Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sábado, 6 de junho de 2026

O Capataz: Função, Consciência e lugar na Extensão de Mais-Valia

O Capataz: Função, Consciência e Lugar na Extração de Mais-Valia


Ele não é proletário. Ele não é burguês. Ele é o capataz. Sua função no processo de produção capitalista não é produzir valor, mas sugar valor de quem produz. Ele não opera a máquina; ele vigia quem opera. Ele não carrega o peso; ele cronometra quem carrega. Sua existência se justifica por uma única razão: intensificar a extração de mais-valia. E ele sabe disso. Tem consciência do seu papel. Não é um alienado, uma vítima do sistema, um coitado que foi corrompido sem perceber. Ele percebe. Ele escolhe. Ele defende o sistema porque o sistema o beneficia. E é por isso que ele não é camarada. É inimigo.


Para entender o capataz, é preciso partir da base material. O capital só se valoriza extraindo mais-valia do trabalho vivo. O trabalhador vende sua força de trabalho; o capitalista a consome. A parte da jornada em que o trabalhador reproduz o valor do seu salário é trabalho necessário. A parte que excede, que vai para o bolso do capitalista, é trabalho excedente, mais-valia. O capital, para aumentar sua massa de lucro, pode alongar a jornada (mais-valia absoluta) ou, quando a jornada encontra limites legais e físicos, pode intensificar o trabalho dentro da mesma jornada (mais-valia relativa). Em ambos os casos, é preciso alguém que vigie, que controle, que imponha o ritmo, que quebre a resistência, que demita os que não acompanham. Essa pessoa é o capataz.


O burguês não está no chão de fábrica. Ele não tem tempo, não tem interesse, muitas vezes não tem estômago. O burguês delega a sujeira. Contrata um trabalhador, dá a ele um pouco mais de salário, um título, uma autoridade minúscula, e o incumbe de fazer o trabalho sujo: arrancar mais produção de seus iguais. O capataz é um trabalhador que mudou de função. Deixou de produzir valor e passou a extrair valor. Sua posição na hierarquia da produção mudou, e com ela mudou sua posição de classe. Ele agora é um pequeno-burguês. Não possui meios de produção, mas possui autoridade sobre os produtores. Vive de uma fração da mais-valia global que a burguesia cede a ele como pagamento por seu serviço de opressão.


Essa posição é estrutural. O capital precisa do capataz para funcionar. Sem ele, a resistência operária seria muito mais difícil de quebrar. A greve seria mais fácil. A sabotagem seria mais frequente. O ritmo seria mais lento. O capataz é a correia de transmissão entre o capital e o trabalho, o elemento que traduz a exploração abstrata em opressão concreta, cotidiana, pessoal. Ele é o olhar que vigia, a voz que grita, a caneta que assina a advertência, o dedo que aponta o despedido. Sua função não é um acidente; é uma necessidade do sistema. Sem capatazes, o capitalismo não opera.


Mas o capataz não é apenas uma engrenagem. Ele é um ser humano com consciência. E aqui está o ponto decisivo que o torna desprezível. Ele não é um alienado que não sabe o que faz. Ele sabe. Ele vê o colega que ontem estava ao seu lado e hoje está sob seu comando. Ele vê a miséria que sua pressão gera. Ele vê o cansaço, a humilhação, o desespero. Ele sabe que está do lado de quem explora. Ele sabe que sua função é sugar. E ele aceita. Ele gosta. Ele se realiza nisso. Sua consciência não é a consciência de classe do proletário, que aprende na luta que é explorado e precisa se unir para se libertar. Sua consciência é a consciência do pequeno-burguês: ele quer subir, quer ser patrão, quer ser rico. Ele se identifica com o burguês, não com o proletário. Ele aspira ao mundo dos que mandam, não ao mundo dos que fazem. Por isso, ele é um defensor ativo do sistema. Ele não quer o fim do capitalismo; ele quer um lugar melhor dentro dele.


Essa consciência não é falsa no sentido de ignorância; é falsa no sentido de ilusão. Ele acredita que pode se tornar burguês. Acredita no mérito. Acredita que seu crachá de "líder" ou "supervisor" é o primeiro passo para a riqueza. O capital alimenta essa ilusão com prêmios, com promoções, com a ideologia do "colaborador". Mas a realidade é que ele nunca será burguês. Ele é um proletário que traiu sua classe em troca de migalhas. Sua posição é precária. Na primeira crise, ele é descartado como qualquer outro. Mas, enquanto dura a ilusão, ele a defende com unhas e dentes. Ele é o mais feroz defensor da propriedade privada, o mais raivoso inimigo do comunismo, o mais estridente porta-voz do discurso do mérito. Ele precisa acreditar nisso. Se não acreditasse, teria que admitir que é um traidor e um tolo.


Por isso, o capataz é um inimigo de classe. Não um inimigo acidental, mas um inimigo necessário, produzido pelo sistema e consciente de seu papel. Ele não quer se redimir. Ele não quer ser "salvo" pela revolução. Ele quer que a revolução seja esmagada. Ele quer que as coisas continuem como estão, com ele em cima e os outros embaixo. Ele é o primeiro a furar a greve. O primeiro a dedurar o colega. O primeiro a chamar a polícia. O primeiro a votar em fascista. Sua lealdade ao capital é total, porque seu ser social inteiro depende do capital.


A luta de classes, portanto, inclui necessariamente o enfrentamento ao capataz. Não se trata de convencê-lo. Não se trata de dialogar com ele. Não se trata de esperar sua redenção. Trata-se de derrotá-lo. De neutralizá-lo. De arrancá-lo de sua posição de poder. Nas greves, nas ocupações, nas insurreições, o capataz é um dos primeiros alvos. Não por vingança pessoal, mas por necessidade estratégica. Enquanto ele estiver no comando, a exploração seguirá. Sua autoridade precisa ser destruída para que a solidariedade operária floresça. A fábrica ocupada expulsa o capataz. A assembleia operária ignora o capataz. O poder dos conselhos dissolve a função do capataz. Ele só pode ser varrido do processo produtivo, e sua função só pode ser abolida com a abolição do trabalho assalariado.


A existência do capataz revela a natureza do capitalismo. Um sistema que precisa produzir traidores para funcionar está condenado. Um sistema que compra a consciência de alguns para oprimir a maioria é um sistema podre. O capataz é a prova viva da putrefação moral do capital. Mas ele também é um aviso. Ele mostra o que acontece quando um explorado aceita as migalhas do explorador. Ele mostra que a consciência de classe não é automática; ela precisa ser construída na luta, contra as ilusões que o capital oferece. Cada capataz que se mantém fiel ao patrão é uma derrota temporária. Cada capataz que é expulso, cada função de chefia que é abolida e substituída pela decisão coletiva, é uma vitória.


O fim do capitalismo será também o fim do capataz. Não haverá lugar para ele na sociedade comunista. Sua função desaparecerá. Sua consciência pequeno-burguesa será varrida pela nova sociabilidade. Ele terá que se tornar um produtor como os outros, ou perecer. E a classe, que não o reconhece como camarada, não derramará lágrimas por ele. O futuro não pertence aos que vigiam, aos que oprimem, aos que traem. Pertence aos que produzem, aos que lutam, aos que constroem a solidariedade. O capataz escolheu seu lado. A história o julgará. E o julgará como inimigo.


sexta-feira, 5 de junho de 2026

Identitarismo: A Fragmentação que Serve ao Capital

Identitarismo: A Fragmentação que Serve ao Capital


O capitalismo tem uma necessidade vital: dividir para reinar. A classe proletária, se unificada, é a força capaz de enterrar o sistema. Por isso, desde o primeiro dia da acumulação primitiva, o capital fabrica divisões. Umas são materiais: a concorrência entre os próprios proletários pelo emprego, a hierarquia salarial, a terceirização que separa quem está dentro de quem está fora. Outras são ideológicas: o nacionalismo que faz o explorado odiar o estrangeiro em vez do patrão, o racismo que justifica a superexploração de corpos negros, o machismo que naturaliza o trabalho não pago das mulheres. O identitarismo é a forma contemporânea mais sofisticada dessa velha estratégia. Ele não nega as opressões; ele as reconhece, as nomeia, as celebra, as transforma em mercadoria, em carreira, em nicho de mercado, em prisão identitária que impede a unidade de classe.


A raiz de todas as opressões é a exploração do homem pelo homem. A propriedade privada dos meios de produção gerou a divisão da sociedade em classes. A classe proprietária, para manter sua dominação, precisou criar hierarquias dentro da classe explorada. O racismo não é um preconceito antigo que o capitalismo herdou; é uma construção moderna, forjada na colonização e na escravidão, para justificar a transformação de seres humanos em mercadoria. O machismo não é um resquício feudal; é a forma como o capital organiza a reprodução da força de trabalho, confinando a mulher ao trabalho doméstico não remunerado. A homofobia, a transfobia, a xenofobia, todas são ferramentas de fragmentação. Servem para que o proletário branco se sinta superior ao proletário negro, para que o proletário homem se sinta superior à proletária mulher, para que o proletário nativo se sinta superior ao proletário imigrante. Enquanto a classe se divide, o capital se unifica.


O identitarismo opera uma inversão perversa dessa realidade. Ele parte de uma verdade (as opressões existem, são concretas, doem no corpo) e a transforma em essência. Em vez de dizer "a sociedade capitalista oprime negros, mulheres, LGBTs", ele diz "a essência do negro, da mulher, do LGBT é a opressão". A opressão deixa de ser um fato social a ser combatido e se torna uma identidade a ser afirmada. A luta deixa de ser contra o sistema que produz a opressão e passa a ser pelo reconhecimento dentro do sistema. Não se trata mais de destruir as prisões; trata-se de exigir que as prisões tenham alas para todas as identidades. Não se trata mais de abolir o trabalho assalariado; trata-se de exigir que as mulheres tenham os mesmos salários que os homens no mesmo trabalho explorado. Não se trata mais de acabar com a propriedade privada; trata-se de exigir que negros também possam ser proprietários.


O capital adora essa inversão. Ela é inofensiva para a estrutura. Pior: ela é útil. O identitarismo transforma a revolta em consumo. A indústria cultural captura as pautas identitárias e as vende de volta como mercadoria: a camiseta da causa, o filme com protagonista diverso, a propaganda com casal gay, o mês do orgulho patrocinado por bancos. A diversidade vira marketing. A inclusão vira nicho de mercado. O capital, que sempre foi indiferente à cor, ao gênero, à orientação sexual (desde que o lucro esteja garantido), agora descobre que a diversidade pode ser lucrativa. Contrata-se um executivo negro, promove-se uma mulher a gerente, coloca-se uma bandeira arco-íris no logotipo, e tudo continua exatamente como antes. Os acionistas seguem embolsando a mais-valia. Os proletários seguem sendo explorados. Mas agora com representatividade.


O identitarismo também serve para desarmar a luta de classes. Ele fragmenta a resistência em pautas cada vez mais específicas, cada vez mais isoladas umas das outras. O movimento negro luta contra o racismo. O movimento feminista luta contra o machismo. O movimento LGBT luta contra a homofobia. Cada um no seu canto, cada um com sua pauta, cada um com sua identidade. O que deveria ser uma luta unificada contra o sistema que produz todas essas opressões se transforma em uma competição por reconhecimento, por recursos, por visibilidade. Quem é mais oprimido? Quem tem mais direito à fala? Quem ocupa o centro do debate? O capital assiste de camarote. Enquanto os oprimidos discutem entre si quem sofre mais, a classe proprietária segue acumulando.


A esquerda reformista abraçou o identitarismo como tábua de salvação. Incapaz de enfrentar o capital, abandonou a luta de classes e se refugiou na luta por reconhecimento. Em vez de organizar os proletários na fábrica, organiza debates sobre privilégio. Em vez de construir greves, constrói listas de exigências para as empresas. Em vez de questionar a propriedade privada, questiona o vocabulário. O resultado é uma esquerda que fala para si mesma, que domina o jargão acadêmico, que disputa espaços nas universidades e nas redações, mas que perdeu completamente o contato com a classe que deveria representar. O proletário comum (aquele que pega ônibus lotado, que trabalha seis dias por um salário mínimo, que não tem plano de saúde) não se reconhece nessa esquerda. E essa esquerda também não o reconhece. Ele é acusado de machista, de racista, de homofóbico, de ignorante. A desconexão é total.


A extrema direita, por sua vez, agradece. Ela se alimenta do identitarismo. Cada exagero, cada cancelamento, cada acusação descabida vira munição para a direita. Ela se apresenta como a defensora do "cidadão de bem" contra a "ditadura do politicamente correto". Capitaliza o ressentimento dos que se sentem excluídos pelo discurso identitário. E, enquanto a esquerda discute pronomes, a direita organiza milícias, ocupa o Congresso, elege presidentes, aplica o programa do capital sem maquiagem. O identitarismo, que se apresenta como progressista, é objetivamente um aliado da reação. Ele divide o campo popular, desmoraliza a esquerda, oferece à direita o inimigo perfeito.


A solução não é negar as opressões. Elas são reais. O proletário negro é duplamente explorado: como proletário e como negro. A proletária mulher é duplamente explorada: como proletária e como mulher. O proletário LGBT é duplamente oprimido: como proletário e como LGBT. Mas a superação dessas opressões não virá da afirmação da identidade, e sim da abolição da classe. Enquanto existir propriedade privada, existirá exploração. Enquanto existir exploração, o capital produzirá opressões para manter a classe dividida. A luta contra o racismo, contra o machismo, contra a homofobia não pode ser separada da luta contra o capital. Pelo contrário: ela só será vitoriosa quando for parte da luta contra o capital.


Isso significa que o horizonte não é a representatividade, é a revolução. Não se trata de ter mais negros no parlamento burguês, mais mulheres em cargos de chefia, mais LGBTs na propaganda. Trata-se de abolir o parlamento burguês, abolir os cargos de chefia, abolir a propaganda. Trata-se de construir uma sociedade onde a cor da pele, o gênero, a orientação sexual não determinem o acesso à riqueza, porque a riqueza será de todos. O comunismo não é o paraíso das identidades; é o fim da necessidade da identidade como marcador social. Quando a exploração for abolida, as opressões que dela derivam perderão sua base material. O racismo não desaparecerá por decreto, mas sem a necessidade de superexplorar corpos negros, sem a competição por empregos, sem o exército de reserva racializado, ele definhará. O machismo não desaparecerá por decreto, mas sem a família monogâmica como unidade econômica, sem o trabalho doméstico não remunerado como pilar da acumulação, ele perderá sua função.


A luta identitária, nos marcos do capital, é uma luta perdida. O capital é perfeitamente capaz de absorver demandas identitárias sem tocar na estrutura de exploração. Ele concede o casamento gay e mantém a homofobia. Ele promove um feriado da consciência negra e mantém o genocídio. Ele coloca uma mulher na presidência e mantém a superexploração das mulheres. O capital não tem problema com a diversidade. O capital tem problema com o fim da propriedade privada. O identitarismo é a luta que o capital permite, porque é a luta que não o ameaça.


A tarefa do proletariado é recusar essa armadilha. É afirmar que a luta é uma só, porque a causa é uma só: a exploração do homem pelo homem e da natureza. O proletário negro, a proletária mulher, o proletário LGBT são, antes de tudo, proletários. Sua libertação específica depende da libertação de toda a classe. Não haverá fim do racismo sem o fim do capitalismo. Não haverá fim do machismo sem o fim do capitalismo. Não haverá fim da homofobia sem o fim do capitalismo. A unidade da classe é a condição da vitória. E a unidade da classe exige que as pautas identitárias sejam integradas à pauta geral da revolução, não separadas dela.


O identitarismo é a ideologia da fragmentação. O capital é o beneficiário da fragmentação. A revolução é a reunificação. Reunificar o que o capital separou: o proletário branco e o proletário negro, o homem e a mulher, o nativo e o imigrante, o campo e a cidade, a fábrica e a favela. Todos são explorados. Todos são descartáveis. Todos são produtos da mesma engrenagem. A luta é uma só. O inimigo é um só. A vitória será de todos ou não será de ninguém. Não se trata de afirmar identidades. Trata-se de abolir as condições que tornam a identidade uma prisão. Trata-se de construir uma sociedade onde a única identidade que importa é a de ser humano, livre, associado, produtor e desfrutador da riqueza coletiva. O resto é distração. E o capital agradece a distração.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Marx e Fanon Diante da Mesma Exploração

Lumpemproletariado: Marx e Fanon Diante da Mesma Exploração


A discussão sobre o lumpemproletariado costuma ser apresentada como uma divergência entre dois autores, dois contextos, duas visões de mundo. De um lado, Marx, em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, descreve o lumpemproletariado como escória, refugo, massa de manobra da reação. Do outro, Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra, enxerga nessa mesma figura uma centelha revolucionária, a força mais radical da luta anticolonial. Aparentemente, estão em lados opostos. Mas essa aparência se desfaz quando se compreende que ambos estão falando da mesma coisa: a exploração do homem pelo próprio homem e, por meio dela, a exploração da natureza. O lumpemproletariado não é um fenômeno à parte. Ele é uma das expressões diretas da mesma causa que gera o proletariado, o campesinato expropriado, a miséria urbana e a devastação ambiental. A raiz é uma só. As ramificações são múltiplas.


O ponto de partida é a exploração. A humanidade se constituiu pelo trabalho, pela transformação da natureza para satisfazer necessidades. Durante a maior parte da história, essa relação foi de cooperação e respeito aos ciclos naturais. A terra era comum, os frutos eram partilhados, a produção visava ao valor de uso. O capitalismo rompeu essa unidade. Instaurou a propriedade privada dos meios de produção, separou o produtor da terra, transformou a força de trabalho em mercadoria. A partir desse momento, a relação entre os seres humanos e a natureza passou a ser mediada pelo lucro. Não se produz mais para viver; produz-se para acumular. A exploração do homem pelo homem (a extração de mais-valia) tornou-se o motor da sociedade. A exploração da natureza (a transformação de tudo em matéria-prima e depósito de rejeitos) tornou-se sua consequência inevitável.


É dessa dupla exploração que nascem todas as figuras sociais do capitalismo. O proletário é o produtor direto, aquele que transforma a natureza com seu trabalho e gera mais-valia. O burguês é o parasita que se apropria dessa mais-valia. O capitalista agrário esgota o solo, o capitalista industrial polui o ar, o capitalista financeiro especula com a dívida pública. E o lumpemproletariado? Ele é o produto negativo, o resíduo, a sobra. É o que sobra quando a exploração já não consegue absorver todos os corpos que expulsou da terra, que arruinou no artesanato, que descartou da fábrica. Ele não está fora da exploração; é gerado por ela. É a prova viva de que a exploração do homem pelo homem produz, necessariamente, uma massa de excluídos que o sistema não sabe para que serve.


Marx, no 18 de Brumário, analisa o lumpemproletariado parisiense de 1851. Ele o descreve como "refugo de todas as classes": vagabundos, prostitutas, mendigos, ladrões, soldados desmobilizados, presidiários libertos. Essa massa heterogênea foi recrutada por Luís Bonaparte para servir de base social ao seu golpe. Formou a Sociedade 10 de Dezembro, uma milícia que aterrorizava operários e garantia a ascensão do aventureiro. Por que essa massa se prestou a esse papel? Porque sua condição material a tornava disponível para a compra. Arrancada de qualquer vínculo comunitário, desenraizada da terra e da produção, atomizada, ela sobrevivia de expedientes. Não tinha consciência de classe porque não compartilhava a experiência coletiva da fábrica, da greve, da organização. Sua miséria era tão profunda quanto sua fragmentação. Bonaparte ofereceu dinheiro, emprego, impunidade, um lugar no cortejo. O lumpemproletariado aceitou.


Mas por que essa massa existia? Por que Paris estava cheia de vagabundos, prostitutas e mendigos? A resposta está na exploração. A acumulação primitiva havia expulsado os camponeses de suas terras, arruinado os artesãos, enchido as cidades de despossuídos. A indústria nascente não absorvia todos. O exército industrial de reserva inchava. A exploração do campo gerava a miséria urbana. A exploração da natureza (a privatização das terras comunais, a transformação das florestas em propriedade, a drenagem dos bens comuns) produzia esse refugo humano. O lumpemproletariado não era um acidente. Era o efeito colateral necessário da acumulação capitalista. Bonaparte apenas o instrumentalizou.


Fanon escreve Os Condenados da Terra um século depois, no auge da guerra de independência da Argélia. O colonialismo é a forma mais brutal da exploração. Ele não apenas extrai mais-valia; ele divide a humanidade em duas espécies, o colono e o colonizado. Para impor essa divisão, o colonialismo precisa destruir as sociedades nativas. Toma a terra, suga os recursos naturais, desorganiza a produção local, arruina o artesanato, impõe o trabalho forçado. A natureza é pilhada: florestas derrubadas, solos exauridos, rios desviados, minérios exportados. O colonizado é expulso de sua relação ancestral com a terra. É confinado em reservas, em favelas, em bidonvilles.


Dessa violência nasce o lumpemproletariado colonial. Ele é o camponês sem terra, o artesão sem ofício, o jovem sem futuro, o migrante que troca o campo pela cidade e não encontra nada além de miséria. Fanon olha para essa massa e vê ali uma potência revolucionária. Por quê? Porque ela não tem nada a perder. Não tem salário a defender, não tem patrão a quem pedir, não tem propriedade a preservar. A cidade colonial não lhe oferece nada além de opressão. Sua raiva é total. Quando essa raiva encontra direção política, quando se articula com a luta de libertação, o lumpemproletariado pode se tornar "a força mais radical", aquela que não recua, que não negocia, que vai até o fim.


A divergência entre Marx e Fanon é, portanto, uma divergência de contexto, não de essência. Ambos compreendem que o lumpemproletariado é produto da exploração. Ambos sabem que ele não é sujeito autônomo; é uma força que pode ser arrastada para um lado ou para o outro. O que decide seu destino é a direção política que se impõe sobre ele. Na França de 1851, a burguesia já era a classe dominante, o proletariado fabril já existia como força organizada, e o lumpemproletariado foi recrutado pela reação. Na Argélia de 1961, a burguesia colonial era estrangeira, o proletariado urbano era numericamente fraco, e a luta anticolonial era liderada por uma frente de libertação que soube canalizar a revolta dos descartados para a revolução. A causa é a mesma: a exploração. As funções políticas são diferentes porque as condições históricas são diferentes.


A raiz comum é a exploração do homem pelo homem e da natureza. Essa raiz precisa ser enfatizada, porque é ela que unifica todas as figuras da opressão. O proletário que vende sua força de trabalho, o camponês expulso de sua terra, o indígena confinado em reserva, o negro criminalizado pela cor da pele, a mulher explorada no trabalho doméstico não remunerado, o jovem descartado pelo desemprego estrutural, a floresta derrubada para pasto do gado, o rio envenenado pelo minério, o ar intoxicado pela fumaça das fábricas, tudo isso é a mesma coisa. É o capital transformando vida em lucro. É a exploração que não distingue entre o corpo do trabalhador e o corpo da terra. Ambos são matéria-prima. Ambos são descartáveis.


O lumpemproletariado é a expressão mais visível dessa lógica. Ele é o descartado entre os descartados, a sobra entre as sobras. Mas ele não está sozinho. Ele é parte de uma cadeia de exploração que começa na privatização da natureza e termina no corpo do miserável que dorme sob a marquise. Entre um extremo e outro, há o operário que produz o carro e não pode comprá-lo, a empregada doméstica que cria o filho do patrão e deixa o seu na creche precária, o camponês que planta o alimento e passa fome, o mineiro que arranca o minério e morre intoxicado. Todos são produtos da mesma engrenagem.


Por isso a luta não pode ser fragmentada. Não se trata de escolher entre o proletariado e o lumpemproletariado, entre a fábrica e a favela, entre o sindicato e o movimento de sem-teto. Trata-se de unificar todas as lutas contra a mesma causa. A causa é a propriedade privada dos meios de produção, que permite a exploração do homem pelo homem. A causa é a forma valor, que transforma tudo em mercadoria. A causa é o capital, que não reconhece limites na natureza nem na humanidade.


A atualidade dessa discussão é brutal. O capitalismo do século XXI está produzindo uma massa crescente de descartados. O exército industrial de reserva está se tornando permanente, estrutural. Milhões de jovens não encontram trabalho, não estudam, não têm perspectiva. As favelas incham. As periferias explodem. Os desastres climáticos se multiplicam. A exploração da natureza chegou a um ponto em que o planeta dá sinais de esgotamento. Secas, inundações, pandemias, incêndios florestais. A exploração do homem pelo homem produziu a crise. A exploração da natureza produziu a catástrofe.


Nesse cenário, o lumpemproletariado contemporâneo está disponível. Pode ser cooptado pelo neofascismo, como foi na França de Bonaparte. As milícias, o crime organizado, as igrejas fundamentalistas, os líderes populistas de direita disputam essa massa. Oferecem identidade, pertencimento, dinheiro rápido, a ilusão de poder. A extrema direita cavalga a revolta dos descartados contra o sistema, mas a direciona contra bodes expiatórios: imigrantes, negros, homossexuais, comunistas. É o mesmo mecanismo descrito por Marx. Mas essa mesma massa também pode ser arrastada para a revolução, como Fanon mostrou. As favelas podem se tornar territórios de resistência. Os jovens marginalizados podem se tornar militantes. A revolta contra a polícia pode se transformar em revolta contra o Estado. O ódio ao sistema pode deixar de ser autodestrutivo e se tornar força revolucionária.


A escolha depende da direção política. Se a esquerda abandonar os descartados, a direita os recolherá. Se a esquerda oferecer apenas eleições, reformas e discursos, a direita oferecerá armas, dinheiro e vingança. A disputa pelo lumpemproletariado é a disputa pelo futuro da crise. O capital já não tem nada a oferecer além de barbárie. A exploração do homem pelo homem e da natureza já mostrou seu resultado final: um planeta devastado e uma humanidade cindida entre uma minúscula casta de bilionários e uma imensa massa de explorados, precarizados e descartados.


A única saída é a ruptura. É a abolição da propriedade privada dos meios de produção. É a socialização da terra, das fábricas, da tecnologia. É a produção voltada à satisfação das necessidades humanas e ao respeito aos ciclos naturais. É o fim da exploração do homem pelo homem e da natureza. Essa é a causa comum. O proletário, o camponês, o indígena, o negro, a mulher, o jovem descartado, o lumpemproletariado, todos são expressões da mesma exploração. A luta é uma só. A vitória será de todos ou não será de ninguém. Marx e Fanon, cada um a seu modo, apontaram para a mesma direção: a necessidade de destruir o sistema que produz explorados e descartados, e de construir uma sociedade onde a relação entre os seres humanos e a natureza deixe de ser mediada pelo lucro e passe a ser mediada pela necessidade e pelo cuidado. É isso ou a barbárie. Não há terceira via.

terça-feira, 2 de junho de 2026

O Estado e a apolítica Vão Desaparecer

O Estado e a Política Vão Desaparecer: A Extinção Histórica da Dominação


O Estado e a política não existiram desde sempre. Eles nasceram em um determinado momento da história humana. E, pela mesma lógica histórica que os fez nascer, eles vão desaparecer. Essa não é uma profecia, um desejo ou uma utopia. É uma conclusão científica extraída da análise do movimento real da sociedade. Para entender por que o Estado surgiu e por que será extinto, é preciso olhar para a raiz da sociabilidade humana: o trabalho.


A humanidade se fez humanidade pelo trabalho. Transformar a natureza para satisfazer necessidades é o ato fundante da espécie. Durante a maior parte da nossa história, vivemos em comunidades que não conheciam Estado, polícia, burocracia, parlamento, exército permanente. Eram sociedades baseadas na propriedade coletiva da terra, na cooperação simples, na divisão do trabalho por sexo e idade, na autoridade fundada no saber dos anciãos e não na violência organizada. As decisões eram tomadas em assembleias, os conflitos resolvidos pela comunidade, a terra pertencia a todos. A política, como esfera separada da vida social, simplesmente não existia. O que existia era a gestão coletiva dos assuntos comuns.


O Estado nasceu quando a sociedade se dividiu em classes. A propriedade privada dos meios de produção (a terra, as ferramentas, os rebanhos) rompeu a igualdade primitiva. Uns passaram a possuir os meios de produzir; outros, despossuídos, passaram a depender dos proprietários para sobreviver. Essa divisão gerou um conflito permanente entre exploradores e explorados. Para que esse conflito não destruísse a sociedade, foi necessária uma força que aparentasse estar acima das classes, que impusesse uma ordem, que garantisse a propriedade privada e contivesse os despossuídos. Essa força é o Estado.


Portanto, o Estado não é um árbitro neutro. Não é a realização da razão universal. Não é o representante do interesse geral. O Estado é a violência concentrada e organizada da classe proprietária. Ele existe para garantir que a propriedade privada permaneça intocada, que a exploração continue legal, que a greve seja criminalizada, que a revolta seja reprimida. Quando a dominação funciona pelo convencimento, o Estado aparece como democracia, direito, cidadania. Quando o convencimento falha, ele mostra a essência: exército na rua, toque de recolher, estado de exceção.


A política, tal como a conhecemos, é filha dessa mesma divisão. Ela nasce como esfera separada da vida social, como atividade de especialistas (políticos, parlamentares, juízes, burocratas) que administram a dominação de classe. O proletário não faz política; ele é objeto da política. Vota a cada quatro anos para escolher qual fração da burguesia vai administrar a exploração. Depois volta para a fábrica, para a mina, para o campo, e continua sendo explorado. A política burguesa é a farsa da participação popular. O parlamento é o lugar onde se debate muito e se decide nada que ameace a propriedade. O judiciário é a mão que assina o despejo, a prisão, a sentença contra o sem-terra e o grevista. O executivo é o gerente do capital.


Mas se o Estado e a política nasceram da divisão da sociedade em classes, a abolição das classes trará necessariamente a extinção do Estado e da política. Essa é a lógica histórica. O mesmo movimento que criou a dominação cria as condições para a sua superação.


O capitalismo, ao desenvolver as forças produtivas, simplificou a divisão de classes. De um lado, uma minúscula classe de proprietários dos meios de produção (a burguesia). Do outro, a imensa maioria despossuída que só tem o próprio corpo para vender (o proletariado). O capital socializou a produção. A fábrica é coletiva, a cadeia produtiva é global, o conhecimento é interdependente. Mas a apropriação continua privada. Essa contradição é o motor da crise. E é também a base material da revolução.


A revolução proletária não é a tomada do Estado para usá-lo a favor dos explorados. O Estado burguês não pode ser reformado, humanizado, democratizado. Ele precisa ser quebrado, destruído, desmontado peça por peça. Não se trata de eleger um proletário para presidente, de pintar o parlamento de vermelho, de trocar os juízes. Trata-se de abolir a máquina estatal inteira e colocar no seu lugar uma forma completamente nova de organização social.


Essa forma nova apareceu pela primeira vez na história em 1871, quando os operários de Paris tomaram o poder e fundaram a Comuna. A Comuna não era um parlamento. Era um corpo de trabalho, executivo e legislativo ao mesmo tempo. Seus membros eram delegados revogáveis a qualquer momento, eleitos por sufrágio universal e pagos com salário de operário. O exército permanente foi abolido e substituído pelo povo armado. A burocracia foi destruída e substituída por funcionários eleitos e revogáveis. A justiça deixou de ser uma casta separada: os juízes também eram eleitos e responsáveis perante o povo. A Comuna não era mais um Estado propriamente dito. Era um não-Estado, um semi-Estado, um Estado que começava a definhar desde o primeiro dia.


A experiência da Comuna durou pouco mais de dois meses. Foi afogada em sangue pela burguesia francesa, que preferiu aliar-se ao exército prussiano a permitir que os operários governassem Paris. Mas a forma política descoberta pela Comuna ficou como modelo. Ela mostrou que é possível organizar a sociedade sem uma máquina de dominação separada do povo. Que os assuntos comuns podem ser geridos por conselhos, assembleias, comitês de base. Que a política pode deixar de ser uma profissão e tornar-se uma atividade rotativa de todos.


Isso não acontece de uma só vez. Entre o capitalismo e o comunismo há um período de transformação revolucionária. Nesse período, o proletariado organizado como classe dominante usa seu poder para arrancar a propriedade das mãos da burguesia, socializar os meios de produção, suprimir a resistência dos exploradores. É o que se chama ditadura do proletariado. A palavra ditadura assusta, mas significa simplesmente que a maioria explorada impõe sua vontade à minoria exploradora. É a democracia mais ampla para os produtores e a restrição de direitos para os expropriadores.


Nesse período, ainda existe um Estado. Mas é um Estado que começa a definhar. Por quê? Porque, ao expropriar a burguesia, o proletariado suprime a base material da divisão de classes. Sem classes, não há o que oprimir. Sem opressão, o Estado perde sua razão de ser. A máquina de dominação vai se tornando supérflua. O governo sobre pessoas é substituído pela administração das coisas. A política como esfera separada desaparece. As decisões sobre a produção, a distribuição, a vida coletiva são tomadas diretamente pelos produtores associados, em conselhos, em assembleias, em comitês. As funções públicas tornam-se rotativas. Todos governam. Ninguém é governado.


O comunismo não é a estatização total da vida. É a extinção total do Estado. É a reapropriação pela sociedade das funções que havia delegado a uma máquina separada. A segurança deixa de ser monopólio da polícia e torna-se responsabilidade da comunidade. A justiça deixa de ser monopólio dos tribunais e torna-se prática coletiva de resolução de conflitos. A produção deixa de ser comandada pelo mercado ou pelo plano estatal e torna-se decisão consciente dos produtores. O conhecimento deixa de ser propriedade privada e torna-se patrimônio comum da humanidade.


Isso é possível? As condições materiais já existem. A produtividade do trabalho é tamanha que uma fração mínima da jornada social total basta para garantir vida digna a todos. A tecnologia permite automatizar o trabalho penoso, reduzir a jornada, liberar tempo para a participação coletiva. A informação circula em escala planetária. A interdependência dos produtores é um fato. O que impede a realização dessa possibilidade é a forma social que subordina a produção ao lucro. É a propriedade privada. É o Estado que a protege. É a política que a naturaliza.


O Estado não será extinto por decreto. Será extinto pelo próprio movimento da luta de classes. Cada greve que paralisa a produção, cada bloqueio que fecha a estrada, cada ocupação que toma a terra, cada conselho operário que organiza a resistência é um embrião do poder que substituirá o Estado burguês. São formas de organização que não pedem licença ao parlamento, que não esperam a sentença do juiz, que não confiam na proteção da polícia. São formas de poder direto, que brotam da necessidade e apontam para o futuro.


A política burguesa morrerá quando os produtores descobrirem que não precisam de intermediários para governar. Quando compreenderem que o voto é uma delegação que aliena, uma procuração em branco que os políticos preenchem com os interesses do capital. Quando experimentarem, na fábrica ocupada, no bairro organizado, na assembleia de greve, o sabor da decisão coletiva direta. A política como esfera separada definhará quando a participação se tornar cotidiana, quando os assuntos comuns forem tratados por todos, quando a distinção entre quem decide e quem executa for abolida.


A história é um processo contraditório. A mesma força que criou o Estado e a política (a divisão da sociedade em classes) gera a força que os destruirá (o proletariado organizado). O capital produziu seu próprio coveiro. O Estado burguês, que hoje reprime os mineiros bolivianos, criminaliza os sem-terra brasileiros, protege os especuladores financeiros, está cavando sua própria cova. Porque cada ato de repressão ensina ao proletariado o que é o Estado. Cada eleição fraudada pelo poder econômico ensina o que é a política. Cada direito retirado, cada salário arrochado, cada território privatizado ensina que não há saída dentro da ordem.


A saída é a ruptura. É a destruição da máquina estatal. É a construção do poder dos conselhos. É a socialização dos meios de produção. É a abolição do trabalho assalariado. É a extinção das classes e, com elas, a extinção do Estado e da política. A humanidade caminha para uma forma de sociabilidade em que as decisões serão tomadas por produtores livremente associados, sem patrões, sem burocratas, sem políticos profissionais. A administração das coisas substituirá o governo sobre pessoas. A cooperação substituirá a concorrência. A solidariedade substituirá a exploração.


Não sabemos exatamente como será essa sociedade. Não cabe aos que lutam hoje desenhar a planta baixa do futuro. Mas sabemos o que ela não terá: não terá fome em meio à abundância. Não terá prisões, exércitos, polícias, fronteiras. Não terá parlamentos onde se discute a miséria alheia. Não terá juízes que condenam a pobreza. Não terá governantes que decidem por nós. Não terá Estado. Não terá política. Terá seres humanos livres, associados, decidindo juntos os rumos da vida coletiva. Terá o reino da liberdade, construído sobre a base do reino da necessidade finalmente dominado.


O Estado e a política nasceram na história. Na história morrerão. O parto pode ser doloroso, mas a criança já está se mexendo no ventre da velha sociedade. Os conselhos operários, as assembleias de bairro, as comunidades indígenas que resistem há séculos, as ocupações de terra e de fábrica, as greves que paralisam países inteiros, são as contrações. O novo já nasce nas entranhas do velho. A tarefa do proletariado é acelerar o parto. É arrancar o novo do ventre putrefato do capital. É fazer da história, enfim, escolha consciente e não destino cego.

sábado, 30 de maio de 2026

Para onde vai tudo que o proletariado produz?

A Abundância Represada: Por que Produzimos Tanto e Vivemos Tão Mal


A humanidade nunca produziu tanta riqueza. As fábricas cospem mercadorias em velocidades espantosas. Os campos colhem safras recordes. A tecnologia permite que uma fração mínima do trabalho social total baste para alimentar, vestir, abrigar e cuidar de cada ser humano do planeta. No entanto, a fome persiste. A miséria cresce. A falta de moradia se alastra. A água potável é negada a milhões. Os hospitais não têm remédios. As escolas não têm estrutura. Há alguma coisa profundamente errada nessa equação. E o erro não está na natureza, não está na técnica, não está na capacidade humana de produzir. Está na forma social que determina o que, como e para quem se produz.


A escassez que experimentamos hoje não é um fato natural. É uma construção social. É o modo como o capital organiza a produção para garantir que a abundância potencial jamais se realize como abundância real para a maioria da humanidade. O capital não pode permitir a abundância. Se permitisse, deixaria de ser capital.


Para entender por que, é preciso voltar à célula do sistema: a mercadoria. Toda mercadoria é uma unidade contraditória entre valor de uso (sua utilidade concreta, sua capacidade de satisfazer uma necessidade humana) e valor de troca (trabalho humano abstrato cristalizado, que só se realiza na venda). Sob o capitalismo, o valor de uso não é a finalidade da produção. É apenas o suporte do valor de troca. O capitalista não produz alimentos porque as pessoas têm fome. Produz alimentos porque pode vendê-los. Se não puder vender, não produz. Se o preço de venda não cobrir os custos e garantir lucro, não produz. A necessidade humana só é atendida se for necessidade solvente, ou seja, necessidade com dinheiro no bolso. Quem não tem dinheiro não tem fome para o mercado. É um consumidor que não consome, uma boca que não conta, uma vida que não pesa na balança do lucro.


Essa inversão é a raiz da escassez artificial. O capital precisa que as mercadorias sejam escassas o suficiente para manter os preços acima dos custos. Se houver abundância, os preços caem. Se os preços caem, o lucro diminui. Se o lucro diminui, o capital foge. Por isso o sistema destrói alimentos para sustentar cotações. Queima café, despeja leite, enterra toneladas de grãos. Não é absurdo. É cálculo. É mais lucrativo destruir o excedente do que distribuí-lo, porque a distribuição gratuita derrubaria os preços e comprometeria a valorização futura. A fome de milhões é um efeito colateral aceitável. O capital não tem estômago. Não tem consciência. Tem apenas o impulso cego de se valorizar.


A mesma lógica opera em todas as esferas. Por que há falta de moradias em cidades abarrotadas de prédios vazios? Porque o imóvel não é construído para abrigar pessoas, mas para render aluguel, para especular, para lavar dinheiro. O solo urbano é mercadoria. A moradia é mercadoria. O direito de morar se subordina ao direito de lucrar. Por que há falta de medicamentos em países que abrigam os maiores laboratórios do mundo? Porque o medicamento é mercadoria, protegido por patentes (cercas jurídicas que garantem o monopólio da venda e impedem a produção genérica). A cura é propriedade privada antes de ser direito. O doente é consumidor antes de ser paciente.


A abundância está represada. As comportas são as relações sociais capitalistas. A propriedade privada dos meios de produção, o trabalho assalariado, a produção voltada ao lucro, são essas as travas que impedem que a riqueza real chegue a quem a produz.


Em tempos pré-capitalistas, a escassez era real. A produtividade do trabalho era baixa. A natureza impunha limites duros. Uma colheita ruim significava fome para a comunidade inteira. Nesses tempos, o que se dividia era a miséria. Todos apertavam o cinto. A solidariedade forçada pela escassez gerava formas de sociabilidade comunitária, laços de reciprocidade, mecanismos de partilha do pouco que havia. O capitalismo dissolveu essas formas. Libertou as forças produtivas, elevou a produtividade a patamares inéditos, criou as condições materiais para a abundância. Mas o fez sob a forma da propriedade privada e da exploração. O resultado é que, no lugar da divisão da miséria, o que se divide agora é outra coisa: a exploração do proletariado.


A mais-valia (trabalho não pago, a parte da jornada que o proletário entrega de graça ao burguês) é um bolo. Os capitalistas disputam esse bolo entre si. A concorrência entre eles é feroz. O grande capital engole o pequeno. A transnacional esmaga o patrão local. O rentista suga o industrial. O capital financeiro drena a economia real. Mas o bolo que eles disputam é sempre o mesmo: trabalho alheio cristalizado. A disputa entre burgueses não alivia a exploração do proletariado. Ela a intensifica. Porque, para ganhar do concorrente, cada burguês precisa arrancar mais do seu proletário. Baixar salário, alongar jornada, intensificar ritmo, precarizar vínculo. A guerra de todos contra todos no mercado se traduz em pressão redobrada sobre quem produz.


O proletariado segue excluído da abundância que ele mesmo criou. A miséria que lhe sobra não é falta de produção. É excesso de exploração. É a forma social que impede o acesso ao que já foi produzido. O proletário produz o carro, mas não pode comprá-lo. Constrói o prédio, mas não pode morar nele. Cozinha o restaurante, mas come marmita fria. Cuida do filho do burguês, mas deixa o seu na creche precária. Essa é a esquizofrenia do capital: a separação radical entre quem produz e quem desfruta, entre o trabalho e a riqueza, entre a capacidade técnica e a realidade social.


A tecnologia, que poderia ser o instrumento da libertação humana, torna-se, sob o capital, instrumento de intensificação da exploração. A automação não reduz a jornada; elimina postos de trabalho e aumenta a carga dos que ficam. A inteligência artificial não libera tempo livre; controla o ritmo, vigia o desempenho, descarta quem não atinge as metas. A engenharia genética não cura doenças; patenteia sementes e medicamentos, cobrando royalties de quem precisa comer e de quem precisa viver. O capital transforma cada avanço técnico em nova forma de sucção.


A escassez artificial não afeta apenas o consumo. Afeta também a natureza. O capital trata a terra como fonte inesgotável de matéria-prima e como depósito infinito de rejeitos. Extrai minérios, derruba florestas, contamina rios, suga aquíferos, perfura o subsolo, envenena o ar. Tudo em nome do lucro. Quando a natureza dá sinais de esgotamento (secas, inundações, incêndios, pandemias), o capital responde com novas mercadorias: créditos de carbono, seguros climáticos, tecnologias verdes que são apenas novas formas de acumulação. A crise ambiental não é um acidente. É o metabolismo do capital em sua fase terminal. O sistema que produz escassez artificial para os humanos produz também escassez real para o planeta.


A contradição entre abundância e escassez é, no fundo, a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. As forças produtivas (a tecnologia, a ciência, a organização do trabalho, a capacidade humana de transformar a natureza) atingiram um nível que permite a satisfação das necessidades de todos com uma fração do trabalho social atual. As relações de produção (a propriedade privada, o trabalho assalariado, a produção para o lucro) são um entrave. Elas represam a abundância. Elas transformam a capacidade de produzir em capacidade de excluir.


Por isso a luta de classes não é uma briga por um pedaço maior do bolo. É a luta para destruir a cozinha inteira e reconstruí-la sob controle de quem realmente cozinha. Não se trata de redistribuir a escassez. Trata-se de abolir a escassez. De destravar a abundância represada. De subordinar a produção à necessidade humana, e não à valorização do capital. Isso significa abolir a propriedade privada dos meios de produção. Colocar a terra, as fábricas, as máquinas, a tecnologia a serviço de todos. Significa abolir o trabalho assalariado. Ninguém mais vende sua vida por um salário. A jornada é reduzida ao mínimo necessário. O trabalho penoso é eliminado pela automação. O tempo livre se torna a medida da riqueza.


Isso não é sonho. É uma possibilidade real, material, inscrita no desenvolvimento das forças produtivas. O que falta é a consciência dessa possibilidade. O que falta é a organização do proletariado para realizá-la. O que falta é a ruptura com a ideologia que naturaliza a escassez e nos convence de que "não dá para todo mundo".


Essa ideologia tem muitas faces. A face malthusiana diz que a pobreza é culpa dos pobres, que se reproduzem como coelhos e esgotam os recursos. A face neoliberal diz que o mercado aloca os recursos de forma eficiente e que a interferência estatal gera distorções. A face reformista diz que é possível regular o capital, humanizá-lo, fazê-lo funcionar para todos. Todas são falsas. Todas escondem o fato de que a escassez não é natural, mas socialmente produzida. E que a única forma de eliminá-la é eliminar as relações sociais que a produzem.


A revolução não é a tomada do poder em meio à penúria, para repartir a miséria. É a tomada do poder para destravar a abundância. Para abrir as comportas. Para fazer chegar a cada ser humano o que a humanidade já é capaz de produzir. O socialismo não é a gestão estatal da escassez. É a superação da escassez pela abolição da forma valor. É a produção voltada à satisfação das necessidades humanas, livremente associadas, conscientemente planejadas. O comunismo não é a divisão igualitária da miséria. É o fim da miséria.


A abundância já existe. Está aí, diante dos nossos olhos, mas está trancada. As chaves da prisão estão nas mãos da burguesia. A classe que detém os meios de produção prefere destruir o excedente a distribuí-lo. Prefere a barbárie à cessão da propriedade. Prefere queimar comida enquanto milhões passam fome. Prefere manter prédios vazios enquanto milhões dormem na rua. Prefere patentear a cura enquanto milhões morrem de doenças evitáveis. Essa é a lógica do capital. Não há reforma que a dome. Não há regulação que a humanize. Não há eleição que a transforme.


A única saída é arrancar as chaves. Tomar os meios de produção. Socializar a terra, as fábricas, a tecnologia. Organizar a produção conforme as necessidades, não conforme o lucro. Reduzir a jornada, eliminar o trabalho penoso, liberar tempo para viver. Isso é possível. É necessário. É urgente. A cada dia que passa, a contradição se agrava. A abundância represada apodrece de um lado. A miséria cresce do outro. O planeta geme. As guerras se multiplicam. Os estados de exceção se banalizam. O capital caminha para a barbárie porque já não tem nada a oferecer além de destruição.


Cabe ao proletariado decidir se aceita a barbárie ou se toma o que é seu. A escassez é uma mentira. A abundância é a verdade. E a verdade, quando compreendida pelas massas, se transforma em força material. Em greve. Em bloqueio. Em ocupação. Em poder. Em revolução. A hora é de escolher.