O Capitalismo Nu!
A Europa que se levanta em protestos não está diante de uma crise passageira. Está diante do capitalismo sem máscara. O capitalismo nu. Aquele que sempre existiu por baixo do verniz social-democrata, do Estado de bem-estar, do discurso dos direitos humanos. O que as ruas europeias revelam, com a frieza de uma lei física, é que a prosperidade dos centros sempre se ergueu sobre a transferência de valor das periferias. E que, quando essa transferência se esgota, o capital volta-se contra o próprio proletariado que antes beneficiava com as migalhas do butim.
A lei do valor opera em escala mundial. O trabalho executado nos países periféricos, mesmo mais intenso e prolongado, troca-se por menos valor no mercado mundial do que o trabalho executado nos centros com maior produtividade. A diferença é apropriada pelo capital dos países centrais. Foi com essa riqueza transferida que se financiou o chamado Estado de bem-estar, os salários mais altos, os serviços públicos, a infraestrutura. O proletariado europeu, durante décadas, beneficiou-se de migalhas do butim imperialista. O pacto social europeu nunca foi virtuoso. Foi um pacto de exploração global.
Agora, esse mecanismo está se esgotando. A superexploração das periferias atingiu seus limites. As taxas de lucro nos centros caem. A concorrência intercapitalista se acirra. E a burguesia europeia, para tentar salvar suas margens, volta-se contra o próprio proletariado da Europa. Retira direitos, corta serviços, arrocha salários, flexibiliza contratos, privatiza o que restava de público. O que os trabalhadores europeus estão sentindo nas ruas não é apenas a inflação ou o desemprego. É o fim de um pacto que nunca foi virtuoso, mas que garantia a eles uma posição relativa de privilégio dentro da hierarquia imperialista. O capitalismo nu mostra sua face: não há solidariedade de classe entre exploradores e explorados, não há pátria do capital, não há trégua duradoura.
Na França, mais de 550 mil pessoas nas ruas, com detenções em massa e policiais feridos. Na Itália, a praça do Duomo, em Milão, sitiada, com dezenas de feridos. Em Portugal, dezenas de milhares marchando em Lisboa e acampando na Praça do Rossio. Na Bélgica, gás lacrimogêneo contra manifestantes. Na Grécia, na Áustria, na Albânia, na Sérvia. O motor é o mesmo: a crise do custo de vida e a impossibilidade de acesso à moradia. Mas a raiz é mais funda: o capital não tem mais como sustentar as concessões que fazia ao proletariado dos centros.
O caso da idosa em Portugal é emblemático. Uma mulher de 81 anos, que pagava o aluguel em dia há 22 anos, foi despejada porque o senhorio decidiu não renovar o contrato. Em outro caso, uma mulher de 87 anos, que vivia há 70 anos no mesmo apartamento, viu o aluguel subir 275%. Não é que a renda dela tenha aumentado; é que o custo de morar tornou-se insustentável. A especulação imobiliária, alimentada pelo capital financeiro internacional, transformou a moradia em ativo rentável, expulsando os moradores para transformar os bairros em área de lucro. O proletariado europeu, que antes via o Estado como proteção, descobre que o Estado é o comitê executivo da burguesia e que a proteção acabou.
O capitalismo nu é este: o capital não hesita em sacrificar os trabalhadores da metrópole quando a acumulação o exige. A "Europa social" era uma trégua, não uma conquista. E a trégua acabou. O proletariado europeu, que durante décadas se beneficiou de migalhas do butim colonial, vê agora essas migalhas serem-lhe retiradas. A burguesia europeia, para sobreviver à sua própria crise, não hesita em destruir o "Estado de bem-estar" que ela mesma construiu como concessão. O capital não tem pátria. Ele não hesita em sacrificar os trabalhadores da metrópole quando a acumulação o exige.
A lição que os trabalhadores europeus precisam extrair é dura. A emancipação deles não pode ser construída sobre a exploração dos seus irmãos de classe nas periferias. A luta contra os despejos, contra a inflação, contra os cortes é justa e necessária. Mas será insuficiente se não se articular com a luta contra o imperialismo e contra a transferência de valor. A verdadeira fraternidade não é a que se proclama nos hinos nacionais, mas a que se constrói na solidariedade internacional entre todos os explorados, dos centros e das periferias. A crise atual é a oportunidade histórica para que o proletariado europeu rompa com seu papel de sócio menor do imperialismo e se una à luta global pela destruição do capital. O capitalismo nu não esconde mais nada. Mostra a exploração como ela é. E a barbárie que se anuncia não poupará ninguém.