Por Que Estamos Presos ao Em Si e Distantes do Para Si
A classe trabalhadora existe objetivamente como classe. Está posicionada na estrutura de produção, vende sua força de trabalho, gera mais-valia, é explorada. Isso é o em si. Mas a passagem ao para si, a consciência de que essa posição é antagônica ao capital e de que a emancipação exige a destruição da relação-capital, essa passagem não é automática. Ela é histórica, conquistada na luta, e pode ser revertida. Estamos presos ao em si porque as condições materiais que produziam o para si foram desarticuladas. Não por acaso, não por erro, mas por necessidade do próprio capital em sua fase de decomposição.
O primeiro fator é a fragmentação do processo de trabalho. A fábrica concentrada, onde centenas ou milhares de proletários compartilhavam o mesmo espaço, o mesmo ritmo, a mesma exploração, era uma escola de coletividade. Ali nasciam os sindicatos, as greves, a solidariedade. Hoje, a produção foi dispersa. A cadeia produtiva é global. O trabalhador de plataforma está sozinho com seu celular. O home office isola. A terceirização pulveriza. O proletariado está disperso, atomizado, competindo consigo mesmo. Sem concentração, não há coletividade. Sem coletividade, não há consciência de classe.
O segundo fator é a financeirização da vida cotidiana. O proletário não é apenas explorado como produtor; é integrado como devedor. Cartão de crédito, cheque especial, consignado, financiamento, parcelamento. A dívida amarra o trabalhador ao sistema. Ele precisa do emprego para pagar a dívida. Precisa do salário para não perder o carro, a casa, o celular. A greve, que antes era uma arma, torna-se um risco existencial. O medo da demissão, do nome sujo, do despejo, paralisa. O capital descobriu que é mais eficaz endividar o proletário do que reprimi-lo. A jaula tem a forma de um boleto.
O terceiro fator é a destruição das instituições de classe. Os sindicatos foram burocratizados, cooptados, transformados em correias de transmissão do capital. Os partidos operários se tornaram máquinas eleitorais. As organizações comunitárias viraram ONGs financiadas por fundações burguesas. Os espaços de sociabilidade operária (clubes, jornais, escolas, bibliotecas) foram engolidos pela indústria cultural. O proletariado perdeu os lugares onde aprendia a ser classe. Perdeu os instrumentos de sua própria formação. Ficou nu diante da ideologia dominante.
O quarto fator é a reorganização espacial e temporal do capital. As cidades foram gentrificadas. Os bairros operários foram destruídos. Os trabalhadores foram empurrados para as periferias distantes, longe dos locais de trabalho, longe uns dos outros. O tempo de deslocamento consome horas que poderiam ser de organização. A jornada se estende, se fragmenta, se precariza. O trabalho intermitente, a escala 6x1, o aplicativo que chama quando quer. Não há tempo para a política. Não há tempo para a consciência. Há apenas tempo para sobreviver.
O quinto fator é a hegemonia ideológica do capital. A meritocracia, o empreendedorismo, o individualismo, a cultura do consumo, a religião da prosperidade. Tudo isso penetra na mente do proletário e o convence de que sua miséria é culpa própria, de que a saída é individual, de que a luta coletiva é coisa do passado. A ideologia dominante não é apenas propaganda; é a forma como o capital organiza a vida para que a exploração pareça natural. E, quando a ideologia falha, entra o entretenimento. O celular, o streaming, o jogo, a rede social. O ópio do povo não é mais apenas a religião; é o algoritmo.
O sexto fator é a ausência de um horizonte alternativo. O século XX conheceu o socialismo real, com todos os seus erros e degenerações. Ainda assim, era uma alternativa concreta. Hoje, o capital se apresenta como eterno, como a única forma possível de sociedade. Não há modelo, não há país, não há partido que encarne a possibilidade de uma vida diferente. Sem horizonte, a revolta se torna desespero. E o desespero, sem organização, se torna cinismo, abstenção, violência individual. Todas as formas que o capital tolera, porque não o ameaçam.
Mas o em si contém o para si em germe. A contradição entre a socialização da produção e a apropriação privada se aprofunda. O capital suga o trabalho vivo até a última gota. A crise estrutural se agrava. A barbárie avança. E, em algum momento, a paciência se esgota. A greve explode onde menos se espera. A ocupação surge onde ninguém previa. A consciência de classe não é um dom; é uma conquista. E, enquanto houver exploração, haverá luta. A questão não é se o para si voltará, mas quando, como e sob que forma. A resposta não está escrita. Está sendo construída.