O Otimismo da Fé e o Pessimismo da Paralisia: Para Além da Ilusão Democrática
Há uma posição hoje bastante difundida que se pretende lúcida, realista, vacinada contra as ilusões. Ela rejeita toda filosofia da história que prometa um final feliz. Desconfia do progresso automático, da Providência divina, da astúcia da razão. Olha para o século XX, para as guerras, os fascismos, os genocídios, e conclui que a história não tem direção, não tem sentido, não tem garantia. É uma posição que se apresenta como maturidade, como desencanto necessário. Mas, ao rejeitar a teleologia idealista, ela acaba por jogar fora também a possibilidade de conhecer as leis que movem a sociedade. E, ao fazê-lo, entrega-se a um pessimismo que não é ativo, mas paralisante. Recusa-se a acreditar na vitória e, ao mesmo tempo, deposita suas últimas fichas na democracia burguesa e na eleição de um candidato do campo popular. É essa contradição que precisa ser exposta.
A história, para o marxismo, não é um plano divino nem um progresso linear da razão. Marx nunca foi um crente na Providência. O que ele descobriu, com a frieza de quem disseca um cadáver, foram as leis de movimento do modo de produção capitalista. A lei do valor, a extração de mais-valia, a tendência à queda da taxa de lucro, a concentração e centralização do capital, a superpopulação relativa crescente. Essas leis não são decretos divinos; são tendências que operam através da luta de classes, das crises, dos acasos. Elas não garantem o socialismo, mas mostram por que o capitalismo é um sistema contraditório, que produz as condições materiais de sua própria superação. A história não é um trem sobre trilhos, mas é um campo de forças que pode ser conhecido. E conhecer esse campo é o primeiro passo para agir sobre ele. Quem renuncia a esse conhecimento, em nome de um ceticismo que se quer sofisticado, acaba por se tornar joguete das forças que não compreende.
É exatamente isso que ocorre quando se olha para o crescimento da extrema direita no mundo e se responde com perplexidade, com angústia, com o apelo à mobilização democrática. A extrema direita não é um raio em céu azul. Ela não é fruto da maldade de Trump, da loucura de Bolsonaro, da manipulação da mídia. Ela é um produto necessário da crise estrutural do capital. Quando a taxa de lucro cai, quando a superpopulação relativa incha, quando a classe média se proletariza, quando a burguesia já não pode governar com o consentimento das massas, o fascismo aparece como a forma política da contra revolução preventiva. Ele oferece bodes expiatórios, oferece a ilusão da ordem, oferece a violência organizada contra os de baixo. A extrema direita cresce porque o capital a alimenta, porque a crise a empurra, porque a esquerda reformista a deixa crescer ao desarmar a classe trabalhadora com ilusões parlamentares.
Diante desse quadro, a resposta que se oferece é a defesa da democracia, a união das forças democráticas, o voto útil, o "Lula lá". Mas o que significa, concretamente, essa aposta? Significa a crença de que a máquina do Estado burguês pode ser usada contra a burguesia. Significa a esperança de que um governo de frente ampla, liderado por um ex-presidente que já governou por oito anos sem tocar na propriedade privada, possa conter a crise e derrotar o fascismo. Significa esquecer que foi sob governos do campo popular que os bancos tiveram lucros recordes, que o agronegócio se expandiu, que a estrutura sindical foi mantida atrelada ao Estado, que a reforma trabalhista de 2017 foi o desfecho lógico de décadas de conciliação de classes.
Lula não é a antítese do fascismo; é a outra face da mesma moeda. O fascismo é o capital sem mediações, o chicote direto. O lulismo é o capital com mediações, o chicote que negocia. Ambos servem à mesma classe. Ambos aplicam, em condições diferentes, o programa que a crise exige. Quando a burguesia se sente forte, ela dispensa o mediador e apela ao fascista. Quando se sente pressionada, recorre ao conciliador. Mas, em qualquer caso, a classe trabalhadora paga a conta. Lula eleito aplicará o ajuste fiscal, negociará com o Centrão, preservará os interesses do capital financeiro, contará com a CUT e o PT para desmobilizar as greves. A "democracia" que ele defende é a democracia dos banqueiros, do agronegócio, dos rentistas.
A aposta no voto como trincheira contra o fascismo é uma aposta perdida. Porque o fascismo não se derrota com eleições; derrota-se com organização independente do proletariado, com greves que paralisam a produção, com ocupações que tomam a terra, com conselhos operários que ensaiam o poder de classe. A luta de classes não se desenrola "dentro" da democracia burguesa como num campo neutro. A democracia burguesa é uma das formas que a luta de classes assume, e é sempre a forma que garante, em última instância, a reprodução do capital. As instituições (o Judiciário, o Congresso, a imprensa) não são árbitros neutros. São máquinas de dominação de classe.
O pessimismo que se apresenta como ativo é, no fundo, uma confissão de derrota. Ele já internalizou a impossibilidade de uma transformação real. Já aceitou que o máximo que se pode fazer é administrar a catástrofe, eleger um governo menos pior, torcer para que a barbárie venha com rosto humano. Não é um pessimismo que organiza; é um pessimismo que espera. Ele não mobiliza para a ruptura; mobiliza para a próxima eleição. Ele não arma a classe com a crítica da economia política; arma-a com pesquisas, pesquisas, e mais pesquisas.
A classe trabalhadora não precisa de otimismo nem de pessimismo. Precisa de ciência. Precisa entender que o capital é uma relação social, não um destino. Que a propriedade privada dos meios de produção pode ser abolida. Que a democracia burguesa não é o horizonte final da política, mas uma forma transitória que será varrida pela democracia dos produtores. A história não garante a vitória, mas oferece as condições para ela. A classe que produz tudo pode tomar o poder. Mas não pelo voto. Pela ação direta. Pela greve. Pela organização. Pela revolução. Qualquer outra aposta é ilusão. E a ilusão, hoje, é o caminho mais curto para a derrota.