A Derrota Não se Explica por Falta de Educação: Ela se Explica por Falta de Poder
A derrota eleitoral do campo popular não é um acidente, não é um efeito de propaganda, não é resultado de três semanas de mentiras. É a expressão política de uma correlação de forças materiais. Enquanto a esquerda acreditar que perdeu porque o povo foi doutrinado, continuará perdendo. Porque a questão não é de consciência, é de poder. E o poder, na sociedade de classes, não se conquista com pedagogia. Conquista-se com organização.
O erro fundamental da análise que se refugia na "educação política" e nas "pequenas lutas cotidianas" é o mesmo erro do reformismo eleitoral: acreditar que a transformação virá de acúmulo, de paciência, de conquista gradual. O reformismo eleitoral diz: vote, espere, confie. O reformismo comunitário diz: organize o bairro, faça a horta, dê aula de reforço, espere. Ambos adiam a ruptura. Ambos substituem a luta pelo poder pela administração da miséria. Ambos abandonam o proletariado à sua própria sorte, porque não constroem os instrumentos de sua emancipação.
A classe trabalhadora não vota na extrema direita porque foi doutrinada por três semanas de propaganda. Vota porque sua existência material a empurra para lá. A pequena burguesia arruinada, o lumpemproletariado cooptado, os setores do agronegócio e das milícias, todos têm interesses concretos que os alinham com o fascismo. Não são mentes doutrinadas; são corpos posicionados na estrutura de classes. A batalha não é de consciências; é de interesses. Enquanto a esquerda tratar o fascismo como um monstro arcaico que dorme na alma popular, não compreenderá que ele é uma forma política moderna, produzida pela crise estrutural do capital. Surge quando a burguesia não pode mais governar com o consentimento das massas. Surge quando a taxa de lucro cai e a conciliação se torna impossível. Culpar o povo é transferir para a vítima a responsabilidade do algoz.
A "educação política" é necessária, mas não é suficiente. E, isolada, é impotente. O proletariado não aprende a ser classe revolucionária lendo livros ou assistindo a documentários. Aprende na greve, na ocupação, no confronto com o Estado, na experiência concreta de que sem ele a produção para e o capital morre. A consciência de classe não é um curso; é uma forja. As "lutas pequenas, cotidianas e permanentes" podem ser úteis como tática de sobrevivência imediata, mas não como estratégia. Sem uma perspectiva de ruptura, elas se tornam um fim em si mesmas. Viram ONGs, hortas comunitárias, coletivos culturais, tudo aquilo que o capital tolera porque não o ameaça. A classe trabalhadora não precisa de mais uma horta; precisa de poder. Precisa de comitês de fábrica, de conselhos operários, de assembleias populares que decidam o rumo da produção e da vida. Precisa de organizações que confrontem o Estado burguês e construam, desde já, o embrião do poder proletário.
O voto, por sua vez, pode ser uma tática defensiva, um meio de comprar tempo, de abrir espaço para a organização. Mas, apresentado como esperança, ele se torna ópio. A esperança não é uma categoria revolucionária. Marx não escreveu para os desesperados; escreveu para a classe. E a classe não precisa de esperança; precisa de organização. O desesperado que vota e espera não constrói nada. O organizado que vota e luta constrói o poder que um dia dispensará o voto. A esperança é uma virtude teologal. A organização é uma necessidade material. Confundi-las é o caminho mais curto para a paralisia.
A resistência precisa ser outra coisa. Precisa ser a construção de um partido revolucionário, enraizado na produção, independente do Estado burguês, sem ilusões eleitorais, sem ilusões comunitárias. Precisa ser a organização da classe nos locais de trabalho, nos bairros, nas escolas, nos campos, com um programa que aponte para a destruição da propriedade privada e do trabalho assalariado. Precisa ser a preparação consciente da ruptura, não a administração paciente da derrota.
A saída não é eleitoral. Mas também não é pedagógica. A saída é a revolução. E a revolução não se faz com pequenas lutas cotidianas nem com educação lenta. Faz-se com organização, com ação direta, com a tomada do poder. O resto é conversa de derrotado. E o proletariado não tem tempo para conversa. Tem tempo para luta.
A história não se move por ideias. Move-se por interesses. E o interesse do proletariado é a abolição da propriedade privada, do trabalho assalariado, do Estado burguês. Enquanto a esquerda não compreender isso, continuará perdendo eleições, continuará administrando a miséria, continuará assistindo ao avanço da barbárie. Não porque o povo é ignorante, mas porque a esquerda é impotente. E é impotente porque não quer o poder. Quer apenas administrar. E quem administra a miséria nunca a supera. Apenas a perpetua.