A Tarefa do Proletariado Diante da Crise: Denunciar o Reformismo e Destruir o Capital
A crise que o capitalismo atravessa não é mais uma crise cíclica, daquelas que se resolvem com a destruição de parte do capital e a recomposição da taxa de lucro. É uma crise estrutural, sistêmica, que atinge os fundamentos do modo de produção. As contratendências que historicamente adiaram o colapso (a expansão imperialista, a superexploração da periferia, a financeirização, o endividamento estatal) estão esgotadas ou próximas do esgotamento. A queda tendencial da taxa de lucro, lei demonstrada por Marx, já não encontra válvulas de escape capazes de restaurar a acumulação em bases estáveis. O capital respondeu à crise de 2008 com mais especulação, mais arrocho, mais destruição de direitos. Depois vieram pandemia, guerra, colapso ambiental. Cada resposta aprofunda a ferida.
Nesse quadro, a barbárie não é um exagero retórico. É a tendência objetiva do capital em decomposição: fascismo, guerra, destruição ambiental, descarte de populações inteiras. A revolução é a contratendência. Mas ela não é automática. Depende da consciência e da organização do proletariado. A crise estrutural não garante o socialismo; abre a possibilidade. E a possibilidade pode se perder.
Diante disso, é preciso varrer do vocabulário militante as ilusões que enfraquecem a classe. A primeira delas é a expressão "emancipação humana". Ela pertence ao jovem Marx, aos textos de transição em que ele ainda se movia no terreno da filosofia pós-hegeliana e da antropologia de Feuerbach. Ali, a emancipação humana aparece como a superação da alienação em todas as suas formas, como a recuperação de uma essência perdida. É um conceito abstrato, ainda marcado pelo humanismo. O Marx do Capital abandonou esse vocabulário. Não por esquecimento, mas por superação. Em O Capital, não há necessidade de falar em emancipação humana, porque a ciência da exploração já estabeleceu quem pode libertar a humanidade e por quê. O sujeito não é o homem; é o proletariado. A transformação não é a recuperação de uma essência; é a abolição das relações de produção capitalistas. O objetivo não é realizar a humanidade; é destruir a propriedade privada, extinguir o trabalho assalariado, abolir as classes. A linguagem muda porque o método mudou. Usar "emancipação humana" como se fosse o conceito central é voltar atrás, é recair no humanismo abstrato, é apagar a luta de classes do horizonte.
O mesmo rigor deve ser aplicado à ideia de reforma. Não há conciliação possível entre reforma e práxis revolucionária. A reforma, quando arrancada pela luta, é um subproduto, um efeito colateral, jamais um programa. A burguesia concede reformas como quem abre uma válvula de segurança: para aliviar a pressão e impedir a explosão. A esquerda reformista transforma essas concessões em vitórias e as apresenta como etapas de um caminho pacífico para o socialismo. Isso é uma fraude. A reforma não é o caminho; é a interrupção do caminho. Ela melhora as condições da exploração sem tocar na exploração. Pode aumentar o salário, reduzir a jornada, garantir direitos. Mas mantém o salário, a jornada e os direitos como formas da venda da força de trabalho. A reforma é a administração da miséria.
A práxis revolucionária não nega a luta imediata. Ela a incorpora, mas a tensiona. A greve é uma escola, desde que não termine em acordo que desmobiliza. A ocupação é um ensaio de poder, desde que não seja despejada e esquecida. A diferença está na direção. A luta reformista luta por um lugar melhor dentro do capital. A luta revolucionária luta para destruir o capital. A primeira quer a colher; a segunda quer arrancar a árvore. As duas são incompatíveis. Quem faz da reforma um programa abandona a revolução. Quem faz da revolução o objetivo usa a reforma como terreno de preparação, sem ilusões sobre seu alcance.
E aqui está o ponto central que precisa ser cravado com todas as letras: o reformista não é um aliado tático. Não é um companheiro de estrada que se pode usar e depois descartar. O reformista é um contrarrevolucionário. Ele vive da fração da mais-valia que o capital cede aos intermediários para administrar a exploração. O sindicalista que assina acordos, o parlamentar que vota o ajuste, o dirigente de partido que promete o socialismo e entrega o arrocho. Todos eles são peças do mesmo mecanismo. Não são enganados; são funcionários. Não estão a caminho de se tornar revolucionários; estão a caminho de se perpetuar como casta burocrática. A sua existência material depende da continuidade do capital. Por isso, a sua prática é, objetivamente, contrarrevolucionária, independentemente do seu discurso.
A ideia de "usar" o reformista no campo tático parte de um pressuposto falso: o de que ele é neutro, maleável, disponível para ser conduzido pela vanguarda. Mas o reformista não é um instrumento passivo. Ele tem interesses próprios, e esses interesses são antagônicos aos da classe. Toda vez que é incorporado a uma frente, ele sabota por dentro. Esvazia a greve, negocia por baixo, desvia a pauta para o voto. Quando a crise se aguça, ele não hesita: escolhe o lado do capital. A história está cheia de exemplos. A social-democracia votou os créditos de guerra em 1914, mandou os trabalhadores para o matadouro, e depois ainda posou de vítima da história. O reformista não é um aliado que pode ser usado; é um inimigo que deve ser exposto.
A denúncia do reformismo não é uma questão de sectarismo. É uma questão de sobrevivência. Enquanto a classe trabalhadora acreditar que o reformista é um caminho, ela não construirá o seu próprio. Enquanto a greve for entregue ao sindicato burocrático, ela terminará em acordo que desmobiliza. Enquanto a revolta for canalizada para o parlamento, ela se dissolverá em eleições. O reformismo é o freio que a burguesia introduziu no coração da classe. Denunciá-lo é arrancar o freio.
A tese da "frente ampla" é a forma atual da conciliação. Ela junta comunistas, social-democratas, liberais e até setores da burguesia em nome de um objetivo comum imediato. Mas o que é comum aí? A manutenção da ordem. O social-liberal entra com o seu programa de gestão do capital; o reformista entra com a sua burocracia; o revolucionário entra como massa de manobra. Quando a crise estoura, quem ganha é o capital. A classe fica desarmada, fragmentada, confusa. A frente ampla é a forma política da rendição.
Portanto, a tarefa do proletariado revolucionário é dupla. Primeiro, organizar-se independentemente, sem vínculos com o Estado burguês, sem depender de verbas, sem aceitar a mediação de burocratas. Segundo, denunciar incansavelmente o reformismo em todas as suas formas: o sindicalismo amarelo, o parlamentarismo de esquerda, a conciliação de classes. A denúncia não é uma campanha de opinião; é uma prática. É romper com os reformistas nas bases, nas assembleias, nas greves. É expulsá-los dos espaços que ocupam para sabotar a luta. É mostrar ao trabalhador comum que o seu pior inimigo não é o patrão que está na fábrica, mas o dirigente que o vende a esse patrão em troca de migalhas.
A revolução não se faz com frentes. Faz-se com rupturas. O proletariado não precisa de aliados que o traem; precisa de organização que o arme. A denúncia do reformista é parte da construção dessa organização. É o ato de marcar o campo, de separar os que estão com o capital dos que estão contra ele. O reformista, uma vez denunciado, perde a máscara. E, sem máscara, fica evidente: ele nunca foi companheiro. Foi sempre obstáculo. A classe, ao reconhecê-lo como tal, avança um passo na direção da sua libertação.
A luta de classes não é uma mesa de negociação. É uma guerra. E em guerra, quem serve ao inimigo não é usado: é combatido. O reformista serve ao inimigo. Portanto, não é usado. É denunciado. E, quando a classe se levantar, será varrido junto com o capital que ele sempre serviu. A revolução é limpeza. E a limpeza começa pela denúncia dos traidores.
A crise estrutural do capital está aí, escancarada. A barbárie avança. O tempo da conciliação acabou. O que está em jogo não é quem administra o capital, mas se o capital será destruído antes que destrua o planeta. A resposta materialista é uma só: revolução do proletariado, como condição da superação de todas as classes. Nem emancipação abstrata, nem reforma, nem frente. Revolução. Fora disso, há apenas a repetição das velhas promessas reformistas, que terminam sempre no mesmo lugar: na traição, na desmobilização, na derrota. A história não se comove com palavras bonitas. Ela avança quando as massas se movem. E as massas se moverão quando compreenderem que a sua libertação é a destruição do sistema que as explora.