O Capital Pode Substituir Trabalho Vivo Por Tecnologia?
A questão atinge o coração da contradição capitalista. Há, de fato, uma tese corrente (muitas vezes vestida de marxismo, outras vezes de sociologia burguesa) que anuncia o fim do proletariado. A automação, a inteligência artificial, a robótica estariam extinguindo o trabalho vivo, substituindo-o por máquinas. Se o proletariado diminui, argumentam, a revolução perde seu sujeito. O capital teria encontrado, enfim, um modo de se reproduzir sem trabalho, escapando da sua contradição interna.
Essa tese é falsa na teoria e desmentida pelos fatos. E desmontá-la exige voltar à lei do valor.
A primeira questão: como gerar valor sem trabalho vivo? A resposta é seca: não se gera. O valor é trabalho humano abstrato coagulado. A máquina é trabalho morto. Ela transfere ao produto o valor que contém, parcela por parcela, conforme se desgasta. Não acrescenta valor novo. Só o trabalho vivo faz isso. Quando o capital substitui trabalho vivo por máquinas, ele reduz o tempo de trabalho socialmente necessário para produzir cada mercadoria. O valor unitário cai. A produtividade física dispara, mas a massa de valor novo gerada por hora de trabalho não aumenta na mesma proporção; pode até cair, se a composição orgânica do capital cresce mais rápido que a taxa de mais-valia.
Essa é a lei da queda tendencial da taxa de lucro. O capital, ao perseguir a produtividade, cava o buraco onde cairá. Ele precisa de trabalho vivo para sugar mais-valia, mas a concorrência o obriga a eliminar trabalho vivo. É uma aporia. Não tem solução técnica, porque não é um problema técnico: é uma contradição social. O capital não pode abolir o trabalho vivo sem abolir a si mesmo. Se um dia o capital eliminasse completamente o trabalho vivo da produção, o valor deixaria de existir, a mais-valia secaria e o capital morreria. O que o capital faz é adiar esse momento. Adia com contratendências: eleva a taxa de mais-valia, superexplora os que restam, expande-se para regiões onde o trabalho vivo é abundante e barato, especula financeiramente para sugar valor produzido alhures.
Aqui entra a segunda questão: a diminuição do proletariado em algumas regiões e o aumento em outras. O que a tese do fim do proletariado esconde é que o capitalismo é mundial. A lei do valor opera no mercado global. O capital não se importa com fronteiras. Se o trabalho vivo se torna caro, ou escasso nos centros imperialistas, o capital migra para a periferia, onde o trabalho é abundante, barato e desorganizado. O proletariado industrial encolhe na Alemanha, nos Estados Unidos, no Japão. Mas incha na China, na Índia, no Vietnã, em Bangladesh, na Indonésia, no México. Milhões de camponeses foram arrancados da terra e jogados nas fábricas. O proletariado mundial nunca foi tão numeroso. O que muda é sua geografia.
A China é o exemplo mais estrondoso. Em poucas décadas, centenas de milhões de proletários foram lançados na produção industrial. Trabalham em condições que os operários europeus do século XIX reconheceriam. Produzem mais-valia em escala colossal. A China é hoje a oficina do mundo porque o capital encontrou ali trabalho vivo abundante e barato, combinado com um Estado que garante a disciplina e a repressão. A Índia segue o mesmo caminho, com uma massa imensa de trabalhadores precários, informais, superexplorados. O proletariado não está desaparecendo; está se deslocando. E, nos centros imperialistas, o trabalho industrial que some é substituído por trabalho de serviço, por logística, por plataformas, que são formas novas de subsunção do trabalho ao capital.
Mas há uma diferença qualitativa. O proletariado chinês, indiano, vietnamita é, em grande parte, um proletariado produtivo no sentido estrito. Transforma a natureza, cria mercadoria, gera mais-valia. Já o trabalhador de plataforma nos Estados Unidos ou na Europa é frequentemente um trabalhador improdutivo. Transporta, entrega, realiza valor já criado. O capital está concentrando o trabalho produtivo na periferia e inchando o trabalho improdutivo no centro. Mas ambos dependem do mesmo trabalho vivo. O entregador de Londres depende do operário de Bangladesh. O motorista de Los Angeles depende do mineiro do Congo. A cadeia é global, mas a fonte do valor é uma só: o trabalho vivo que transforma a natureza.
A tese do fim do proletariado é, portanto, uma tese eurocêntrica. Ela olha para a fábrica que fechou em Detroit e ignora a fábrica que abriu em Shenzhen. Olha para o sindicato enfraquecido na França e ignora a greve massiva na Índia. Olha para o operário aposentado na Alemanha e ignora o adolescente que trabalha doze horas em Hanói. É uma tese funcional ao imperialismo, porque sugere que a revolução perdeu o sujeito justamente quando o sujeito se tornou maior e mais global do que nunca.
Mas essa tese também serve a outro propósito: desarmar a consciência de classe. Se o proletariado está sumindo, não há por que se organizar como proletariado. Resta apostar em outras lutas, em outros sujeitos, em outras pautas. O identitarismo, o reformismo, o democratismo ocupam o lugar vazio deixado pela suposta morte do proletariado. E o capital sorri, porque fragmentada, a classe não ameaça.
A realidade é outra. O proletariado mundial é imenso. Está mais concentrado, mais socializado, mais conectado do que nunca. O capital, ao globalizar a produção, globalizou também o produtor. O que falta é a consciência dessa globalização. Falta a organização internacional. Falta a ruptura com as ilusões nacionais e reformistas. Mas o sujeito está lá. Está nas zonas industriais chinesas, nas minas bolivianas, nas fábricas têxteis de Bangladesh, nos campos de cana do Brasil, nas plataformas de entrega de todo o mundo. Ele não sumiu. Ele foi escondido. Cabe à crítica da economia política desvelá-lo. Mostrar que, por trás da máquina, do aplicativo, do algoritmo, há sempre trabalho vivo. E que o capital, por mais que tente, não pode escapar de sua contradição: precisa matar o trabalho vivo para viver, e ao matá-lo, morre junto. A única saída para a humanidade é o trabalho vivo tomar o poder. E ele só o fará se souber que é ele, e não outro, o produtor de toda a riqueza.