Como a Existência Determina a Consciência
A frase é categórica e não admite meio-termo: não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência. Marx a formulou no chão da crítica a Hegel e a Feuerbach, e ela se tornou o fundamento do materialismo histórico. Mas o que significa, concretamente, que a existência determina a consciência? Significa que as ideias, os valores, a moral, a religião e a filosofia não caem do céu nem brotam espontaneamente de uma razão abstrata. Brotam do chão material onde os homens produzem sua vida. E o primeiro ato dessa produção é comer, beber, abrigar-se, vestir-se. Antes de pensar, o homem age. Antes de filosofar, trabalha.
O trabalho é o metabolismo entre o corpo humano e a natureza. Ao transformar a natureza, o homem transforma a si mesmo. A mão que lasca a pedra desenvolve o cérebro que planeja o próximo golpe. A necessidade de cooperar na caça gera a linguagem. A convivência na tribo gera as primeiras normas, os primeiros costumes, as primeiras representações do mundo. A consciência não é um dom divino nem uma essência transcendental. É um produto social, nascido da atividade material. O homem que produz seus meios de vida produz, indiretamente, sua própria vida material e, com ela, as ideias que fará sobre si mesmo e sobre o mundo.
Em cada modo de produção, a consciência assume formas determinadas. Na comunidade primitiva, onde a terra era comum e a cooperação simples, a consciência era imediata, gregária, colada ao grupo. Não havia separação entre indivíduo e coletividade, e as ideias refletiam essa indistinção. Com a propriedade privada e a divisão da sociedade em classes, a consciência se cinde. Os proprietários dos meios de produção passam a viver do trabalho alheio. Os trabalhadores, despossuídos, vendem sua força de trabalho para sobreviver. Essa cisão material gera uma cisão ideológica. A classe dominante, que controla a produção material, controla também a produção espiritual. Suas ideias tornam-se as ideias dominantes.
O escravismo antigo produziu uma filosofia que justificava a escravidão como natural. O feudalismo produziu uma teologia que santificava a hierarquia. O capitalismo produz uma ideologia que transforma a exploração em contrato, o lucro em merecimento, o salário em justiça. A consciência do trabalhador sob o capital é, em grande medida, a consciência que a burguesia lhe impõe. Ele aprende na escola, na igreja, na televisão e no discurso do patrão que o mercado é neutro, que o esforço compensa, que a miséria é culpa individual. Mas essa consciência não é apenas imposta de fora. Ela brota da própria experiência cotidiana do trabalhador, que, ao vender sua força de trabalho, recebe um salário que parece pagar todo o seu esforço. A mais-valia, trabalho não pago, permanece oculta sob a aparência do contrato justo. O trabalhador não vê a exploração; vê o salário.
Aqui opera o fetichismo da mercadoria, essa inversão fundamental pela qual as relações entre pessoas aparecem como relações entre coisas. O valor, que é trabalho humano abstrato, aparece como propriedade natural dos objetos. O dinheiro, que é relação social cristalizada, aparece como poder autônomo. A reificação atinge a própria consciência do trabalhador sobre si mesmo. Ele se percebe como coisa, como mercadoria, como custo. Sua subjetividade é moldada pela forma valor. Ele não se reconhece como produtor, como criador, como sujeito histórico; reconhece-se como desempregado, como currículo, como função. A consciência coisificada é a consciência que o capital precisa para se reproduzir: passiva, fragmentada e culpada.
Mas essa mesma existência que determina a consciência contém a semente da sua transformação. O capitalismo, ao concentrar os trabalhadores na fábrica, ao socializar a produção, ao criar a cooperação forçada, gera as condições materiais para uma nova consciência. A exploração, quando se torna insuportável, deixa de ser natural e se revela como violência. A greve é o momento em que a consciência desperta. Ao paralisar a produção, o trabalhador descobre que o capital não produz nada sozinho. Descobre que o patrão precisa dele mais do que ele precisa do patrão. A consciência sindical é o primeiro passo. A consciência revolucionária é o passo seguinte: compreender que a exploração não se resolve com melhores salários, mas com a abolição do trabalho assalariado. É a passagem da classe em si, determinada pela posição na produção, à classe para si, que compreende seus interesses históricos e age para realizá-los.
A consciência de classe não é automática. Ela é construída na luta, na organização e na teoria. A crítica da economia política é a ferramenta que desvela a essência sob a aparência, a mais-valia sob o salário, a exploração sob o contrato. Armado com esse conhecimento, o proletário deixa de ser joguete das circunstâncias e se torna construtor da história.
A existência determina a consciência, mas a consciência também age sobre a existência. A dialética materialista recusa tanto o idealismo, que acredita que as ideias mudam o mundo sozinhas, quanto o mecanicismo, que acredita que a economia explica tudo. A consciência revolucionária, uma vez produzida pelas contradições materiais, torna-se ela mesma uma força material. Organiza a greve, dirige a ocupação e planeja a ruptura. A classe que toma consciência de sua situação histórica não apenas compreende o mundo, mas o transforma. E, ao transformá-lo, transforma a si mesma.
A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores. Essa frase não é um slogan, mas uma tese materialista. Porque só quem experimenta a exploração no corpo pode superá-la. A consciência que nasce da existência proletária não é uma consciência qualquer. É a única que pode ir até o fim, porque não tem nada a perder além das correntes. A existência burguesa também determina a consciência, mas é uma consciência limitada, presa ao fetichismo, incapaz de ver a história como movimento. A existência proletária, ao contrário, carrega a possibilidade da visão totalizante, porque sua miséria é a chave que abre a compreensão do sistema inteiro.
A existência determina a consciência. Por isso, mudar a consciência exige mudar a existência. Não se trata de pregar ao trabalhador que ele deve se revoltar. Trata-se de criar as condições para que ele compreenda sua própria revolta. E essas condições são materiais: a crise, a greve, a organização, o partido, a teoria. Quando a existência se torna insuportável, a consciência rompe o véu. Quando a consciência rompe o véu, a existência pode ser transformada. Esse é o círculo virtuoso da revolução. A história não é um processo automático; é um campo de luta onde a consciência é, ao mesmo tempo, produto e produtora das condições materiais. O trabalho vivo, que cria toda a riqueza, pode também criar a nova sociabilidade. E o fará quando compreender que é ele, e não o capital, o verdadeiro sujeito da história.