Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Lumpemproletario Como Estratégia da Ordem Burguesa

O Lumpemproletariado como Estratégia: Capital, Guerra e a Produção do Descartável

O capital não é apenas um sistema de exploração do trabalho formal, nem se resume à relação patrão-empregado regida por contratos e leis burguesas. Em seu movimento real, o capital produz permanentemente uma massa de seres humanos considerados excedentes, descartáveis ou "inúteis" para a acumulação "legal". É essa massa (o lumpemproletariado) que este artigo examina não como acidente ou patologia social, mas como produto direto e funcional do próprio modo de produção capitalista. Longe de ser um resíduo passivo, o lumpemproletariado é mobilizado ativamente, sua força de trabalho (viva, precária, desprotegida) circula e reproduz mais-valia sem que seus agentes tenham consciência plena do papel que exercem. Essa mais-valia, apropriada pelos donos dos meios de produção, retroalimenta a indústria bélica, financia guerras geopolíticas e guerras civis nas periferias, e retorna ao mercado na forma de violência mercadorizada, completando assim um circuito necropolítico que sustenta o capitalismo contemporâneo.

 Trabalho vivo sem consciência de classe

O proletariado clássico (aquele que vende sua força de trabalho em troca de salário, dentro de uma relação jurídico-contratual) já não é a única figura da exploração. Ao lado dele, o capital mobiliza o que Marx chamou de trabalho vivo: a capacidade humana geral de produzir valor, que pode ser extraída mesmo sem vínculo empregatício formal, sem direitos, sem representação sindical. Esse trabalho vivo circula nas economias informais, nas plataformas digitais (uberização), nas terceirizações infinitas e, crucialmente, nas atividades criminalizadas.

O que impede esse trabalho vivo de se reconhecer como classe? A resposta está na própria fragmentação produzida pelo capital: a ilegalidade, a precariedade e a competição pela sobrevivência imediata corroem a consciência coletiva. O trabalhador do bico, o catador de recicláveis, o vigia noturno sem vínculo, o entregador sem proteção, o pequeno traficante da esquina, todos produzem valor real que se converte em capital nas mãos de quem controla os meios de logística, distribuição, armamento e financiamento. Mas essa massa não se vê como proletariado. Vê-se como autônoma, ou como excluída, ou como marginal. É o capital que mais lucra com essa inconsciência.

O lumpemproletariado: força de trabalho excedente e descartada da legalidade burguesa

O lumpemproletariado não é pré-capitalista. É pós-capitalista: produzido pela própria dinâmica de acumulação que gera desemprego estrutural, superpopulação relativa e informalização forçada. A legalidade burguesa (aquela que protege a propriedade privada, os contratos e o Estado de direito) funciona como uma cerca: dentro dela, o trabalho é regulado, tributado, visível; fora dela, o trabalho (e a vida) pode ser explorado sem mediações, sem garantias, e até violentamente eliminado sem maiores consequências jurídicas, pois essa eliminação se dará na periferia, na favela, na fronteira ou na cela.

É precisamente essa massa descartada que o capital utiliza para funções que o proletariado formal não aceitaria ou não poderia executar sem custos políticos elevados: o tráfico de drogas em larga escala, o contrabando de armas, a mineração ilegal, a grilagem de terras, os esquadrões de extermínio que limpam territórios para projetos imobiliários ou agronegócio, e (no plano geopolítico) os mercenários, os paramilitares e as milícias que atuam em guerras por procuração.

 Mais-valia lumpenizada: da favela à indústria bélica, e de volta ao mercado

A mais-valia extraída do trabalho vivo lumpenizado não retorna à favela sob a forma de escola, hospital ou saneamento. Retorna como financiamento para a indústria bélica
O esquema é o seguinte: O capital investe (diretamente ou via lavagem) no controle de territórios periféricos através do narcotráfico, do jogo ilegal, da exploração sexual ou do contrabando.
O lumpemproletariado executa o trabalho sujo da logística e da violência cotidiana, recebendo migalhas.
O lucro gigantesco sobe para os estratos superiores do capital financeiro, muitas vezes em paraísos fiscais.
Esse lucro é então aplicado na produção de armas, drones, munições, softwares de vigilância, sistemas de controle de fronteiras e financiamento de exércitos mercenários.
 As armas e os mercenários são vendidos ou alugados para governos que desejam esmagar revoltas sociais (em periferias globais) ou para grupos de oposição que desestabilizam governos considerados hostis aos interesses do capital.
· A violência resultante (mortes na favela, na fronteira, na zona de guerra) é então transformada em novas mercadorias: seguros de vida, funerárias, segurança privada, sistemas de monitoramento, reformas penitenciárias que são concessões lucrativas.
O ciclo está fechado: a vida precária produz valor, o valor vira morte, a morte é revendida como serviço.

Moral e ética burguesa: padronizando a subserviência

O capital não prescinde de justificativas morais. Pelo contrário, desenvolve uma ética própria que naturaliza a exclusão e criminaliza a resistência. Essa ética se expressa em discursos de "meritocracia", "empreendedorismo de sobrevivência", "responsabilidade individual" e "law and order". Para o lumpemproletariado, a mensagem é clara: você está fora da lei, portanto não tem direitos; mas sua força de trabalho ainda é útil, desde que aceite as regras do jogo sujo que lhe é oferecido. A favela, o morro, a prisão, são todos celeiros de trabalho vivo sem direitos.

A mesma moral burguesa que condena o tráfico de drogas no varejo (e encarcera em massa seus executores) não vê problema em usar os lucros desse tráfico para financiar a contra-revolução internacional. Os exemplos históricos são abundantes: o financiamento dos Contras na Nicarágua através da venda de armas e drogas (caso Irã-Contras, amplamente documentado), a lavagem de dinheiro do narcotráfico colombiano para campanhas políticas e operações paramilitares, e mais recentemente, o uso de criptomoedas e esquemas de mineração ilegal na Amazônia para financiar redes de desestabilização na América Latina.

Ameaça ao reformismo brasileiro e a perpetuação do ciclo

O reformismo brasileiro (entendido como a tentativa de conciliar democracia burguesa com políticas sociais redistributivas dentro dos limites do capitalismo) sempre foi um alvo frágil. O capital, quando vê ameaçada sua capacidade de extrair mais-valia livremente, não hesita em recorrer às ferramentas que o próprio circuito lumpen-bélico lhe oferece: milícias, desinformação, violência política, sabotagem econômica e, em última instância, golpes de Estado velados ou abertos.

A atual ameaça ao reformismo (seja representado pelo lulismo, pelo petismo ou por quaisquer variantes social-democratas) não vem apenas de setores tradicionais da burguesia industrial ou do agronegócio. Vem também dessa máquina de guerra financiada por capitais de origem obscura, máquina que já ajudou a derrubar governos na Bolívia (2002-2003, com a Guerra do Gás e o papel da USAID), em Honduras (2009), no Paraguai (2012), no Brasil (2016 e tentativas posteriores). Em todas essas operações, o elo entre lumpemproletariado armado, capital do narcotráfico e indústria bélica internacional está presente, ainda que nunca seja mostrado nos editoriais da grande imprensa.

O que está em jogo, portanto, não é uma simples falha de regulação ou um efeito colateral indesejado do capitalismo. É o próprio modo de funcionamento sistêmico: o capital precisa produzir um exército de excluídos legais para executar o trabalho que não pode ser contratado formalmente; precisa transformar esse exército em instrumento de guerra para proteger seus interesses geopolíticos; precisa então matar parte desse mesmo exército (em guerras externas ou internas) para depois vender a segurança contra a violência que ele mesmo patrocinou. É uma máquina de moer vidas que se auto reproduz.

Reconhecer isso é o primeiro passo para romper com a inconsciência do trabalho vivo. O lumpemproletariado não é "marginal" ao capital: é sua vítima mais íntima e, potencialmente, sua contradição mais explosiva. Porque o dia em que o favelado, o preso, o entregador, o catador e o soldado periférico perceberem que o inimigo não é o vizinho, nem o imigrante, nem o dependente químico, mas o sistema que lucra com sua morte, nesse dia, o circuito será quebrado. Até lá, o capital segue seu curso, indiferente, moral e ético apenas para padronizar a subserviência.
Falemos de revolução, internacional e permanente.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

A 6x1, a CLT e a Escravidão Assalariada

A 6x1, a CLT e a Escravidão Assalariada

A escala 6x1 é desumana. Trabalhar seis dias para descansar um destrói o corpo, a mente, a família, a vida. Lutar contra ela é justo. Mas é preciso entender o que está por trás. A 6x1 não é um acidente. A CLT não é uma conquista definitiva. Ambas são instrumentos da mesma coisa: a escravidão assalariada.

O que é a escravidão assalariada? É o sistema em que o proletário, por não possuir terra, fábrica, máquina ou matéria-prima, só tem uma alternativa para não morrer de fome: vender sua força de trabalho a quem possui tudo isso. Esse alguém pode ser o patrão da esquina ou a transnacional. Ambos compram a força de trabalho por um salário. O salário paga uma parte do que o proletário produz. A outra parte, a maior, fica com quem comprou. É a mais-valia. É trabalho não pago. É a fonte do lucro. O patrão é apenas a face visível. A classe burguesa é a proprietária real. O patrão manda na fábrica, mas é a burguesia que dita o modo de produção.

Essa é a exploração fundamental. Não é um desvio do capitalismo. É o capitalismo. Todo o resto (jornada, salário mínimo, férias, décimo terceiro, escala de trabalho) é disputa sobre os termos da exploração, não sobre a existência dela. A CLT nunca aboliu a mais-valia. Ela regulou a extração. Disse quanto se pode sugar, de que forma, com quais intervalos. Mas não disse que não se pode sugar. Pelo contrário: deu forma legal à sucção.

Quando a CLT foi criada, a burguesia cedeu porque o proletariado estava organizado e pressionando. Foi uma concessão para salvar o essencial: a propriedade privada dos meios de produção e a extração de mais-valia. Agora, com a crise estrutural do capital, as concessões são retiradas. A taxa de lucro tende a cair. A burguesia precisa compensar. Como? Intensificando a exploração. A reforma trabalhista de 2017 rasgou a CLT. Terceirização, pejotização, trabalho intermitente, uberização. A 6x1, que já era a regra para milhões, se generaliza. A burguesia está descartando os freios que ela mesma aceitou no passado.

Lutar pela 6x1 é necessário, mas é lutar por uma corrente mais curta. A corrente é o trabalho assalariado. Enquanto o proletário vender sua força de trabalho, o fruto do seu trabalho pertencerá à classe que detém os meios de produção. A CLT e a 6x1 são apenas o contrato que regula essa venda. O proletário continuará produzindo riqueza para outro. Continuará sendo explorado. Continuará vendo o que produziu passar na frente dos seus olhos e sumir no bolso da classe que nada produziu.

A abolição da escravidão assalariada é a única saída. Isso significa acabar com a venda da força de trabalho. Significa abolir a propriedade privada dos meios de produção pela classe burguesa. A terra, as fábricas, as máquinas, a tecnologia, tudo o que é necessário para produzir não pode pertencer a uma classe que vive de sugar trabalho alheio. Deve pertencer ao proletariado organizado. Quem produz decide o que, como e para que produzir. O fruto do trabalho fica com o proletário que o produziu.

A luta pela 6x1 pode ser um passo, desde que aponte para além de si mesma. Desde que diga: não queremos só uma escala melhor, queremos o fim da exploração. Se a luta parar na 6x1, se a 6x1 for conquistada e a vida seguir como antes, a burguesia venceu. Deu uma migalha e manteve o fundamental: a propriedade privada dos meios de produção. A exploração continuará. A mais-valia continuará sendo extraída. O proletário continuará sendo um servo moderno, livre para escolher qual fração da burguesia vai sugar seu sangue (se o patrão pequeno, se o grande capital).

A escravidão assalariada é a forma atual da servidão. Na escravidão antiga, o corpo era propriedade. Na assalariada, o corpo é livre, mas a necessidade prende. O chicote é o boleto. A senzala é o aluguel. O feitor é o aplicativo. A CLT foi uma coleira mais frouxa. A 6x1 é a coleira apertando de novo. A luta não pode ser por uma coleira mais confortável. A luta tem que ser para arrancar a coleira.

Fim da escala 6x1 é necessário. Mas o horizonte é a abolição da propriedade privada dos meios de produção pela classe burguesa. Uma é reforma. A outra é ruptura. A reforma alivia. A ruptura liberta. O proletário não precisa de patrão. O proletário não precisa de burguesia. O proletário precisa dos meios de produção. E esses meios já estão aí, construídos por ele mesmo, ao longo de gerações. Só estão nas mãos erradas. É hora de tomar de volta. Não do patrão que também é engrenagem. Da classe que é dona da engrenagem inteira.

O Capital de Hoje é trabalho Não Pago Ontem

O Capital de Hoje é Trabalho Não Pago de Ontem

O capital que os donos do mundo exibem hoje não caiu do céu. Não é fruto de engenhosidade, de risco, de esperteza. É trabalho não pago acumulado. Cada máquina, cada prédio, cada ação na bolsa, cada latifúndio é trabalho vivo que foi sugado, cristalizado e apropriado pela classe dominante. Esse processo não começou ontem. Começou quando a acumulação primitiva arrancou o produtor de sua terra, de sua ferramenta, de seu saber, e o jogou no mercado como vendedor de força de trabalho. Daí em diante, a roda girou: o proletário produz, o burguês embolsa, o capital cresce. O capital de hoje é a mais-valia de ontem, de anteontem, de séculos. É trabalho morto que domina o trabalho vivo. É o suor do seu avô, do seu pai, seu, transformado em propriedade alheia.

Essa é a base material. Sobre ela se ergue todo o resto. A propriedade privada dos meios de produção não é um detalhe jurídico. É a chave que separa o produtor do fruto, o trabalho da riqueza, a humanidade da sua própria obra. Enquanto essa chave estiver na mão da classe burguesa, não há salário que resolva, não há reforma que baste, não há eleição que mude a essência. A necessidade do proletariado é simples: para viver, precisa acabar com a propriedade que o explora. Não se trata de dividir melhor. Trata-se de abolir. A propriedade privada dos meios de produção não pode ser regulada, tributada ou humanizada. Ela precisa ser extinta. Esse é o ponto de partida.

Mas não para aí. A burguesia não se sustenta apenas com a fábrica. Ela criou instituições que reproduzem a dominação para além do chão da mina e da linha de montagem. A família monogâmica é uma delas. Não a família como afeto, como vínculo livre entre pessoas que se amam. Mas a família como unidade econômica, como célula de transmissão da propriedade privada, como espaço onde a mulher serve sem salário e o filho aprende a obedecer. A família monogâmica organiza a herança, garante que o capital passe de pai para filho, naturaliza a hierarquia, esconde a exploração doméstica sob o tapete do amor. A revolução que queremos não destrói o afeto. Destrói a forma social que prende o afeto à propriedade.

A sociedade de classes também precisa cair. Não há convivência possível entre explorador e explorado. A classe burguesa não abrirá mão do poder porque foi convencida. Ela só recua quando a alternativa é ser varrida. A história não dá exemplos de classe dominante que entregou o poder voluntariamente. Cada direito arrancado foi conquistado na greve, no confronto, na rua. Cada reforma foi resposta ao medo da ruptura. A sociedade dividida entre proprietários e despossuídos é a fonte de toda violência. A fome é violência de classe. O desemprego é violência de classe. A guerra é violência de classe. A solução não é paz entre as classes. A solução é o fim das classes.

E o Estado, o que é? A classe burguesa aparece pouco na televisão. Ela manda através do Estado. O Estado é a forma política da dominação de classe. Ele existe para garantir que a propriedade privada permaneça intocada, que a exploração continue legal, que a greve seja criminalizada, que a revolta seja reprimida. Quando a burguesia se sente segura, o Estado aparece como democracia, direito, cidadania. Quando a luta de classes se aguça, o Estado mostra a cara: exército na rua, toque de recolher, estado de exceção. Não há Estado neutro. Não há Estado que sirva a dois senhores. O Estado serve à classe que detém os meios de produção. Por isso a pauta do proletariado não é ocupar o Estado, não é reformar o Estado, não é eleger um gerente melhor para o Estado. É destruir o Estado burguês e construir o poder próprio: conselhos, assembleias, comitês de base. O poder de quem produz.

Essa é a pauta. Propriedade privada, família monogâmica, sociedade de classes, Estado. Não são quatro problemas separados. São quatro pilares do mesmo sistema. Derrubar um sem derrubar os outros é trocar o lugar da opressão. A história já tentou domar a lógica do lucro. Já tentou regular, já tentou humanizar, já tentou conciliar. Fracassou todas as vezes. Porque a lógica do lucro é incompatível com a lógica humana. O capital precisa expandir-se ou morre. Para expandir-se, precisa sugar trabalho vivo e recursos naturais sem fim. Mas o trabalho vivo é finito (o corpo cansa, adoece, morre) e a natureza é finita (o planeta dá sinais de esgotamento todo dia). A lógica do lucro conduz ao desastre. A lógica humana conduz à vida.

Falar em revolução não é bravata. É a conclusão que a realidade impõe. O capital não tem mais nada a oferecer além de barbárie: desemprego estrutural, destruição ambiental, guerras, estados de exceção, descarte de populações inteiras. A classe burguesa já não pode governar como antes. O proletariado já não pode viver como antes. A ruptura está posta. Não como possibilidade remota. Como necessidade imediata. O capital é o mesmo: trabalho morto acumulado que suga trabalho vivo. A solução é a mesma: arrancar os meios de produção das mãos da burguesia, destruir suas instituições de dominação, construir o poder proletário.
É hora da lógica humana. É hora de revolução internacional e permanente.

Guerra para quem?

Guerra para quem?" 
Para o proletário que morre no front, para a trabalhadora que perde o filho, para o povo que paga com impostos e inflação. Para a classe que produz toda a riqueza e só recebe em troca miséria, morte e traumas.
Essa guerra, como todas as outras, não representa a defesa das necessidades da classe proletária. O proletariado não precisa de novos mercados, não precisa de petróleo, não precisa de posição geopolítica. Precisa de trabalho, saúde, moradia, educação, lazer, paz e a posse coletiva dos meios de produção. Nenhuma guerra capitalista entrega isso.
Entrega sim, a defesa da manutenção da exploração da classe que produz riqueza.
A guerra é o prolongamento da exploração por outros meios. Quando o capital não consegue extrair mais-valia na fábrica, extrai sangue na trincheira. 
O objetivo é sempre o mesmo, garantir as condições para que a burguesia continue acumulando.
Que o povo na rua seja o exército de reserva da revolução proletária mundial!
O mesmo povo que hoje protesta contra a guerra, contra o genocídio, contra a fome, o desemprego, esse povo, se organizado e conscientizado, pode se transformar na força motriz da derrubada do sistema. O "exército de reserva" de Marx (os desempregados que disciplinam os que trabalham) pode se converter no exército ativo da revolução, aqueles que, por não terem nada a perder além dos seus grilhões, têm tudo a ganhar.
A história não está escrita.
A agonia do imperialismo pode ser o prelúdio da barbárie ou o parto de um mundo novo. A diferença entre um e outro é a organização independente da classe trabalhadora.
Que a guerra escancare a podridão do sistema. Que o povo saia às ruas. E que, desse turbilhão, surjam os sovietes, os conselhos, os comitês de greve, o poder popular que um dia há de enterrar o capital e a guerra para sempre.
A luta segue e é internacional permanente.

Trabalho vivo sendo morto

 A Bolívia acaba de decretar estado de exceção. O governo diz que é para garantir a ordem. Mas ordem de quem? Para quem? A resposta está na economia, não nos discursos.


Todo mundo sabe que a Bolívia é rica. Lítio, gás, estanho, água. Mas a riqueza natural não vira riqueza social sozinha. Para virar, precisa de trabalho humano. É o mineiro que arranca o minério do chão. É o camponês que planta. É o operário que transforma. Esse trabalho vivo (a energia humana gasta na produção, o suor de quem faz a roda girar) é a única fonte de valor novo. Sem ele, não há lucro, não há sistema. O patrão (seja ele boliviano, brasileiro ou transnacional) vive de sugar trabalho não pago. Paga um salário que cobre parte da jornada e embolsa o resto. Isso se chama mais-valia. É o coração do capitalismo.


Mas o capitalismo tem uma doença incurável que ele mesmo produz. Para competir, cada empresa precisa baixar custos. A forma mais eficaz é trocar gente por máquina. A máquina produz mais, mais rápido, sem cansar, sem fazer greve, sem pedir aumento. Só que a máquina é trabalho morto (trabalho passado, já cristalizado em equipamentos, que só transfere o valor que contém sem criar nada novo). Quem cria valor novo é o trabalho vivo (gente trabalhando de verdade). Então o sistema faz o seguinte: quanto mais automatiza, mais expulsa trabalhadores. Quanto mais expulsa, menos trabalho vivo está disponível para sugar. Quanto menos trabalho vivo, menos mais-valia. Quanto menos mais-valia, menos lucro. O capital cava o buraco onde ele mesmo vai cair.


Para adiar a queda, ele tem três saídas. Nenhuma resolve.


Primeira: arrancar mais de quem ainda está empregado. Jornadas mais longas, ritmo alucinado, salários rebaixados. O trabalhador que sobra paga pelo trabalhador que foi descartado.


Segunda: levar a produção para países onde a mão de obra é mais barata e os direitos são menores. A Bolívia recebeu investimento estrangeiro exatamente por isso. Mas a automação chega lá também, e a concorrência entre países pobres achata ainda mais os salários.


Terceira: especular. Dinheiro que faz dinheiro sem passar pela fábrica, pela mina, pela roça. Só que especulação não cria uma grama de valor (valor é trabalho humano materializado, e especulação é só aposta). Ela suga o valor produzido em algum canto do mundo e aposta na destruição.


Enquanto isso, a natureza grita. O capital trata a terra como fonte infinita de matéria-prima e depósito infinito de lixo. Não é. O esgotamento bate à porta todo dia: seca, inundação, incêndio, desertificação. Para extrair lítio, o capital devasta salares, suga aquíferos, expulsa comunidades. Depois vende a bateria como "energia limpa". A limpeza fica na propaganda. A sujeira fica no território.


Nesse quadro, a crise não é um acidente. É o modo normal de funcionamento do sistema. Crise periódica, crise estrutural, crise que não passa mais. A taxa de lucro tende a cair no longo prazo (porque o capital substitui trabalho vivo por trabalho morto, e só o trabalho vivo gera lucro novo). O que sustenta o capital são contratendências que um dia se esgotam. Quando se esgotam, vem o ajuste. E o ajuste tem nome: arrocho, privatização, corte de gasto, estado de exceção.


A Bolívia viveu um ciclo reformista com Evo Morales. Nacionalizou alguns setores. Isso não é socialismo. É o Estado capturando renda mineira e distribuindo uma parte para conter o descontentamento. A propriedade privada dos meios de produção ficou intocada. Os movimentos sociais foram cooptados, as lideranças viraram base parlamentar, a luta de classes foi desarmada. Enquanto o preço das commodities (produtos primários como minério, gás e soja, vendidos em bruto no mercado mundial, cujo preço é definido pelas bolsas internacionais e escapa ao controle do país que os produz) esteve alto, a conta fechava. Quando despencou, a margem para concessões desapareceu. O que veio depois não foi traição. Foi continuidade lógica: o capital sem maquiagem, com Rodrigo Paz aplicando o programa que a crise mundial exige.


A classe trabalhadora boliviana respondeu como se responde a um ataque: greve geral, bloqueios, ocupações. Mineiro parou mina. Camponês fechou estrada. Morador de El Alto tomou rua. Isso não é baderna. É a defesa da vida contra um sistema que suprime a vida.


O estado de exceção é a resposta do Estado. O Estado não é neutro. Ele é a forma política da dominação do capital. Quando a dominação funciona pelo convencimento, ele aparece como democracia, direito, cidadania. Quando o convencimento falha, ele mostra a essência: violência organizada dos proprietários contra os produtores. Exército na rua. Toque de recolher. Prisão de lideranças. Criminalização do protesto. Tudo com a assinatura do Judiciário e o silêncio da grande imprensa.


A grande imprensa, aliás, cumpre seu papel. Não informa, deforma. Chama a greve de "caos". Chama o bloqueio de "vandalismo". Chama o estado de exceção de "medida necessária". Esconde que o caos é produzido pelo capital, que o vandalismo é a destruição cotidiana da natureza e dos corpos, que a medida necessária seria tirar o poder de quem destrói o planeta.


A imprensa que se diz alternativa também faz sua parte na manutenção da ordem. Entrevista Evo, discute "recomposição do campo popular", trata a crise como se fosse uma disputa entre gerentes. Isso desvia a atenção da raiz. A raiz não é se o governo é de direita ou de esquerda. A raiz é que qualquer governo dentro do capitalismo administra a exploração. Pode administrar com chicote ou com cenoura. Mas o chicote e a cenoura estão na mão da mesma classe.


O estado de exceção é a admissão de que a cenoura acabou. O capital não pode mais governar com consentimento. Precisa governar com medo. Mas o medo não produz valor. O medo não extrai lítio. O medo não planta comida. O medo pode paralisar por um tempo, mas não resolve a contradição que gerou a crise. A contradição segue lá: o capital precisa de trabalho vivo (gente produzindo) e ao mesmo tempo o elimina; precisa de natureza e ao mesmo tempo a destrói; precisa de consumidores e ao mesmo tempo os empobrece.


Essa contradição não tem solução dentro do sistema. Reformar não adianta. Votar não adianta. Trocar o gerente não adianta. A única saída é arrancar o poder das mãos da classe que vive de sugar trabalho alheio e destruir o mecanismo que transforma tudo em mercadoria.


Isso significa abolir a propriedade privada dos meios de produção. A terra, a água, o subsolo, as fábricas, a tecnologia (tudo isso foi produzido coletivamente) e deve ser gerido coletivamente. Não para gerar lucro, mas para satisfazer necessidades.


Significa abolir o trabalho assalariado. Ninguém deve vender sua vida por um salário que mal repõe as forças gastas. A tecnologia, hoje usada para descartar gente, deve ser usada para reduzir a jornada, eliminar o trabalho penoso, liberar tempo para viver.


Significa construir poder de classe, não delegação a salvadores. Conselhos, assembleias, comitês de base. Formas de decisão em que quem produz decide o que, como e para que produzir. Sem intermediários que traem na primeira negociação.


O estado de exceção na Bolívia é um aviso. O capital está sem saída e está disposto a tudo. A pergunta é: a classe trabalhadora está disposta a quê? Continuar aceitando a exploração com verniz indigenista ou terno neoliberal? Ou romper com a exploração de uma vez por todas?

Não há terceira via. Ou enterramos o capitalismo, ou ele nos enterra (e com ele enterra a terra, a água, o ar, o futuro). A hora é agora.