Pescaria, futebol e politica.
Paulo Batista Gomes
domingo, 30 de agosto de 2026
Do Inorgânico ao Orgânico Tudo é História
sábado, 29 de agosto de 2026
A Tarefa do Proletariado Diante da Crise: Denunciar o Reformismo e Destruir o Capital
A Tarefa do Proletariado Diante da Crise: Denunciar o Reformismo e Destruir o Capital
A crise que o capitalismo atravessa não é mais uma crise cíclica, daquelas que se resolvem com a destruição de parte do capital e a recomposição da taxa de lucro. É uma crise estrutural, sistêmica, que atinge os fundamentos do modo de produção. As contratendências que historicamente adiaram o colapso (a expansão imperialista, a superexploração da periferia, a financeirização, o endividamento estatal) estão esgotadas ou próximas do esgotamento. A queda tendencial da taxa de lucro, lei demonstrada por Marx, já não encontra válvulas de escape capazes de restaurar a acumulação em bases estáveis. O capital respondeu à crise de 2008 com mais especulação, mais arrocho, mais destruição de direitos. Depois vieram pandemia, guerra, colapso ambiental. Cada resposta aprofunda a ferida.
Nesse quadro, a barbárie não é um exagero retórico. É a tendência objetiva do capital em decomposição: fascismo, guerra, destruição ambiental, descarte de populações inteiras. A revolução é a contratendência. Mas ela não é automática. Depende da consciência e da organização do proletariado. A crise estrutural não garante o socialismo; abre a possibilidade. E a possibilidade pode se perder.
Diante disso, é preciso varrer do vocabulário militante as ilusões que enfraquecem a classe. A primeira delas é a expressão "emancipação humana". Ela pertence ao jovem Marx, aos textos de transição em que ele ainda se movia no terreno da filosofia pós-hegeliana e da antropologia de Feuerbach. Ali, a emancipação humana aparece como a superação da alienação em todas as suas formas, como a recuperação de uma essência perdida. É um conceito abstrato, ainda marcado pelo humanismo. O Marx do Capital abandonou esse vocabulário. Não por esquecimento, mas por superação. Em O Capital, não há necessidade de falar em emancipação humana, porque a ciência da exploração já estabeleceu quem pode libertar a humanidade e por quê. O sujeito não é o homem; é o proletariado. A transformação não é a recuperação de uma essência; é a abolição das relações de produção capitalistas. O objetivo não é realizar a humanidade; é destruir a propriedade privada, extinguir o trabalho assalariado, abolir as classes. A linguagem muda porque o método mudou. Usar "emancipação humana" como se fosse o conceito central é voltar atrás, é recair no humanismo abstrato, é apagar a luta de classes do horizonte.
O mesmo rigor deve ser aplicado à ideia de reforma. Não há conciliação possível entre reforma e práxis revolucionária. A reforma, quando arrancada pela luta, é um subproduto, um efeito colateral, jamais um programa. A burguesia concede reformas como quem abre uma válvula de segurança: para aliviar a pressão e impedir a explosão. A esquerda reformista transforma essas concessões em vitórias e as apresenta como etapas de um caminho pacífico para o socialismo. Isso é uma fraude. A reforma não é o caminho; é a interrupção do caminho. Ela melhora as condições da exploração sem tocar na exploração. Pode aumentar o salário, reduzir a jornada, garantir direitos. Mas mantém o salário, a jornada e os direitos como formas da venda da força de trabalho. A reforma é a administração da miséria.
A práxis revolucionária não nega a luta imediata. Ela a incorpora, mas a tensiona. A greve é uma escola, desde que não termine em acordo que desmobiliza. A ocupação é um ensaio de poder, desde que não seja despejada e esquecida. A diferença está na direção. A luta reformista luta por um lugar melhor dentro do capital. A luta revolucionária luta para destruir o capital. A primeira quer a colher; a segunda quer arrancar a árvore. As duas são incompatíveis. Quem faz da reforma um programa abandona a revolução. Quem faz da revolução o objetivo usa a reforma como terreno de preparação, sem ilusões sobre seu alcance.
E aqui está o ponto central que precisa ser cravado com todas as letras: o reformista não é um aliado tático. Não é um companheiro de estrada que se pode usar e depois descartar. O reformista é um contrarrevolucionário. Ele vive da fração da mais-valia que o capital cede aos intermediários para administrar a exploração. O sindicalista que assina acordos, o parlamentar que vota o ajuste, o dirigente de partido que promete o socialismo e entrega o arrocho. Todos eles são peças do mesmo mecanismo. Não são enganados; são funcionários. Não estão a caminho de se tornar revolucionários; estão a caminho de se perpetuar como casta burocrática. A sua existência material depende da continuidade do capital. Por isso, a sua prática é, objetivamente, contrarrevolucionária, independentemente do seu discurso.
A ideia de "usar" o reformista no campo tático parte de um pressuposto falso: o de que ele é neutro, maleável, disponível para ser conduzido pela vanguarda. Mas o reformista não é um instrumento passivo. Ele tem interesses próprios, e esses interesses são antagônicos aos da classe. Toda vez que é incorporado a uma frente, ele sabota por dentro. Esvazia a greve, negocia por baixo, desvia a pauta para o voto. Quando a crise se aguça, ele não hesita: escolhe o lado do capital. A história está cheia de exemplos. A social-democracia votou os créditos de guerra em 1914, mandou os trabalhadores para o matadouro, e depois ainda posou de vítima da história. O reformista não é um aliado que pode ser usado; é um inimigo que deve ser exposto.
A denúncia do reformismo não é uma questão de sectarismo. É uma questão de sobrevivência. Enquanto a classe trabalhadora acreditar que o reformista é um caminho, ela não construirá o seu próprio. Enquanto a greve for entregue ao sindicato burocrático, ela terminará em acordo que desmobiliza. Enquanto a revolta for canalizada para o parlamento, ela se dissolverá em eleições. O reformismo é o freio que a burguesia introduziu no coração da classe. Denunciá-lo é arrancar o freio.
A tese da "frente ampla" é a forma atual da conciliação. Ela junta comunistas, social-democratas, liberais e até setores da burguesia em nome de um objetivo comum imediato. Mas o que é comum aí? A manutenção da ordem. O social-liberal entra com o seu programa de gestão do capital; o reformista entra com a sua burocracia; o revolucionário entra como massa de manobra. Quando a crise estoura, quem ganha é o capital. A classe fica desarmada, fragmentada, confusa. A frente ampla é a forma política da rendição.
Portanto, a tarefa do proletariado revolucionário é dupla. Primeiro, organizar-se independentemente, sem vínculos com o Estado burguês, sem depender de verbas, sem aceitar a mediação de burocratas. Segundo, denunciar incansavelmente o reformismo em todas as suas formas: o sindicalismo amarelo, o parlamentarismo de esquerda, a conciliação de classes. A denúncia não é uma campanha de opinião; é uma prática. É romper com os reformistas nas bases, nas assembleias, nas greves. É expulsá-los dos espaços que ocupam para sabotar a luta. É mostrar ao trabalhador comum que o seu pior inimigo não é o patrão que está na fábrica, mas o dirigente que o vende a esse patrão em troca de migalhas.
A revolução não se faz com frentes. Faz-se com rupturas. O proletariado não precisa de aliados que o traem; precisa de organização que o arme. A denúncia do reformista é parte da construção dessa organização. É o ato de marcar o campo, de separar os que estão com o capital dos que estão contra ele. O reformista, uma vez denunciado, perde a máscara. E, sem máscara, fica evidente: ele nunca foi companheiro. Foi sempre obstáculo. A classe, ao reconhecê-lo como tal, avança um passo na direção da sua libertação.
A luta de classes não é uma mesa de negociação. É uma guerra. E em guerra, quem serve ao inimigo não é usado: é combatido. O reformista serve ao inimigo. Portanto, não é usado. É denunciado. E, quando a classe se levantar, será varrido junto com o capital que ele sempre serviu. A revolução é limpeza. E a limpeza começa pela denúncia dos traidores.
A crise estrutural do capital está aí, escancarada. A barbárie avança. O tempo da conciliação acabou. O que está em jogo não é quem administra o capital, mas se o capital será destruído antes que destrua o planeta. A resposta materialista é uma só: revolução do proletariado, como condição da superação de todas as classes. Nem emancipação abstrata, nem reforma, nem frente. Revolução. Fora disso, há apenas a repetição das velhas promessas reformistas, que terminam sempre no mesmo lugar: na traição, na desmobilização, na derrota. A história não se comove com palavras bonitas. Ela avança quando as massas se movem. E as massas se moverão quando compreenderem que a sua libertação é a destruição do sistema que as explora.
quarta-feira, 12 de agosto de 2026
A Consciência de Classe
A Consciência de Classe: O Divisor de Águas entre a Submissão e a Emancipação Proletária
A história da humanidade, sob a égide do capital, é a história da luta de classes. No entanto, para que o proletariado transite de mero coadjuvante da exploração a sujeito revolucionário, é necessária uma chave epistemológica fundamental: a consciência de classe. Longe de ser um fenômeno espontâneo ou automático, ela representa o salto qualitativo pelo qual a classe trabalhadora decifra sua posição objetiva no modo de produção capitalista e compreende que sua subsistência depende da expropriação de sua força de trabalho.
Conforme define o materialismo histórico, a classe trabalhadora existe, primeiramente, como classe em si, ou seja, um conjunto de indivíduos que compartilham a mesma relação com os meios de produção, mas que ainda não perceberam a unidade de seus interesses antagônicos aos do capital. Apenas quando essa massa heterogênea se reconhece como classe para si, ciente de que o lucro do patrão é a mais-valia extraída de seu suor, é que emerge a verdadeira potência transformadora. Este é o momento em que a miséria material se traduz em clareza política.
Os Mecanismos da Falsa Consciência e a Ideologia Dominante
Se a consciência de classe é a luz que ilumina a exploração, a falsa consciência é a névoa que oculta o verdadeiro funcionamento do sistema. O capitalismo, para perpetuar-se, não depende apenas da violência policial ou econômica; depende, sobretudo, da hegemonia cultural. A classe dominante exerce seu poder ao fazer com que seus valores sejam internalizados como "senso comum" pela massa explorada.
Nesse contexto, a meritocracia surge como a mais potente armadilha ideológica. Ao pregar que o sucesso é fruto exclusivo do esforço individual, ela transfere para o trabalhador a culpa por sua própria penúria, naturalizando a gigantesca desigualdade estrutural. Paralelamente, o individualismo corrói os laços de solidariedade, transformando o colega de fábrica ou de escritório em um concorrente, em vez de um companheiro de luta. Essa fragmentação é o caldo de cultura no qual prospera a exploração.
A aposta nas reformas e na conciliação de classes constitui o verniz civilizatório do capital. Ao oferecer migalhas (aumentos pontuais, benefícios limitados) e vender a ideia de que patrões e empregados são "sócios" de um mesmo empreendimento, o sistema desvia o foco da questão central: a propriedade privada dos meios de produção. O reformismo, quando desvinculado de um projeto revolucionário, atua como um seguro contra a revolta, disciplinando os trabalhadores dentro da lógica sindicalista e burocrática, que negocia o preço da força de trabalho, mas jamais questiona sua alienação.
A Fragmentação da Luta e o Preço da Alienação
Sem a consciência de classe, o proletariado permanece refém de pautas corporativas e imediatistas. A luta se restringe ao aumento do salário ou à redução da jornada, perdendo de vista a abolição do assalariamento. Essa miopia estratégica permite que o capital divida os trabalhadores por categorias, raças, gêneros ou nacionalidades, fomentando preconceitos que desviam a fúria popular do verdadeiro inimigo: a lógica destrutiva da acumulação infinita.
A falsa consciência transforma o trabalhador em um fiscal de si mesmo e de seus pares. Ele aceita a precarização como um "mal necessário", a uberização como "empreendedorismo" e a demissão como "falta de resiliência". Ao fazer isso, ele naturaliza a própria exploração e perpetua um ciclo de autodepreciação coletiva, no qual a revolta se dissipa em ansiedade e depressão, em vez de se organizar em greve geral.
O Caminho para a Superação: A Práxis como Forja
A superação da falsa consciência não ocorre nos livros, mas na práxis, na ação coletiva organizada. É na greve, na ocupação e na confrontação direta com o poder patronal que o trabalhador empiricamente constata a incompatibilidade entre seus interesses e os do capital. Cada vitória conquistada pela via conciliatória que não altera a propriedade dos meios de produção revela-se, no longo prazo, uma derrota.
A consciência de classe exige um esforço teórico e político constante: a desalienação passa pelo estudo crítico da economia política, pela reconstrução da memória histórica das lutas operárias e pela rejeição radical à ideologia do "fim da história". O proletariado consciente sabe que sua emancipação não será um presente concedido pelo Estado burguês, mas uma conquista forjada na organização independente: conselhos, sindicatos combativos e partidos revolucionários que vinculam a luta econômica à luta política.
Portanto, a consciência de classe não é um luxo intelectual, mas uma necessidade ontológica para a sobrevivência da humanidade e o avanço da civilização.
Enquanto o trabalhador enxergar o patrão como um "gerador de empregos" e o sistema como um "destino inevitável", permanecerá acorrentado não apenas pelo salário, mas pela mente. Romper essa corrente é a tarefa histórica do nosso tempo. Sem a clareza de sua posição objetiva e a percepção de que a exploração é inerente ao capital, o proletariado continuará a carregar o peso da história nas costas, sem jamais segurar o leme de seu próprio destino. A luta de classes será vencida, no plano subjetivo, quando a classe trabalhadora disser, em uníssono: "Nós somos a maioria, e o mundo que construímos deve nos pertencer."
sábado, 1 de agosto de 2026
O Otimismo da Fé e o Pessimismo da Paralisia
O Otimismo da Fé e o Pessimismo da Paralisia: Para Além da Ilusão Democrática
Há uma posição hoje bastante difundida que se pretende lúcida, realista, vacinada contra as ilusões. Ela rejeita toda filosofia da história que prometa um final feliz. Desconfia do progresso automático, da Providência divina, da astúcia da razão. Olha para o século XX, para as guerras, os fascismos, os genocídios, e conclui que a história não tem direção, não tem sentido, não tem garantia. É uma posição que se apresenta como maturidade, como desencanto necessário. Mas, ao rejeitar a teleologia idealista, ela acaba por jogar fora também a possibilidade de conhecer as leis que movem a sociedade. E, ao fazê-lo, entrega-se a um pessimismo que não é ativo, mas paralisante. Recusa-se a acreditar na vitória e, ao mesmo tempo, deposita suas últimas fichas na democracia burguesa e na eleição de um candidato do campo popular. É essa contradição que precisa ser exposta.
A história, para o marxismo, não é um plano divino nem um progresso linear da razão. Marx nunca foi um crente na Providência. O que ele descobriu, com a frieza de quem disseca um cadáver, foram as leis de movimento do modo de produção capitalista. A lei do valor, a extração de mais-valia, a tendência à queda da taxa de lucro, a concentração e centralização do capital, a superpopulação relativa crescente. Essas leis não são decretos divinos; são tendências que operam através da luta de classes, das crises, dos acasos. Elas não garantem o socialismo, mas mostram por que o capitalismo é um sistema contraditório, que produz as condições materiais de sua própria superação. A história não é um trem sobre trilhos, mas é um campo de forças que pode ser conhecido. E conhecer esse campo é o primeiro passo para agir sobre ele. Quem renuncia a esse conhecimento, em nome de um ceticismo que se quer sofisticado, acaba por se tornar joguete das forças que não compreende.
É exatamente isso que ocorre quando se olha para o crescimento da extrema direita no mundo e se responde com perplexidade, com angústia, com o apelo à mobilização democrática. A extrema direita não é um raio em céu azul. Ela não é fruto da maldade de Trump, da loucura de Bolsonaro, da manipulação da mídia. Ela é um produto necessário da crise estrutural do capital. Quando a taxa de lucro cai, quando a superpopulação relativa incha, quando a classe média se proletariza, quando a burguesia já não pode governar com o consentimento das massas, o fascismo aparece como a forma política da contra revolução preventiva. Ele oferece bodes expiatórios, oferece a ilusão da ordem, oferece a violência organizada contra os de baixo. A extrema direita cresce porque o capital a alimenta, porque a crise a empurra, porque a esquerda reformista a deixa crescer ao desarmar a classe trabalhadora com ilusões parlamentares.
Diante desse quadro, a resposta que se oferece é a defesa da democracia, a união das forças democráticas, o voto útil, o "Lula lá". Mas o que significa, concretamente, essa aposta? Significa a crença de que a máquina do Estado burguês pode ser usada contra a burguesia. Significa a esperança de que um governo de frente ampla, liderado por um ex-presidente que já governou por oito anos sem tocar na propriedade privada, possa conter a crise e derrotar o fascismo. Significa esquecer que foi sob governos do campo popular que os bancos tiveram lucros recordes, que o agronegócio se expandiu, que a estrutura sindical foi mantida atrelada ao Estado, que a reforma trabalhista de 2017 foi o desfecho lógico de décadas de conciliação de classes.
Lula não é a antítese do fascismo; é a outra face da mesma moeda. O fascismo é o capital sem mediações, o chicote direto. O lulismo é o capital com mediações, o chicote que negocia. Ambos servem à mesma classe. Ambos aplicam, em condições diferentes, o programa que a crise exige. Quando a burguesia se sente forte, ela dispensa o mediador e apela ao fascista. Quando se sente pressionada, recorre ao conciliador. Mas, em qualquer caso, a classe trabalhadora paga a conta. Lula eleito aplicará o ajuste fiscal, negociará com o Centrão, preservará os interesses do capital financeiro, contará com a CUT e o PT para desmobilizar as greves. A "democracia" que ele defende é a democracia dos banqueiros, do agronegócio, dos rentistas.
A aposta no voto como trincheira contra o fascismo é uma aposta perdida. Porque o fascismo não se derrota com eleições; derrota-se com organização independente do proletariado, com greves que paralisam a produção, com ocupações que tomam a terra, com conselhos operários que ensaiam o poder de classe. A luta de classes não se desenrola "dentro" da democracia burguesa como num campo neutro. A democracia burguesa é uma das formas que a luta de classes assume, e é sempre a forma que garante, em última instância, a reprodução do capital. As instituições (o Judiciário, o Congresso, a imprensa) não são árbitros neutros. São máquinas de dominação de classe.
O pessimismo que se apresenta como ativo é, no fundo, uma confissão de derrota. Ele já internalizou a impossibilidade de uma transformação real. Já aceitou que o máximo que se pode fazer é administrar a catástrofe, eleger um governo menos pior, torcer para que a barbárie venha com rosto humano. Não é um pessimismo que organiza; é um pessimismo que espera. Ele não mobiliza para a ruptura; mobiliza para a próxima eleição. Ele não arma a classe com a crítica da economia política; arma-a com pesquisas, pesquisas, e mais pesquisas.
A classe trabalhadora não precisa de otimismo nem de pessimismo. Precisa de ciência. Precisa entender que o capital é uma relação social, não um destino. Que a propriedade privada dos meios de produção pode ser abolida. Que a democracia burguesa não é o horizonte final da política, mas uma forma transitória que será varrida pela democracia dos produtores. A história não garante a vitória, mas oferece as condições para ela. A classe que produz tudo pode tomar o poder. Mas não pelo voto. Pela ação direta. Pela greve. Pela organização. Pela revolução. Qualquer outra aposta é ilusão. E a ilusão, hoje, é o caminho mais curto para a derrota.
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Como a Existência Determina a Consciência
Como a Existência Determina a Consciência
A frase é categórica e não admite meio-termo: não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência. Marx a formulou no chão da crítica a Hegel e a Feuerbach, e ela se tornou o fundamento do materialismo histórico. Mas o que significa, concretamente, que a existência determina a consciência? Significa que as ideias, os valores, a moral, a religião e a filosofia não caem do céu nem brotam espontaneamente de uma razão abstrata. Brotam do chão material onde os homens produzem sua vida. E o primeiro ato dessa produção é comer, beber, abrigar-se, vestir-se. Antes de pensar, o homem age. Antes de filosofar, trabalha.
O trabalho é o metabolismo entre o corpo humano e a natureza. Ao transformar a natureza, o homem transforma a si mesmo. A mão que lasca a pedra desenvolve o cérebro que planeja o próximo golpe. A necessidade de cooperar na caça gera a linguagem. A convivência na tribo gera as primeiras normas, os primeiros costumes, as primeiras representações do mundo. A consciência não é um dom divino nem uma essência transcendental. É um produto social, nascido da atividade material. O homem que produz seus meios de vida produz, indiretamente, sua própria vida material e, com ela, as ideias que fará sobre si mesmo e sobre o mundo.
Em cada modo de produção, a consciência assume formas determinadas. Na comunidade primitiva, onde a terra era comum e a cooperação simples, a consciência era imediata, gregária, colada ao grupo. Não havia separação entre indivíduo e coletividade, e as ideias refletiam essa indistinção. Com a propriedade privada e a divisão da sociedade em classes, a consciência se cinde. Os proprietários dos meios de produção passam a viver do trabalho alheio. Os trabalhadores, despossuídos, vendem sua força de trabalho para sobreviver. Essa cisão material gera uma cisão ideológica. A classe dominante, que controla a produção material, controla também a produção espiritual. Suas ideias tornam-se as ideias dominantes.
O escravismo antigo produziu uma filosofia que justificava a escravidão como natural. O feudalismo produziu uma teologia que santificava a hierarquia. O capitalismo produz uma ideologia que transforma a exploração em contrato, o lucro em merecimento, o salário em justiça. A consciência do trabalhador sob o capital é, em grande medida, a consciência que a burguesia lhe impõe. Ele aprende na escola, na igreja, na televisão e no discurso do patrão que o mercado é neutro, que o esforço compensa, que a miséria é culpa individual. Mas essa consciência não é apenas imposta de fora. Ela brota da própria experiência cotidiana do trabalhador, que, ao vender sua força de trabalho, recebe um salário que parece pagar todo o seu esforço. A mais-valia, trabalho não pago, permanece oculta sob a aparência do contrato justo. O trabalhador não vê a exploração; vê o salário.
Aqui opera o fetichismo da mercadoria, essa inversão fundamental pela qual as relações entre pessoas aparecem como relações entre coisas. O valor, que é trabalho humano abstrato, aparece como propriedade natural dos objetos. O dinheiro, que é relação social cristalizada, aparece como poder autônomo. A reificação atinge a própria consciência do trabalhador sobre si mesmo. Ele se percebe como coisa, como mercadoria, como custo. Sua subjetividade é moldada pela forma valor. Ele não se reconhece como produtor, como criador, como sujeito histórico; reconhece-se como desempregado, como currículo, como função. A consciência coisificada é a consciência que o capital precisa para se reproduzir: passiva, fragmentada e culpada.
Mas essa mesma existência que determina a consciência contém a semente da sua transformação. O capitalismo, ao concentrar os trabalhadores na fábrica, ao socializar a produção, ao criar a cooperação forçada, gera as condições materiais para uma nova consciência. A exploração, quando se torna insuportável, deixa de ser natural e se revela como violência. A greve é o momento em que a consciência desperta. Ao paralisar a produção, o trabalhador descobre que o capital não produz nada sozinho. Descobre que o patrão precisa dele mais do que ele precisa do patrão. A consciência sindical é o primeiro passo. A consciência revolucionária é o passo seguinte: compreender que a exploração não se resolve com melhores salários, mas com a abolição do trabalho assalariado. É a passagem da classe em si, determinada pela posição na produção, à classe para si, que compreende seus interesses históricos e age para realizá-los.
A consciência de classe não é automática. Ela é construída na luta, na organização e na teoria. A crítica da economia política é a ferramenta que desvela a essência sob a aparência, a mais-valia sob o salário, a exploração sob o contrato. Armado com esse conhecimento, o proletário deixa de ser joguete das circunstâncias e se torna construtor da história.
A existência determina a consciência, mas a consciência também age sobre a existência. A dialética materialista recusa tanto o idealismo, que acredita que as ideias mudam o mundo sozinhas, quanto o mecanicismo, que acredita que a economia explica tudo. A consciência revolucionária, uma vez produzida pelas contradições materiais, torna-se ela mesma uma força material. Organiza a greve, dirige a ocupação e planeja a ruptura. A classe que toma consciência de sua situação histórica não apenas compreende o mundo, mas o transforma. E, ao transformá-lo, transforma a si mesma.
A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores. Essa frase não é um slogan, mas uma tese materialista. Porque só quem experimenta a exploração no corpo pode superá-la. A consciência que nasce da existência proletária não é uma consciência qualquer. É a única que pode ir até o fim, porque não tem nada a perder além das correntes. A existência burguesa também determina a consciência, mas é uma consciência limitada, presa ao fetichismo, incapaz de ver a história como movimento. A existência proletária, ao contrário, carrega a possibilidade da visão totalizante, porque sua miséria é a chave que abre a compreensão do sistema inteiro.
A existência determina a consciência. Por isso, mudar a consciência exige mudar a existência. Não se trata de pregar ao trabalhador que ele deve se revoltar. Trata-se de criar as condições para que ele compreenda sua própria revolta. E essas condições são materiais: a crise, a greve, a organização, o partido, a teoria. Quando a existência se torna insuportável, a consciência rompe o véu. Quando a consciência rompe o véu, a existência pode ser transformada. Esse é o círculo virtuoso da revolução. A história não é um processo automático; é um campo de luta onde a consciência é, ao mesmo tempo, produto e produtora das condições materiais. O trabalho vivo, que cria toda a riqueza, pode também criar a nova sociabilidade. E o fará quando compreender que é ele, e não o capital, o verdadeiro sujeito da história.