Encontros dominicais, Amor e Luta de Classes: Para uma Crítica Materialista dos Afetos
O amor não é um dado, é um problema
O primeiro movimento do pensamento materialista é desnaturalizar. Tudo o que a ideologia dominante apresenta como eterno, como vindo do céu ou do fundo imutável da alma humana, o materialismo histórico devolve à terra. Diz: isso foi produzido. Tem história. Tem condições materiais. Tem classe.
O amor não escapa. Aliás, o amor é um dos territórios onde a ideologia mais trabalha para ocultar sua própria produção. Nada parece mais natural, mais espontâneo, mais "humano" do que o amor. Por isso mesmo, nada pede mais desconfiança.
A pergunta que abre a investigação não é "o que é o amor?", mas "como o amor se tornou o que é?" E essa pergunta imediatamente desdobra: que relações sociais produziram essa forma específica de afeto que chamamos de amor? Que interesses ela serve? Que contradições ela carrega?
A resposta exige que voltemos à gênese da sociedade de classes e percorramos as transformações pelas quais o amor passou até chegar à forma patética e brutal que conhecemos hoje.
A propriedade privada como matriz do amor
Nas sociedades tribais anteriores à propriedade privada da terra e dos meios de produção, as relações entre homens e mulheres, adultos e crianças, idosos e jovens não eram organizadas pelo que chamamos de amor. Eram organizadas pelo parentesco, pela divisão sexual do trabalho, pelos ritos de passagem, pela solidariedade obrigatória do clã. Havia afeto, havia desejo, havia cuidado. Mas não havia a ideia de que o par romântico, isolado em seu quarto, é o centro da vida afetiva.
A grande transformação vem com a propriedade privada. Não é acidente. A propriedade privada exige herdeiros. Herdeiros exigem certeza da paternidade. Certeza da paternidade exige controle da sexualidade feminina. Controle da sexualidade feminina exige a família monogâmica como instituição jurídica e econômica.
Engels, em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, mostra essa costura brutal: a monogamia não nasce do amor. Nasce da necessidade de transmitir riqueza. O casamento é, antes de tudo, um contrato entre proprietários. A mulher passa de propriedade do pai a propriedade do marido. O amor que eventualmente habita esse contrato é tolerado como um luxo, nunca como fundamento.
Essa origem imprime no amor uma marca que ele jamais perderá completamente: a marca da posse. Amar, sob o regime da propriedade privada, é sempre, em alguma medida, ter. O ciúme não é um acidente psicológico. É a sombra do contrato de propriedade no campo dos afetos. "Você é meu" não é metáfora. É a linguagem do proprietário aplicada ao corpo e à alma do outro.
O amor no capitalismo: mercadoria e fantasia
O capitalismo herda essa estrutura e a radicaliza. Na sociedade burguesa, tudo o que era sólido se desmancha no ar. As relações de dependência pessoal são dissolvidas pela liberdade formal do contrato. Até a família monogâmica, que parecia um pilar, entra em crise permanente.
O amor se torna, então, um campo de contradições agudas.
De um lado, o capitalismo exalta o amor romântico como nunca antes. A literatura, o cinema, a música, a publicidade e todas as indústrias culturais trabalham para fazer do amor a grande promessa de realização individual. Você pode não ter nada, mas se tiver amor, tem tudo. O amor é vendido como o sentido último da vida, o que preenche o vazio deixado pela perda de todas as outras certezas (Deus, a comunidade, o ofício herdado).
De outro lado, o capitalismo destrói sistematicamente as condições reais para que o amor exista de forma plena. Jornadas exaustivas não deixam tempo para cultivar afeto. A precariedade material transforma o parceiro em amortecedor de crises. A mobilidade forçada (migração, desemprego, nova cidade) arranca o amor do seu território. A competição generalizada ensina que todos são substituíveis (inclusive quem se ama).
O resultado é um amor impossível. Exigido como redenção, negado como possibilidade real. O sujeito é convocado a dar o máximo de si numa relação que a própria lógica social mina pela base. A frustração amorosa não é falha individual. É produção em série.
A ideologia do amor e a reprodução da classe
A ideologia dominante não se limita a descrever o amor. Ela o prescreve. E essa prescrição serve a interesses de classe muito concretos.
O amor romântico, com sua ênfase na escolha individual, na química entre dois corpos, na alma gêmea, é a forma afetiva adequada a uma sociedade que precisa fazer crer que somos livres. Você escolheu seu parceiro como escolhe seu celular, sua roupa, seu estilo de vida. A ilusão da escolha livre no mercado de bens estende-se ao mercado de afetos.
Mas essa liberdade é formal. Você pode escolher entre os que estão disponíveis, nas condições que o mercado estabelece, com a aparência que a indústria cultural validou. Não pode escolher um mundo onde a escolha amorosa não seja uma aposta desesperada contra a solidão e a pobreza.
Mais profundamente: a ideologia do amor serve à reprodução da força de trabalho. O trabalhador exausto encontra em casa a promessa de afeto que o recupera para mais um dia de exploração. A mulher, duplamente explorada (na fábrica e em casa), é ensinada que o amor verdadeiro exige abnegação, paciência, silêncio. O homem é ensinado que amar é prover, proteger, possuir. Os papéis amorosos são os papéis da divisão sexual do trabalho, naturalizados pela fantasia do encontro romântico.
O amor, assim, vira cola do sistema. Une o que a produção separa. Acalma o que a exploração irrita. Promete amanhã o que a fome nega hoje.
A luta de classes atravessa o quarto
Aqui chegamos ao ponto que o panfleto apressado perde: a luta de classes não acontece só na fábrica, no sindicato, no partido, na greve. Ela acontece também na cama, na cozinha, na divisão das tarefas domésticas, na decisão de quem cuida dos filhos, no silêncio de quem não pode falar. Ela acontece na forma como o dinheiro (ou sua falta), entra na relação amorosa e a deforma.
Não há amor fora da luta de classes. Mas isso não significa que amar seja um ato político direto. Significa que as condições materiais nas quais o amor ocorre são determinadas pela posição de classe dos amantes, e que essas condições produzem conflitos, impossibilidades, violências que a psicologia romântica insiste em tratar como problemas de comunicação ou incompatibilidade de personalidade.
O casal proletário não briga pelo que a novela diz. Briga pelo aluguel que vence, pelo salário que não aumentou, pelo patrão que exigiu hora extra, pela creche que fechou. Essas brigas não são "estresse externo". São o conteúdo real da vida amorosa sob o capital. O amor respira esse ar ou sufoca.
Da mesma forma, a violência doméstica não é irrupção de um monstro individual. É a forma mais crua da propriedade privada aplicada ao corpo do outro. O homem que espanca a mulher está dizendo, com os punhos, o que o contrato de casamento sempre disse com a lei: você é minha. O capitalismo não inventou essa violência, mas a herdou da família patriarcal e a aprofundou, porque precisa de uma instância de reprodução da força de trabalho onde o cansaço e a revolta sejam domesticados à força.
A abolição do amor como propriedade
A crítica materialista do amor não pode se contentar em denunciar suas deformações. Deve apontar para sua superação.
O que seria o amor numa sociedade onde os meios de produção não fossem propriedade privada? Onde o trabalho não fosse mercadoria? Onde o tempo não fosse dinheiro? Onde a divisão sexual do trabalho tivesse sido abolida? Onde a criação dos filhos fosse assumida coletivamente?
Não podemos saber com detalhe. O futuro concreto não se deduz do presente. Mas podemos indicar direções.
Primeira: o amor deixaria de ser posse. Se não há propriedade privada, não há fundamento ontológico para o ciúme como forma de relação. Não que o desejo de exclusividade desapareça magicamente. Mas ele não teria mais a estrutura jurídico-econômica que hoje o sustenta como "direito do amante".
Segunda: o amor deixaria de ser contrato. Relações afetivas poderiam durar toda a vida ou um dia. Poderiam ser exclusivas ou abertas. Poderiam incluir um, dois, muitos. A forma não seria prescrita pelo Estado ou pela igreja, mas inventada livremente pelos envolvidos.
Terceira: o amor deixaria de ser refúgio. Hoje amamos desesperadamente porque o mundo é hostil. O amor é a única ilha onde ainda podemos ser vulneráveis sem sermos destruídos. Numa sociedade socialista, o mundo inteiro seria a ilha. A solidariedade não seria privilégio do quarto, mas estrutura da rua, da fábrica, do conselho popular.
Quarta: o amor deixaria de ser mercadoria. Não haveria indústria do encontro, aplicativo de paquera, terapia de casal vendida como serviço, presente comprado como prova de afeto. Não porque o consumo acabe, mas porque o afeto não precisaria mais se provar por objetos.
Essa é a direção. Não uma utopia abstrata, mas a indicação do que a luta de classes, quando vitoriosa, pode desbloquear.
Amor e revolução: a dialética do possível
Nada disso, porém, autoriza a ideia de que "primeiro fazemos a revolução, depois resolvemos o amor". A revolução não é um antes e depois. É um processo. E nesse processo, as formas de amar também se transformam.
Os sovietes russos pós-1917 viram florescer experiências amorosas radicalmente novas: casamentos coletivos, divórcio livre, legalização do aborto, reconhecimento das uniões homossexuais (depois recalcadas pelo stalinismo). A revolução não esperou o socialismo para experimentar novas relações afetivas. Ela as produziu porque, quebrada a casca jurídica da propriedade, o amor pôde se aventurar.
Isso significa que a luta por uma vida amorosa menos opressiva não é secundária à luta de classes. É parte dela. A luta contra o ciúme possessivo, contra a divisão sexual das tarefas, contra a violência doméstica, contra a mercantilização dos afetos — tudo isso é luta contra o capital, porque o capital vive da forma como essas opressões organizam a reprodução da força de trabalho.
Por outro lado, reduzir a revolução a uma "revolução dos afetos" é idealismo puro. Sem a expropriação dos meios de produção, sem o controle operário da fábrica, sem a planificação democrática da economia, as novas formas de amar serão varridas pela primeira crise.
A dialética é essa: não se pode esperar a revolução para começar a amar de outro jeito. Mas também não se pode acreditar que amar de outro jeito, sem tocar na propriedade privada, seja suficiente.
O amor como crítica imanente
O amor, na sociedade de classes, é ao mesmo tempo promessa e impossibilidade. Promete o que não pode cumprir. E é justamente essa distância entre o prometido e o realizado que faz do amor uma poderosa alavanca crítica.
Quem ama de verdade sofre. Sofre porque quer dar o que não tem (tempo, segurança, futuro). Sofre porque quer receber o que o outro não pode dar (a certeza de que não será abandonado, a garantia de que o afeto não se esgotará). Esse sofrimento não é patologia. É verdade. É a verdade do amor num mundo que o impede de ser pleno.
A tarefa política, então, não é ensinar as pessoas a amar melhor dentro do capitalismo. Não é oferecer técnicas de comunicação ou terapia para administrar a frustração. A tarefa é mostrar que a frustração amorosa é produzida socialmente, que ela tem nome e endereço, e que a superação dessa frustração exige a superação da ordem social que a gera.
O amor, quando pensado até o fundo, torna-se crítica radical do capital. Porque o amor verdadeiro não aceita o mundo como ele é. O amor verdadeiro quer o impossível e por isso mesmo aponta para a única coisa que pode torná-lo possível: a revolução.
O amor que queremos exige a rigorosa e dialética atenção ao mundo coletivo para o entendimento e desenvolvimento individual.