Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Trabalho Associado: A Produção Livre do Jugo do capital

Trabalho Associado: A Produção Livre do Jugo do Capital


O trabalho assalariado é a forma específica que o trabalho assume sob o capitalismo. O trabalhador, despossuído dos meios de produção, vende sua força de trabalho ao capitalista. Durante a jornada, seu trabalho concreto produz valores de uso, mas seu trabalho abstrato gera valor. Uma parte desse valor retorna a ele como salário; a outra, a maior, é apropriada pelo capitalista como mais-valia. Essa relação não é de cooperação, mas de exploração. O trabalhador não controla o que produz, nem como produz, nem para quem produz. O produto de suas mãos ergue-se diante dele como capital alheio, como poder estranho que o domina. Ele trabalha para sobreviver, e sobreviver significa ser explorado. Essa é a negação do trabalho como atividade livre e criadora.


O trabalho associado é a antítese direta dessa relação. Marx o define como a forma de produção em que os meios de produção pertencem aos próprios produtores, organizados coletivamente. Não há um capitalista separado que contrata, comanda e embolsa. São os trabalhadores que, de maneira associada, decidem o que produzir, como produzir e como distribuir o fruto do trabalho. O trabalho deixa de ser subordinado ao comando do capital e passa a ser subordinado ao controle consciente dos produtores. A divisão entre quem manda e quem obedece, entre quem pensa e quem executa, tende a desaparecer. O trabalho associado é o trabalho que se autogoverna.


A base material dessa possibilidade está no próprio desenvolvimento do capitalismo. O capital, ao concentrar e centralizar a produção, socializou o processo de trabalho. A fábrica moderna não é obra de um indivíduo, mas de centenas ou milhares de trabalhadores que cooperam. A produção tornou-se um ato coletivo, interdependente, que depende da articulação de múltiplos trabalhos parciais. No entanto, essa socialização da produção se dá sob a forma da apropriação privada. O capitalista colhe o fruto da cooperação que não criou. O trabalho associado resolve essa contradição ao fazer coincidir a produção coletiva com o controle coletivo e a apropriação coletiva. O que já é socializado na produção deixa de ser privatizado na apropriação.


Marx enxergou nas cooperativas operárias a demonstração prática de que o capitalista é supérfluo. Na fábrica cooperativa, os trabalhadores eliminam o patrão e assumem eles mesmos a gestão. Mostram que o capital não é uma pessoa necessária à produção, mas uma função parasitária que pode ser extirpada. A cooperativa prova, na prática, que a produção pode ocorrer sem a classe capitalista. Ela é o embrião do trabalho associado, a prova viva de que a exploração não é eterna nem natural.


Contudo, Marx não idealizou as cooperativas. Ele via seus limites com clareza. Isoladas, dentro do mercado capitalista, as cooperativas são sufocadas pela concorrência, pelo crédito caro, pela sabotagem dos grandes capitais. Tendem a degenerar: ou fecham, ou se burocratizam, ou se transformam em empresas como as outras, contratando assalariados e reproduzindo a exploração. A cooperativa, sozinha, não pode superar o capitalismo. Pode, no máximo, demonstrar que outro modo de produção é possível. Mas a demonstração só se converte em transformação real quando a classe trabalhadora, como um todo, toma o poder político e arranca os meios de produção das mãos da burguesia.


O trabalho associado, portanto, não é uma reforma do capitalismo. É a negação do capitalismo. Ele não pode florescer dentro da ordem burguesa; exige a ruptura com ela. Exige a abolição da propriedade privada, a socialização dos meios de produção, a destruição do Estado burguês e a construção do poder dos produtores. Essa é a ditadura do proletariado: o período de transição em que a classe trabalhadora, organizada como classe dominante, expropria os expropriadores e começa a reorganizar a produção sobre bases associadas.


O horizonte final é o que Marx chama, no Livro III de O Capital, de reino da liberdade. Nesse estágio, o trabalho associado já não é apenas uma necessidade imposta pela luta contra o capital, mas a forma natural da existência social. Os produtores associados regulam racionalmente seu metabolismo com a natureza, trazendo-o para controle comunitário, em vez de serem dominados por ele como uma força cega. A jornada de trabalho é reduzida ao mínimo necessário. O tempo livre se expande. A riqueza deixa de ser medida pelo tempo de trabalho e passa a ser medida pelo desenvolvimento livre das capacidades humanas. O trabalho deixa de ser fardo e se torna expressão criativa, atividade vital escolhida, e não imposta de fora.


O trabalho associado é, portanto, o centro do programa revolucionário de Marx. Não se trata de melhorar o trabalho assalariado, de humanizá-lo, de pagar salários mais altos ou reduzir a jornada dentro da ordem. Trata-se de abolir o trabalho assalariado como forma social. Trata-se de extinguir a relação que transforma o trabalho em mercadoria e o produtor em instrumento. O trabalho associado é o trabalho que se libertou do jugo do capital. É o trabalho que deixou de ser meio de vida para se tornar a própria vida em sua plenitude. É a negação do capital no ato mais fundamental da existência humana: o ato de produzir. E é, por isso mesmo, a condição da emancipação real.

Liberdade é Ter Consciência de Sua Nescesidade

A Liberdade como Consciência da Necessidade


O capitalismo enche a boca para falar de liberdade. Liberdade de escolher, liberdade de consumir, liberdade de votar, liberdade de empreender. Repete-se na televisão, na escola, na propaganda, no discurso do chefe: você é livre, você decide, você é dono do seu destino. Mas o trabalhador que acorda às quatro da manhã, toma duas conduções lotadas, bate ponto, cumpre meta, volta exausto e ainda encontra a geladeira vazia sente na pele que essa conversa não fecha. Ele não se sente livre. Ele se sente acuado, cansado, sem saída. E não é impressão. É realidade. Porque a liberdade que o capital oferece é falsa. É a liberdade de quem ignora as forças que o movem. É a ilusão de quem não conhece as causas da própria miséria.


A verdadeira liberdade é outra. É a consciência da necessidade. A frase não é um slogan, é uma conclusão científica. Ela está em Engels, no Anti-Dühring, e está em Marx, no terceiro livro de O Capital, no capítulo sobre o reino da liberdade. O que ela diz é simples e profundo: não somos livres porque ignoramos as leis que regem a natureza e a sociedade; somos livres quando as conhecemos e, conhecendo-as, agimos coletivamente para dominá-las, em vez de sermos dominados por elas.


O ponto de partida é a necessidade material. O ser humano, como qualquer ser vivo, depende da natureza. Precisa comer, beber, se abrigar, se proteger do frio e do calor. Essa é a base inescapável da existência. Não há sociedade, por mais rica ou avançada, que elimine essa necessidade. Sempre será preciso trabalhar, transformar a natureza, produzir valores de uso (alimentos, roupas, casas, remédios). O trabalho é a condição eterna da vida humana, o metabolismo entre o corpo do homem e o corpo da terra. O reino da necessidade não desaparecerá nunca.


Mas uma coisa é a necessidade natural; outra, completamente diferente, é a forma social que o capitalismo impõe a essa necessidade. Sob a ordem burguesa, a necessidade de comer vira a necessidade de ter dinheiro. A necessidade de ter dinheiro vira a necessidade de vender a força de trabalho. E a necessidade de vender a força de trabalho vira a necessidade de aceitar qualquer salário, qualquer jornada, qualquer humilhação. O capital acrescenta à necessidade natural uma segunda necessidade, artificial e brutal: a necessidade de ser explorado. O trabalhador não é livre para não vender sua força de trabalho; se não vender, não come. Sua liberdade é a liberdade do faminto: escolhe o prato que o patrão oferece, mas não escolhe se come ou não.


Essa é a primeira grande ilusão que precisa ser quebrada. O capitalismo chama de liberdade o ato de escolher qual patrão vai sugar seu sangue. Mas a verdadeira liberdade começaria no momento em que o trabalhador pudesse recusar a exploração sem ser condenado à fome. Enquanto a propriedade privada dos meios de produção existir, enquanto a terra, as fábricas, as máquinas, a tecnologia estiverem nas mãos de uma classe, a maioria estará condenada a se vender. E vender-se não é ser livre. É ser mercadoria.


A segunda ilusão é ainda mais perversa: o capitalismo convence o trabalhador de que a culpa é dele. Se está desempregado, é porque não se esforçou. Se ganha pouco, é porque não estudou. Se não sobe na vida, é porque não teve iniciativa. A ideologia do mérito individual transforma a vítima em réu. Cada trabalhador carrega sozinho o peso de uma derrota que é, na verdade, coletiva e programada. Ele não conhece as leis que o esmagam (a lei do valor, a extração de mais-valia, a acumulação capitalista). Sente a dor, mas não sabe de onde vem. Sofre a exploração, mas acredita que é azar. Essa ignorância não é natural; é fabricada. A classe dominante domina também as ideias. E a ideia central que ela repete é a de que o sistema é justo, o mercado é neutro e a liberdade é individual.


Aqui entra a consciência. O proletário que compreende que seu sofrimento não é pessoal, mas de classe, dá o primeiro passo para a liberdade. Ele entende que o valor das mercadorias não brota do dinheiro, mas do trabalho humano abstrato. Entende que o lucro do patrão não é recompensa pelo risco, mas trabalho não pago, mais-valia extraída de seu corpo. Entende que a máquina não é inimiga; o inimigo é a propriedade privada que faz da máquina instrumento de tortura e desemprego. Entende que o Estado não é árbitro neutro, mas o comitê executivo da burguesia. Essa compreensão não é um luxo intelectual; é a arma mais poderosa que a classe tem. Porque, ao entender o que o esmaga, o trabalhador pode se unir a outros para derrubar o que os esmaga a todos.


A greve é a consciência da necessidade em movimento. A ocupação de fábrica, o bloqueio de estrada, a assembleia no pátio, a solidariedade que fura o isolamento, tudo isso é liberdade nascendo da compreensão da servidão. O trabalhador que cruza os braços e diz "basta" não está apenas pedindo aumento. Está afirmando que entendeu o jogo. Sabe que sem ele a roda não gira. Sabe que o capital não produz nada sozinho. Sabe que o trabalho vivo é a única fonte de valor. E usa esse conhecimento como alavanca. Esse é o sentido da passagem de Engels: a liberdade não é independência ilusória das leis naturais ou sociais; é o conhecimento dessas leis e a ação planificada para fazê-las operar a favor da maioria, e não contra ela.


Mas a consciência da necessidade não se esgota na luta imediata. Ela aponta para além. O capitalismo não será derrotado por greves parciais, por conquistas salariais, por reformas. Será derrotado quando a classe compreender que a única liberdade real exige a abolição completa da propriedade privada dos meios de produção. Enquanto houver um dono para a fábrica, um dono para a terra, um dono para a tecnologia, o trabalhador será servo, por mais alto que seja seu salário. A liberdade burguesa é a liberdade do pássaro na gaiola: pode escolher o poleiro, mas não pode voar.


O reino da liberdade, escreve Marx, começa onde cessa o trabalho determinado pela necessidade e pela coação externa. A necessidade natural (comer, beber, abrigar-se) não desaparece. Mas a forma como a humanidade responde a ela muda radicalmente. Sob o comunismo, os produtores associados regulam racionalmente seu metabolismo com a natureza. Colocam a produção sob controle comunitário, em vez de serem dominados por ela como uma força cega. A jornada de trabalho é reduzida ao mínimo necessário, por meio da tecnologia posta a serviço de todos. O tempo livre se expande. E nesse tempo livre, para além da necessidade, o ser humano pode enfim se dedicar ao que faz a vida valer a pena: o estudo, a arte, o esporte, o amor, a política, a criação, o cuidado. Isso é liberdade. Não a escolha entre marcas no supermercado, mas o controle consciente sobre as condições da existência.


É por isso que a frase de Marx e Engels não é uma peça de museu. Ela é um programa de luta. A classe trabalhadora precisa conhecer as leis que regem o capital para poder derrubá-lo. Precisa saber que a riqueza que produz é apropriada por poucos. Precisa saber que a abundância material já existe, mas está trancada pela propriedade privada. Precisa saber que a escassez é artificial, produzida para manter o lucro. Precisa saber que não há saída individual: ou a classe se organiza e rompe com a ordem, ou todos continuarão sendo esmagados, um a um, pelo desemprego, pelo arrocho, pela fome.


A liberdade burguesa é a ignorância das causas. A liberdade proletária é o conhecimento delas e a ação coletiva para superá-las. O capitalista não quer que o trabalhador entenda de onde vem o lucro. Prefere que ele acredite no mérito, no esforço, na sorte. Prefere que ele assista televisão, consuma, vote, espere. Porque o trabalhador que entende a necessidade não se resigna a ela. Organiza-se. Luta. Rompe.


A história não é destino. É construção. As correntes que prendem a humanidade foram forjadas por mãos humanas e podem ser partidas por mãos humanas. A necessidade natural permanecerá. Sempre será preciso plantar, colher, construir, limpar. Mas a necessidade imposta pelo capital (a exploração, a fome, a guerra, a destruição do planeta) pode ser abolida. E será abolida quando a classe que produz tudo decidir que não aceita mais viver de migalhas, que não aceita mais ser variável de ajuste, que não aceita mais ser estranha a si mesma. A liberdade é a consciência da necessidade. E a consciência, quando se transforma em força material, é o princípio do fim da velha ordem e o nascimento do novo.

terça-feira, 16 de junho de 2026

O Trabalho Vivo e a Ordem Burguesa

O Trabalho Vivo e a Ordem Burguesa: A Farsa da Abundância e a Miséria Produzida


Toda a riqueza que move o mundo, todos os arranha-céus, todas as mercadorias estocadas e todos os números nos telões das bolsas têm uma origem única, viva e carnal: o trabalho vivo. Mas é preciso cravar o que isso significa. Trabalho vivo não é qualquer atividade remunerada. Não é o serviço, não é o conhecimento, não é a logística. Trabalho vivo é a atividade concreta do proletariado que se relaciona diretamente com a natureza e a transforma em valores de uso: arar a terra, extrair minério, fundir aço, montar o circuito, tecer o fio, erguer a parede. É nesse metabolismo entre o corpo humano e a matéria que nasce o valor novo. Fora disso, o que existe é consumo de valor já produzido, redistribuição de mais-valia já extraída, circulação de riqueza já criada.


A grande mentira do capitalismo é a ilusão de que o capital se reproduz por si mesmo. A máquina, o algoritmo, a inteligência artificial são trabalho morto, trabalho humano pretérito cristalizado em equipamentos. Nenhum deles cria um centavo de valor novo. Transferem ao produto seu próprio desgaste. Quem cria valor novo é exclusivamente o proletário que opera a prensa, que dirige a escavadeira, que solda a estrutura, que planta e colhe. O dinheiro do capitalista só se multiplica quando encontra esse trabalho vivo para sugar. A greve geral é o pesadelo da burguesia porque, ao parar o trabalho vivo, revela-se que todo o resto (as finanças, os serviços, o comércio, a burocracia) é parasita de um único corpo.


O professor, o contador, o motorista de aplicativo, o bancário, o funcionário público, o enfermeiro, o atendente de telemarketing não produzem trabalho vivo. Eles não transformam a natureza em mercadoria. Eles não geram mais-valia diretamente. Sua renda provém de uma fração da mais-valia global extraída pelo capital do proletariado produtivo. O capital suga o trabalho vivo na fábrica, na mina, no latifúndio, e com uma parte desse butim paga os serviços que mantêm a ordem funcionando: educar o filho do operário para que ele continue sendo operário, transportar o gerente até o escritório, contar os lucros do patrão, vigiar a saúde do trabalhador para que ele volte ao batente. Esses segmentos vivem do trabalho vivo, mas não o executam. Não são proletários no sentido estrito. São camadas assalariadas que o capital sustenta com a mais-valia alheia.


O médico que atende no hospital privado, o cirurgião que opera com equipamentos de última geração, o dono da clínica que cobra a consulta, todos eles vivem da mais-valia extraída do trabalho vivo. O paciente que paga a consulta é um trabalhador, ou a esposa de um trabalhador, ou o filho de um trabalhador, e o dinheiro que sai de sua carteira saiu antes da fábrica, da mina, do campo. O plano de saúde que cobre o procedimento é pago com salário, que é fração da mais-valia. O médico não criou valor nenhum ao auscultar o peito do operário; ele apenas consumiu uma parcela da riqueza já produzida pelo proletariado. O grande capital da saúde (os hospitais, os laboratórios farmacêuticos, os planos) suga a mais-valia duas vezes: primeiro, ao vender o remédio e o procedimento com lucro; segundo, ao pagar salários aos médicos e enfermeiros, que são deduções do butim original. O médico pode ser um profissional dedicado, pode salvar vidas, mas sua vida material depende inteiramente da extração de mais-valia nas minas, nas fábricas e nos campos. Sem o mineiro que arranca o minério, sem o metalúrgico que forja o aço, sem o camponês que planta o alimento, o médico não tem hospital, não tem instrumento, não tem comida na mesa. Ele vive do trabalho vivo do proletariado.


O banqueiro é o caso mais descarado. Ele não transforma natureza nenhuma. Não produz mercadoria nenhuma. Não presta serviço nenhum que não possa ser eliminado numa sociedade racional. Sua função é sugar. Ele empresta dinheiro e cobra juros. Esse dinheiro é trabalho vivo cristalizado, mais-valia acumulada que o proletariado gerou e que o banqueiro agora usa para extorquir mais ainda. O banco não cria riqueza; concentra a riqueza alheia. O banqueiro não gera valor; vive do spread, da taxa, do endividamento. Cada real que entra no cofre do banco saiu antes das mãos calejadas do proletário. O banqueiro e toda a casta financeira (analistas, consultores, corretores, gestores de fundos) são a expressão mais pura do parasitismo. Eles não produzem trabalho vivo. Eles drenam trabalho vivo. São a ventosa acoplada ao corpo do proletariado mundial.


O político profissional, o parlamentar, o ministro, o assessor, o marqueteiro, o lobista, todos eles vivem da mais-valia extraída do trabalho vivo. O salário do deputado é pago com impostos. Os impostos saem do salário do trabalhador e do lucro do capitalista. O lucro do capitalista é mais-valia acumulada. Portanto, o político vive do trabalho do mineiro, do metalúrgico, do camponês, do operário da construção civil. Ele não criou a riqueza que consome; ele a administra. Sua função é garantir que a propriedade privada permaneça intocada, que a exploração continue legal, que a greve seja criminalizada, que o Estado siga sendo o comitê executivo da burguesia. O parlamento, o palácio, o tribunal, todos os poderes do Estado burguês são máquinas que consomem mais-valia para reproduzir as condições de extração de mais-valia. O juiz que condena o sem-terra, o delegado que prende o grevista, o burocrata que nega o benefício, o militar que reprime a ocupação, todos são pagos com o suor do proletariado. Todos exercem violência contra o proletariado usando a riqueza que o proletariado produziu.


O professor da escola pública, o policial, o agente de trânsito, o fiscal da prefeitura, o escriturário do fórum, todos os funcionários do Estado burguês, estão na mesma condição: vivem de frações da mais-valia redistribuída pelo orçamento estatal. Não são proletários. Não produzem trabalho vivo. Não transformam a natureza. Sua função é manter a ordem, educar para a obediência, reprimir os descontentes, processar a papelada da exploração. Podem ser mal pagos, podem ser explorados em sua jornada, podem até se rebelar contra suas condições, mas sua posição na estrutura de classes é distinta da posição do proletário que está na fábrica, na mina, no campo. O proletário gera a riqueza; o funcionário público a consome. O proletário cria o bolo; o funcionário recebe uma fatia. Isso não é uma questão de salário maior ou menor; é uma questão de função no processo de produção.


A abundância que o trabalho vivo produz hoje é concreta e colossal. Nunca se produziu tanto alimento, tanta roupa, tanto remédio, tanta moradia. A fome, o desabrigo, a fila do osso não são escassez natural; são escassez produzida pela apropriação privada da riqueza social. O capital concentra a mais-valia em poucas mãos e a transforma em títulos, ações, iates, enquanto destrói alimentos para sustentar preços. O proletário que gerou essa abundância recebe uma fração mínima, o salário, que mal repõe suas forças. O professor, o médico, o motorista, o bancário, o político recebem outras frações, deduzidas do mesmo bolo. Todos eles são pagos pelo mesmo trabalho vivo, mas só o proletário o executa. Só o proletário mete a mão na terra, no fogo, no metal. Só ele sangra.


A crise não é um desvio; é o sistema operando. A lei da queda tendencial da taxa de lucro, a substituição de trabalho vivo por trabalho morto, a superpopulação relativa crescente geram destruição periódica de forças produtivas e desemprego em massa. Enquanto o proletário acreditar que sua dor se resolve com currículo, com voto ou com migalhas, ele seguirá sendo a variável de ajuste. A única saída é a organização independente do proletariado produtivo, unido aos demais segmentos explorados e oprimidos, mas com clareza sobre quem é o sujeito central da transformação. O horizonte não é administrar a miséria, mas socializar a abundância já produzida. O comunismo não divide a pobreza; organiza a riqueza que o trabalho vivo já criou para que sirva a todos. É a superação da escassez artificial. É o reconhecimento de que o proletariado já produziu o bastante para que ninguém mais precise passar fome.


Até lá, o sistema seguirá canibalizando o trabalho vivo e o planeta. A miséria que vemos não vem da natureza, mas da ordem burguesa que sequestra a abundância. O professor, o médico, o banqueiro, o político, o juiz, o policial, todos vivem do mesmo trabalho vivo que o proletário executa. A diferença é que o proletário o executa e é espoliado; os outros o consomem e são cúmplices, em maior ou menor grau, da espoliação. Essa abundância, hoje, é o terreno onde a emancipação se torna possível. Mas só se torna possível se o trabalho vivo se reconhecer como o único criador de toda a riqueza e tomar para si o controle dos meios de produção. O resto é redistribuição de migalhas. E migalhas não libertam ninguém.

domingo, 14 de junho de 2026

Traidores da Classe Proletária

Traidores: A Fila dos que Abandonaram a Classe


A história do movimento operário é também a história das traições. Não como acidente, não como desvio moral, mas como produto necessário da luta de classes. A burguesia não se defende apenas com a repressão. Defende-se também com a corrupção. Compra os que vacilam, promove os que se vendem, canoniza os que desertam. De Karl Kautsky a Josef Stalin, passando por toda uma linhagem de marxistas ocidentais e reformistas, a fila dos que abandonaram a classe é longa. E é preciso olhar para ela de frente, porque o inimigo não está apenas do outro lado. Muitas vezes, ele esteve ao nosso lado, falou nossa língua, ergueu nossa bandeira e, no momento decisivo, negociou a rendição.


Kautsky é o caso clássico. O homem que foi chamado de renegado não por um insulto qualquer, mas porque renegou a essência da doutrina que dizia defender. Durante décadas, foi a maior autoridade do marxismo depois de Engels. Escreveu, organizou, polemizou. Mas quando a hora exigiu a ruptura, ele escolheu a conciliação. Opôs-se à tomada do poder, defendeu a democracia burguesa como caminho para o socialismo, combateu a ditadura do proletariado. Tornou-se o papa dos reformistas, o santo dos que queriam o socialismo sem revolução. Sua traição não foi pessoal. Foi política. Ele deu ao reformismo sua capa teórica. Justificou o abandono da luta armada e a adesão ao parlamento. E até hoje os que não querem fazer a revolução se ajoelham diante de seu túmulo.


Kautsky é o paradigma. Mas a fila não parou nele. Ela atravessa o século XX e chega ao século XXI com novos rostos e velhas ideias. O marxismo ocidental, nascido da derrota das revoluções europeias dos anos 1920, é a expressão acadêmica da retirada. Incapaz de fazer a revolução, refugiou-se na universidade. Substituiu a análise da mais-valia pela análise da cultura. Substituiu a organização da greve pela publicação de artigos. Transformou o marxismo em disciplina, em carreira, em nicho de mercado. Criou um jargão que só os iniciados entendem, e com isso se separou da classe que dizia representar. O operário não lê Adorno. O camponês não entende Althusser. E eles não se importam, porque escrevem para seus pares, para a banca examinadora, para os editores europeus. O marxismo ocidental é o marxismo que o capital permite, porque é o marxismo que não ameaça.


Stalin representa outra face da traição. Não a do reformismo parlamentar, mas a da contrarrevolução burocrática. Tomou o poder em nome do proletariado e construiu um regime que esmagou o proletariado. Liquidou fisicamente a velha guarda bolchevique, os que fizeram a revolução, os que organizaram os sovietes, os que tomaram o Palácio de Inverno. No lugar dos conselhos operários, ergueu um estamento burocrático que administrava a exploração com mão de ferro. A propriedade privada foi formalmente abolida, mas a apropriação real da riqueza passou das mãos da burguesia para as mãos da burocracia estatal. O trabalhador soviético não controlava a fábrica; obedecia ao plano, à meta, ao capataz. A mais-valia não era embolsada por um capitalista individual; era embolsada pelo Estado, que a redistribuía conforme os interesses da casta dirigente. Stalin transformou o socialismo em palavra vazia e a ditadura do proletariado em ditadura sobre o proletariado. Sua traição foi a mais grave de todas, porque foi feita em nome da revolução.


O reformista é a base de massas desses dirigentes. Ele é o sindicalista que negocia com o patrão e chama de vitória o que é derrota. É o parlamentar que promete o socialismo em campanha e aplica o ajuste fiscal no governo. É o militante que acredita que o capitalismo pode ser humanizado, que a exploração pode ser regulada, que a propriedade privada pode ser mantida desde que pague impostos. O reformista não é um ingênuo. Ele tem consciência do que faz. Sabe que sua função é conter a classe, desarmar a revolta, canalizar a energia para a eleição. Ele é a correia de transmissão do capital dentro do movimento operário. Sem ele, o capital teria que usar apenas a repressão. Com ele, o capital usa a ilusão.


Essas figuras não são acidentes. Elas são produzidas pela mesma lógica que produz o capataz, o chefinho, a oligarquia operária e o estamento burocrático. A mais-valia global é repartida. Uma parte vai para comprar a lealdade de camadas inteiras. Kautsky, os marxistas ocidentais e os reformistas são funcionários do capital na trincheira inimiga. Recebem seu salário em dinheiro, em prestígio, em cátedras, em espaços na mídia. Em troca, garantem que a classe não se mova. Que a greve termine em acordo. Que a revolução seja adiada indefinidamente. Stalin foi diferente: não foi comprado pelo capital ocidental; construiu seu próprio capitalismo de Estado. Mas o resultado para a classe foi o mesmo: derrota, desmobilização, assassinato da esperança revolucionária.


A crise atual está queimando essas pontes. O capital já não pode pagar tantos intermediários. A universidade definha, a mídia se fragmenta, os sindicatos perdem verbas, os partidos reformistas perdem eleitores. A conciliação se torna impossível. É nesse momento que esses traidores mostram sua verdadeira face. Diante da escolha entre a revolução e a barbárie, escolhem a barbárie. Kautsky combateu a revolução russa. Os marxistas ocidentais se calaram diante do fascismo ou aderiram a ele. Stalin matou a revolução e chamou isso de socialismo. Os reformistas votarão o ajuste, aprovarão a repressão, justificarão o estado de exceção. Porque, no fundo, eles nunca foram nossos. Foram sempre deles. Apenas estavam infiltrados.


A tarefa do proletariado é expulsá-los. Denunciá-los. Isolá-los. A revolução não se faz com kautskys, com stalins, com marxistas de cátedra, com reformistas de gabinete. Faz-se com os que estão no chão de fábrica, na mina, no campo, na periferia. Com os que não têm nada a perder além das correntes. Com os que nunca foram comprados porque nunca tiveram preço. A traição é velha. A resposta também é velha: organização independente, ação direta, ruptura revolucionária. Fora disso, há apenas a fila dos que abandonaram a classe. E a história, que é juíza implacável, os condenará ao esquecimento.

Crítica ao Inatismo

Rasgar o Contrato: Marx, Engels e a Crítica do Inatismo Burguês


A ideia de que o homem nasce violento, egoísta, proprietário ou movido por um cálculo racional de interesses não é um dado da natureza. É uma arma de classe. Ela alimenta o contrato social, a ficção fundadora do Estado moderno e do liberalismo, e se reproduz ao longo de toda a história do pensamento burguês, de Hobbes a Hayek, de Locke a Friedman. O que Marx e Engels nos legaram não é uma variação desse inatismo, mas sua demolição radical. Para eles, não se trata de aperfeiçoar o contrato ou propor um novo pacto. Trata-se de rasgar o contrato existente e mostrar que a suposta natureza humana invocada para justificá-lo é, na verdade, uma produção histórica da própria sociedade de classes.


A base crítica de Marx e Engels começa onde o contratualismo termina: na materialidade da luta de classes. Enquanto Hobbes supõe um estado de natureza anterior à sociedade, Marx mostra que o estado de natureza é uma invenção ideológica que esconde a violência real da acumulação primitiva. A Inglaterra do cercamento dos campos, a expropriação do camponês, o comércio de escravos, a colonização da Irlanda e da Índia não são acidentes ou recaídas na barbárie. São a própria gênese do capital. O homem que Hobbes descreve como lobo do homem é o homem que o capital produziu ao lançá-lo na competição por salários, ao transformar sua força de trabalho em mercadoria, ao destruir suas formas comunitárias de existência.


Engels, em A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, descreve com precisão cirúrgica como a miséria produz o que a ideologia burguesa chama de “vícios inatos” do operário. O alcoolismo, a violência doméstica, a promiscuidade, a criminalidade não brotam de uma natureza degenerada. Brotam das condições materiais: jornadas de dezesseis horas, moradias insalubres, salários de fome, desemprego crônico. A burguesia olha para o resultado e diz: “vejam como esses homens são naturalmente brutos”. Marx e Engels invertem: “Vejam como o capital os torna brutos”.


Essa inversão é o núcleo da crítica ao inatismo. O que os contratualistas tomam como ponto de partida (a natureza humana) é, na verdade, o ponto de chegada. O homem egoísta, calculador, proprietário não é o homem natural. É o homem burguês, produzido por relações sociais que reduzem tudo a mercadoria, inclusive os afetos, o tempo, o corpo. Marx ironiza os economistas clássicos que tomam o “robinsonismo” (o indivíduo isolado que troca peixe por carne na praia deserta) como se fosse o começo da história, quando ele é, na verdade, uma projeção da sociedade mercantil mais desenvolvida.


A crítica do contrato social, em Marx e Engels, não é uma disputa filosófica entre variantes do contratualismo. É a recusa do próprio problema que o contratualismo coloca. Os contratualistas perguntam: como homens naturalmente isolados e conflituosos podem viver em sociedade? Marx e Engels respondem: essa pergunta é falsa porque os homens nunca viveram isolados. O trabalho é social desde sua origem. A caça, a pesca, a agricultura primitiva já pressupõem cooperação, divisão de tarefas, linguagem. O indivíduo isolado que troca com outro indivíduo é uma abstração burguesa que só se torna real quando o capital já dissolveu todas as formas comunitárias anteriores. O contrato social, portanto, não é a origem da sociedade. É a ideologia de uma sociedade que já se constituiu pela violência e precisa de uma ficção para se legitimar.


A consequência política dessa crítica é radical. Se o contrato social é uma ficção que justifica o Estado e a propriedade privada, então não há como aperfeiçoá-lo. Não há um “novo contrato” que concilie capital e trabalho, exploradores e explorados. O contrato é a forma jurídica da dominação de classe. Rasgá-lo significa abolir a propriedade privada dos meios de produção, destruir o Estado como instrumento de dominação de classe, criar formas de organização social baseadas na cooperação voluntária e na decisão coletiva, não no contrato entre proprietários formais iguais.


O inatismo, com suas múltiplas roupagens (do pecado original ao gene egoísta, do homo economicus à racionalidade instrumental) é o que permite que o contrato sobreviva como ideologia. Ele faz crer que a exploração é inevitável porque a competição está na natureza. Ele faz crer que o Estado é necessário porque a violência está na natureza. Ele faz crer que a propriedade é sagrada porque a posse está na natureza. Contra essa tradição inteira, que vai de Hobbes aos Chicago Boys, Marx e Engels afirmam: a natureza humana é a história. E a história é luta de classes. Quando a classe trabalhadora tomar consciência de que sua própria “natureza” foi forjada pela exploração, e que pode ser refeita pela revolução, o contrato se rasgará sozinho, como o véu que não esconde mais nada.