O Trabalho Vivo e a Ordem Burguesa: A Farsa da Abundância e a Miséria Produzida
Toda a riqueza que move o mundo, todos os arranha-céus, todas as mercadorias estocadas e todos os números nos telões das bolsas têm uma origem única, viva e carnal: o trabalho vivo. Mas é preciso cravar o que isso significa. Trabalho vivo não é qualquer atividade remunerada. Não é o serviço, não é o conhecimento, não é a logística. Trabalho vivo é a atividade concreta do proletariado que se relaciona diretamente com a natureza e a transforma em valores de uso: arar a terra, extrair minério, fundir aço, montar o circuito, tecer o fio, erguer a parede. É nesse metabolismo entre o corpo humano e a matéria que nasce o valor novo. Fora disso, o que existe é consumo de valor já produzido, redistribuição de mais-valia já extraída, circulação de riqueza já criada.
A grande mentira do capitalismo é a ilusão de que o capital se reproduz por si mesmo. A máquina, o algoritmo, a inteligência artificial são trabalho morto, trabalho humano pretérito cristalizado em equipamentos. Nenhum deles cria um centavo de valor novo. Transferem ao produto seu próprio desgaste. Quem cria valor novo é exclusivamente o proletário que opera a prensa, que dirige a escavadeira, que solda a estrutura, que planta e colhe. O dinheiro do capitalista só se multiplica quando encontra esse trabalho vivo para sugar. A greve geral é o pesadelo da burguesia porque, ao parar o trabalho vivo, revela-se que todo o resto (as finanças, os serviços, o comércio, a burocracia) é parasita de um único corpo.
O professor, o contador, o motorista de aplicativo, o bancário, o funcionário público, o enfermeiro, o atendente de telemarketing não produzem trabalho vivo. Eles não transformam a natureza em mercadoria. Eles não geram mais-valia diretamente. Sua renda provém de uma fração da mais-valia global extraída pelo capital do proletariado produtivo. O capital suga o trabalho vivo na fábrica, na mina, no latifúndio, e com uma parte desse butim paga os serviços que mantêm a ordem funcionando: educar o filho do operário para que ele continue sendo operário, transportar o gerente até o escritório, contar os lucros do patrão, vigiar a saúde do trabalhador para que ele volte ao batente. Esses segmentos vivem do trabalho vivo, mas não o executam. Não são proletários no sentido estrito. São camadas assalariadas que o capital sustenta com a mais-valia alheia.
O médico que atende no hospital privado, o cirurgião que opera com equipamentos de última geração, o dono da clínica que cobra a consulta, todos eles vivem da mais-valia extraída do trabalho vivo. O paciente que paga a consulta é um trabalhador, ou a esposa de um trabalhador, ou o filho de um trabalhador, e o dinheiro que sai de sua carteira saiu antes da fábrica, da mina, do campo. O plano de saúde que cobre o procedimento é pago com salário, que é fração da mais-valia. O médico não criou valor nenhum ao auscultar o peito do operário; ele apenas consumiu uma parcela da riqueza já produzida pelo proletariado. O grande capital da saúde (os hospitais, os laboratórios farmacêuticos, os planos) suga a mais-valia duas vezes: primeiro, ao vender o remédio e o procedimento com lucro; segundo, ao pagar salários aos médicos e enfermeiros, que são deduções do butim original. O médico pode ser um profissional dedicado, pode salvar vidas, mas sua vida material depende inteiramente da extração de mais-valia nas minas, nas fábricas e nos campos. Sem o mineiro que arranca o minério, sem o metalúrgico que forja o aço, sem o camponês que planta o alimento, o médico não tem hospital, não tem instrumento, não tem comida na mesa. Ele vive do trabalho vivo do proletariado.
O banqueiro é o caso mais descarado. Ele não transforma natureza nenhuma. Não produz mercadoria nenhuma. Não presta serviço nenhum que não possa ser eliminado numa sociedade racional. Sua função é sugar. Ele empresta dinheiro e cobra juros. Esse dinheiro é trabalho vivo cristalizado, mais-valia acumulada que o proletariado gerou e que o banqueiro agora usa para extorquir mais ainda. O banco não cria riqueza; concentra a riqueza alheia. O banqueiro não gera valor; vive do spread, da taxa, do endividamento. Cada real que entra no cofre do banco saiu antes das mãos calejadas do proletário. O banqueiro e toda a casta financeira (analistas, consultores, corretores, gestores de fundos) são a expressão mais pura do parasitismo. Eles não produzem trabalho vivo. Eles drenam trabalho vivo. São a ventosa acoplada ao corpo do proletariado mundial.
O político profissional, o parlamentar, o ministro, o assessor, o marqueteiro, o lobista, todos eles vivem da mais-valia extraída do trabalho vivo. O salário do deputado é pago com impostos. Os impostos saem do salário do trabalhador e do lucro do capitalista. O lucro do capitalista é mais-valia acumulada. Portanto, o político vive do trabalho do mineiro, do metalúrgico, do camponês, do operário da construção civil. Ele não criou a riqueza que consome; ele a administra. Sua função é garantir que a propriedade privada permaneça intocada, que a exploração continue legal, que a greve seja criminalizada, que o Estado siga sendo o comitê executivo da burguesia. O parlamento, o palácio, o tribunal, todos os poderes do Estado burguês são máquinas que consomem mais-valia para reproduzir as condições de extração de mais-valia. O juiz que condena o sem-terra, o delegado que prende o grevista, o burocrata que nega o benefício, o militar que reprime a ocupação, todos são pagos com o suor do proletariado. Todos exercem violência contra o proletariado usando a riqueza que o proletariado produziu.
O professor da escola pública, o policial, o agente de trânsito, o fiscal da prefeitura, o escriturário do fórum, todos os funcionários do Estado burguês, estão na mesma condição: vivem de frações da mais-valia redistribuída pelo orçamento estatal. Não são proletários. Não produzem trabalho vivo. Não transformam a natureza. Sua função é manter a ordem, educar para a obediência, reprimir os descontentes, processar a papelada da exploração. Podem ser mal pagos, podem ser explorados em sua jornada, podem até se rebelar contra suas condições, mas sua posição na estrutura de classes é distinta da posição do proletário que está na fábrica, na mina, no campo. O proletário gera a riqueza; o funcionário público a consome. O proletário cria o bolo; o funcionário recebe uma fatia. Isso não é uma questão de salário maior ou menor; é uma questão de função no processo de produção.
A abundância que o trabalho vivo produz hoje é concreta e colossal. Nunca se produziu tanto alimento, tanta roupa, tanto remédio, tanta moradia. A fome, o desabrigo, a fila do osso não são escassez natural; são escassez produzida pela apropriação privada da riqueza social. O capital concentra a mais-valia em poucas mãos e a transforma em títulos, ações, iates, enquanto destrói alimentos para sustentar preços. O proletário que gerou essa abundância recebe uma fração mínima, o salário, que mal repõe suas forças. O professor, o médico, o motorista, o bancário, o político recebem outras frações, deduzidas do mesmo bolo. Todos eles são pagos pelo mesmo trabalho vivo, mas só o proletário o executa. Só o proletário mete a mão na terra, no fogo, no metal. Só ele sangra.
A crise não é um desvio; é o sistema operando. A lei da queda tendencial da taxa de lucro, a substituição de trabalho vivo por trabalho morto, a superpopulação relativa crescente geram destruição periódica de forças produtivas e desemprego em massa. Enquanto o proletário acreditar que sua dor se resolve com currículo, com voto ou com migalhas, ele seguirá sendo a variável de ajuste. A única saída é a organização independente do proletariado produtivo, unido aos demais segmentos explorados e oprimidos, mas com clareza sobre quem é o sujeito central da transformação. O horizonte não é administrar a miséria, mas socializar a abundância já produzida. O comunismo não divide a pobreza; organiza a riqueza que o trabalho vivo já criou para que sirva a todos. É a superação da escassez artificial. É o reconhecimento de que o proletariado já produziu o bastante para que ninguém mais precise passar fome.
Até lá, o sistema seguirá canibalizando o trabalho vivo e o planeta. A miséria que vemos não vem da natureza, mas da ordem burguesa que sequestra a abundância. O professor, o médico, o banqueiro, o político, o juiz, o policial, todos vivem do mesmo trabalho vivo que o proletário executa. A diferença é que o proletário o executa e é espoliado; os outros o consomem e são cúmplices, em maior ou menor grau, da espoliação. Essa abundância, hoje, é o terreno onde a emancipação se torna possível. Mas só se torna possível se o trabalho vivo se reconhecer como o único criador de toda a riqueza e tomar para si o controle dos meios de produção. O resto é redistribuição de migalhas. E migalhas não libertam ninguém.