O Paraguai e a Crise Estrutural: A Periferia como Laboratório da Barbárie
O que aconteceu no Paraguai na primeira semana de novembro de 2026 não é um escândalo de corrupção. É a crise estrutural do capitalismo mundial se manifestando numa economia periférica, dependente e superexplorada. A queda do presidente Santiago Peña, em meio ao colapso do Ueno Bank, que congelou os depósitos de cerca de 60% da população adulta do país, é a ponta visível de uma contradição muito mais profunda . Não se trata de um gerente ruim que foi substituído. Trata-se de um sistema que, em sua fase de decomposição, não consegue mais garantir sequer a reprodução da força de trabalho através do crédito e do consumo.
O Paraguai é um caso exemplar da inserção subordinada na divisão internacional do trabalho. Sua economia depende da exportação de soja e carne, produtos primários cujos preços são definidos pelas bolsas internacionais e que concentram a maior parte das vendas em pouquíssimos mercados: Brasil, Argentina e Chile respondem por 72% das exportações . O país não tem relações diplomáticas com a China, seu principal fornecedor, e precisa triangular a venda de sua produção através de vizinhos, perdendo valor agregado no caminho . Essa estrutura não é um acidente geográfico. É o resultado histórico da divisão internacional do trabalho que Marx descreveu: uma parte do globo convertida em campo de produção agrícola para abastecer a parte industrializada .
Sobre essa base material, o capital financeiro internacional opera a pilhagem. O Ueno Bank não era um banco qualquer. Era uma instituição digital que, em poucos anos, capturou os depósitos de milhões de paraguaios e administrava cerca de 850 milhões de dólares em fundos públicos, incluindo pensões de aposentados . O Banco Central interveio quando descobriu que o banco havia concedido créditos a empresas ligadas aos próprios donos e registrado despesas como ativos, deixando o capital abaixo da metade do mínimo legal . A falência não foi um erro de gestão. Foi a lógica da acumulação financeira levada ao seu limite: extrair o máximo de valor possível do trabalho vivo pretérito (os depósitos, as pensões, a poupança dos trabalhadores) e, quando a pirâmide não se sustenta mais, deixar o prejuízo para a classe que produziu essa riqueza.
O presidente Peña caiu porque era acionista do grupo controlador do banco até março de 2025 . A oposição o acusou de conflito de interesses e de usar instituições públicas para favorecer negócios privados . Mas a queda de Peña não resolve a crise. O Congresso rejeitou sua renúncia para que ele não ganhasse foro privilegiado como senador vitalício, e o vice-presidente Pedro Alliana, também supostamente implicado no processo de dissolução do Ueno, assumiu a presidência . A burguesia paraguaia trocou o gerente que se tornou um risco para a acumulação por outro, igualmente comprometido com a mesma lógica. A estrutura permanece intacta.
A resposta da classe trabalhadora paraguaia veio às ruas. Protestos exigiram a punição dos responsáveis, e o Ministério Público pediu a prisão de oito pessoas, incluindo o presidente do Ueno . Mas a revolta, sem organização independente e sem direção revolucionária, se esgota na exigência de "justiça" dentro da ordem. Os camponeses da Coordenadora de Trabalhadores Campesinos e Urbanos (CTCU) já haviam marchado em julho de 2026 contra o abandono do Estado, exigindo acesso à terra e assistência social . A luta deles é justa, mas fragmentada. O capital paraguaio, como todos os capitais periféricos, sobrevive porque a classe não consegue unificar suas lutas.
O que o Paraguai revela é a face nua da crise estrutural. O país cresceu 6,6% em 2025, com projeções de 4,5% para 2026 . O Ministério da Economia celebra a "solidez macroeconômica" e o retorno ao limite de déficit fiscal de 1,5% do PIB em 2028 . Mas esse crescimento não chega à classe trabalhadora. Ele se concentra no agronegócio exportador, no setor de serviços financeiros, na máquina, enquanto a maioria da população viu seus depósitos congelados e suas pensões ameaçadas. A "estabilidade" que os economistas celebram é a estabilidade da exploração. A "confiança dos mercados" é a confiança de que os credores serão pagos, com juros, sobre o trabalho vivo dos paraguaios.
A lição materialista é esta: a crise do capital não se manifesta apenas nas grandes potências. Ela desce pela hierarquia imperialista e atinge com mais violência as economias periféricas, que não têm margem para conceder reformas nem para sustentar o crédito que mantém a classe trabalhadora sobrevivendo. O Paraguai é o laboratório onde a barbárie se mostra sem máscara: um banco quebra, milhões perdem o acesso ao próprio dinheiro, o presidente renuncia, outro assume, e a estrutura de exploração continua. A tarefa do proletariado paraguaio, como a do proletariado mundial, não é trocar o presidente nem salvar o banco. É construir organização independente, comitês de base, conselhos operários. É preparar a ruptura. É destruir a propriedade privada dos meios de produção. Fora disso, a crise continuará sendo administrada em benefício do capital, e a conta continuará sendo paga pela classe que produz toda a riqueza.