A Alienação como Arma do Capital
“Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, mas, pelo contrário, é o seu ser social que determina a sua consciência” (Marx).
"Pobre de direita" é uma categoria que a burguesia adora, porque ela sugere que a pobreza e a direita são compatíveis, que o pobre pode escolher seu algoz, que a consciência é um ato de vontade livre. Não é. O que existe é a pobreza material, produzida pela exploração, e o medo, produzido pela violência. O pobre que vota na direita não é um "pobre de direita". É um pobre alienado, um pobre amedrontado, um pobre cuja consciência foi moldada pelas relações sociais que o esmagam. A alienação não vem de outro lugar que a relação do homem com ele mesmo, mediada pelo capital. Nada é inato. Nada é eterno. A necessidade gerada pelo capital organizado precisa e cria a alienação. E tudo é luta de classes.
A alienação não é um estado psicológico. É uma relação social material. O trabalhador vende sua força de trabalho. O produto do seu trabalho não lhe pertence. Ergue-se diante dele como capital alheio, como poder estranho que o domina. Ele não se reconhece no que produz. Não controla o processo. Não decide o fim. O trabalho, que deveria ser a expressão da vida, torna-se meio de sobrevivência. O trabalhador se sente livre quando não trabalha, e animal quando trabalha. Essa inversão não é natural. É produzida pela propriedade privada dos meios de produção. É a forma específica da alienação sob o capital.
O capital não cria apenas a alienação econômica. Cria a alienação política, a alienação cultural, a alienação ideológica. O trabalhador não se reconhece como classe. Reconhece-se como indivíduo, como consumidor, como eleitor, como empreendedor de si mesmo. A ideologia dominante, que é a ideologia da classe dominante, penetra em todas as esferas da vida. A escola ensina a obedecer. A igreja ensina a resignar. A mídia ensina a temer. O entretenimento ensina a consumir. Tudo conspira para que o trabalhador não se veja como trabalhador. Tudo conspira para que ele veja o outro trabalhador como concorrente, como inimigo, como ameaça.
É nesse terreno que a direita recruta. Não entre os "pobres de direita", essa categoria não existe. Entre os pobres alienados. Entre os que foram convencidos de que sua miséria é culpa própria. Entre os que temem o vizinho, o imigrante, o negro, o comunista... Entre os que foram ensinados a odiar os de baixo em vez de odiar os de cima. A direita não oferece soluções. Oferece bodes expiatórios. Oferece a ilusão de superioridade. Oferece a promessa de ordem. E o pobre alienado, que não compreende as causas da sua miséria, agarra-se a essas ilusões. Não porque seja burro. Porque foi formado por relações sociais que o impedem de ver.
A divisão da classe trabalhadora é a arma mais eficaz do capital. O capital não precisa reprimir todos os trabalhadores se consegue convencer uma parte deles a reprimir a outra. O trabalhador branco que odeia o trabalhador negro é um aliado objetivo do patrão. O trabalhador homem que despreza a trabalhadora mulher é um aliado objetivo do patrão. O trabalhador nativo que teme o trabalhador imigrante é um aliado objetivo do patrão. A fragmentação é a condição da dominação. E a fragmentação é produzida pela alienação. Pela incapacidade de se reconhecer como classe.
A superação da alienação não é um ato de vontade. Não é um curso de formação política. Não é uma cartilha. É um processo material. Acontece na luta. Na greve, quando o trabalhador descobre que o patrão precisa dele. Na ocupação, quando descobre que a propriedade privada pode ser desafiada. Na assembleia, quando descobre que a decisão coletiva é possível. Na solidariedade, quando descobre que o outro não é inimigo, mas companheiro. A consciência de classe não vem antes da luta. Vem com a luta. É a luta que desvela a alienação. É a luta que mostra ao trabalhador que sua miséria não é culpa própria, mas produto de uma relação social. É a luta que o faz reconhecer no outro trabalhador um igual.
Portanto, não existe pobre de direita. Existe pobre alienado. Existe pobre amedrontado. Existe pobre que foi convencido a odiar a si mesmo. A tarefa do proletariado não é desprezar esse pobre. É organizá-lo. É construir os espaços onde ele possa experimentar a solidariedade, a decisão coletiva, a luta. É mostrar, na prática, que o inimigo não é o vizinho, mas o patrão. Que a divisão é arma do capital. Que a unidade é a condição da vitória.
Tudo é luta de classes. A alienação é uma arma dessa luta. A divisão é uma arma dessa luta. O medo é uma arma dessa luta. E a superação da alienação, da divisão e do medo é a tarefa da revolução. Não há atalho. Não há pedagogia que substitua a práxis. Não há discurso que substitua a organização. A classe trabalhadora só se libertará quando se reconhecer como classe. E só se reconhecerá como classe quando lutar como classe. A luta é a escola. A organização é a arma. A revolução do proletariado horizonte. E o resto é conversa de reformista.