Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sábado, 30 de maio de 2026

Para onde vai tudo que o proletariado produz?

A Abundância Represada: Por que Produzimos Tanto e Vivemos Tão Mal


A humanidade nunca produziu tanta riqueza. As fábricas cospem mercadorias em velocidades espantosas. Os campos colhem safras recordes. A tecnologia permite que uma fração mínima do trabalho social total baste para alimentar, vestir, abrigar e cuidar de cada ser humano do planeta. No entanto, a fome persiste. A miséria cresce. A falta de moradia se alastra. A água potável é negada a milhões. Os hospitais não têm remédios. As escolas não têm estrutura. Há alguma coisa profundamente errada nessa equação. E o erro não está na natureza, não está na técnica, não está na capacidade humana de produzir. Está na forma social que determina o que, como e para quem se produz.


A escassez que experimentamos hoje não é um fato natural. É uma construção social. É o modo como o capital organiza a produção para garantir que a abundância potencial jamais se realize como abundância real para a maioria da humanidade. O capital não pode permitir a abundância. Se permitisse, deixaria de ser capital.


Para entender por que, é preciso voltar à célula do sistema: a mercadoria. Toda mercadoria é uma unidade contraditória entre valor de uso (sua utilidade concreta, sua capacidade de satisfazer uma necessidade humana) e valor de troca (trabalho humano abstrato cristalizado, que só se realiza na venda). Sob o capitalismo, o valor de uso não é a finalidade da produção. É apenas o suporte do valor de troca. O capitalista não produz alimentos porque as pessoas têm fome. Produz alimentos porque pode vendê-los. Se não puder vender, não produz. Se o preço de venda não cobrir os custos e garantir lucro, não produz. A necessidade humana só é atendida se for necessidade solvente, ou seja, necessidade com dinheiro no bolso. Quem não tem dinheiro não tem fome para o mercado. É um consumidor que não consome, uma boca que não conta, uma vida que não pesa na balança do lucro.


Essa inversão é a raiz da escassez artificial. O capital precisa que as mercadorias sejam escassas o suficiente para manter os preços acima dos custos. Se houver abundância, os preços caem. Se os preços caem, o lucro diminui. Se o lucro diminui, o capital foge. Por isso o sistema destrói alimentos para sustentar cotações. Queima café, despeja leite, enterra toneladas de grãos. Não é absurdo. É cálculo. É mais lucrativo destruir o excedente do que distribuí-lo, porque a distribuição gratuita derrubaria os preços e comprometeria a valorização futura. A fome de milhões é um efeito colateral aceitável. O capital não tem estômago. Não tem consciência. Tem apenas o impulso cego de se valorizar.


A mesma lógica opera em todas as esferas. Por que há falta de moradias em cidades abarrotadas de prédios vazios? Porque o imóvel não é construído para abrigar pessoas, mas para render aluguel, para especular, para lavar dinheiro. O solo urbano é mercadoria. A moradia é mercadoria. O direito de morar se subordina ao direito de lucrar. Por que há falta de medicamentos em países que abrigam os maiores laboratórios do mundo? Porque o medicamento é mercadoria, protegido por patentes (cercas jurídicas que garantem o monopólio da venda e impedem a produção genérica). A cura é propriedade privada antes de ser direito. O doente é consumidor antes de ser paciente.


A abundância está represada. As comportas são as relações sociais capitalistas. A propriedade privada dos meios de produção, o trabalho assalariado, a produção voltada ao lucro, são essas as travas que impedem que a riqueza real chegue a quem a produz.


Em tempos pré-capitalistas, a escassez era real. A produtividade do trabalho era baixa. A natureza impunha limites duros. Uma colheita ruim significava fome para a comunidade inteira. Nesses tempos, o que se dividia era a miséria. Todos apertavam o cinto. A solidariedade forçada pela escassez gerava formas de sociabilidade comunitária, laços de reciprocidade, mecanismos de partilha do pouco que havia. O capitalismo dissolveu essas formas. Libertou as forças produtivas, elevou a produtividade a patamares inéditos, criou as condições materiais para a abundância. Mas o fez sob a forma da propriedade privada e da exploração. O resultado é que, no lugar da divisão da miséria, o que se divide agora é outra coisa: a exploração do proletariado.


A mais-valia (trabalho não pago, a parte da jornada que o proletário entrega de graça ao burguês) é um bolo. Os capitalistas disputam esse bolo entre si. A concorrência entre eles é feroz. O grande capital engole o pequeno. A transnacional esmaga o patrão local. O rentista suga o industrial. O capital financeiro drena a economia real. Mas o bolo que eles disputam é sempre o mesmo: trabalho alheio cristalizado. A disputa entre burgueses não alivia a exploração do proletariado. Ela a intensifica. Porque, para ganhar do concorrente, cada burguês precisa arrancar mais do seu proletário. Baixar salário, alongar jornada, intensificar ritmo, precarizar vínculo. A guerra de todos contra todos no mercado se traduz em pressão redobrada sobre quem produz.


O proletariado segue excluído da abundância que ele mesmo criou. A miséria que lhe sobra não é falta de produção. É excesso de exploração. É a forma social que impede o acesso ao que já foi produzido. O proletário produz o carro, mas não pode comprá-lo. Constrói o prédio, mas não pode morar nele. Cozinha o restaurante, mas come marmita fria. Cuida do filho do burguês, mas deixa o seu na creche precária. Essa é a esquizofrenia do capital: a separação radical entre quem produz e quem desfruta, entre o trabalho e a riqueza, entre a capacidade técnica e a realidade social.


A tecnologia, que poderia ser o instrumento da libertação humana, torna-se, sob o capital, instrumento de intensificação da exploração. A automação não reduz a jornada; elimina postos de trabalho e aumenta a carga dos que ficam. A inteligência artificial não libera tempo livre; controla o ritmo, vigia o desempenho, descarta quem não atinge as metas. A engenharia genética não cura doenças; patenteia sementes e medicamentos, cobrando royalties de quem precisa comer e de quem precisa viver. O capital transforma cada avanço técnico em nova forma de sucção.


A escassez artificial não afeta apenas o consumo. Afeta também a natureza. O capital trata a terra como fonte inesgotável de matéria-prima e como depósito infinito de rejeitos. Extrai minérios, derruba florestas, contamina rios, suga aquíferos, perfura o subsolo, envenena o ar. Tudo em nome do lucro. Quando a natureza dá sinais de esgotamento (secas, inundações, incêndios, pandemias), o capital responde com novas mercadorias: créditos de carbono, seguros climáticos, tecnologias verdes que são apenas novas formas de acumulação. A crise ambiental não é um acidente. É o metabolismo do capital em sua fase terminal. O sistema que produz escassez artificial para os humanos produz também escassez real para o planeta.


A contradição entre abundância e escassez é, no fundo, a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. As forças produtivas (a tecnologia, a ciência, a organização do trabalho, a capacidade humana de transformar a natureza) atingiram um nível que permite a satisfação das necessidades de todos com uma fração do trabalho social atual. As relações de produção (a propriedade privada, o trabalho assalariado, a produção para o lucro) são um entrave. Elas represam a abundância. Elas transformam a capacidade de produzir em capacidade de excluir.


Por isso a luta de classes não é uma briga por um pedaço maior do bolo. É a luta para destruir a cozinha inteira e reconstruí-la sob controle de quem realmente cozinha. Não se trata de redistribuir a escassez. Trata-se de abolir a escassez. De destravar a abundância represada. De subordinar a produção à necessidade humana, e não à valorização do capital. Isso significa abolir a propriedade privada dos meios de produção. Colocar a terra, as fábricas, as máquinas, a tecnologia a serviço de todos. Significa abolir o trabalho assalariado. Ninguém mais vende sua vida por um salário. A jornada é reduzida ao mínimo necessário. O trabalho penoso é eliminado pela automação. O tempo livre se torna a medida da riqueza.


Isso não é sonho. É uma possibilidade real, material, inscrita no desenvolvimento das forças produtivas. O que falta é a consciência dessa possibilidade. O que falta é a organização do proletariado para realizá-la. O que falta é a ruptura com a ideologia que naturaliza a escassez e nos convence de que "não dá para todo mundo".


Essa ideologia tem muitas faces. A face malthusiana diz que a pobreza é culpa dos pobres, que se reproduzem como coelhos e esgotam os recursos. A face neoliberal diz que o mercado aloca os recursos de forma eficiente e que a interferência estatal gera distorções. A face reformista diz que é possível regular o capital, humanizá-lo, fazê-lo funcionar para todos. Todas são falsas. Todas escondem o fato de que a escassez não é natural, mas socialmente produzida. E que a única forma de eliminá-la é eliminar as relações sociais que a produzem.


A revolução não é a tomada do poder em meio à penúria, para repartir a miséria. É a tomada do poder para destravar a abundância. Para abrir as comportas. Para fazer chegar a cada ser humano o que a humanidade já é capaz de produzir. O socialismo não é a gestão estatal da escassez. É a superação da escassez pela abolição da forma valor. É a produção voltada à satisfação das necessidades humanas, livremente associadas, conscientemente planejadas. O comunismo não é a divisão igualitária da miséria. É o fim da miséria.


A abundância já existe. Está aí, diante dos nossos olhos, mas está trancada. As chaves da prisão estão nas mãos da burguesia. A classe que detém os meios de produção prefere destruir o excedente a distribuí-lo. Prefere a barbárie à cessão da propriedade. Prefere queimar comida enquanto milhões passam fome. Prefere manter prédios vazios enquanto milhões dormem na rua. Prefere patentear a cura enquanto milhões morrem de doenças evitáveis. Essa é a lógica do capital. Não há reforma que a dome. Não há regulação que a humanize. Não há eleição que a transforme.


A única saída é arrancar as chaves. Tomar os meios de produção. Socializar a terra, as fábricas, a tecnologia. Organizar a produção conforme as necessidades, não conforme o lucro. Reduzir a jornada, eliminar o trabalho penoso, liberar tempo para viver. Isso é possível. É necessário. É urgente. A cada dia que passa, a contradição se agrava. A abundância represada apodrece de um lado. A miséria cresce do outro. O planeta geme. As guerras se multiplicam. Os estados de exceção se banalizam. O capital caminha para a barbárie porque já não tem nada a oferecer além de destruição.


Cabe ao proletariado decidir se aceita a barbárie ou se toma o que é seu. A escassez é uma mentira. A abundância é a verdade. E a verdade, quando compreendida pelas massas, se transforma em força material. Em greve. Em bloqueio. Em ocupação. Em poder. Em revolução. A hora é de escolher.

2026: O Ano em que o Continente Ferve

2026: O Ano em que o Continente Ferve


O capitalismo mundial entrou em 2026 sem margem para concessões. As contratendências que adiaram a crise nas décadas anteriores (expansão para a periferia, financeirização, superexploração do proletariado) estão esgotadas ou próximas do limite. A taxa de lucro segue pressionada. O capital precisa, mais do que nunca, arrancar mais-valia de onde ainda é possível: do corpo do proletariado. E o proletariado, exaurido, começa a responder.


A pandemia de Covid-19 foi o marco da virada. Revelou que as fronteiras são cercas do capital. O vírus circulou; as vacinas, não. A dívida pública explodiu. Os Estados se endividaram para salvar bancos e corporações, e agora cobram a conta do proletariado. Inflação, arrocho salarial, cortes em saúde e educação, reformas trabalhistas e previdenciárias. O receituário é o mesmo no planeta inteiro, porque a crise é a mesma. O capital precisa socializar as perdas e privatizar os ganhos. Precisa fazer o proletariado pagar pela crise que não criou.


A resposta também começou a ser a mesma. O proletariado internacional, fragmentado pela ideologia nacionalista e pelas fronteiras, começa a romper as cercas. Ondas de protestos eclodem em todos os continentes. Não são movimentos isolados. São a mesma luta, com nomes e rostos diferentes. A greve dos ferroviários no Reino Unido, os bloqueios na França, as ocupações de fábricas na Índia, as manifestações contra a reforma trabalhista na Coreia do Sul, as rebeliões no Quênia, as greves gerais na Bélgica. O ano de 2026 não é um ano de crise; é o ano em que a crise mostra sua face política mais aguda. É o ano em que o proletariado, ainda sem direção revolucionária, começa a sair da defensiva.


Na América do Sul, a ofensiva do capital foi particularmente violenta. O continente sempre funcionou como laboratório das políticas mais brutais de ajuste. Foi aqui que o capital sem maquiagem fez suas primeiras experiências: Chile de Pinochet, Argentina de Martínez de Hoz, Brasil de Collor. Agora, em 2026, o laboratório está de volta. A burguesia continental, associada ao capital internacional, sabe que precisa arrancar o máximo possível antes que a insatisfação proletária se transforme em ruptura. Por isso, a velocidade dos ataques é maior. Por isso, a violência da repressão é maior. Por isso, a resistência também começa a ser maior.


A Argentina foi o primeiro epicentro. O governo Milei é a expressão mais acabada do capital sem disfarce. Sua reforma trabalhista, aprovada em fevereiro de 2026, é um ataque direto ao proletariado argentino. Flexibilização total do contrato de trabalho, fim da estabilidade, terceirização irrestrita, redução de salários, cortes profundos nas aposentadorias, privatização de estatais, entrega de recursos naturais ao capital estrangeiro. Milei é o gerente que a burguesia argentina escolheu para aplicar o programa que a crise mundial exige. Ele não é um acidente. É a continuidade lógica do capitalismo argentino, que passou pelo peronismo, pelo kirchnerismo, pelo macrismo, e agora chega à sua forma mais pura. A burguesia argentina, sufocada pela dívida com o FMI e pela queda da taxa de lucro, não tem mais nada a oferecer. Só o chicote.


Os protestos massivos que explodiram em fevereiro de 2026 na Argentina não são apenas uma reação à reforma trabalhista. São a recusa do proletariado em pagar a conta. As ruas de Buenos Aires, Córdoba, Rosário, Mendoza foram tomadas por sindicatos, movimentos de desempregados, organizações piqueteras, assembleias de bairro. A greve geral parou o país. O governo respondeu com estado de emergência. A repressão foi feroz. Mas o proletariado argentino, que já viveu o corralito, a crise de 2001, a volta do FMI, sabe que não há saída negociada. Sabe que Milei não vai recuar. Sabe que a burguesia não vai ceder. Por isso, os protestos continuam. E tendem a se intensificar.


A Bolívia entrou na onda em maio de 2026. Os protestos começaram com greves localizadas e rapidamente se transformaram em um movimento nacional. Sindicatos, mineiros, transporte, comunidades indígenas, operários urbanos de El Alto, camponeses do altiplano. A greve geral e os bloqueios de estradas paralisaram o país. A exigência imediata era a revogação do estado de exceção e a derrubada do governo de Rodrigo Paz. Mas, por baixo da superfície, a luta é contra a privatização do lítio, a entrega do gás, a destruição das comunidades, a miséria crescente.


Aqui é preciso distinguir com precisão. Os mineiros de Potosí são proletários: despossuídos, vendem sua força de trabalho, produzem mais-valia. Os operários de El Alto, os transportadores assalariados, os metalúrgicos bolivianos também são proletários. Já os camponeses aimarás e quéchuas, as comunidades indígenas que ainda possuem terra coletiva, não são proletários no sentido estrito. São trabalhadores, produzem valores de uso, resistem à expropriação, mas não vivem da venda da força de trabalho. Sua luta é contra a acumulação primitiva que os transforma em proletários, que os despeja, que privatiza seus territórios. Essa distinção importa porque a aliança entre proletários e camponeses precisa ser feita com clareza estratégica: o sujeito revolucionário é o proletariado, mas ele precisa arrastar consigo as outras camadas exploradas e oprimidas.


A crise boliviana de 2026 é a prova final de que o reformismo não resolve a contradição. Ele apenas a administra até o momento em que a administração se torna impossível. O proletariado boliviano, que já derrubou presidentes em 2003 e 2005, que resistiu ao golpe de 2019, que bloqueou estradas e parou o país em 2024, está novamente nas ruas. E a pergunta que fica é: até quando a energia dessa resistência será canalizada para a volta de um novo gerente do capital? Até quando a luta se limitará a pedir a volta de Evo, ou a posse de algum outro líder do MAS, em vez de tomar o poder para si?


A resposta a essa pergunta não está apenas na Bolívia. Está na Argentina, no Chile, no Peru, na Colômbia, no Equador, no Brasil. A América do Sul inteira está em ebulição. O ano de 2026 está sendo o ano em que as lutas isoladas começam a se encontrar. Os mineiros bolivianos (proletários) sabem da greve dos metalúrgicos argentinos (proletários). Os piqueteros argentinos (proletários desempregados e precarizados) sabem dos bloqueios bolivianos. Os caminhoneiros colombianos (pequenos proprietários de seus veículos, não proletários, mas explorados pelo capital) sabem das manifestações no Equador. Os sem-terra brasileiros (camponeses em luta contra a expropriação) sabem da resistência indígena no Peru. As redes sociais, apesar de controladas pelo capital, não conseguem impedir totalmente a circulação da informação. A solidariedade de classe começa a furar os bloqueios midiáticos.


O capital também sabe disso. Por isso, acelera a repressão. Os estados de exceção se multiplicam. A criminalização dos movimentos avança. A imprensa burguesa unifica o discurso: "baderna", "caos", "ameaça à democracia". A esquerda reformista tenta canalizar a insatisfação para a disputa eleitoral, para a "recomposição do campo popular", para a volta ao passado que já fracassou. Mas o passado não volta. A crise estrutural do capital não permite. A única saída é para frente: a ruptura com a ordem burguesa.


A conjuntura de 2026 na América do Sul pode ser resumida em uma frase: o capital não pode mais governar como antes, e o proletariado não quer mais ser governado como antes. É uma situação revolucionária clássica. A classe dominante não consegue mais manter sua dominação sem recorrer à violência aberta. O proletariado não aceita mais as condições de vida que lhe são impostas. Há uma crise que afeta exploradores e explorados. O que falta para que essa situação se transforme em revolução? Falta direção. Falta organização. Falta um partido que não se limite a administrar a crise, mas que aponte para a tomada do poder.


Os conselhos operários, as assembleias de bairro, os comitês de greve, as cooperativas de proletários, as comunidades camponesas que resistem à expropriação (todas essas são formas embrionárias de poder). Mas são fragmentos. Falta a unidade. Falta a coordenação. Falta o programa. O programa é simples de enunciar, difícil de executar: abolição da propriedade privada dos meios de produção, fim do trabalho assalariado, destruição do Estado burguês, construção do poder dos conselhos.


A América do Sul de 2026 está diante de uma encruzilhada. De um lado, a barbárie: mais repressão, mais privatizações, mais destruição ambiental, mais miséria, mais estados de exceção. Do outro, a revolução: a unificação das lutas, a ruptura com o reformismo, a tomada do poder pelo proletariado e seus aliados. Não há terceira via. Não há volta ao capitalismo regulado, ao desenvolvimentismo, ao social-liberalismo. Essas foram tréguas. A trégua acabou. O capital está em sua fase terminal. Ou o enterramos, ou ele nos enterra.


Os protestos de 2026 na Bolívia e na Argentina não são eventos isolados. São capítulos da mesma guerra. A guerra do capital contra a humanidade e o planeta. A guerra do proletariado contra o capital. A linha de frente hoje está em La Paz, em Buenos Aires, em El Alto, em Córdoba. Amanhã estará em São Paulo, em Santiago, em Lima, em Bogotá. A geografia do capital divide. A lógica humana une. O que está em jogo não é a escala 6x1, não é o preço do gás, não é o nome do presidente. O que está em jogo é a sobrevivência da espécie. O capital já decidiu: prefere a barbárie a ceder a propriedade. Cabe ao proletariado decidir se aceita a barbárie ou se toma o que é seu. O ano de 2026 está sendo o ano da escolha. E a escolha se faz na rua. Na greve. No bloqueio. Na ocupação. Na luta. Sem parasitas. Sem fronteiras. Um só mundo. Uma só classe. Uma só luta.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

As Cercas do Capital

Fronteiras: as Cercas do Capital

A humanidade é uma só. A espécie é una. A biologia não conhece o brasileiro, o boliviano, o nigeriano, o francês. Conhece o ser humano, suas necessidades, seu metabolismo com a natureza, sua capacidade de criar, de sofrer, de amar. A divisão do planeta em territórios chamados países, cada um com sua bandeira, seu hino e sua polícia de fronteira, não é obra da natureza. É obra do capital.


As fronteiras servem a um propósito muito concreto: organizar a exploração de forma hierarquizada. Elas não existem para proteger povos; existem para proteger propriedades. A cerca que separa o México dos Estados Unidos não foi erguida para defender os mexicanos nem os estadunidenses. Foi erguida para controlar o fluxo da força de trabalho, para garantir que o proletário mexicano entre quando o capital americano precisa de mão de obra barata e seja expulso quando não precisa mais. A fronteira é uma válvula: abre e fecha conforme a necessidade de acumulação.


Do mesmo modo, a fronteira entre a Bolívia e o Chile, ou entre a Bolívia e o Brasil, não existe para proteger culturas ou identidades. Existe para garantir que o lítio do salar de Uyuni seja explorado por uma empresa transnacional sediada em determinado país, pagando impostos a determinado Estado, gerando lucro para determinados acionistas. Se a extração fosse feita por uma cooperativa de proletários bolivianos em solidariedade com operários chilenos e brasileiros, a fronteira perderia o sentido. Por isso o capital reforça a fronteira: para impedir que a solidariedade de classe dissolva a concorrência entre os explorados.


A lógica humana diz: o que foi produzido por todos deve pertencer a todos. A terra, a água, o subsolo, a tecnologia, o conhecimento são frutos do trabalho coletivo da humanidade ao longo de gerações. Nenhum país produziu sozinho o lítio que está sob seu solo. Nenhum país inventou sozinho a bateria que usa esse lítio. O conhecimento é universal. O trabalho que extrai a matéria-prima é universal. Mas a apropriação é privada e nacional. A fronteira é a linha imaginária que separa o produtor do fruto do seu trabalho, que divide o proletariado em pedaços para que cada pedaço aceite ser explorado pelo "seu" burguês, pela "sua" bandeira, pelo "seu" exército.


O patriotismo é a ideologia que naturaliza essa divisão. Ensinam-nos desde a infância a amar um pedaço de terra como se ele fosse nossa mãe, quando na verdade ele é a propriedade de uma classe parasitária que nos suga. Cantamos hinos que exaltam a bravura de um povo, enquanto esse mesmo povo é espoliado diariamente pelos donos do país. A bandeira que tremula no alto do mastro é a mesma que cobre o caixão do soldado raso que morreu defendendo os interesses do capital. O patriotismo é o amor ao território do parasita. É a lealdade do explorado ao seu explorador.


O capital precisa das fronteiras por três razões principais. A primeira é econômica: a lei do valor opera em escala mundial, mas com produtividades desiguais. O trabalho nos países centrais vale mais que o trabalho nos países periféricos. Isso permite a transferência permanente de valor da periferia para o centro. O lítio boliviano é trocado por menos trabalho do que contém; o valor se realiza na Europa, nos Estados Unidos, na China. As fronteiras são os canais por onde essa transferência flui. Se não houvesse fronteiras, se o proletariado mundial se unificasse, essa hierarquia desabaria. Por isso o capital reforça a soberania nacional: para manter a desigualdade que o alimenta.


A segunda razão é política. Fronteiras dividem a classe trabalhadora. O operário brasileiro aprende a ver o operário boliviano como concorrente, como invasor, como ameaça. O trabalhador argentino aprende a culpar o trabalhador paraguaio pelo desemprego. O proletário europeu aprende a temer o imigrante africano. Enquanto a classe se divide por nacionalidade, não se une por classe. A fronteira é a arma mais eficaz contra a solidariedade. É o muro que impede a greve de ser internacional. É a cerca que faz o explorado odiar outro explorado enquanto ama o parasita que compartilha sua nacionalidade.


A terceira razão é militar. O Estado é a forma política da dominação de classe. Para existir, o Estado precisa de um território definido, com fronteiras claras. Dentro dessas fronteiras, ele detém o monopólio da violência. Ele pode prender, julgar, condenar, matar. Tudo em nome da soberania. Mas soberania de quem? Do povo? Não. Soberania do capital. O Estado boliviano reprime os mineiros que bloqueiam estradas em nome da "ordem nacional". O Estado brasileiro criminaliza o MST em nome do "direito de propriedade". A polícia de fronteira não existe para defender o povo; existe para defender o capital nacional de eventuais ameaças vindas de outros capitais ou, principalmente, da classe trabalhadora organizada internacionalmente.


A lógica humana é a lógica da espécie. Somos uma só humanidade habitando um só planeta. Os recursos são finitos. A atmosfera não tem fronteiras. O clima não respeita tratados. A poluição gerada na China adoece crianças na América do Sul. A seca no Chaco boliviano é parte do mesmo desarranjo climático que inunda o Rio Grande do Sul. A natureza não reconhece Estados nacionais. Ela reconhece ciclos, ecossistemas, interdependências. O capital, ao contrário, fragmenta o que é uno para vender em pedaços.


As fronteiras são incompatíveis com a solução dos problemas reais da humanidade. A fome não se resolve com soberania alimentar de um país; se resolve com distribuição mundial da produção, com o fim do latifúndio, com a abolição da propriedade privada sobre a terra. A crise climática não se resolve com acordos internacionais que cada país descumpre quando lhe convém; se resolve com o fim da produção voltada ao lucro, com a reorganização da economia mundial em bases humanas. A pandemia não se resolve com vacinas patenteadas por laboratórios sediados em alguns países; se resolve com a socialização do conhecimento e da tecnologia.


A pandemia de Covid-19 foi a demonstração mais crua de que as fronteiras matam. O vírus não parou nas alfândegas. Ele circulou livremente. Mas as vacinas pararam. Os países ricos estocaram doses enquanto os países pobres esperavam. O discurso nacionalista serviu para justificar o monopólio. "Primeiro os nossos", diziam os governos europeus. Mas quem eram "os nossos"? Os acionistas da Pfizer, da Moderna, da AstraZeneca. A solidariedade internacional foi bloqueada pelas fronteiras da propriedade intelectual. O lucro matou. A fronteira matou.


A abolição das fronteiras não é uma utopia abstrata. É uma necessidade material. Enquanto houver países, haverá competição entre capitais nacionais. Enquanto houver competição entre capitais, haverá guerra. As duas guerras mundiais foram guerras entre Estados burgueses disputando mercados, colônias, esferas de influência. A guerra na Ucrânia é uma guerra interimperialista. Os proletários russos e ucranianos não têm nada a ganhar com ela. Quem ganha são os oligarcas do gás, os fabricantes de armas, os especuladores financeiros. Mas os proletários morrem. Morrem defendendo fronteiras que não lhes pertencem, bandeiras que não os representam, interesses que não são seus.


A única pátria do proletário é o mundo. A única bandeira é a da classe. O único hino é o da greve geral. Marx e Engels fecharam o Manifesto Comunista com "Proletários de todos os países, uni-vos!". Não era uma frase de efeito. Era um programa. A união dos proletários de todos os países é a negação prática das fronteiras. É o reconhecimento de que a exploração é uma só, em La Paz e em São Paulo, em Cochabamba e no ABC paulista. O mineiro boliviano e o metalúrgico brasileiro são membros da mesma classe, enfrentam o mesmo inimigo, compartilham a mesma luta.


A reprodução do capital depende da fragmentação da humanidade. A lógica humana exige a reunificação. Não se trata de propor um governo mundial burguês, uma ONU fortalecida, um parlamento planetário do capital. Isso seria apenas a mesma dominação em escala ampliada. Trata-se de construir, desde já, a solidariedade internacional do proletariado. Trata-se de furar os bloqueios midiáticos que impedem os trabalhadores de um país de saber o que se passa no outro. Trata-se de impedir que o parasita de um país nos use como fura-greve do parasita vizinho. Trata-se de recusar a guerra entre nações e afirmar a guerra de classes.


O capital criou o mercado mundial. Ele já globalizou a produção, a circulação, o consumo. O que o capital globalizou, o proletariado precisa internacionalizar. A fábrica é global. A cadeia de suprimentos é global. A exploração é global. A resistência também precisa ser. O estado de exceção na Bolívia é assunto dos trabalhadores brasileiros. O arrocho salarial no Brasil é assunto dos trabalhadores bolivianos. A greve dos mineiros de Potosí ecoa nos metalúrgicos do México. A luta dos camponeses sem-terra do Paraguai ecoa nos assentados do MST.


Fronteiras são cercas. Cercas servem para confinar o gado antes do abate. O capital cerca a humanidade em currais nacionais, dá a cada curral um nome, uma bandeira e um presidente, e depois ordenha, tosquia e abate. A hora é de derrubar as cercas. Não para que o gado vague livremente, mas para que o gado deixe de ser gado. Para que o proletariado deixe de ser objeto e se torne sujeito. Para que a humanidade se reconheça como uma só, enfrentando um só inimigo: a propriedade privada, o capital, as classes, o Estado. A geografia não divide a espécie. Quem divide é o capital. E é contra ele que nos unimos. Sem fronteiras. Sem bandeiras. Sem parasitas. Um só mundo. Uma só classe. Uma só luta.

É Tudo Liberalismo

É Tudo Liberalismo: A Unidade da Dominação Burguesa


Não existe neoliberalismo como algo separado. É tudo liberalismo. A tentativa de dividir o capitalismo em fases estanques, um liberalismo clássico bonzinho ou pelo menos ingênuo, um keynesianismo civilizado e um neoliberalismo selvagem (é ideologia pura). Serve para fazer crer que o problema é a política econômica errada, e não o modo de produção. Serve para que a social-democracia e o reformismo possam dizer: "não somos contra o capitalismo, somos contra o neoliberalismo". Como se fosse possível ser contra o neoliberalismo sem ser contra o capitalismo. Como se o neoliberalismo fosse um desvio, e não a expressão mais sincera da lógica do capital.


A raiz é uma só: o liberalismo é a ideologia da forma mercadoria. Ele nasce com o capitalismo e é inseparável dele. Seu princípio fundamental é a liberdade do indivíduo para dispor de sua propriedade. Mas quem é esse indivíduo? O proprietário. E o que ele possui? Meios de produção ou força de trabalho. A liberdade liberal é a liberdade do burguês de comprar força de trabalho e a liberdade do proletário de vendê-la. É a liberdade do contrato entre desiguais. É a liberdade da exploração. O liberalismo nunca pregou a liberdade humana; pregou a liberdade do capital.


O liberalismo clássico de Adam Smith e David Ricardo já continha tudo o que o chamado neoliberalismo escancarou: a defesa da propriedade privada como direito natural, a naturalização do mercado como regulador da vida social, a redução do ser humano a vendedor de força de trabalho, a ideia de que o Estado deve garantir as condições da acumulação e não interferir nela. A mão invisível de Smith é a mão que embolsa a mais-valia. A lei da vantagem comparativa de Ricardo é a justificativa para a divisão internacional do trabalho que condena países como a Bolívia a exportar lítio barato e importar miséria.


O período que chamam de keynesianismo ou Estado de bem-estar social foi uma exceção histórica, não uma regra. Ocorreu sob condições muito específicas: ameaça revolucionária do campo socialista, classe trabalhadora organizada e combativa no pós-guerra, necessidade de reconstrução da Europa, taxa de lucro ainda robusta. O capital cedeu anéis para não perder os dedos. Regulou a jornada, tolerou sindicatos, aceitou direitos trabalhistas, permitiu políticas sociais. Mas nunca deixou de ser capital. A propriedade privada permaneceu intocada. A extração de mais-valia continuou. O Estado continuou sendo o comitê executivo da burguesia, apenas com um verniz social.


A chamada fase neoliberal não é uma ruptura com o liberalismo. É o liberalismo sem verniz. Quando a taxa de lucro começou a cair, quando a concorrência intercapitalista se acirrou, quando o campo socialista ruiu e o proletariado mundial foi derrotado em suas principais trincheiras, o capital retirou as concessões. O que chamam de neoliberalismo é o capital dizendo abertamente o que sempre foi: um sistema de exploração que não pode tolerar freios duradouros. As privatizações de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, a desregulamentação financeira, o ataque aos sindicatos, a flexibilização trabalhista, a reforma da previdência, o teto de gastos, tudo isso não é uma nova fase. É o velho liberalismo retornando à sua forma pura, sem as mediações que a luta de classes havia imposto.


A ideologia que sustenta essa ofensiva também não é nova. Friedrich Hayek e Milton Friedman não inventaram nada. Apenas repaginaram o liberalismo clássico para um momento em que a burguesia já não precisava negociar. A Escola Austríaca, o monetarismo, o Consenso de Washington são a mesma defesa da propriedade privada, do livre mercado e do Estado mínimo que estava em Smith, só que agora sem a ingenuidade iluminista. O neoliberalismo é o liberalismo maduro, cínico, consciente de que o mercado não gera harmonia, mas que a exploração é o único caminho para a acumulação.


Chamar essa ofensiva de neoliberalismo é dar um nome novo a um fenômeno velho. É aceitar a periodização que a própria burguesia oferece para esconder a continuidade. É permitir que se diga: "o neoliberalismo fracassou, vamos voltar ao keynesianismo". Como se fosse possível voltar. Como se o keynesianismo não tivesse sido uma trégua temporária. Como se a burguesia fosse aceitar novamente os anéis que arrancou de volta. A crise estrutural do capital não permite mais concessões duradouras. A taxa de lucro não se recupera com política fiscal expansiva. A destruição ambiental não se reverte com regulação estatal. O exército de descartados não se absorve com obra pública.


Por isso a luta não pode ser contra o neoliberalismo. A luta tem que ser contra o capitalismo. Porque o neoliberalismo e o keynesianismo, o liberalismo clássico e o social-liberalismo, são todos formas de gestão da mesma exploração. São todos variações da mesma dominação de classe. A social-democracia europeia, o reformismo latino-americano, o desenvolvimentismo brasileiro, todos administraram (e administram) capitalismo com rosto humano. Todos fizeram (fazem) concessões enquanto a pressão popular obrigava e a margem de lucro permitia. Todos se revelaram incapazes de romper com a propriedade privada. E todos, quando a crise chegou, aplicaram o mesmo ajuste que a direita aplica, só que com discurso mais suave.


A prova está na prática. O governo Lula no Brasil, o governo Evo na Bolívia, o governo Kirchner na Argentina, todos mantiveram a propriedade privada, todos pagaram a dívida, todos garantiram o lucro dos bancos, todos reprimiram greves quando necessário. E quando a crise apertou, todos cederam ao programa que chamam de neoliberal. Porque não há alternativa dentro do sistema. Ou se administra a escassez para o capital, ou se rompe com o capital. O meio-termo é ilusão.


Não existe neoliberalismo. Existe capitalismo. E o capitalismo é liberal por natureza. Sua essência é a liberdade do capital para explorar o trabalho. Essa liberdade assume formas diferentes conforme a correlação de forças, mas a substância é a mesma. O liberalismo é a ideologia que transforma exploração em contrato, desigualdade em mérito, propriedade privada em direito sagrado. O neoliberalismo é apenas o liberalismo despido de suas ilusões juvenis. É o capital que já não precisa fingir que o mercado gera bem-estar. Sabe que gera desigualdade e destruição, e ainda assim o impõe, porque é a única forma de manter a acumulação.


A consequência política é clara. Se o inimigo é o neoliberalismo, a solução é voltar ao keynesianismo, ao reformismo, ao desenvolvimentismo. Se o inimigo é o capitalismo, a solução é a revolução. É a abolição da propriedade privada dos meios de produção. É o fim do trabalho assalariado. É a socialização da terra, das fábricas, da tecnologia. Não se trata de regular o mercado. Trata-se de suprimi-lo. Não se trata de humanizar o capital. Trata-se de enterrá-lo.


A burguesia não distingue entre liberalismo e neoliberalismo. Para ela, é tudo o mesmo: a defesa da propriedade privada. Quem distingue é a esquerda reformista, para justificar sua própria existência como gestora do capital com sensibilidade social. Mas o proletariado não pode cair nessa armadilha. O chicote que bate de terno é o mesmo que bate de uniforme. A mão que afaga com política social é a mesma que assina o estado de exceção.


Não há capitalismo bom. Não há liberalismo humano. Há exploração, e há a luta contra ela. É tudo liberalismo, e é tudo capitalismo. A única divisão real é entre os que defendem a propriedade privada e os que querem aboli-la. Entre os que administram a exploração e os que querem suprimi-la. Entre os que aceitam a lógica do lucro e os que exigem a lógica humana. O nome não importa. A substância, sim. E a substância é uma só: o capital, com suas máscaras, sua mais-valia, sua destruição, sua barbárie. A resposta também é uma só: revolução.

Parasitas e suas Guerras

E na contradição do capital reside o maior potencial de conscientização do proletariado, e a guerra é a urgência derradeira de quem de forma parasitária garante sua vida de privilégios.
O capital, na sua essência, é uma relação social baseada na exploração. Para se reproduzir, ele precisa de expansão constante, novos mercados, novos recursos, nova força de trabalho para explorar. Quando essa expansão encontra barreiras, sejam elas geográficas, políticas ou a própria resistência da classe trabalhadora, o sistema entra em crise.
A guerra é a tentativa de romper essas barreiras pela força bruta. É a "urgência derradeira" porque, para o capitalista individual e para o sistema como um todo, a alternativa à expansão violenta é a estagnação e o colapso. É a demonstração de que o capitalismo, quando não pode mais comprar ou negociar, apela para a destruição como forma de abrir caminho para novos ciclos de acumulação. Mas na guerra capitalista a máscara cai. O trabalhador descobre que sua vida vale apenas o preço do uniforme que veste e da bala que o mata. Ele vê os "donos do dinheiro" não só isentos do sacrifício, mas lucrando bilhões com a destruição. A contradição entre a retórica patriótica ("lutar pela nação") e a realidade material ("morrer para o acionista da indústria bélica ficar mais rico") torna-se insustentável.
O famélico, o proletário, percebe que ele é o recurso mais abundante e mais descartável na equação da guerra. Os mísseis são caros e precisam ser contabilizados; a vida do trabalhador é barata e há sempre mais de onde veio. Essa percepção é um catalisador revolucionário.
O capitalista, na guerra, assume sua forma mais pura, ele não produz, ele não está no front. Ele não fabrica o aço com as próprias mãos. Ele especula, investe, vende e lucra. Ele vive da morte, o sangue do trabalhador-soldado e da população civil é o lubrificante que faz girar as engrenagens de seus lucros. Um míssil Tomahawk, que custa milhões, ao ser disparado, é um lucro realizado para a Raytheon. Um hospital destruído é uma dívida paga para a construtora que o reconstruirá depois.
O capital não tem pátria. Enquanto os trabalhadores de dois países se matam em trincheiras opostas, os acionistas das indústrias bélicas dos dois lados, muitas vezes os mesmos fundos de investimento globais, celebram o aumento do PIB da guerra em seus iates em águas internacionais. Dessa contradição se alimenta a tomada de consciência do sujeito histórico da sociabilidade humana.