Traidores: A Fila dos que Abandonaram a Classe
A história do movimento operário é também a história das traições. Não como acidente, não como desvio moral, mas como produto necessário da luta de classes. A burguesia não se defende apenas com a repressão. Defende-se também com a corrupção. Compra os que vacilam, promove os que se vendem, canoniza os que desertam. De Karl Kautsky a Josef Stalin, passando por toda uma linhagem de marxistas ocidentais e reformistas, a fila dos que abandonaram a classe é longa. E é preciso olhar para ela de frente, porque o inimigo não está apenas do outro lado. Muitas vezes, ele esteve ao nosso lado, falou nossa língua, ergueu nossa bandeira e, no momento decisivo, negociou a rendição.
Kautsky é o caso clássico. O homem que foi chamado de renegado não por um insulto qualquer, mas porque renegou a essência da doutrina que dizia defender. Durante décadas, foi a maior autoridade do marxismo depois de Engels. Escreveu, organizou, polemizou. Mas quando a hora exigiu a ruptura, ele escolheu a conciliação. Opôs-se à tomada do poder, defendeu a democracia burguesa como caminho para o socialismo, combateu a ditadura do proletariado. Tornou-se o papa dos reformistas, o santo dos que queriam o socialismo sem revolução. Sua traição não foi pessoal. Foi política. Ele deu ao reformismo sua capa teórica. Justificou o abandono da luta armada e a adesão ao parlamento. E até hoje os que não querem fazer a revolução se ajoelham diante de seu túmulo.
Kautsky é o paradigma. Mas a fila não parou nele. Ela atravessa o século XX e chega ao século XXI com novos rostos e velhas ideias. O marxismo ocidental, nascido da derrota das revoluções europeias dos anos 1920, é a expressão acadêmica da retirada. Incapaz de fazer a revolução, refugiou-se na universidade. Substituiu a análise da mais-valia pela análise da cultura. Substituiu a organização da greve pela publicação de artigos. Transformou o marxismo em disciplina, em carreira, em nicho de mercado. Criou um jargão que só os iniciados entendem, e com isso se separou da classe que dizia representar. O operário não lê Adorno. O camponês não entende Althusser. E eles não se importam, porque escrevem para seus pares, para a banca examinadora, para os editores europeus. O marxismo ocidental é o marxismo que o capital permite, porque é o marxismo que não ameaça.
Stalin representa outra face da traição. Não a do reformismo parlamentar, mas a da contrarrevolução burocrática. Tomou o poder em nome do proletariado e construiu um regime que esmagou o proletariado. Liquidou fisicamente a velha guarda bolchevique, os que fizeram a revolução, os que organizaram os sovietes, os que tomaram o Palácio de Inverno. No lugar dos conselhos operários, ergueu um estamento burocrático que administrava a exploração com mão de ferro. A propriedade privada foi formalmente abolida, mas a apropriação real da riqueza passou das mãos da burguesia para as mãos da burocracia estatal. O trabalhador soviético não controlava a fábrica; obedecia ao plano, à meta, ao capataz. A mais-valia não era embolsada por um capitalista individual; era embolsada pelo Estado, que a redistribuía conforme os interesses da casta dirigente. Stalin transformou o socialismo em palavra vazia e a ditadura do proletariado em ditadura sobre o proletariado. Sua traição foi a mais grave de todas, porque foi feita em nome da revolução.
O reformista é a base de massas desses dirigentes. Ele é o sindicalista que negocia com o patrão e chama de vitória o que é derrota. É o parlamentar que promete o socialismo em campanha e aplica o ajuste fiscal no governo. É o militante que acredita que o capitalismo pode ser humanizado, que a exploração pode ser regulada, que a propriedade privada pode ser mantida desde que pague impostos. O reformista não é um ingênuo. Ele tem consciência do que faz. Sabe que sua função é conter a classe, desarmar a revolta, canalizar a energia para a eleição. Ele é a correia de transmissão do capital dentro do movimento operário. Sem ele, o capital teria que usar apenas a repressão. Com ele, o capital usa a ilusão.
Essas figuras não são acidentes. Elas são produzidas pela mesma lógica que produz o capataz, o chefinho, a oligarquia operária e o estamento burocrático. A mais-valia global é repartida. Uma parte vai para comprar a lealdade de camadas inteiras. Kautsky, os marxistas ocidentais e os reformistas são funcionários do capital na trincheira inimiga. Recebem seu salário em dinheiro, em prestígio, em cátedras, em espaços na mídia. Em troca, garantem que a classe não se mova. Que a greve termine em acordo. Que a revolução seja adiada indefinidamente. Stalin foi diferente: não foi comprado pelo capital ocidental; construiu seu próprio capitalismo de Estado. Mas o resultado para a classe foi o mesmo: derrota, desmobilização, assassinato da esperança revolucionária.
A crise atual está queimando essas pontes. O capital já não pode pagar tantos intermediários. A universidade definha, a mídia se fragmenta, os sindicatos perdem verbas, os partidos reformistas perdem eleitores. A conciliação se torna impossível. É nesse momento que esses traidores mostram sua verdadeira face. Diante da escolha entre a revolução e a barbárie, escolhem a barbárie. Kautsky combateu a revolução russa. Os marxistas ocidentais se calaram diante do fascismo ou aderiram a ele. Stalin matou a revolução e chamou isso de socialismo. Os reformistas votarão o ajuste, aprovarão a repressão, justificarão o estado de exceção. Porque, no fundo, eles nunca foram nossos. Foram sempre deles. Apenas estavam infiltrados.
A tarefa do proletariado é expulsá-los. Denunciá-los. Isolá-los. A revolução não se faz com kautskys, com stalins, com marxistas de cátedra, com reformistas de gabinete. Faz-se com os que estão no chão de fábrica, na mina, no campo, na periferia. Com os que não têm nada a perder além das correntes. Com os que nunca foram comprados porque nunca tiveram preço. A traição é velha. A resposta também é velha: organização independente, ação direta, ruptura revolucionária. Fora disso, há apenas a fila dos que abandonaram a classe. E a história, que é juíza implacável, os condenará ao esquecimento.