Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

terça-feira, 16 de junho de 2026

O Trabalho Vivo e a Ordem Burguesa

O Trabalho Vivo e a Ordem Burguesa: A Farsa da Abundância e a Miséria Produzida


Toda a riqueza que move o mundo, todos os arranha-céus, todas as mercadorias estocadas e todos os números nos telões das bolsas têm uma origem única, viva e carnal: o trabalho vivo. Mas é preciso cravar o que isso significa. Trabalho vivo não é qualquer atividade remunerada. Não é o serviço, não é o conhecimento, não é a logística. Trabalho vivo é a atividade concreta do proletariado que se relaciona diretamente com a natureza e a transforma em valores de uso: arar a terra, extrair minério, fundir aço, montar o circuito, tecer o fio, erguer a parede. É nesse metabolismo entre o corpo humano e a matéria que nasce o valor novo. Fora disso, o que existe é consumo de valor já produzido, redistribuição de mais-valia já extraída, circulação de riqueza já criada.


A grande mentira do capitalismo é a ilusão de que o capital se reproduz por si mesmo. A máquina, o algoritmo, a inteligência artificial são trabalho morto, trabalho humano pretérito cristalizado em equipamentos. Nenhum deles cria um centavo de valor novo. Transferem ao produto seu próprio desgaste. Quem cria valor novo é exclusivamente o proletário que opera a prensa, que dirige a escavadeira, que solda a estrutura, que planta e colhe. O dinheiro do capitalista só se multiplica quando encontra esse trabalho vivo para sugar. A greve geral é o pesadelo da burguesia porque, ao parar o trabalho vivo, revela-se que todo o resto (as finanças, os serviços, o comércio, a burocracia) é parasita de um único corpo.


O professor, o contador, o motorista de aplicativo, o bancário, o funcionário público, o enfermeiro, o atendente de telemarketing não produzem trabalho vivo. Eles não transformam a natureza em mercadoria. Eles não geram mais-valia diretamente. Sua renda provém de uma fração da mais-valia global extraída pelo capital do proletariado produtivo. O capital suga o trabalho vivo na fábrica, na mina, no latifúndio, e com uma parte desse butim paga os serviços que mantêm a ordem funcionando: educar o filho do operário para que ele continue sendo operário, transportar o gerente até o escritório, contar os lucros do patrão, vigiar a saúde do trabalhador para que ele volte ao batente. Esses segmentos vivem do trabalho vivo, mas não o executam. Não são proletários no sentido estrito. São camadas assalariadas que o capital sustenta com a mais-valia alheia.


O médico que atende no hospital privado, o cirurgião que opera com equipamentos de última geração, o dono da clínica que cobra a consulta, todos eles vivem da mais-valia extraída do trabalho vivo. O paciente que paga a consulta é um trabalhador, ou a esposa de um trabalhador, ou o filho de um trabalhador, e o dinheiro que sai de sua carteira saiu antes da fábrica, da mina, do campo. O plano de saúde que cobre o procedimento é pago com salário, que é fração da mais-valia. O médico não criou valor nenhum ao auscultar o peito do operário; ele apenas consumiu uma parcela da riqueza já produzida pelo proletariado. O grande capital da saúde (os hospitais, os laboratórios farmacêuticos, os planos) suga a mais-valia duas vezes: primeiro, ao vender o remédio e o procedimento com lucro; segundo, ao pagar salários aos médicos e enfermeiros, que são deduções do butim original. O médico pode ser um profissional dedicado, pode salvar vidas, mas sua vida material depende inteiramente da extração de mais-valia nas minas, nas fábricas e nos campos. Sem o mineiro que arranca o minério, sem o metalúrgico que forja o aço, sem o camponês que planta o alimento, o médico não tem hospital, não tem instrumento, não tem comida na mesa. Ele vive do trabalho vivo do proletariado.


O banqueiro é o caso mais descarado. Ele não transforma natureza nenhuma. Não produz mercadoria nenhuma. Não presta serviço nenhum que não possa ser eliminado numa sociedade racional. Sua função é sugar. Ele empresta dinheiro e cobra juros. Esse dinheiro é trabalho vivo cristalizado, mais-valia acumulada que o proletariado gerou e que o banqueiro agora usa para extorquir mais ainda. O banco não cria riqueza; concentra a riqueza alheia. O banqueiro não gera valor; vive do spread, da taxa, do endividamento. Cada real que entra no cofre do banco saiu antes das mãos calejadas do proletário. O banqueiro e toda a casta financeira (analistas, consultores, corretores, gestores de fundos) são a expressão mais pura do parasitismo. Eles não produzem trabalho vivo. Eles drenam trabalho vivo. São a ventosa acoplada ao corpo do proletariado mundial.


O político profissional, o parlamentar, o ministro, o assessor, o marqueteiro, o lobista, todos eles vivem da mais-valia extraída do trabalho vivo. O salário do deputado é pago com impostos. Os impostos saem do salário do trabalhador e do lucro do capitalista. O lucro do capitalista é mais-valia acumulada. Portanto, o político vive do trabalho do mineiro, do metalúrgico, do camponês, do operário da construção civil. Ele não criou a riqueza que consome; ele a administra. Sua função é garantir que a propriedade privada permaneça intocada, que a exploração continue legal, que a greve seja criminalizada, que o Estado siga sendo o comitê executivo da burguesia. O parlamento, o palácio, o tribunal, todos os poderes do Estado burguês são máquinas que consomem mais-valia para reproduzir as condições de extração de mais-valia. O juiz que condena o sem-terra, o delegado que prende o grevista, o burocrata que nega o benefício, o militar que reprime a ocupação, todos são pagos com o suor do proletariado. Todos exercem violência contra o proletariado usando a riqueza que o proletariado produziu.


O professor da escola pública, o policial, o agente de trânsito, o fiscal da prefeitura, o escriturário do fórum, todos os funcionários do Estado burguês, estão na mesma condição: vivem de frações da mais-valia redistribuída pelo orçamento estatal. Não são proletários. Não produzem trabalho vivo. Não transformam a natureza. Sua função é manter a ordem, educar para a obediência, reprimir os descontentes, processar a papelada da exploração. Podem ser mal pagos, podem ser explorados em sua jornada, podem até se rebelar contra suas condições, mas sua posição na estrutura de classes é distinta da posição do proletário que está na fábrica, na mina, no campo. O proletário gera a riqueza; o funcionário público a consome. O proletário cria o bolo; o funcionário recebe uma fatia. Isso não é uma questão de salário maior ou menor; é uma questão de função no processo de produção.


A abundância que o trabalho vivo produz hoje é concreta e colossal. Nunca se produziu tanto alimento, tanta roupa, tanto remédio, tanta moradia. A fome, o desabrigo, a fila do osso não são escassez natural; são escassez produzida pela apropriação privada da riqueza social. O capital concentra a mais-valia em poucas mãos e a transforma em títulos, ações, iates, enquanto destrói alimentos para sustentar preços. O proletário que gerou essa abundância recebe uma fração mínima, o salário, que mal repõe suas forças. O professor, o médico, o motorista, o bancário, o político recebem outras frações, deduzidas do mesmo bolo. Todos eles são pagos pelo mesmo trabalho vivo, mas só o proletário o executa. Só o proletário mete a mão na terra, no fogo, no metal. Só ele sangra.


A crise não é um desvio; é o sistema operando. A lei da queda tendencial da taxa de lucro, a substituição de trabalho vivo por trabalho morto, a superpopulação relativa crescente geram destruição periódica de forças produtivas e desemprego em massa. Enquanto o proletário acreditar que sua dor se resolve com currículo, com voto ou com migalhas, ele seguirá sendo a variável de ajuste. A única saída é a organização independente do proletariado produtivo, unido aos demais segmentos explorados e oprimidos, mas com clareza sobre quem é o sujeito central da transformação. O horizonte não é administrar a miséria, mas socializar a abundância já produzida. O comunismo não divide a pobreza; organiza a riqueza que o trabalho vivo já criou para que sirva a todos. É a superação da escassez artificial. É o reconhecimento de que o proletariado já produziu o bastante para que ninguém mais precise passar fome.


Até lá, o sistema seguirá canibalizando o trabalho vivo e o planeta. A miséria que vemos não vem da natureza, mas da ordem burguesa que sequestra a abundância. O professor, o médico, o banqueiro, o político, o juiz, o policial, todos vivem do mesmo trabalho vivo que o proletário executa. A diferença é que o proletário o executa e é espoliado; os outros o consomem e são cúmplices, em maior ou menor grau, da espoliação. Essa abundância, hoje, é o terreno onde a emancipação se torna possível. Mas só se torna possível se o trabalho vivo se reconhecer como o único criador de toda a riqueza e tomar para si o controle dos meios de produção. O resto é redistribuição de migalhas. E migalhas não libertam ninguém.

domingo, 14 de junho de 2026

Traidores da Classe Proletária

Traidores: A Fila dos que Abandonaram a Classe


A história do movimento operário é também a história das traições. Não como acidente, não como desvio moral, mas como produto necessário da luta de classes. A burguesia não se defende apenas com a repressão. Defende-se também com a corrupção. Compra os que vacilam, promove os que se vendem, canoniza os que desertam. De Karl Kautsky a Josef Stalin, passando por toda uma linhagem de marxistas ocidentais e reformistas, a fila dos que abandonaram a classe é longa. E é preciso olhar para ela de frente, porque o inimigo não está apenas do outro lado. Muitas vezes, ele esteve ao nosso lado, falou nossa língua, ergueu nossa bandeira e, no momento decisivo, negociou a rendição.


Kautsky é o caso clássico. O homem que foi chamado de renegado não por um insulto qualquer, mas porque renegou a essência da doutrina que dizia defender. Durante décadas, foi a maior autoridade do marxismo depois de Engels. Escreveu, organizou, polemizou. Mas quando a hora exigiu a ruptura, ele escolheu a conciliação. Opôs-se à tomada do poder, defendeu a democracia burguesa como caminho para o socialismo, combateu a ditadura do proletariado. Tornou-se o papa dos reformistas, o santo dos que queriam o socialismo sem revolução. Sua traição não foi pessoal. Foi política. Ele deu ao reformismo sua capa teórica. Justificou o abandono da luta armada e a adesão ao parlamento. E até hoje os que não querem fazer a revolução se ajoelham diante de seu túmulo.


Kautsky é o paradigma. Mas a fila não parou nele. Ela atravessa o século XX e chega ao século XXI com novos rostos e velhas ideias. O marxismo ocidental, nascido da derrota das revoluções europeias dos anos 1920, é a expressão acadêmica da retirada. Incapaz de fazer a revolução, refugiou-se na universidade. Substituiu a análise da mais-valia pela análise da cultura. Substituiu a organização da greve pela publicação de artigos. Transformou o marxismo em disciplina, em carreira, em nicho de mercado. Criou um jargão que só os iniciados entendem, e com isso se separou da classe que dizia representar. O operário não lê Adorno. O camponês não entende Althusser. E eles não se importam, porque escrevem para seus pares, para a banca examinadora, para os editores europeus. O marxismo ocidental é o marxismo que o capital permite, porque é o marxismo que não ameaça.


Stalin representa outra face da traição. Não a do reformismo parlamentar, mas a da contrarrevolução burocrática. Tomou o poder em nome do proletariado e construiu um regime que esmagou o proletariado. Liquidou fisicamente a velha guarda bolchevique, os que fizeram a revolução, os que organizaram os sovietes, os que tomaram o Palácio de Inverno. No lugar dos conselhos operários, ergueu um estamento burocrático que administrava a exploração com mão de ferro. A propriedade privada foi formalmente abolida, mas a apropriação real da riqueza passou das mãos da burguesia para as mãos da burocracia estatal. O trabalhador soviético não controlava a fábrica; obedecia ao plano, à meta, ao capataz. A mais-valia não era embolsada por um capitalista individual; era embolsada pelo Estado, que a redistribuía conforme os interesses da casta dirigente. Stalin transformou o socialismo em palavra vazia e a ditadura do proletariado em ditadura sobre o proletariado. Sua traição foi a mais grave de todas, porque foi feita em nome da revolução.


O reformista é a base de massas desses dirigentes. Ele é o sindicalista que negocia com o patrão e chama de vitória o que é derrota. É o parlamentar que promete o socialismo em campanha e aplica o ajuste fiscal no governo. É o militante que acredita que o capitalismo pode ser humanizado, que a exploração pode ser regulada, que a propriedade privada pode ser mantida desde que pague impostos. O reformista não é um ingênuo. Ele tem consciência do que faz. Sabe que sua função é conter a classe, desarmar a revolta, canalizar a energia para a eleição. Ele é a correia de transmissão do capital dentro do movimento operário. Sem ele, o capital teria que usar apenas a repressão. Com ele, o capital usa a ilusão.


Essas figuras não são acidentes. Elas são produzidas pela mesma lógica que produz o capataz, o chefinho, a oligarquia operária e o estamento burocrático. A mais-valia global é repartida. Uma parte vai para comprar a lealdade de camadas inteiras. Kautsky, os marxistas ocidentais e os reformistas são funcionários do capital na trincheira inimiga. Recebem seu salário em dinheiro, em prestígio, em cátedras, em espaços na mídia. Em troca, garantem que a classe não se mova. Que a greve termine em acordo. Que a revolução seja adiada indefinidamente. Stalin foi diferente: não foi comprado pelo capital ocidental; construiu seu próprio capitalismo de Estado. Mas o resultado para a classe foi o mesmo: derrota, desmobilização, assassinato da esperança revolucionária.


A crise atual está queimando essas pontes. O capital já não pode pagar tantos intermediários. A universidade definha, a mídia se fragmenta, os sindicatos perdem verbas, os partidos reformistas perdem eleitores. A conciliação se torna impossível. É nesse momento que esses traidores mostram sua verdadeira face. Diante da escolha entre a revolução e a barbárie, escolhem a barbárie. Kautsky combateu a revolução russa. Os marxistas ocidentais se calaram diante do fascismo ou aderiram a ele. Stalin matou a revolução e chamou isso de socialismo. Os reformistas votarão o ajuste, aprovarão a repressão, justificarão o estado de exceção. Porque, no fundo, eles nunca foram nossos. Foram sempre deles. Apenas estavam infiltrados.


A tarefa do proletariado é expulsá-los. Denunciá-los. Isolá-los. A revolução não se faz com kautskys, com stalins, com marxistas de cátedra, com reformistas de gabinete. Faz-se com os que estão no chão de fábrica, na mina, no campo, na periferia. Com os que não têm nada a perder além das correntes. Com os que nunca foram comprados porque nunca tiveram preço. A traição é velha. A resposta também é velha: organização independente, ação direta, ruptura revolucionária. Fora disso, há apenas a fila dos que abandonaram a classe. E a história, que é juíza implacável, os condenará ao esquecimento.

Crítica ao Inatismo

Rasgar o Contrato: Marx, Engels e a Crítica do Inatismo Burguês


A ideia de que o homem nasce violento, egoísta, proprietário ou movido por um cálculo racional de interesses não é um dado da natureza. É uma arma de classe. Ela alimenta o contrato social, a ficção fundadora do Estado moderno e do liberalismo, e se reproduz ao longo de toda a história do pensamento burguês, de Hobbes a Hayek, de Locke a Friedman. O que Marx e Engels nos legaram não é uma variação desse inatismo, mas sua demolição radical. Para eles, não se trata de aperfeiçoar o contrato ou propor um novo pacto. Trata-se de rasgar o contrato existente e mostrar que a suposta natureza humana invocada para justificá-lo é, na verdade, uma produção histórica da própria sociedade de classes.


A base crítica de Marx e Engels começa onde o contratualismo termina: na materialidade da luta de classes. Enquanto Hobbes supõe um estado de natureza anterior à sociedade, Marx mostra que o estado de natureza é uma invenção ideológica que esconde a violência real da acumulação primitiva. A Inglaterra do cercamento dos campos, a expropriação do camponês, o comércio de escravos, a colonização da Irlanda e da Índia não são acidentes ou recaídas na barbárie. São a própria gênese do capital. O homem que Hobbes descreve como lobo do homem é o homem que o capital produziu ao lançá-lo na competição por salários, ao transformar sua força de trabalho em mercadoria, ao destruir suas formas comunitárias de existência.


Engels, em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, descreve com precisão cirúrgica como a miséria produz o que a ideologia burguesa chama de “vícios inatos” do operário. O alcoolismo, a violência doméstica, a promiscuidade, a criminalidade não brotam de uma natureza degenerada. Brotam das condições materiais: jornadas de dezesseis horas, moradias insalubres, salários de fome, desemprego crônico. A burguesia olha para o resultado e diz: “vejam como esses homens são naturalmente brutos”. Marx e Engels invertem: “Vejam como o capital os torna brutos”.


Essa inversão é o núcleo da crítica ao inatismo. O que os contratualistas tomam como ponto de partida (a natureza humana) é, na verdade, o ponto de chegada. O homem egoísta, calculador, proprietário não é o homem natural. É o homem burguês, produzido por relações sociais que reduzem tudo a mercadoria, inclusive os afetos, o tempo, o corpo. Marx ironiza os economistas clássicos que tomam o “robinsonismo” (o indivíduo isolado que troca peixe por carne na praia deserta) como se fosse o começo da história, quando ele é, na verdade, uma projeção da sociedade mercantil mais desenvolvida.


A crítica do contrato social, em Marx e Engels, não é uma disputa filosófica entre variantes do contratualismo. É a recusa do próprio problema que o contratualismo coloca. Os contratualistas perguntam: como homens naturalmente isolados e conflituosos podem viver em sociedade? Marx e Engels respondem: essa pergunta é falsa porque os homens nunca viveram isolados. O trabalho é social desde sua origem. A caça, a pesca, a agricultura primitiva já pressupõem cooperação, divisão de tarefas, linguagem. O indivíduo isolado que troca com outro indivíduo é uma abstração burguesa que só se torna real quando o capital já dissolveu todas as formas comunitárias anteriores. O contrato social, portanto, não é a origem da sociedade. É a ideologia de uma sociedade que já se constituiu pela violência e precisa de uma ficção para se legitimar.


A consequência política dessa crítica é radical. Se o contrato social é uma ficção que justifica o Estado e a propriedade privada, então não há como aperfeiçoá-lo. Não há um “novo contrato” que concilie capital e trabalho, exploradores e explorados. O contrato é a forma jurídica da dominação de classe. Rasgá-lo significa abolir a propriedade privada dos meios de produção, destruir o Estado como instrumento de dominação de classe, criar formas de organização social baseadas na cooperação voluntária e na decisão coletiva, não no contrato entre proprietários formais iguais.


O inatismo, com suas múltiplas roupagens (do pecado original ao gene egoísta, do homo economicus à racionalidade instrumental) é o que permite que o contrato sobreviva como ideologia. Ele faz crer que a exploração é inevitável porque a competição está na natureza. Ele faz crer que o Estado é necessário porque a violência está na natureza. Ele faz crer que a propriedade é sagrada porque a posse está na natureza. Contra essa tradição inteira, que vai de Hobbes aos Chicago Boys, Marx e Engels afirmam: a natureza humana é a história. E a história é luta de classes. Quando a classe trabalhadora tomar consciência de que sua própria “natureza” foi forjada pela exploração, e que pode ser refeita pela revolução, o contrato se rasgará sozinho, como o véu que não esconde mais nada.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Amor e luta de classes

 Encontros dominicais, Amor e Luta de Classes: Para uma Crítica Materialista dos Afetos


 O amor não é um dado, é um problema


O primeiro movimento do pensamento materialista é desnaturalizar. Tudo o que a ideologia dominante apresenta como eterno, como vindo do céu ou do fundo imutável da alma humana, o materialismo histórico devolve à terra. Diz: isso foi produzido. Tem história. Tem condições materiais. Tem classe.


O amor não escapa. Aliás, o amor é um dos territórios onde a ideologia mais trabalha para ocultar sua própria produção. Nada parece mais natural, mais espontâneo, mais "humano" do que o amor. Por isso mesmo, nada pede mais desconfiança.


A pergunta que abre a investigação não é "o que é o amor?", mas "como o amor se tornou o que é?" E essa pergunta imediatamente desdobra: que relações sociais produziram essa forma específica de afeto que chamamos de amor? Que interesses ela serve? Que contradições ela carrega?


A resposta exige que voltemos à gênese da sociedade de classes e percorramos as transformações pelas quais o amor passou até chegar à forma patética e brutal que conhecemos hoje.


A propriedade privada como matriz do amor


Nas sociedades tribais anteriores à propriedade privada da terra e dos meios de produção, as relações entre homens e mulheres, adultos e crianças, idosos e jovens não eram organizadas pelo que chamamos de amor. Eram organizadas pelo parentesco, pela divisão sexual do trabalho, pelos ritos de passagem, pela solidariedade obrigatória do clã. Havia afeto, havia desejo, havia cuidado. Mas não havia a ideia de que o par romântico, isolado em seu quarto, é o centro da vida afetiva.


A grande transformação vem com a propriedade privada. Não é acidente. A propriedade privada exige herdeiros. Herdeiros exigem certeza da paternidade. Certeza da paternidade exige controle da sexualidade feminina. Controle da sexualidade feminina exige a família monogâmica como instituição jurídica e econômica.


Engels, em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, mostra essa costura brutal: a monogamia não nasce do amor. Nasce da necessidade de transmitir riqueza. O casamento é, antes de tudo, um contrato entre proprietários. A mulher passa de propriedade do pai a propriedade do marido. O amor que eventualmente habita esse contrato é tolerado como um luxo, nunca como fundamento.


Essa origem imprime no amor uma marca que ele jamais perderá completamente: a marca da posse. Amar, sob o regime da propriedade privada, é sempre, em alguma medida, ter. O ciúme não é um acidente psicológico. É a sombra do contrato de propriedade no campo dos afetos. "Você é meu" não é metáfora. É a linguagem do proprietário aplicada ao corpo e à alma do outro.


O amor no capitalismo: mercadoria e fantasia


O capitalismo herda essa estrutura e a radicaliza. Na sociedade burguesa, tudo o que era sólido se desmancha no ar. As relações de dependência pessoal são dissolvidas pela liberdade formal do contrato. Até a família monogâmica, que parecia um pilar, entra em crise permanente.


O amor se torna, então, um campo de contradições agudas.


De um lado, o capitalismo exalta o amor romântico como nunca antes. A literatura, o cinema, a música, a publicidade e todas as indústrias culturais trabalham para fazer do amor a grande promessa de realização individual. Você pode não ter nada, mas se tiver amor, tem tudo. O amor é vendido como o sentido último da vida, o que preenche o vazio deixado pela perda de todas as outras certezas (Deus, a comunidade, o ofício herdado).


De outro lado, o capitalismo destrói sistematicamente as condições reais para que o amor exista de forma plena. Jornadas exaustivas não deixam tempo para cultivar afeto. A precariedade material transforma o parceiro em amortecedor de crises. A mobilidade forçada (migração, desemprego, nova cidade) arranca o amor do seu território. A competição generalizada ensina que todos são substituíveis (inclusive quem se ama).


O resultado é um amor impossível. Exigido como redenção, negado como possibilidade real. O sujeito é convocado a dar o máximo de si numa relação que a própria lógica social mina pela base. A frustração amorosa não é falha individual. É produção em série.


A ideologia do amor e a reprodução da classe


A ideologia dominante não se limita a descrever o amor. Ela o prescreve. E essa prescrição serve a interesses de classe muito concretos.


O amor romântico, com sua ênfase na escolha individual, na química entre dois corpos, na alma gêmea, é a forma afetiva adequada a uma sociedade que precisa fazer crer que somos livres. Você escolheu seu parceiro como escolhe seu celular, sua roupa, seu estilo de vida. A ilusão da escolha livre no mercado de bens estende-se ao mercado de afetos.


Mas essa liberdade é formal. Você pode escolher entre os que estão disponíveis, nas condições que o mercado estabelece, com a aparência que a indústria cultural validou. Não pode escolher um mundo onde a escolha amorosa não seja uma aposta desesperada contra a solidão e a pobreza.


Mais profundamente: a ideologia do amor serve à reprodução da força de trabalho. O trabalhador exausto encontra em casa a promessa de afeto que o recupera para mais um dia de exploração. A mulher, duplamente explorada (na fábrica e em casa), é ensinada que o amor verdadeiro exige abnegação, paciência, silêncio. O homem é ensinado que amar é prover, proteger, possuir. Os papéis amorosos são os papéis da divisão sexual do trabalho, naturalizados pela fantasia do encontro romântico.


O amor, assim, vira cola do sistema. Une o que a produção separa. Acalma o que a exploração irrita. Promete amanhã o que a fome nega hoje.


 A luta de classes atravessa o quarto


Aqui chegamos ao ponto que o panfleto apressado perde: a luta de classes não acontece só na fábrica, no sindicato, no partido, na greve. Ela acontece também na cama, na cozinha, na divisão das tarefas domésticas, na decisão de quem cuida dos filhos, no silêncio de quem não pode falar. Ela acontece na forma como o dinheiro (ou sua falta), entra na relação amorosa e a deforma.


Não há amor fora da luta de classes. Mas isso não significa que amar seja um ato político direto. Significa que as condições materiais nas quais o amor ocorre são determinadas pela posição de classe dos amantes, e que essas condições produzem conflitos, impossibilidades, violências que a psicologia romântica insiste em tratar como problemas de comunicação ou incompatibilidade de personalidade.


O casal proletário não briga pelo que a novela diz. Briga pelo aluguel que vence, pelo salário que não aumentou, pelo patrão que exigiu hora extra, pela creche que fechou. Essas brigas não são "estresse externo". São o conteúdo real da vida amorosa sob o capital. O amor respira esse ar ou sufoca.


Da mesma forma, a violência doméstica não é irrupção de um monstro individual. É a forma mais crua da propriedade privada aplicada ao corpo do outro. O homem que espanca a mulher está dizendo, com os punhos, o que o contrato de casamento sempre disse com a lei: você é minha. O capitalismo não inventou essa violência, mas a herdou da família patriarcal e a aprofundou, porque precisa de uma instância de reprodução da força de trabalho onde o cansaço e a revolta sejam domesticados à força.


 A abolição do amor como propriedade


A crítica materialista do amor não pode se contentar em denunciar suas deformações. Deve apontar para sua superação.


O que seria o amor numa sociedade onde os meios de produção não fossem propriedade privada? Onde o trabalho não fosse mercadoria? Onde o tempo não fosse dinheiro? Onde a divisão sexual do trabalho tivesse sido abolida? Onde a criação dos filhos fosse assumida coletivamente?


Não podemos saber com detalhe. O futuro concreto não se deduz do presente. Mas podemos indicar direções.


Primeira: o amor deixaria de ser posse. Se não há propriedade privada, não há fundamento ontológico para o ciúme como forma de relação. Não que o desejo de exclusividade desapareça magicamente. Mas ele não teria mais a estrutura jurídico-econômica que hoje o sustenta como "direito do amante".


Segunda: o amor deixaria de ser contrato. Relações afetivas poderiam durar toda a vida ou um dia. Poderiam ser exclusivas ou abertas. Poderiam incluir um, dois, muitos. A forma não seria prescrita pelo Estado ou pela igreja, mas inventada livremente pelos envolvidos.


Terceira: o amor deixaria de ser refúgio. Hoje amamos desesperadamente porque o mundo é hostil. O amor é a única ilha onde ainda podemos ser vulneráveis sem sermos destruídos. Numa sociedade socialista, o mundo inteiro seria a ilha. A solidariedade não seria privilégio do quarto, mas estrutura da rua, da fábrica, do conselho popular.


Quarta: o amor deixaria de ser mercadoria. Não haveria indústria do encontro, aplicativo de paquera, terapia de casal vendida como serviço, presente comprado como prova de afeto. Não porque o consumo acabe, mas porque o afeto não precisaria mais se provar por objetos.


Essa é a direção. Não uma utopia abstrata, mas a indicação do que a luta de classes, quando vitoriosa, pode desbloquear.


Amor e revolução: a dialética do possível


Nada disso, porém, autoriza a ideia de que "primeiro fazemos a revolução, depois resolvemos o amor". A revolução não é um antes e depois. É um processo. E nesse processo, as formas de amar também se transformam.


Os sovietes russos pós-1917 viram florescer experiências amorosas radicalmente novas: casamentos coletivos, divórcio livre, legalização do aborto, reconhecimento das uniões homossexuais (depois recalcadas pelo stalinismo). A revolução não esperou o socialismo para experimentar novas relações afetivas. Ela as produziu porque, quebrada a casca jurídica da propriedade, o amor pôde se aventurar.


Isso significa que a luta por uma vida amorosa menos opressiva não é secundária à luta de classes. É parte dela. A luta contra o ciúme possessivo, contra a divisão sexual das tarefas, contra a violência doméstica, contra a mercantilização dos afetos — tudo isso é luta contra o capital, porque o capital vive da forma como essas opressões organizam a reprodução da força de trabalho.


Por outro lado, reduzir a revolução a uma "revolução dos afetos" é idealismo puro. Sem a expropriação dos meios de produção, sem o controle operário da fábrica, sem a planificação democrática da economia, as novas formas de amar serão varridas pela primeira crise.


A dialética é essa: não se pode esperar a revolução para começar a amar de outro jeito. Mas também não se pode acreditar que amar de outro jeito, sem tocar na propriedade privada, seja suficiente.


 O amor como crítica imanente


O amor, na sociedade de classes, é ao mesmo tempo promessa e impossibilidade. Promete o que não pode cumprir. E é justamente essa distância entre o prometido e o realizado que faz do amor uma poderosa alavanca crítica.


Quem ama de verdade sofre. Sofre porque quer dar o que não tem (tempo, segurança, futuro). Sofre porque quer receber o que o outro não pode dar (a certeza de que não será abandonado, a garantia de que o afeto não se esgotará). Esse sofrimento não é patologia. É verdade. É a verdade do amor num mundo que o impede de ser pleno.


A tarefa política, então, não é ensinar as pessoas a amar melhor dentro do capitalismo. Não é oferecer técnicas de comunicação ou terapia para administrar a frustração. A tarefa é mostrar que a frustração amorosa é produzida socialmente, que ela tem nome e endereço, e que a superação dessa frustração exige a superação da ordem social que a gera.


O amor, quando pensado até o fundo, torna-se crítica radical do capital. Porque o amor verdadeiro não aceita o mundo como ele é. O amor verdadeiro quer o impossível e por isso mesmo aponta para a única coisa que pode torná-lo possível: a revolução.

O amor que queremos exige a rigorosa e dialética atenção ao mundo coletivo para o entendimento e desenvolvimento individual. 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O Indivíduo que o Capital Cria e Esmaga

O Indivíduo que o Capital Cria e Esmaga


O capitalismo adora falar de indivíduo. Em todo canto, a história se repete: você é único, você é livre, você pode ser o que quiser. O empreendedor de si mesmo, o vencedor, o que saiu do nada e chegou ao topo. A televisão repete, a internet repete, o chefe repete. Mas quando o trabalhador acorda às quatro da manhã, pega duas conduções, bate ponto, almoça em vinte minutos, volta para casa exausto e ainda tem que sorrir para o cliente, ele sente na pele que essa história não fecha. A conta não bate. A liberdade prometida não chega nunca.


Marx olhou para esse indivíduo que o capitalismo propaga e fez a pergunta simples: que indivíduo é esse? De onde ele veio? Do que ele vive? A resposta está no trabalho. O ser humano se fez humano transformando a natureza, plantando, construindo, criando. Foi pelo trabalho coletivo que a espécie saiu da caverna e ergueu cidades. Mas aí veio a propriedade privada dos meios de produção. A terra, a máquina, a ferramenta, a tecnologia viraram posse de uma minoria. A maioria ficou sem nada. Só restou o próprio corpo. E esse corpo virou mercadoria.


Aqui está a raiz do problema. O indivíduo sob o capital não é um indivíduo qualquer. É um vendedor de si mesmo. Ele oferece sua força de trabalho como quem vende um saco de batata. Se encontra comprador, come. Se não encontra, passa fome. Sua singularidade, seu talento, seu sonho, sua história não interessam ao mercado. Interessa se ele sabe operar a máquina, se atende bem o telefone, se carrega o peso, se dirige o caminhão. O resto é supérfluo. O capital transforma a pessoa em função, em peça, em custo.


Essa é a primeira violência. A segunda é pior. Depois de vender sua força de trabalho, o trabalhador entra na fábrica, no escritório, na plataforma do aplicativo. Ali ele produz. Produz sapatos, produz códigos, produz relatórios, produz entregas. Mas o fruto do seu trabalho não lhe pertence. Pertence ao dono dos meios de produção. O operário faz o carro, mas não pode comprá-lo. O pedreiro ergue o prédio, mas não pode morar nele. O cozinheiro prepara o jantar, mas come marmita fria. O que ele produz vira propriedade alheia. Ele se reconhece no que fez, mas o que fez está longe, nas mãos de outro. Ele trabalha o dia inteiro e, no fim do dia, está mais pobre, mais cansado, mais vazio.


Essa separação entre o produtor e o produto é a alienação. O indivíduo se torna estranho a si mesmo. Sua atividade, que deveria ser expressão de sua vida, vira só meio para sobreviver. Ele não trabalha porque quer, mas porque precisa. Não cria porque ama, mas porque é obrigado. Seu tempo de trabalho não é tempo vivido; é tempo vendido. E quanto mais ele produz, mais o mundo ao redor se enche de mercadorias que ele não pode ter, mais o patrão enriquece, mais ele se apequena.


Mas a alienação não para na fábrica. Ela invade a vida inteira. O capitalismo junta os trabalhadores na cidade, no bairro, no metrô, mas ao mesmo tempo os separa. Cada um é concorrente do outro. A vaga de emprego é disputada. A promoção é disputada. O espaço no estacionamento é disputado. Até o afeto vira competição. A amizade vira rede de contatos. O amor vira contrato. A solidariedade vira troca de favores. O indivíduo aprende desde cedo que deve desconfiar, que deve levar vantagem, que deve se impor. O outro não é parceiro; é obstáculo, é ameaça, é degrau.


O resultado é um indivíduo partido. Ele sente que precisa dos outros, porque sem os outros não há comida na mesa, não há teto, não há cuidado. Mas ao mesmo tempo trata os outros como instrumento ou como inimigo. Ele quer ser amado, mas mede o amor pelo preço do presente. Ele quer ser livre, mas entende a liberdade como poder de comprar. Ele quer ser único, mas veste a mesma roupa, fala as mesmas gírias, posta as mesmas fotos, corre atrás dos mesmos sonhos prontos que a propaganda vende. O capital promete indivíduos e entrega cópias.


E a pior parte: o indivíduo começa a achar que isso é natural. Que sempre foi assim. Que a competição é a lei da vida. Que o forte vence e o fraco perece. Que se ele está mal é porque não se esforçou, não estudou, não acordou mais cedo. Ele internaliza a derrota como culpa pessoal. O sistema some da cena. No palco, só ele e sua falha. E aí ele corre mais, trabalha mais, se endivida mais, dorme menos, sorri menos, vive menos. Tudo para alcançar um padrão de indivíduo que o próprio sistema impede que ele alcance.


Essa é a armadilha. O capitalismo fala de indivíduo o tempo inteiro, mas a base material da sociedade impede a individualidade real. Individualidade real exige tempo. Tempo para pensar, para criar, para errar, para recomeçar. Exige segurança. Saber que o amanhã não trará fome, despejo, desamparo. Exige comunidade. Gente com quem se possa contar sem ter que pagar. Nada disso existe sob o capital. O que existe é o medo. Medo do desemprego, medo da doença, medo da velhice, medo do fracasso. E sob o medo, ninguém floresce. Sob o medo, a pessoa se encolhe, se defende, se adapta. Vira o que o sistema precisa que ela seja: produtiva, dócil, ansiosa, solitária.


O socialismo é acusado pelos defensores do capital de querer destruir o indivíduo. De querer transformar todo mundo em formiga, em número, em massa. Essa acusação é velha, é repetida, mas é falsa. O socialismo não quer destruir o indivíduo. Quer destruir as condições que impedem o indivíduo de existir. Quer acabar com a propriedade privada dos meios de produção, que faz do trabalho alheio a fonte do lucro de poucos. Quer acabar com o trabalho assalariado, que transforma a vida em mercadoria. Quer colocar a fábrica, a terra, a tecnologia nas mãos de quem produz. Quer que a produção seja decidida coletivamente, conforme as necessidades humanas, e não conforme a rentabilidade.


Isso não é o fim do indivíduo. É o começo dele. Porque quando ninguém mais precisar vender sua vida por um salário, o tempo livre se expande. O tempo livre é o chão onde a individualidade cresce. É nele que o ser humano estuda o que ama, faz o esporte que gosta, pinta, canta, escreve, cuida dos seus, participa das decisões coletivas, experimenta, falha, tenta de novo. O trabalho deixa de ser fardo e passa a ser expressão criativa, porque não é mais imposto de fora, mas escolhido conscientemente como parte da vida comum. O indivíduo comunista não é a formiga cinzenta que o capitalista pinta para assustar. É o ser humano inteiro, que desenvolve todas as suas potencialidades, que não é mutilado pelo trabalho repetitivo, que não é esmagado pela competição.


Marx chamou isso de reino da liberdade. Ele começa onde termina o reino da necessidade. A necessidade é o trabalho obrigatório para garantir a sobrevivência material. Essa necessidade nunca será abolida; sempre será preciso plantar, construir, limpar, curar. Mas o que o socialismo faz é reduzir esse trabalho ao mínimo, por meio da tecnologia e da organização coletiva, para que sobre o máximo de tempo livre. Nesse tempo livre, o indivíduo é realmente dono de si. Não precisa se vender, não precisa competir, não precisa fingir. Pode ser, enfim, o que quiser ser.


Enquanto isso não chega, o trabalhador segue na corda bamba. De um lado, o discurso que o exalta: você é livre, você é empreendedor, você é único. Do outro, a realidade que o esmaga: a catraca, o ponto, a meta, o aplicativo que controla cada minuto, a conta que não fecha, o aluguel atrasado, o filho doente, o sono roubado. O indivíduo que o capital produz é um sobrevivente, não um vivente. É alguém que passa a vida correndo atrás do que precisa e nunca alcança o que deseja. Que sonha o sonho que a propaganda vendeu e acorda no pesadelo que a exploração impôs.


A solução não é se ajustar melhor ao sistema. Não é fazer terapia para suportar a insuportável jornada. Não é meditar para aceitar o inaceitável arrocho. Não é pedir aumento para comprar o que ontem não podia e amanhã também não poderá. A solução é mudar a lógica inteira. É recusar a forma social que transforma tudo em mercadoria: o trabalho, a terra, o alimento, o afeto, o tempo. É construir, desde já, os embriões do mundo novo. A greve que para a fábrica e decide o ritmo. A ocupação que toma a terra e planta comida. A assembleia que reúne o bairro e decide o destino da rua. A solidariedade que fura o bloqueio do medo e mostra que o outro não é inimigo, mas companheiro.


O indivíduo que o capitalismo diz defender não existe. É uma miragem. O que existe é o proletário que carrega o sistema nas costas e recebe em troca migalhas, promessas e culpa. O verdadeiro indivíduo só nascerá quando a sociedade inteira se organizar para que cada um possa viver, e não apenas sobreviver. Isso não é sonho. É necessidade histórica. A roda do capital está moendo gente, natureza e futuro. A humanidade não aguenta mais. Ou derrubamos essa máquina e construímos outra, fundada na cooperação e na liberdade real, ou seremos todos triturados por ela. A escolha está posta. E ela não se faz no voto, no consumo, na reclamação solitária. Ela se faz na rua, na greve, na organização, na decisão coletiva de não aceitar mais ser peça. De ser, enfim, humano.