gado, o rio envenenado pelo minério, o ar intoxicado pela fumaça das fábricas, tudo isso é a mesma coisa. É o capital transformando vida em lucro. É a exploração que não distingue entre o corpo do trabalhador e o corpo da terra. Ambos são matéria-prima. Ambos são descartáveis.
O lumpemproletariado é a expressão mais visível dessa lógica. Ele é o descartado entre os descartados, a sobra entre as sobras. Mas ele não está sozinho. Ele é parte de uma cadeia de exploração que começa na privatização da natureza e termina no corpo do miserável que dorme sob a marquise. Entre um extremo e outro, há o operário que produz o carro e não pode comprá-lo, a empregada doméstica que cria o filho do patrão e deixa o seu na creche precária, o camponês que planta o alimento e passa fome, o mineiro que arranca o minério e morre intoxicado. Todos são produtos da mesma engrenagem.
Por isso a luta não pode ser fragmentada. Não se trata de escolher entre o proletariado e o lumpemproletariado, entre a fábrica e a favela, entre o sindicato e o movimento de sem-teto. Trata-se de unificar todas as lutas contra a mesma causa. A causa é a propriedade privada dos meios de produção, que permite a exploração do homem pelo homem. A causa é a forma valor, que transforma tudo em mercadoria. A causa é o capital, que não reconhece limites na natureza nem na humanidade.
A atualidade dessa discussão é brutal. O capitalismo do século XXI está produzindo uma massa crescente de descartados. O exército industrial de reserva está se tornando permanente, estrutural. Milhões de jovens não encontram trabalho, não estudam, não têm perspectiva. As favelas incham. As periferias explodem. Os desastres climáticos se multiplicam. A exploração da natureza chegou a um ponto em que o planeta dá sinais de esgotamento. Secas, inundações, pandemias, incêndios florestais. A exploração do homem pelo homem produziu a crise. A exploração da natureza produziu a catástrofe.
Nesse cenário, o lumpemproletariado contemporâneo está disponível. Pode ser cooptado pelo neofascismo, como foi na França de Bonaparte. As milícias, o crime organizado, as igrejas fundamentalistas, os líderes populistas de direita disputam essa massa. Oferecem identidade, pertencimento, dinheiro rápido, a ilusão de poder. A extrema direita cavalga a revolta dos descartados contra o sistema, mas a direciona contra bodes expiatórios: imigrantes, negros, homossexuais, comunistas. É o mesmo mecanismo descrito por Marx. Mas essa mesma massa também pode ser arrastada para a revolução, como Fanon mostrou. As favelas podem se tornar territórios de resistência. Os jovens marginalizados podem se tornar militantes. A revolta contra a polícia pode se transformar em revolta contra o Estado. O ódio ao sistema pode deixar de ser autodestrutivo e se tornar força revolucionária.
A escolha depende da direção política. Se a esquerda abandonar os descartados, a direita os recolherá. Se a esquerda oferecer apenas eleições, reformas e discursos, a direita oferecerá armas, dinheiro e vingança. A disputa pelo lumpemproletariado é a disputa pelo futuro da crise. O capital já não tem nada a oferecer além de barbárie. A exploração do homem pelo homem e da natureza já mostrou seu resultado final: um planeta devastado e uma humanidade cindida entre uma minúscula casta de bilionários e uma imensa massa de explorados, precarizados e descartados.
A única saída é a ruptura. É a abolição da propriedade privada dos meios de produção. É a socialização da terra, das fábricas, da tecnologia. É a produção voltada à satisfação das necessidades humanas e ao respeito aos ciclos naturais. É o fim da exploração do homem pelo homem e da natureza. Essa é a causa comum. O proletário, o camponês, o indígena, o negro, a mulher, o jovem descartado, o lumpemproletariado, todos são expressões da mesma exploração. A luta é uma só. A vitória será de todos ou não será de ninguém. Marx e Fanon, cada um a seu modo, apontaram para a mesma direção: a necessidade de destruir o sistema que produz explorados e descartados, e de construir uma sociedade onde a relação entre os seres humanos e a natureza deixe de ser mediada pelo lucro e passe a ser mediada pela necessidade e pelo cuidado. É isso ou a barbárie. Não há terceira via.