A Importância Histórica de Marx e Engels e a Destruição do Oportunismo Stalinista, do Marxismo Acadêmico e da Traição Reformista
A sociabilidade humana não é uma abstração. É o modo como os seres humanos organizam a produção da sua existência, como transformam a natureza, como distribuem o fruto do trabalho, como criam instituições, ideias, afetos. Durante milênios, essa sociabilidade foi regida por formas que os próprios homens desconheciam. A história parecia um turbilhão caótico de impérios que nascem e morrem, de guerras, de fomes, de deuses. Foi Marx, com Engels, quem revelou o segredo: a história é a história da luta de classes. E a chave para entender cada sociedade está no modo como ela produz e reproduz a vida material.
Essa descoberta é a maior revolução teórica da história humana. Antes de Marx, os filósofos interpretavam o mundo. Hegel viu a dialética, mas de cabeça para baixo: a ideia gerando a realidade. Feuerbach viu a alienação religiosa, mas não a material. Os economistas clássicos, Smith e Ricardo, chegaram perto da teoria do valor-trabalho, mas naturalizaram o capital como eterno. Os socialistas utópicos denunciaram a miséria, mas não encontraram o sujeito capaz de abolir a exploração. Marx e Engels fizeram a síntese. Viraram Hegel de cabeça para cima. Mostraram que a consciência não determina o ser social; o ser social determina a consciência. Mostraram que o valor não é propriedade natural das coisas, mas trabalho humano abstrato coagulado. Mostraram que o capital não é uma coisa, mas uma relação social de exploração. Mostraram que o Estado não é o reino da razão, mas a violência organizada de uma classe sobre a outra. E mostraram que o proletariado, a classe que não possui nada além do próprio corpo e que, para viver, vende sua força de trabalho, é a única classe capaz de romper com esse sistema, porque sua emancipação exige a abolição de toda propriedade privada, de toda exploração, de toda classe.
Essa é a base material e histórica da contribuição de Marx e Engels. Eles não criaram uma doutrina para ser recitada. Criaram um método para ser usado: o materialismo histórico-dialético. Um método que exige partir do real, do concreto, da luta de classes em cada momento determinado, e não de esquemas prontos.
O stalinismo é a negação absoluta desse método. Ele não é uma continuação, um desenvolvimento, uma aplicação criativa. É uma traição. Uma contrarrevolução teórica e prática. O stalinismo transformou o materialismo histórico em um dogma de cinco estágios obrigatórios e universais: comunismo primitivo, escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo. Uma escada mecânica onde cada sociedade deve passar pelos mesmos degraus. Essa caricatura ignora o modo de produção asiático, que Marx estudou e considerou essencial. Ignora as formações que não se encaixam na linha reta. Ignora a dialética real da história, que é feita de rupturas, de becos, de saltos, de involuções. O stalinismo trocou o movimento vivo da luta de classes por um manual de instruções.
O stalinismo também falsificou a ditadura do proletariado. Em Marx e Engels, a ditadura do proletariado é a forma política da transição, onde a classe trabalhadora organizada como classe dominante expropria os expropriadores e começa a construir o trabalho associado. É a democracia mais ampla para os produtores e a restrição de direitos para os expropriadores. Seus órgãos são os conselhos, as comunas, as assembleias de base, com delegados eleitos por sufrágio universal, revogáveis a qualquer momento, pagos com salário de operário. O Estado começa a definhar desde o primeiro dia. Já o stalinismo construiu o oposto: um Estado monstruoso, uma burocracia parasitária que se apropriou coletivamente do excedente, uma polícia política que exterminou a velha guarda bolchevique, uma máquina de repressão que esmagou os próprios operários. A ditadura do proletariado virou ditadura sobre o proletariado.
O stalinismo também falsificou o internacionalismo. Marx e Engels fecharam o Manifesto Comunista com "Proletários de todos os países, uni-vos!". Para eles, a revolução era mundial ou não seria. O stalinismo inventou o "socialismo em um só país", abandonou as revoluções europeias, sufocou a revolução chinesa nascente, entregou os comunistas alemães ao nazismo em troca de acordos diplomáticos. O internacionalismo proletário virou política de potência nacional, com a burocracia soviética defendendo seus interesses de casta disfarçados de "interesses do socialismo".
O stalinismo falsificou a própria figura de Marx e Engels. Fundiu-os em um só corpo doutrinário, apagou suas diferenças, ignorou a evolução do pensamento de cada um, selecionou passagens convenientes e as transformou em citações sagradas. O método deu lugar ao catecismo. A dialética deu lugar à repetição. A crítica deu lugar à obediência.
Mas o stalinismo não foi a única falsificação. O marxismo acadêmico é outra. Nascido da derrota das revoluções europeias dos anos 1920, refugiou-se na universidade. Incapaz de fazer a revolução, passou a interpretar textos. Substituiu a análise da mais-valia pela análise da cultura. Substituiu a greve pelo artigo. Transformou o marxismo em disciplina, em carreira, em nicho de mercado. Criou um jargão que só os iniciados entendem, e com isso se separou da classe que dizia representar. O operário não lê a teoria crítica. O camponês não entende as elucubrações sobre aparelhos ideológicos. E os acadêmicos não se importam, porque escrevem para seus pares, para a banca examinadora, para os editores europeus. O marxismo acadêmico é o marxismo que o capital permite, porque é o marxismo que não ameaça a propriedade privada. Ele fala de opressão sem jamais falar de mais-valia. Fala de identidade sem jamais falar de classe. Fala de democracia sem jamais falar de ditadura do proletariado. É discurso, não prática. É carreira, não luta. É a castração do marxismo pela via da sofisticação estéril. E cumpre a função de desarmar a classe, de convencê-la de que a revolução é uma ideia ultrapassada, de que o máximo que se pode fazer é publicar papers.
A traição reformista é ainda mais grave. Ela vem de dentro do movimento operário. A social-democracia, que se formou no final do século XIX, abandonou o marxismo revolucionário e abraçou a conciliação de classes. Bernstein, Kautsky e toda a Segunda Internacional transformaram o socialismo em um horizonte distante, e o presente, em administração do capitalismo. Defenderam o voto, o parlamento, a negociação sindical como únicas ferramentas. Quando a guerra imperialista explodiu em 1914, a maioria dos partidos social-democratas votou a favor dos créditos de guerra, apoiando a matança de proletários por proletários em nome da pátria. O internacionalismo foi jogado no lixo. A solidariedade de classe foi substituída pela união sagrada com a burguesia nacional. A traição de 1914 é a certidão de óbito do reformismo como força transformadora. Dali em diante, a social-democracia se tornou o que é hoje: uma máquina de administrar a exploração com verniz humanitário, aplicando ajustes fiscais quando no governo, defendendo a propriedade privada em todos os momentos, e servindo de amortecedor para que a classe trabalhadora não rompa com a ordem.
O reformismo é a correia de transmissão do capital dentro do movimento operário. Ele não quer o fim da exploração; quer geri-la com sensibilidade. Não quer a revolução; quer um ministério. Promete o socialismo em campanha e aplica o arrocho no governo. Convoca a greve e a desconvocar quando o acordo é assinado. Transforma a luta de classes em disputa parlamentar, a assembleia em audiência de conciliação, o piquete em processo judicial. O reformismo é a antecâmara do fascismo. Quando a crise se aprofunda e não há mais margem para concessões, o reformista não hesita: apoia o estado de exceção, vota o ajuste, criminaliza os movimentos. Porque, no fundo, ele nunca foi aliado do proletariado. Foi sempre o gerente humano da mesma exploração.
Stalinismo, academicismo e reformismo formam a tríade da traição. O stalinismo matou a revolução e chamou o cadáver de socialismo. O academicismo matou a teoria e chamou o cadáver de marxismo. O reformismo matou a luta e chamou o cadáver de democracia. Todos serviram ao capital. Todos desarmaram a classe trabalhadora. Todos precisam ser destruídos como influência política e ideológica.
A importância de Marx e Engels para a sociabilidade humana é exatamente o oposto do que esses três fizeram com eles. Eles forneceram as ferramentas para a classe trabalhadora entender o mundo e transformá-lo. Mostraram que a exploração não é eterna, que a propriedade privada é histórica, que o Estado é transitório, que a família monogâmica é econômica. Mostraram que a abundância já é possível, mas está represada pela forma valor. Mostraram que o trabalho associado é o horizonte: os produtores controlando coletivamente os meios de produção, reduzindo a jornada ao mínimo, libertando tempo para a vida, regulando racionalmente o metabolismo com a natureza.
Destruir o oportunismo stalinista, o academicismo estéril e o reformismo traidor não é uma tarefa de gabinete. É uma necessidade prática. Enquanto o proletariado acreditar que o socialismo é o que houve na União Soviética, ele o rejeitará com razão. Enquanto o marxismo for identificado com o dogma dos cinco estágios, com o Estado totalitário, com o partido único, com a repressão burocrática, ele estará morto como força revolucionária. Enquanto a classe trabalhadora achar que o capitalismo pode ser humanizado pelo voto, ela depositará suas esperanças em gerentes que a trairão na primeira crise.
Não há capitalismo humano. Não há reforma que resolva. Não há academia que emancipe. A emancipação da classe trabalhadora é obra da própria classe trabalhadora. E essa obra exige romper com todas as falsificações. Exige retomar Marx e Engels como ferramentas vivas, não como ícones. Exige fazer a crítica da economia política no chão de fábrica, na greve, na ocupação, na assembleia. Exige construir o poder dos conselhos, a democracia proletária radical, o trabalho associado.
Marx e Engels não são santos. Não são infalíveis. Tiveram limites, cometeram erros, mudaram de opinião. Mas legaram à humanidade a arma mais poderosa já forjada: a compreensão de que a história é obra humana, de que as correntes que nos prendem foram feitas por mãos humanas e podem ser quebradas por mãos humanas, de que o capital não é eterno, de que a sociabilidade humana pode ser fundada na cooperação, na liberdade, na abundância partilhada.
O stalinismo tentou enterrar essa herança sob uma montanha de dogmas. O academicismo tentou diluí-la em citações incompreensíveis. O reformismo tentou vendê-la em troca de ministérios. Cabe ao proletariado desenterrá-la, limpá-la, usá-la. A revolução não está nos livros; está na luta. Mas a luta sem teoria é cega. E a teoria, para ser viva, precisa ser crítica. Marx e Engels ensinaram isso. Os falsificadores fizeram o oposto. Hoje, retomar Marx e Engels contra todos os falsificadores é retomar o fio vermelho da revolução. É devolver à classe trabalhadora a compreensão de que ela é a produtora de toda a riqueza. É dizer, com todas as letras: o trabalho vivo criou o mundo, o trabalho morto o domina, e só o trabalho vivo, organizado e consciente, pode tomar o que é seu.