Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sábado, 30 de maio de 2026

Para onde vai tudo que o proletariado produz?

A Abundância Represada: Por que Produzimos Tanto e Vivemos Tão Mal


A humanidade nunca produziu tanta riqueza. As fábricas cospem mercadorias em velocidades espantosas. Os campos colhem safras recordes. A tecnologia permite que uma fração mínima do trabalho social total baste para alimentar, vestir, abrigar e cuidar de cada ser humano do planeta. No entanto, a fome persiste. A miséria cresce. A falta de moradia se alastra. A água potável é negada a milhões. Os hospitais não têm remédios. As escolas não têm estrutura. Há alguma coisa profundamente errada nessa equação. E o erro não está na natureza, não está na técnica, não está na capacidade humana de produzir. Está na forma social que determina o que, como e para quem se produz.


A escassez que experimentamos hoje não é um fato natural. É uma construção social. É o modo como o capital organiza a produção para garantir que a abundância potencial jamais se realize como abundância real para a maioria da humanidade. O capital não pode permitir a abundância. Se permitisse, deixaria de ser capital.


Para entender por que, é preciso voltar à célula do sistema: a mercadoria. Toda mercadoria é uma unidade contraditória entre valor de uso (sua utilidade concreta, sua capacidade de satisfazer uma necessidade humana) e valor de troca (trabalho humano abstrato cristalizado, que só se realiza na venda). Sob o capitalismo, o valor de uso não é a finalidade da produção. É apenas o suporte do valor de troca. O capitalista não produz alimentos porque as pessoas têm fome. Produz alimentos porque pode vendê-los. Se não puder vender, não produz. Se o preço de venda não cobrir os custos e garantir lucro, não produz. A necessidade humana só é atendida se for necessidade solvente, ou seja, necessidade com dinheiro no bolso. Quem não tem dinheiro não tem fome para o mercado. É um consumidor que não consome, uma boca que não conta, uma vida que não pesa na balança do lucro.


Essa inversão é a raiz da escassez artificial. O capital precisa que as mercadorias sejam escassas o suficiente para manter os preços acima dos custos. Se houver abundância, os preços caem. Se os preços caem, o lucro diminui. Se o lucro diminui, o capital foge. Por isso o sistema destrói alimentos para sustentar cotações. Queima café, despeja leite, enterra toneladas de grãos. Não é absurdo. É cálculo. É mais lucrativo destruir o excedente do que distribuí-lo, porque a distribuição gratuita derrubaria os preços e comprometeria a valorização futura. A fome de milhões é um efeito colateral aceitável. O capital não tem estômago. Não tem consciência. Tem apenas o impulso cego de se valorizar.


A mesma lógica opera em todas as esferas. Por que há falta de moradias em cidades abarrotadas de prédios vazios? Porque o imóvel não é construído para abrigar pessoas, mas para render aluguel, para especular, para lavar dinheiro. O solo urbano é mercadoria. A moradia é mercadoria. O direito de morar se subordina ao direito de lucrar. Por que há falta de medicamentos em países que abrigam os maiores laboratórios do mundo? Porque o medicamento é mercadoria, protegido por patentes (cercas jurídicas que garantem o monopólio da venda e impedem a produção genérica). A cura é propriedade privada antes de ser direito. O doente é consumidor antes de ser paciente.


A abundância está represada. As comportas são as relações sociais capitalistas. A propriedade privada dos meios de produção, o trabalho assalariado, a produção voltada ao lucro, são essas as travas que impedem que a riqueza real chegue a quem a produz.


Em tempos pré-capitalistas, a escassez era real. A produtividade do trabalho era baixa. A natureza impunha limites duros. Uma colheita ruim significava fome para a comunidade inteira. Nesses tempos, o que se dividia era a miséria. Todos apertavam o cinto. A solidariedade forçada pela escassez gerava formas de sociabilidade comunitária, laços de reciprocidade, mecanismos de partilha do pouco que havia. O capitalismo dissolveu essas formas. Libertou as forças produtivas, elevou a produtividade a patamares inéditos, criou as condições materiais para a abundância. Mas o fez sob a forma da propriedade privada e da exploração. O resultado é que, no lugar da divisão da miséria, o que se divide agora é outra coisa: a exploração do proletariado.


A mais-valia (trabalho não pago, a parte da jornada que o proletário entrega de graça ao burguês) é um bolo. Os capitalistas disputam esse bolo entre si. A concorrência entre eles é feroz. O grande capital engole o pequeno. A transnacional esmaga o patrão local. O rentista suga o industrial. O capital financeiro drena a economia real. Mas o bolo que eles disputam é sempre o mesmo: trabalho alheio cristalizado. A disputa entre burgueses não alivia a exploração do proletariado. Ela a intensifica. Porque, para ganhar do concorrente, cada burguês precisa arrancar mais do seu proletário. Baixar salário, alongar jornada, intensificar ritmo, precarizar vínculo. A guerra de todos contra todos no mercado se traduz em pressão redobrada sobre quem produz.


O proletariado segue excluído da abundância que ele mesmo criou. A miséria que lhe sobra não é falta de produção. É excesso de exploração. É a forma social que impede o acesso ao que já foi produzido. O proletário produz o carro, mas não pode comprá-lo. Constrói o prédio, mas não pode morar nele. Cozinha o restaurante, mas come marmita fria. Cuida do filho do burguês, mas deixa o seu na creche precária. Essa é a esquizofrenia do capital: a separação radical entre quem produz e quem desfruta, entre o trabalho e a riqueza, entre a capacidade técnica e a realidade social.


A tecnologia, que poderia ser o instrumento da libertação humana, torna-se, sob o capital, instrumento de intensificação da exploração. A automação não reduz a jornada; elimina postos de trabalho e aumenta a carga dos que ficam. A inteligência artificial não libera tempo livre; controla o ritmo, vigia o desempenho, descarta quem não atinge as metas. A engenharia genética não cura doenças; patenteia sementes e medicamentos, cobrando royalties de quem precisa comer e de quem precisa viver. O capital transforma cada avanço técnico em nova forma de sucção.


A escassez artificial não afeta apenas o consumo. Afeta também a natureza. O capital trata a terra como fonte inesgotável de matéria-prima e como depósito infinito de rejeitos. Extrai minérios, derruba florestas, contamina rios, suga aquíferos, perfura o subsolo, envenena o ar. Tudo em nome do lucro. Quando a natureza dá sinais de esgotamento (secas, inundações, incêndios, pandemias), o capital responde com novas mercadorias: créditos de carbono, seguros climáticos, tecnologias verdes que são apenas novas formas de acumulação. A crise ambiental não é um acidente. É o metabolismo do capital em sua fase terminal. O sistema que produz escassez artificial para os humanos produz também escassez real para o planeta.


A contradição entre abundância e escassez é, no fundo, a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. As forças produtivas (a tecnologia, a ciência, a organização do trabalho, a capacidade humana de transformar a natureza) atingiram um nível que permite a satisfação das necessidades de todos com uma fração do trabalho social atual. As relações de produção (a propriedade privada, o trabalho assalariado, a produção para o lucro) são um entrave. Elas represam a abundância. Elas transformam a capacidade de produzir em capacidade de excluir.


Por isso a luta de classes não é uma briga por um pedaço maior do bolo. É a luta para destruir a cozinha inteira e reconstruí-la sob controle de quem realmente cozinha. Não se trata de redistribuir a escassez. Trata-se de abolir a escassez. De destravar a abundância represada. De subordinar a produção à necessidade humana, e não à valorização do capital. Isso significa abolir a propriedade privada dos meios de produção. Colocar a terra, as fábricas, as máquinas, a tecnologia a serviço de todos. Significa abolir o trabalho assalariado. Ninguém mais vende sua vida por um salário. A jornada é reduzida ao mínimo necessário. O trabalho penoso é eliminado pela automação. O tempo livre se torna a medida da riqueza.


Isso não é sonho. É uma possibilidade real, material, inscrita no desenvolvimento das forças produtivas. O que falta é a consciência dessa possibilidade. O que falta é a organização do proletariado para realizá-la. O que falta é a ruptura com a ideologia que naturaliza a escassez e nos convence de que "não dá para todo mundo".


Essa ideologia tem muitas faces. A face malthusiana diz que a pobreza é culpa dos pobres, que se reproduzem como coelhos e esgotam os recursos. A face neoliberal diz que o mercado aloca os recursos de forma eficiente e que a interferência estatal gera distorções. A face reformista diz que é possível regular o capital, humanizá-lo, fazê-lo funcionar para todos. Todas são falsas. Todas escondem o fato de que a escassez não é natural, mas socialmente produzida. E que a única forma de eliminá-la é eliminar as relações sociais que a produzem.


A revolução não é a tomada do poder em meio à penúria, para repartir a miséria. É a tomada do poder para destravar a abundância. Para abrir as comportas. Para fazer chegar a cada ser humano o que a humanidade já é capaz de produzir. O socialismo não é a gestão estatal da escassez. É a superação da escassez pela abolição da forma valor. É a produção voltada à satisfação das necessidades humanas, livremente associadas, conscientemente planejadas. O comunismo não é a divisão igualitária da miséria. É o fim da miséria.


A abundância já existe. Está aí, diante dos nossos olhos, mas está trancada. As chaves da prisão estão nas mãos da burguesia. A classe que detém os meios de produção prefere destruir o excedente a distribuí-lo. Prefere a barbárie à cessão da propriedade. Prefere queimar comida enquanto milhões passam fome. Prefere manter prédios vazios enquanto milhões dormem na rua. Prefere patentear a cura enquanto milhões morrem de doenças evitáveis. Essa é a lógica do capital. Não há reforma que a dome. Não há regulação que a humanize. Não há eleição que a transforme.


A única saída é arrancar as chaves. Tomar os meios de produção. Socializar a terra, as fábricas, a tecnologia. Organizar a produção conforme as necessidades, não conforme o lucro. Reduzir a jornada, eliminar o trabalho penoso, liberar tempo para viver. Isso é possível. É necessário. É urgente. A cada dia que passa, a contradição se agrava. A abundância represada apodrece de um lado. A miséria cresce do outro. O planeta geme. As guerras se multiplicam. Os estados de exceção se banalizam. O capital caminha para a barbárie porque já não tem nada a oferecer além de destruição.


Cabe ao proletariado decidir se aceita a barbárie ou se toma o que é seu. A escassez é uma mentira. A abundância é a verdade. E a verdade, quando compreendida pelas massas, se transforma em força material. Em greve. Em bloqueio. Em ocupação. Em poder. Em revolução. A hora é de escolher.

2026: O Ano em que o Continente Ferve

2026: O Ano em que o Continente Ferve


O capitalismo mundial entrou em 2026 sem margem para concessões. As contratendências que adiaram a crise nas décadas anteriores (expansão para a periferia, financeirização, superexploração do proletariado) estão esgotadas ou próximas do limite. A taxa de lucro segue pressionada. O capital precisa, mais do que nunca, arrancar mais-valia de onde ainda é possível: do corpo do proletariado. E o proletariado, exaurido, começa a responder.


A pandemia de Covid-19 foi o marco da virada. Revelou que as fronteiras são cercas do capital. O vírus circulou; as vacinas, não. A dívida pública explodiu. Os Estados se endividaram para salvar bancos e corporações, e agora cobram a conta do proletariado. Inflação, arrocho salarial, cortes em saúde e educação, reformas trabalhistas e previdenciárias. O receituário é o mesmo no planeta inteiro, porque a crise é a mesma. O capital precisa socializar as perdas e privatizar os ganhos. Precisa fazer o proletariado pagar pela crise que não criou.


A resposta também começou a ser a mesma. O proletariado internacional, fragmentado pela ideologia nacionalista e pelas fronteiras, começa a romper as cercas. Ondas de protestos eclodem em todos os continentes. Não são movimentos isolados. São a mesma luta, com nomes e rostos diferentes. A greve dos ferroviários no Reino Unido, os bloqueios na França, as ocupações de fábricas na Índia, as manifestações contra a reforma trabalhista na Coreia do Sul, as rebeliões no Quênia, as greves gerais na Bélgica. O ano de 2026 não é um ano de crise; é o ano em que a crise mostra sua face política mais aguda. É o ano em que o proletariado, ainda sem direção revolucionária, começa a sair da defensiva.


Na América do Sul, a ofensiva do capital foi particularmente violenta. O continente sempre funcionou como laboratório das políticas mais brutais de ajuste. Foi aqui que o capital sem maquiagem fez suas primeiras experiências: Chile de Pinochet, Argentina de Martínez de Hoz, Brasil de Collor. Agora, em 2026, o laboratório está de volta. A burguesia continental, associada ao capital internacional, sabe que precisa arrancar o máximo possível antes que a insatisfação proletária se transforme em ruptura. Por isso, a velocidade dos ataques é maior. Por isso, a violência da repressão é maior. Por isso, a resistência também começa a ser maior.


A Argentina foi o primeiro epicentro. O governo Milei é a expressão mais acabada do capital sem disfarce. Sua reforma trabalhista, aprovada em fevereiro de 2026, é um ataque direto ao proletariado argentino. Flexibilização total do contrato de trabalho, fim da estabilidade, terceirização irrestrita, redução de salários, cortes profundos nas aposentadorias, privatização de estatais, entrega de recursos naturais ao capital estrangeiro. Milei é o gerente que a burguesia argentina escolheu para aplicar o programa que a crise mundial exige. Ele não é um acidente. É a continuidade lógica do capitalismo argentino, que passou pelo peronismo, pelo kirchnerismo, pelo macrismo, e agora chega à sua forma mais pura. A burguesia argentina, sufocada pela dívida com o FMI e pela queda da taxa de lucro, não tem mais nada a oferecer. Só o chicote.


Os protestos massivos que explodiram em fevereiro de 2026 na Argentina não são apenas uma reação à reforma trabalhista. São a recusa do proletariado em pagar a conta. As ruas de Buenos Aires, Córdoba, Rosário, Mendoza foram tomadas por sindicatos, movimentos de desempregados, organizações piqueteras, assembleias de bairro. A greve geral parou o país. O governo respondeu com estado de emergência. A repressão foi feroz. Mas o proletariado argentino, que já viveu o corralito, a crise de 2001, a volta do FMI, sabe que não há saída negociada. Sabe que Milei não vai recuar. Sabe que a burguesia não vai ceder. Por isso, os protestos continuam. E tendem a se intensificar.


A Bolívia entrou na onda em maio de 2026. Os protestos começaram com greves localizadas e rapidamente se transformaram em um movimento nacional. Sindicatos, mineiros, transporte, comunidades indígenas, operários urbanos de El Alto, camponeses do altiplano. A greve geral e os bloqueios de estradas paralisaram o país. A exigência imediata era a revogação do estado de exceção e a derrubada do governo de Rodrigo Paz. Mas, por baixo da superfície, a luta é contra a privatização do lítio, a entrega do gás, a destruição das comunidades, a miséria crescente.


Aqui é preciso distinguir com precisão. Os mineiros de Potosí são proletários: despossuídos, vendem sua força de trabalho, produzem mais-valia. Os operários de El Alto, os transportadores assalariados, os metalúrgicos bolivianos também são proletários. Já os camponeses aimarás e quéchuas, as comunidades indígenas que ainda possuem terra coletiva, não são proletários no sentido estrito. São trabalhadores, produzem valores de uso, resistem à expropriação, mas não vivem da venda da força de trabalho. Sua luta é contra a acumulação primitiva que os transforma em proletários, que os despeja, que privatiza seus territórios. Essa distinção importa porque a aliança entre proletários e camponeses precisa ser feita com clareza estratégica: o sujeito revolucionário é o proletariado, mas ele precisa arrastar consigo as outras camadas exploradas e oprimidas.


A crise boliviana de 2026 é a prova final de que o reformismo não resolve a contradição. Ele apenas a administra até o momento em que a administração se torna impossível. O proletariado boliviano, que já derrubou presidentes em 2003 e 2005, que resistiu ao golpe de 2019, que bloqueou estradas e parou o país em 2024, está novamente nas ruas. E a pergunta que fica é: até quando a energia dessa resistência será canalizada para a volta de um novo gerente do capital? Até quando a luta se limitará a pedir a volta de Evo, ou a posse de algum outro líder do MAS, em vez de tomar o poder para si?


A resposta a essa pergunta não está apenas na Bolívia. Está na Argentina, no Chile, no Peru, na Colômbia, no Equador, no Brasil. A América do Sul inteira está em ebulição. O ano de 2026 está sendo o ano em que as lutas isoladas começam a se encontrar. Os mineiros bolivianos (proletários) sabem da greve dos metalúrgicos argentinos (proletários). Os piqueteros argentinos (proletários desempregados e precarizados) sabem dos bloqueios bolivianos. Os caminhoneiros colombianos (pequenos proprietários de seus veículos, não proletários, mas explorados pelo capital) sabem das manifestações no Equador. Os sem-terra brasileiros (camponeses em luta contra a expropriação) sabem da resistência indígena no Peru. As redes sociais, apesar de controladas pelo capital, não conseguem impedir totalmente a circulação da informação. A solidariedade de classe começa a furar os bloqueios midiáticos.


O capital também sabe disso. Por isso, acelera a repressão. Os estados de exceção se multiplicam. A criminalização dos movimentos avança. A imprensa burguesa unifica o discurso: "baderna", "caos", "ameaça à democracia". A esquerda reformista tenta canalizar a insatisfação para a disputa eleitoral, para a "recomposição do campo popular", para a volta ao passado que já fracassou. Mas o passado não volta. A crise estrutural do capital não permite. A única saída é para frente: a ruptura com a ordem burguesa.


A conjuntura de 2026 na América do Sul pode ser resumida em uma frase: o capital não pode mais governar como antes, e o proletariado não quer mais ser governado como antes. É uma situação revolucionária clássica. A classe dominante não consegue mais manter sua dominação sem recorrer à violência aberta. O proletariado não aceita mais as condições de vida que lhe são impostas. Há uma crise que afeta exploradores e explorados. O que falta para que essa situação se transforme em revolução? Falta direção. Falta organização. Falta um partido que não se limite a administrar a crise, mas que aponte para a tomada do poder.


Os conselhos operários, as assembleias de bairro, os comitês de greve, as cooperativas de proletários, as comunidades camponesas que resistem à expropriação (todas essas são formas embrionárias de poder). Mas são fragmentos. Falta a unidade. Falta a coordenação. Falta o programa. O programa é simples de enunciar, difícil de executar: abolição da propriedade privada dos meios de produção, fim do trabalho assalariado, destruição do Estado burguês, construção do poder dos conselhos.


A América do Sul de 2026 está diante de uma encruzilhada. De um lado, a barbárie: mais repressão, mais privatizações, mais destruição ambiental, mais miséria, mais estados de exceção. Do outro, a revolução: a unificação das lutas, a ruptura com o reformismo, a tomada do poder pelo proletariado e seus aliados. Não há terceira via. Não há volta ao capitalismo regulado, ao desenvolvimentismo, ao social-liberalismo. Essas foram tréguas. A trégua acabou. O capital está em sua fase terminal. Ou o enterramos, ou ele nos enterra.


Os protestos de 2026 na Bolívia e na Argentina não são eventos isolados. São capítulos da mesma guerra. A guerra do capital contra a humanidade e o planeta. A guerra do proletariado contra o capital. A linha de frente hoje está em La Paz, em Buenos Aires, em El Alto, em Córdoba. Amanhã estará em São Paulo, em Santiago, em Lima, em Bogotá. A geografia do capital divide. A lógica humana une. O que está em jogo não é a escala 6x1, não é o preço do gás, não é o nome do presidente. O que está em jogo é a sobrevivência da espécie. O capital já decidiu: prefere a barbárie a ceder a propriedade. Cabe ao proletariado decidir se aceita a barbárie ou se toma o que é seu. O ano de 2026 está sendo o ano da escolha. E a escolha se faz na rua. Na greve. No bloqueio. Na ocupação. Na luta. Sem parasitas. Sem fronteiras. Um só mundo. Uma só classe. Uma só luta.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

As Cercas do Capital

Fronteiras: as Cercas do Capital

A humanidade é uma só. A espécie é una. A biologia não conhece o brasileiro, o boliviano, o nigeriano, o francês. Conhece o ser humano, suas necessidades, seu metabolismo com a natureza, sua capacidade de criar, de sofrer, de amar. A divisão do planeta em territórios chamados países, cada um com sua bandeira, seu hino e sua polícia de fronteira, não é obra da natureza. É obra do capital.


As fronteiras servem a um propósito muito concreto: organizar a exploração de forma hierarquizada. Elas não existem para proteger povos; existem para proteger propriedades. A cerca que separa o México dos Estados Unidos não foi erguida para defender os mexicanos nem os estadunidenses. Foi erguida para controlar o fluxo da força de trabalho, para garantir que o proletário mexicano entre quando o capital americano precisa de mão de obra barata e seja expulso quando não precisa mais. A fronteira é uma válvula: abre e fecha conforme a necessidade de acumulação.


Do mesmo modo, a fronteira entre a Bolívia e o Chile, ou entre a Bolívia e o Brasil, não existe para proteger culturas ou identidades. Existe para garantir que o lítio do salar de Uyuni seja explorado por uma empresa transnacional sediada em determinado país, pagando impostos a determinado Estado, gerando lucro para determinados acionistas. Se a extração fosse feita por uma cooperativa de proletários bolivianos em solidariedade com operários chilenos e brasileiros, a fronteira perderia o sentido. Por isso o capital reforça a fronteira: para impedir que a solidariedade de classe dissolva a concorrência entre os explorados.


A lógica humana diz: o que foi produzido por todos deve pertencer a todos. A terra, a água, o subsolo, a tecnologia, o conhecimento são frutos do trabalho coletivo da humanidade ao longo de gerações. Nenhum país produziu sozinho o lítio que está sob seu solo. Nenhum país inventou sozinho a bateria que usa esse lítio. O conhecimento é universal. O trabalho que extrai a matéria-prima é universal. Mas a apropriação é privada e nacional. A fronteira é a linha imaginária que separa o produtor do fruto do seu trabalho, que divide o proletariado em pedaços para que cada pedaço aceite ser explorado pelo "seu" burguês, pela "sua" bandeira, pelo "seu" exército.


O patriotismo é a ideologia que naturaliza essa divisão. Ensinam-nos desde a infância a amar um pedaço de terra como se ele fosse nossa mãe, quando na verdade ele é a propriedade de uma classe parasitária que nos suga. Cantamos hinos que exaltam a bravura de um povo, enquanto esse mesmo povo é espoliado diariamente pelos donos do país. A bandeira que tremula no alto do mastro é a mesma que cobre o caixão do soldado raso que morreu defendendo os interesses do capital. O patriotismo é o amor ao território do parasita. É a lealdade do explorado ao seu explorador.


O capital precisa das fronteiras por três razões principais. A primeira é econômica: a lei do valor opera em escala mundial, mas com produtividades desiguais. O trabalho nos países centrais vale mais que o trabalho nos países periféricos. Isso permite a transferência permanente de valor da periferia para o centro. O lítio boliviano é trocado por menos trabalho do que contém; o valor se realiza na Europa, nos Estados Unidos, na China. As fronteiras são os canais por onde essa transferência flui. Se não houvesse fronteiras, se o proletariado mundial se unificasse, essa hierarquia desabaria. Por isso o capital reforça a soberania nacional: para manter a desigualdade que o alimenta.


A segunda razão é política. Fronteiras dividem a classe trabalhadora. O operário brasileiro aprende a ver o operário boliviano como concorrente, como invasor, como ameaça. O trabalhador argentino aprende a culpar o trabalhador paraguaio pelo desemprego. O proletário europeu aprende a temer o imigrante africano. Enquanto a classe se divide por nacionalidade, não se une por classe. A fronteira é a arma mais eficaz contra a solidariedade. É o muro que impede a greve de ser internacional. É a cerca que faz o explorado odiar outro explorado enquanto ama o parasita que compartilha sua nacionalidade.


A terceira razão é militar. O Estado é a forma política da dominação de classe. Para existir, o Estado precisa de um território definido, com fronteiras claras. Dentro dessas fronteiras, ele detém o monopólio da violência. Ele pode prender, julgar, condenar, matar. Tudo em nome da soberania. Mas soberania de quem? Do povo? Não. Soberania do capital. O Estado boliviano reprime os mineiros que bloqueiam estradas em nome da "ordem nacional". O Estado brasileiro criminaliza o MST em nome do "direito de propriedade". A polícia de fronteira não existe para defender o povo; existe para defender o capital nacional de eventuais ameaças vindas de outros capitais ou, principalmente, da classe trabalhadora organizada internacionalmente.


A lógica humana é a lógica da espécie. Somos uma só humanidade habitando um só planeta. Os recursos são finitos. A atmosfera não tem fronteiras. O clima não respeita tratados. A poluição gerada na China adoece crianças na América do Sul. A seca no Chaco boliviano é parte do mesmo desarranjo climático que inunda o Rio Grande do Sul. A natureza não reconhece Estados nacionais. Ela reconhece ciclos, ecossistemas, interdependências. O capital, ao contrário, fragmenta o que é uno para vender em pedaços.


As fronteiras são incompatíveis com a solução dos problemas reais da humanidade. A fome não se resolve com soberania alimentar de um país; se resolve com distribuição mundial da produção, com o fim do latifúndio, com a abolição da propriedade privada sobre a terra. A crise climática não se resolve com acordos internacionais que cada país descumpre quando lhe convém; se resolve com o fim da produção voltada ao lucro, com a reorganização da economia mundial em bases humanas. A pandemia não se resolve com vacinas patenteadas por laboratórios sediados em alguns países; se resolve com a socialização do conhecimento e da tecnologia.


A pandemia de Covid-19 foi a demonstração mais crua de que as fronteiras matam. O vírus não parou nas alfândegas. Ele circulou livremente. Mas as vacinas pararam. Os países ricos estocaram doses enquanto os países pobres esperavam. O discurso nacionalista serviu para justificar o monopólio. "Primeiro os nossos", diziam os governos europeus. Mas quem eram "os nossos"? Os acionistas da Pfizer, da Moderna, da AstraZeneca. A solidariedade internacional foi bloqueada pelas fronteiras da propriedade intelectual. O lucro matou. A fronteira matou.


A abolição das fronteiras não é uma utopia abstrata. É uma necessidade material. Enquanto houver países, haverá competição entre capitais nacionais. Enquanto houver competição entre capitais, haverá guerra. As duas guerras mundiais foram guerras entre Estados burgueses disputando mercados, colônias, esferas de influência. A guerra na Ucrânia é uma guerra interimperialista. Os proletários russos e ucranianos não têm nada a ganhar com ela. Quem ganha são os oligarcas do gás, os fabricantes de armas, os especuladores financeiros. Mas os proletários morrem. Morrem defendendo fronteiras que não lhes pertencem, bandeiras que não os representam, interesses que não são seus.


A única pátria do proletário é o mundo. A única bandeira é a da classe. O único hino é o da greve geral. Marx e Engels fecharam o Manifesto Comunista com "Proletários de todos os países, uni-vos!". Não era uma frase de efeito. Era um programa. A união dos proletários de todos os países é a negação prática das fronteiras. É o reconhecimento de que a exploração é uma só, em La Paz e em São Paulo, em Cochabamba e no ABC paulista. O mineiro boliviano e o metalúrgico brasileiro são membros da mesma classe, enfrentam o mesmo inimigo, compartilham a mesma luta.


A reprodução do capital depende da fragmentação da humanidade. A lógica humana exige a reunificação. Não se trata de propor um governo mundial burguês, uma ONU fortalecida, um parlamento planetário do capital. Isso seria apenas a mesma dominação em escala ampliada. Trata-se de construir, desde já, a solidariedade internacional do proletariado. Trata-se de furar os bloqueios midiáticos que impedem os trabalhadores de um país de saber o que se passa no outro. Trata-se de impedir que o parasita de um país nos use como fura-greve do parasita vizinho. Trata-se de recusar a guerra entre nações e afirmar a guerra de classes.


O capital criou o mercado mundial. Ele já globalizou a produção, a circulação, o consumo. O que o capital globalizou, o proletariado precisa internacionalizar. A fábrica é global. A cadeia de suprimentos é global. A exploração é global. A resistência também precisa ser. O estado de exceção na Bolívia é assunto dos trabalhadores brasileiros. O arrocho salarial no Brasil é assunto dos trabalhadores bolivianos. A greve dos mineiros de Potosí ecoa nos metalúrgicos do México. A luta dos camponeses sem-terra do Paraguai ecoa nos assentados do MST.


Fronteiras são cercas. Cercas servem para confinar o gado antes do abate. O capital cerca a humanidade em currais nacionais, dá a cada curral um nome, uma bandeira e um presidente, e depois ordenha, tosquia e abate. A hora é de derrubar as cercas. Não para que o gado vague livremente, mas para que o gado deixe de ser gado. Para que o proletariado deixe de ser objeto e se torne sujeito. Para que a humanidade se reconheça como uma só, enfrentando um só inimigo: a propriedade privada, o capital, as classes, o Estado. A geografia não divide a espécie. Quem divide é o capital. E é contra ele que nos unimos. Sem fronteiras. Sem bandeiras. Sem parasitas. Um só mundo. Uma só classe. Uma só luta.

É Tudo Liberalismo

É Tudo Liberalismo: A Unidade da Dominação Burguesa


Não existe neoliberalismo como algo separado. É tudo liberalismo. A tentativa de dividir o capitalismo em fases estanques, um liberalismo clássico bonzinho ou pelo menos ingênuo, um keynesianismo civilizado e um neoliberalismo selvagem (é ideologia pura). Serve para fazer crer que o problema é a política econômica errada, e não o modo de produção. Serve para que a social-democracia e o reformismo possam dizer: "não somos contra o capitalismo, somos contra o neoliberalismo". Como se fosse possível ser contra o neoliberalismo sem ser contra o capitalismo. Como se o neoliberalismo fosse um desvio, e não a expressão mais sincera da lógica do capital.


A raiz é uma só: o liberalismo é a ideologia da forma mercadoria. Ele nasce com o capitalismo e é inseparável dele. Seu princípio fundamental é a liberdade do indivíduo para dispor de sua propriedade. Mas quem é esse indivíduo? O proprietário. E o que ele possui? Meios de produção ou força de trabalho. A liberdade liberal é a liberdade do burguês de comprar força de trabalho e a liberdade do proletário de vendê-la. É a liberdade do contrato entre desiguais. É a liberdade da exploração. O liberalismo nunca pregou a liberdade humana; pregou a liberdade do capital.


O liberalismo clássico de Adam Smith e David Ricardo já continha tudo o que o chamado neoliberalismo escancarou: a defesa da propriedade privada como direito natural, a naturalização do mercado como regulador da vida social, a redução do ser humano a vendedor de força de trabalho, a ideia de que o Estado deve garantir as condições da acumulação e não interferir nela. A mão invisível de Smith é a mão que embolsa a mais-valia. A lei da vantagem comparativa de Ricardo é a justificativa para a divisão internacional do trabalho que condena países como a Bolívia a exportar lítio barato e importar miséria.


O período que chamam de keynesianismo ou Estado de bem-estar social foi uma exceção histórica, não uma regra. Ocorreu sob condições muito específicas: ameaça revolucionária do campo socialista, classe trabalhadora organizada e combativa no pós-guerra, necessidade de reconstrução da Europa, taxa de lucro ainda robusta. O capital cedeu anéis para não perder os dedos. Regulou a jornada, tolerou sindicatos, aceitou direitos trabalhistas, permitiu políticas sociais. Mas nunca deixou de ser capital. A propriedade privada permaneceu intocada. A extração de mais-valia continuou. O Estado continuou sendo o comitê executivo da burguesia, apenas com um verniz social.


A chamada fase neoliberal não é uma ruptura com o liberalismo. É o liberalismo sem verniz. Quando a taxa de lucro começou a cair, quando a concorrência intercapitalista se acirrou, quando o campo socialista ruiu e o proletariado mundial foi derrotado em suas principais trincheiras, o capital retirou as concessões. O que chamam de neoliberalismo é o capital dizendo abertamente o que sempre foi: um sistema de exploração que não pode tolerar freios duradouros. As privatizações de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, a desregulamentação financeira, o ataque aos sindicatos, a flexibilização trabalhista, a reforma da previdência, o teto de gastos, tudo isso não é uma nova fase. É o velho liberalismo retornando à sua forma pura, sem as mediações que a luta de classes havia imposto.


A ideologia que sustenta essa ofensiva também não é nova. Friedrich Hayek e Milton Friedman não inventaram nada. Apenas repaginaram o liberalismo clássico para um momento em que a burguesia já não precisava negociar. A Escola Austríaca, o monetarismo, o Consenso de Washington são a mesma defesa da propriedade privada, do livre mercado e do Estado mínimo que estava em Smith, só que agora sem a ingenuidade iluminista. O neoliberalismo é o liberalismo maduro, cínico, consciente de que o mercado não gera harmonia, mas que a exploração é o único caminho para a acumulação.


Chamar essa ofensiva de neoliberalismo é dar um nome novo a um fenômeno velho. É aceitar a periodização que a própria burguesia oferece para esconder a continuidade. É permitir que se diga: "o neoliberalismo fracassou, vamos voltar ao keynesianismo". Como se fosse possível voltar. Como se o keynesianismo não tivesse sido uma trégua temporária. Como se a burguesia fosse aceitar novamente os anéis que arrancou de volta. A crise estrutural do capital não permite mais concessões duradouras. A taxa de lucro não se recupera com política fiscal expansiva. A destruição ambiental não se reverte com regulação estatal. O exército de descartados não se absorve com obra pública.


Por isso a luta não pode ser contra o neoliberalismo. A luta tem que ser contra o capitalismo. Porque o neoliberalismo e o keynesianismo, o liberalismo clássico e o social-liberalismo, são todos formas de gestão da mesma exploração. São todos variações da mesma dominação de classe. A social-democracia europeia, o reformismo latino-americano, o desenvolvimentismo brasileiro, todos administraram (e administram) capitalismo com rosto humano. Todos fizeram (fazem) concessões enquanto a pressão popular obrigava e a margem de lucro permitia. Todos se revelaram incapazes de romper com a propriedade privada. E todos, quando a crise chegou, aplicaram o mesmo ajuste que a direita aplica, só que com discurso mais suave.


A prova está na prática. O governo Lula no Brasil, o governo Evo na Bolívia, o governo Kirchner na Argentina, todos mantiveram a propriedade privada, todos pagaram a dívida, todos garantiram o lucro dos bancos, todos reprimiram greves quando necessário. E quando a crise apertou, todos cederam ao programa que chamam de neoliberal. Porque não há alternativa dentro do sistema. Ou se administra a escassez para o capital, ou se rompe com o capital. O meio-termo é ilusão.


Não existe neoliberalismo. Existe capitalismo. E o capitalismo é liberal por natureza. Sua essência é a liberdade do capital para explorar o trabalho. Essa liberdade assume formas diferentes conforme a correlação de forças, mas a substância é a mesma. O liberalismo é a ideologia que transforma exploração em contrato, desigualdade em mérito, propriedade privada em direito sagrado. O neoliberalismo é apenas o liberalismo despido de suas ilusões juvenis. É o capital que já não precisa fingir que o mercado gera bem-estar. Sabe que gera desigualdade e destruição, e ainda assim o impõe, porque é a única forma de manter a acumulação.


A consequência política é clara. Se o inimigo é o neoliberalismo, a solução é voltar ao keynesianismo, ao reformismo, ao desenvolvimentismo. Se o inimigo é o capitalismo, a solução é a revolução. É a abolição da propriedade privada dos meios de produção. É o fim do trabalho assalariado. É a socialização da terra, das fábricas, da tecnologia. Não se trata de regular o mercado. Trata-se de suprimi-lo. Não se trata de humanizar o capital. Trata-se de enterrá-lo.


A burguesia não distingue entre liberalismo e neoliberalismo. Para ela, é tudo o mesmo: a defesa da propriedade privada. Quem distingue é a esquerda reformista, para justificar sua própria existência como gestora do capital com sensibilidade social. Mas o proletariado não pode cair nessa armadilha. O chicote que bate de terno é o mesmo que bate de uniforme. A mão que afaga com política social é a mesma que assina o estado de exceção.


Não há capitalismo bom. Não há liberalismo humano. Há exploração, e há a luta contra ela. É tudo liberalismo, e é tudo capitalismo. A única divisão real é entre os que defendem a propriedade privada e os que querem aboli-la. Entre os que administram a exploração e os que querem suprimi-la. Entre os que aceitam a lógica do lucro e os que exigem a lógica humana. O nome não importa. A substância, sim. E a substância é uma só: o capital, com suas máscaras, sua mais-valia, sua destruição, sua barbárie. A resposta também é uma só: revolução.

Parasitas e suas Guerras

E na contradição do capital reside o maior potencial de conscientização do proletariado, e a guerra é a urgência derradeira de quem de forma parasitária garante sua vida de privilégios.
O capital, na sua essência, é uma relação social baseada na exploração. Para se reproduzir, ele precisa de expansão constante, novos mercados, novos recursos, nova força de trabalho para explorar. Quando essa expansão encontra barreiras, sejam elas geográficas, políticas ou a própria resistência da classe trabalhadora, o sistema entra em crise.
A guerra é a tentativa de romper essas barreiras pela força bruta. É a "urgência derradeira" porque, para o capitalista individual e para o sistema como um todo, a alternativa à expansão violenta é a estagnação e o colapso. É a demonstração de que o capitalismo, quando não pode mais comprar ou negociar, apela para a destruição como forma de abrir caminho para novos ciclos de acumulação. Mas na guerra capitalista a máscara cai. O trabalhador descobre que sua vida vale apenas o preço do uniforme que veste e da bala que o mata. Ele vê os "donos do dinheiro" não só isentos do sacrifício, mas lucrando bilhões com a destruição. A contradição entre a retórica patriótica ("lutar pela nação") e a realidade material ("morrer para o acionista da indústria bélica ficar mais rico") torna-se insustentável.
O famélico, o proletário, percebe que ele é o recurso mais abundante e mais descartável na equação da guerra. Os mísseis são caros e precisam ser contabilizados; a vida do trabalhador é barata e há sempre mais de onde veio. Essa percepção é um catalisador revolucionário.
O capitalista, na guerra, assume sua forma mais pura, ele não produz, ele não está no front. Ele não fabrica o aço com as próprias mãos. Ele especula, investe, vende e lucra. Ele vive da morte, o sangue do trabalhador-soldado e da população civil é o lubrificante que faz girar as engrenagens de seus lucros. Um míssil Tomahawk, que custa milhões, ao ser disparado, é um lucro realizado para a Raytheon. Um hospital destruído é uma dívida paga para a construtora que o reconstruirá depois.
O capital não tem pátria. Enquanto os trabalhadores de dois países se matam em trincheiras opostas, os acionistas das indústrias bélicas dos dois lados, muitas vezes os mesmos fundos de investimento globais, celebram o aumento do PIB da guerra em seus iates em águas internacionais. Dessa contradição se alimenta a tomada de consciência do sujeito histórico da sociabilidade humana.

A História

A história não é uma linha reta que leva inevitavelmente à libertação. Ela é feita de lutas, derrotas, recuos e avanços.
O que a conjuntura atual oferece é uma possibilidade histórica, talvez a maior desde 1917, desde 1945, desde 1968. Mas possibilidade não é certeza. A reação também está viva, também se organiza, também tem os seus planos.
O fascismo cresce. A extrema-direita avança. A guerra serve para disciplinar os trabalhadores e justificar a repressão. O caminho não está traçado.
Mas, pela primeira vez em décadas, o polo da revolta é maior, mais difuso e mais global do que o polo da ordem. As ruas do mundo fervilham. As redes transbordam de imagens de resistência. A hipocrisia do império está exposta como nunca.

Sobre Eles e Nós

Nem a escala 6x1, nem gerência do Estado burguês...
O ideal comunista não nasce para vencer eleições ou para ocupar lugares na mesa do poder burguês. Nasce da necessidade histórica de superar a sociedade de classes, de extinguir a propriedade privada dos meios de produção e de construir uma forma de organização social onde a produção seja orientada pelas necessidades humanas, não pelo lucro.

A direita não é o inimigo principal. Ela é apenas a guarda avançada do capital, a sua expressão política mais brutal e desinibida. Mas a social-democracia, o reformismo, a "esquerda que governa para o capital com rosto humano", esses também são instrumentos de gestão do sistema. Cumprem a função de administrar a crise, de distribuir migalhas, de dar ao povo a ilusão de que a mudança é possível sem tocar na estrutura.

O verdadeiro combate é contra o capital. É contra a relação social que transforma o trabalho em mercadoria, que faz da terra um negócio, que converte a água, o petróleo e o pão em fontes de lucro para poucos enquanto multidões morrem de fome. É contra o sistema que precisa da guerra, da escassez artificial e do medo para se reproduzir.

Derrotar a direita nas urnas e depois governar nos marcos do capital é apenas mudar o gestor da miséria, não acabar com a miséria. A verdadeira tarefa revolucionária é construir, no seio da própria luta, as formas de organização e de poder popular que prefigurem a sociedade futura. É transformar a "classe em si" (os explorados que sofrem) em "classe para si" (os explorados que se reconhecem como sujeitos históricos e agem para transformar o mundo).

Sobre Isso e Aquilo

Dizer que o feminicídio decorre de “raízes machistas e misóginas” é apenas descrever o fenômeno com outra palavra, sem explicar de onde brotam essas “raízes” em uma sociedade capitalista. Machismo e misoginia não são entidades metafísicas que caem do céu; são formas de consciência e práticas sociais engendradas por relações materiais determinadas. Enquanto se mantiver intocada a estrutura que exige a família como unidade de reprodução da força de trabalho a custo zero, enquanto o trabalho doméstico não for socializado e a mulher continuar sendo a reserva de mão de obra mais barata e descartável, o “machismo” será reproduzido dia após dia, não por “cultura”, mas por função econômica. Ao localizar a causa do feminicídio em “valores culturais” ou “desigualdade de poder entre os gêneros”, esse discurso desvia a mira do alvo real, a propriedade privada, a família como célula econômica, o Estado que administra a violência enquanto se apresenta como solução. É o mesmo movimento que leva a clamar por “educação”, “leis mais duras” e “delegacias especializadas”, respostas que não tocam um fio de cabelo na estrutura de exploração, mas que ampliam o braço repressivo do Estado e dão verniz humanitário à barbárie.
É Fragmentar a luta de classes, reduzindo o feminicídio a uma questão de “gênero” descolada da luta de classes, é dividir os explorados. A mulher que morre assassinada pelo companheiro não morre porque ele “tem valores machistas”; morre porque ele foi educado a exercer autoridade sobre aquela que, no âmbito doméstico, é sua subordinada econômica e social, subordinação essa que o capital exige para transferir para o lar os custos da reprodução da força de trabalho. O agressor é, na imensa maioria dos casos, um trabalhador precarizado, que reproduz na esfera privada a violência que sofre na esfera pública. Tratar isso como “cultura machista” sem conectar à exploração de classe é isentar o capital de sua responsabilidade estrutural.
O discurso que se contenta em apontar “raízes machistas e misóginas” é um discurso que não quer transformar a sociedade, apenas geri-la. Ele naturaliza a família, naturaliza o trabalho doméstico não remunerado, naturaliza o Estado como árbitro, e reduz a luta a uma disputa de “consciências” ou “representatividade”. É o discurso da classe média esclarecida que se sente moralmente superior enquanto mantém incólume a engrenagem que produz o feminicídio em série.
O feminicídio não se combate com “mudança cultural”. Combate-se com a destruição das relações de produção que o engendra, socialização do trabalho doméstico, abolição da família como unidade econômica, desmontagem do Estado penal, e luta de classes até a extinção do capital. Fora disso, o que se oferece é apenas a gestão humanizada da barbárie.

Moral?

A moral é a redução do geral ao indivíduo. É o olhar que parte do "eu" e, no máximo, chega ao "outro" como extensão do mesmo. É a lógica do mérito, da responsabilização individual pela pobreza, da caridade como virtude. O sujeito moral pergunta o que eu devo fazer e a resposta nunca ameaça a estrutura.
No capitalismo, essa moral é funcional. Ela transforma a exploração em questão de comportamento pessoal. O operário desempregado é preguiçoso. O bilionário é empreendedor. A fome é resolvida com doação, não com mudança na propriedade da terra. A violência policial é tratada como excesso de alguns agentes. Tudo é reduzido ao indivíduo para que o sistema permaneça intacto.
A ética, ao contrário, parte da totalidade. Ela pergunta: O que a humanidade, em seu desenvolvimento histórico, precisa para se emancipar, indivíduo não desaparece, ele se realiza como momento consciente do gênero. Sua ação ética não é aquela que o torna bom aos olhos da moral vigente, mas aquela que contribui para a superação das relações de exploração.
Um operário que fura a greve pode ser moralmente correto aos olhos do patrão e da mídia (não viola a lei, não causa transtorno). Mas ele é eticamente reprovável porque enfraquece a luta coletiva. Inversamente, um militante que ocupa uma fábrica pode ser imoral (invade propriedade privada, desobedece à polícia), mas é eticamente superior porque age em nome do gênero humano.
A educação burguesa forma sujeitos morais, indivíduos que se veem isolados competindo entre si, responsabilizando-se por seus fracassos. O que ela não forma e, ativamente bloqueia, é a consciência ética, isto é, a capacidade de se ver como parte de uma classe, de uma história, de uma luta que transcende a própria biografia.
A revolução socialista exige essa passagem. Não basta que os trabalhadores tenham bons valores morais (honestidade, solidariedade pontual, respeito à lei). É preciso que eles desenvolvam uma ética de classe, a disposição de agir coletivamente, mesmo contra a moral dominante para transformar as condições materiais de existência.
A revolução é internacional e permanente.

Sobre Identitarismo

A superação do capitalismo e de todas as opressões que ele engendra, incluindo racismo, sexismo, destruição ambiental não virá da soma de lutas identitárias, mas da revolução proletária. Essa revolução, ao abolir a propriedade privada dos meios de produção, elimina a base material de todas essas opressões.
O resto virá como consequência ou não virá, se a luta de classes não for o eixo central.
A luta é pela humanidade como ser genérico, contra sua própria aniquilação. Ela é permanente, internacionalista e dirigida pela classe que produz toda a riqueza, sem qualquer identidade que não seja a de explorado contra explorador.

Distinções Necessárias Para a Luta de Classes

Burguesia, Pequena Burguesia e Proletariado… Distinções Necessárias para a Luta de Classes.

Há um equívoco teórico que se tornou lugar comum na esquerda contemporânea, a confusão entre proletariado e classe trabalhadora. Tratados como sinônimos, esses estratos sociais são, na verdade, distintos em sua relação com a produção e, portanto, em seus interesses históricos. A diferença não é apenas acadêmica. Ela é a chave para entender por que o reformismo adia indefinidamente a revolução e por que o proletariado produtivo segue sendo o único sujeito capaz de superar o capitalismo.
Para que essa distinção fique clara, é preciso definir, à luz da teoria marxiana, as quatro posições de classe fundamentais da sociedade capitalista a partir de sua relação com os meios de produção e do caráter produtivo ou improdutivo do trabalho.

A burguesia é a classe detentora dos meios de produção, fábricas, terras, máquinas, patentes, bancos, redes de transporte e comunicação. A burguesia não produz riqueza, ela compra a força de trabalho e se apropria da mais-valia ( trabalho não pago) gerada pelo proletariado produtivo. Seu trabalho, quando exerce algum, é improdutivo do ponto de vista da produção de valor, pois não cria mais-valia, apenas a gerencia, a financia, a especula ou a consome. Seu interesse de classe é manter o sistema de exploração, pois é dele que vêm seu lucro e seu poder. A burguesia quer, quando muito, reformas pontuais que não toquem no essencial, a propriedade privada dos meios de produção.

A pequena burguesia é a classe dos pequenos proprietários, aqueles que possuem os meios de produção (ou parte deles) e trabalham neles, mas não empregam ou empregam apenas esporadicamente trabalho assalariado. São exemplos o pequeno comerciante que trabalha na própria loja, o artesão dono de sua pequena oficina, o camponês proprietário que cultiva sua própria terra, o profissional liberal autônomo. A pequena burguesia não é assalariada, ela vive do seu próprio trabalho sobre sua pequena propriedade. Sua posição é contraditória, é proprietária (e, portanto, tem interesse na manutenção da propriedade privada) e é trabalhadora (e, portanto, pode simpatizar com reivindicações dos explorados). Essa ambiguidade faz com que ela oscile entre a burguesia e o proletariado, mas sem se identificar plenamente com nenhum dos dois. Historicamente, a pequena burguesia tem sido a base social do reformismo, do populismo e, em momentos de crise, do fascismo.

O proletariado improdutivo é composto por trabalhadores assalariados que não possuem meios de produção, mas cujo trabalho não gera mais-valia diretamente. São exemplos os bancários, os funcionários públicos, os professores, os trabalhadores de escritório, os profissionais de tecnologia da informação, os vendedores do comércio. Esses trabalhadores vivem do salário gerado com a extração da mais-valia, são explorados e precarizados, mas seu trabalho é necessário à realização, circulação e gestão do capital, não à sua produção. Eles não criam o valor que sustenta a sociedade, transferem, realizam ou administram o valor criado pelo trabalho produtivo. Por não deterem o poder estratégico de paralisar a criação de valor, o proletariado improdutivo tende ao reformismo. Acredita que é possível "melhorar" o capitalismo dentro do capitalismo. Confia em eleições, negociações, sindicalismo de resultados, políticas públicas progressistas. Não quer o fim da propriedade privada, quer apenas que ela seja "mais regulada", "mais justa", "mais humana". Quer um lugar melhor dentro do sistema, não a superação do sistema.

O proletariado produtivo é a classe que se relaciona diretamente com a natureza e a transforma em valor. É o trabalhador da indústria, do campo, da mineração... É ele quem extrai o minério, quem planta, colhe e transforma a natureza. Sem ele a economia para. Sem ele não há alimento, não há energia, não há moradia, não há circulação de mercadorias. O proletariado produtivo exerce trabalho produtivo no sentido marxiano, sua força de trabalho aplicada à natureza produz valor e mais-valia que será então apropriada pela burguesia. Sua posição na produção lhe confere um poder estratégico que nenhuma outra classe possui, o poder de paralisar a criação de valor, ou seja, o poder de parar a própria máquina do capital. É o proletariado produtivo que não tem ilusões reformistas, porque sua experiência cotidiana é a exploração em estado bruto. Sabe que a negociação não vai dar terra a quem não tem terra. Sabe que o parlamento não vai socializar os bancos. Sabe que a política burguesa é um teatro onde os mesmos exploradores mudam de máscara. O proletariado produtivo não quer ser "incluído" no capitalismo, quer expropriar os expropriadores.
Quando o proletariado produtivo radicaliza com greves gerais, ocupações de fábricas, piquetes, luta direta, o proletariado improdutivo hesita, teme, recua. Pede "negociação", "diálogo", "paz". Não quer quebrar o sistema. Quer apenas uma fatia maior dele. E, ao fazer isso, garante suas próprias ilusões, a de que pode ascender, a de que o mérito conta, a de que a democracia burguesa é o "menos pior"enquanto serve de escudo para a burguesia contra a revolução proletária. 
A pequena burguesia, por sua vez, também recua ou, em momentos extremos, pode até aliar-se à reação para proteger sua pequena propriedade.

A "esquerda institucional" que ocupa parlamentos, sindicatos burocratizados, ONGs, ministérios, é a representante política tanto da pequena burguesia quanto do proletariado improdutivo. Ela não fala em nome do proletariado produtivo, embora use suas bandeiras. Fala em nome dos que querem conciliar. E precisa da rua vazia para que a conciliação não seja interrompida pela voz rude do proletariado produtivo em greve, ocupando, quebrando.

Dentro do próprio proletariado produtivo, contudo, existem frações com interesses distintos. O operariado qualificado, a chamada "aristocracia operária" tem maior estabilidade, maiores salários e, historicamente, maior propensão ao reformismo, aproximando-se, em certos aspectos, dos interesses do proletariado improdutivo. Já o operariado não qualificado, ou precarizado, trabalhadores manuais de alta rotatividade, baixíssimos salários, nenhuma estabilidade, tem menos ilusões reformistas e maior propensão à radicalização, pois sua experiência cotidiana é a exploração mais nua e crua. Há ainda o proletariado agrícola e o proletariado de serviços produtivos (como entregadores de aplicativos e trabalhadores de logística), cuja organização é dificultada pelas condições de trabalho, mas cujo potencial revolucionário é imenso.

O que resta, portanto, é o proletariado produtivo, não como categoria abstrata, mas como classe materialmente situada, internamente diferenciada, mas capaz de se unificar politicamente. A unidade de suas frações e sua aliança tática com setores radicais do proletariado improdutivo (professores em greve, técnicos demitidos) e, eventualmente, com setores empobrecidos da pequena burguesia que rompem com o reformismo são condições necessárias para a ruptura. Mas o sujeito revolucionário, o motor da transformação, continua sendo o proletariado produtivo a classe que produz toda a riqueza material e que detém, por sua posição na produção, o poder estratégico de paralisar o capital.

O proletariado produtivo cria. As demais classes e frações se apropriam ou vivem do trabalho do proletariado. As demais classes quer a revolução. A burguesia a teme. A pequena burguesia e o proletariado improdutivo a adiam. A revolução será obra do proletariado produtivo, ou não será. Pois só quem carrega o mundo nas costas pode decidir, um dia, não mais carregá-lo, e sim construí-lo com as próprias mãos, para si mesmo.
A luta é pela organização política do proletariado produtivo como classe independente, única força capaz de romper com o reformismo, unificar suas frações e conduzir a revolução para além do capital. Não se trata de desprezar os demais setores oprimidos, mas de não confundir seus interesses (que podem ser aliados em lutas pontuais) com os interesses estratégicos da classe que detém o poder real de paralisar a máquina do capital. E a luta é Permanente e Internacional.

A Culpa Não é Sua

A Culpa: Uma Crítica Materialista a partir de Marx

Toda formação social produz não apenas mercadorias, mas também os afetos e as representações necessárias à sua reprodução. A culpa, longe de ser um sentimento natural ou universal, é uma produção histórica cuja gênese e função só podem ser compreendidas a partir das relações de produção capitalistas. Essa é uma análise da culpa ancorada diretamente na obra de Marx, prescindindo dos comentadores e buscando no próprio texto marxiano as categorias necessárias para desmontar esse afeto funcional à dominação burguesa.

O fetichismo da mercadoria e o ocultamento da relação social

No capítulo I de O Capital, Marx demonstra que a mercadoria é um objeto misterioso não por suas propriedades naturais, mas porque reflete aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como se fossem propriedades naturais dos produtos do trabalho. O fetichismo da mercadoria consiste em fazer com que uma relação social entre pessoas assuma a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas.

A culpa opera de maneira análoga. Ela transforma uma relação social (a exploração do trabalho pelo capital) em uma relação do indivíduo consigo mesmo. O desemprego, que é uma exigência estrutural do capital (a necessidade de um exército industrial de reserva, como Marx mostra no capítulo XXIII de O Capital), aparece ao trabalhador como fracasso pessoal. A miséria, que é produzida ativamente pela apropriação privada da mais-valia, aparece como merecimento do pobre. A exploração, que é a essência da relação capital-trabalho, aparece como resultado do esforço individual.

A culpa é o fetichismo levado ao terreno dos afetos. Ela faz com que o trabalhador se veja como causa de sua própria exploração, exatamente como o fetichismo faz com que os homens vejam o valor como propriedade das coisas.

A ideologia alemã e a produção dos afetos dominantes

Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels estabelecem um princípio metodológico fundamental: "As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes". Isso significa que a classe que tem os meios de produção material tem também os meios de produção intelectual (e, podemos acrescentar, os meios de produção afetiva).

A culpa não é, portanto, um sentimento que surge espontaneamente da consciência individual. Ela é produzida e reproduzida pelos aparelhos ideológicos da classe dominante, a escola (que ensina o mérito e a responsabilização individual), a família (que transmite a ética do trabalho e do dever), a religião (que mantém a estrutura da dívida original), a mídia (que individualiza a violência policial e a pobreza).

A moral burguesa, da qual a culpa é o afeto central, é a moral da classe dominante. Ela não é imposta pela força bruta (embora a força esteja sempre no horizonte) mas pela hegemonia, pela capacidade de fazer com que as ideias e os sentimentos da burguesia sejam vividos pelos trabalhadores como se fossem seus.

A mais-valia e a dívida impossível

Há uma estrutura profunda que conecta a culpa à mais-valia. O trabalhador vende sua força de trabalho por um salário que corresponde ao valor necessário para sua reprodução. Mas, ao longo da jornada de trabalho, ele produz um valor superior ao que recebe. Essa diferença (a mais-valia) é apropriada pelo capitalista sem qualquer contrapartida.

O trabalhador é, portanto, credor do capital. Ele produziu uma riqueza que não lhe pertence, que é usada para explorá-lo ainda mais. A culpa aparece precisamente para inverter essa relação, faz o trabalhador sentir-se em dívida com o capital. Ele deve "gratidão" pelo emprego, "reconhecimento" pelo salário, "lealdade" à empresa que o explora. A culpa é a dívida imaginária que oculta a dívida real, a dívida do capital com o trabalho.

Nos Grundrisse, Marx observa que o capital é essencialmente relação social, não coisa. A culpa, como afeto, é a forma subjetiva dessa relação invertida, ela faz o trabalhador viver como débito o que é, na verdade, crédito.

A acumulação primitiva e a produção do trabalhador culpado

No capítulo XXIV de O Capital, Marx descreve o processo de acumulação primitiva, a expropriação violenta dos produtores diretos de seus meios de produção. Camponeses foram expulsos de suas terras, artesãos foram despossuídos de suas ferramentas, e uma massa de despossuídos foi forçada a vender sua força de trabalho para sobreviver.

Esse processo violento, que é a verdadeira gênese do capitalismo, foi acompanhado por uma intensa produção ideológica. Os expropriados foram tratados como vadios, preguiçosos e criminosos. Leis sanguinárias contra a vadiagem, na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, puniam com chibatadas e marcas a fogo aqueles que se recusavam a trabalhar nas condições impostas pelos patrões.

A culpa nasce aí, como estigmatização do expropriado. Não bastava tomar a terra do camponês, era preciso fazê-lo se sentir culpado por estar sem terra. Não bastava expulsar o artesão de sua oficina, era preciso fazê-lo se sentir culpado por estar desempregado. A culpa é o complemento subjetivo da acumulação primitiva.

A moral do mérito e a legitimação da exploração

A moral burguesa é uma moral do mérito. Ela postula que cada um recebe conforme seu esforço, sua competência, sua virtude. Os ricos são ricos porque trabalharam mais, ou porque foram mais inteligentes, mais ousados, mais merecedores. Os pobres são pobres porque não se esforçaram o suficiente.

Marx demonstra, em toda sua obra, que essa é uma inversão ideológica. A riqueza do capitalista não vem de seu trabalho (ele pode não trabalhar jamais), mas da apropriação do trabalho alheio. A pobreza do trabalhador não vem de sua preguiça (ele pode trabalhar doze horas por dia), mas da expropriação do que produz.

A culpa é o afeto que ancora essa moral do mérito no corpo dos explorados. O trabalhador sente culpa por não "vencer na vida", por não "dar conta", por não "se esforçar o suficiente". Ele internaliza a justificativa ideológica da sua própria exploração. A culpa é a autoculpabilização do explorado, sem a qual o sistema seria insustentável, porque ninguém aceitaria voluntariamente ser explorado sabendo que essa exploração é injusta e desnecessária.

A culpa é uma produção histórica do capitalismo, forjada nas relações de exploração e internalizada como afeto dominante. Sua função é ocultar a dívida real do capital com o trabalho, individualizar a contradição social e paralisar a ação coletiva. A moral burguesa, da qual a culpa é a emoção central, é a ideologia dos exploradores vivida pelos explorados como se fosse sua.
Recusar a culpa não é recusar a responsabilidade. É recusar a inversão ideológica que faz do trabalhador o devedor quando ele é o credor. É recusar a paralisia reformista que impede a luta radical. O proletário não precisa se sentir culpado por sua exploração, precisa se indignar. Não precisa pedir desculpas por existir, precisa se organizar. Não precisa aguardar absolvição, precisa tomar o que é seu.

A única culpa que merece ser nomeada, do ponto de vista da história, é a daqueles que, tendo consciência da exploração, preferem senti-la como culpa individual em vez de transformá-la em ação coletiva. A esses, não resta esperança. Aos que se organizam, resta o mundo.

Acefalia e Extermínio

Acefalia e extermínio: a última fase da moral do capital

O projeto da extrema direita não se confunde com as velhas formas de dominação burguesa. Não se trata apenas de privatizar o que é público, de desmontar direitos sociais, ou de impor uma agenda econômica neoliberal. Trata-se de algo mais radical e mais letal: a produção da acefalia. A cabeça cortada. A impossibilidade de qualquer projeto, crítico ou conformista, revolucionário ou reformista. O aniquilamento da própria potência de pensar, de organizar, de resistir.

Este movimento não busca formar nem deformar. Busca eliminar a possibilidade da forma. Não quer educar para o capital, como no velho ciclo descrito por Marx, no Livro I de "O Capital", onde a escola preparava a força de trabalho para a disciplina fabril. Quer tornar a educação irrelevante, substituí-la pelo fuzil, pelo algoritmo que isola, pelo ruído infinito que consome qualquer silêncio onde um pensamento pudesse nascer.

A eliminação direta como método

A fração da classe dominante que hoje comanda o projeto de extrema direita já não acredita na hegemonia cultural. Não busca convencer o explorado de que sua posição é justa ou inevitável. Busca que o explorado não exista como sujeito. Daí a violência como método cotidiano, o extermínio como política de Estado, a mentira como moeda corrente, a alegria sádica na destruição, porque a destruição tornou-se o único conteúdo positivo de sua "moral".

O velho judeu de Trier já havia percebido, em seus escritos sobre a acumulação primitiva, que o capital não nasceu do convencimento, mas da violência aberta (cercamento dos campos, expropriação dos camponeses, leis sanguinárias contra os expropriados). O que se vê hoje é essa violência primitiva reeditada em escala global e com meios tecnológicos que o século XIX não podia imaginar. Mas há uma diferença crucial. No passado, a violência servia para empurrar o trabalhador para a fábrica. Hoje, a violência serve para empurrá-lo para fora da própria humanidade.

A moral da morte e o risco planetário

A classe dominante em sua fração mais reacionária sabe que sua ação põe em risco toda a vida no planeta. As mudanças climáticas, a corrida armamentista, as pandemias evitáveis, a intoxicação dos solos e das águas, tudo isso é consequência previsível, anunciada, do seu modo de produção e de destruição. Ela não se importa. Por quê?

Porque o horizonte temporal da acumulação é o próximo trimestre, não as próximas gerações. Porque, como Marx demonstrou ao analisar a contradição entre forças produtivas e relações de produção, o capital tende a tratar a natureza e o próprio trabalhador como barreiras a serem rompidas, não como condições a serem preservadas. O que o século XXI acrescenta é a escala, a lógica do lucro tornou-se tão radicalmente parasitária que não se contenta em explorar o trabalho vivo, está disposta a extinguir o próprio trabalho vivo e, com ele, a humanidade, desde que os últimos dias sejam de lucro.

Essa é a moral da morte, não uma morte como sacrifício redentor, mas como gesto de soberania do senhor que, não podendo mais comandar o escravo, prefere matá-lo e matar-se junto. É o niilismo do capital em sua fase terminal. Só resta destruir, porque construir exige o outro e o outro na forma do trabalhador que resiste ou do ecossistema que se esgota, tornou-se insuportável.

O que resta fazer

A tarefa daqueles que ainda querem a vida (não apenas sobreviver, mas viver humanamente) é recusar essa acefalia. É construir, nas brechas que a barbárie ainda não conseguiu esterilizar, formas de pensamento e de organização que recolocam a cabeça no lugar. Não uma cabeça que comande de cima, mas uma cabeça coletiva que pense a partir da carne do mundo.

Marx escreveu, nas suas análises sobre a jornada de trabalho, que o capital é "vampiro" que suga o sangue do trabalho vivo. Mas o vampiro, na literatura, só teme duas coisas: a luz do dia e a estaca no coração. A luz do dia é a consciência de classe desperta. A estaca é a organização autônoma dos que produzem toda a riqueza. Nenhuma das duas será encontrada nos manuais de boas maneiras políticas ou nas alianças com a fração “civilizada” da burguesia. Serão construídas na contramão da acefalia.

A classe dominante, em sua moral da morte, já assinou sua própria sentença. Ela não se preocupa morta, mas nós, os vivos provisórios, temos outro horizonte. Ou lutamos para que a vida prevaleça, ou seremos arrastados pela destruição que ela mesma preparou. Não há meio-termo.

O Que é Capital

O dinheiro não é uma coisa, seu dono não é uma pessoa, ambos são personificações de uma relação social.

O que é o capital?

O capital não é o dinheiro em si, nem a fábrica, nem a máquina. O capital é uma relação social de produção na qual uma classe (a burguesia) através da força, detém a propriedade privada dos meios de produção e a outra classe (o proletariado) é obrigada a vender sua força de trabalho para viver. O dinheiro é apenas a forma visível dessa relação, o fetiche que esconde a exploração. O dono do dinheiro não é dono porque tem dinheiro, ele tem dinheiro porque ocupa uma posição na relação de classe. Troque o indivíduo, e a relação continua.

Não existe o dinheiro e seu dono, existe a riqueza produzida e expropriada, o essencial é o trabalho real que gerou a riqueza e que essa riqueza é apropriada por quem não trabalhou, simplesmente por controlar os meios de produção. O salário do operário é só uma fração do que ele produziu. O resto (a mais-valia) vira lucro, juro, renda da terra, ou seja, vira a própria substância do "dinheiro do dono".

Da Bolívia ao Irã é o mesmo conflito sob diferentes bandeiras

Na Bolívia, durante o governo de Evo Morales e depois de Luis Arce, o que se viu foi uma tentativa (reformista, contraditória, limitada, mas real) de reverter a expropriação da riqueza nacional pelas corporações estrangeiras (gás, lítio, terras raras). O golpe de 2019 não foi um acidente, foi a reação da burguesia interna e internacional contra qualquer avanço que ameaçasse a propriedade privada dos meios de produção estratégicos. O país voltou a ser palco da luta de classes nua e crua, com o povo indígena e operário de um lado, o capital transnacional e sua classe política local de outro.

No Irã, a relação capital-trabalho aparece distorcida pelo regime teocrático, mas a base é a mesma, a propriedade privada dos meios de produção (com forte presença estatal e de fundações religiosas que funcionam como capitalistas coletivos). A enorme greve dos caminhoneiros, as paralisações de professores e operários, a repressão brutal, tudo isso é a forma iraniana da contradição fundamental entre capital e trabalho. O véu e a mesquita não mudam a exploração. Mudam apenas a ideologia que a justifica.

O que o sistema quer que você acredite é que existem "países diferentes", "culturas diferentes", "problemas locais". Mas a estrutura é sempre a mesma, uma minoria controla os meios de produzir a vida e a maioria é obrigada a vender a força de trabalho. A riqueza gerada por muitos é apropriada por poucos. Seja na Bolívia, no Irã, nos EUA ou na China, a relação capital-trabalho é o motor, com variações locais, mas com a mesma lógica de exploração e expropriação.

Os conflitos identitários, nacionais, religiosos, são reais, mas são secundários. Enquanto o debate se concentrar em "qual cultura é mais oprimida" ou "qual regime é mais autoritário", a classe dominante de cada país continua extraindo mais-valia tranquilamente.

E o que isso tem a ver com o trabalho associado?
Tudo. O trabalho associado (a verdadeira socialização dos meios de produção) é a única forma de romper essa relação. Não se trata de "distribuir melhor a riqueza" ou "tributar os ricos". Trata-se de abolir a expropriação na origem. Quando os produtores, coletivamente, são donos do que produzem e decidem o destino da riqueza, o dinheiro perde seu poder fetichista. O "dono do dinheiro" simplesmente deixa de existir como categoria social.

Bolívia e Irã estão (cada um a seu modo) no centro dessa luta. Um tentou (e está tentando novamente) arrancar da burguesia internacional o controle do gás e do lítio. O outro vive a contradição de um regime que teoricamente se opõe ao imperialismo, mas mantém internamente a mesma estrutura de propriedade privada e por isso enfrenta rebeliões operárias contínuas.

Não há saída pela moral. Não há saída pela identidade. Não há saída pelo bom moço. A única saída é a organização da classe trabalhadora para expropriar os expropriadores e instituir a propriedade coletiva dos meios de produção. Até lá, o dinheiro e seu dono continuarão existindo, não como coisas ou pessoas, mas como a máscara sanguinária de uma relação de exploração que atravessa fronteiras, religiões, cores e gêneros.

A Revolução Não Anuncia Seu Próprio Nome

A Revolução Não Anuncia Seu Próprio Nome: Bolívia, Mídia e a Hora da Classe Trabalhadora

Enquanto os holofotes da grande imprensa se concentram no Oriente Médio, fabricando consensos para a guerra e servindo aos interesses geopolíticos do imperialismo, uma luta de classes de primeiríssima grandeza ferve em solo latino-americano. A Bolívia, nos últimos meses, tornou-se o palco de uma resistência que não pede permissão para existir e que a mídia burguesa (por isso mesmo) prefere silenciar. Mas a história não se decide nas manchetes. Decide-se nas ruas. E é das ruas de La Paz, dos bloqueios dos mineiros e das greves da Central Operária Boliviana (COB) que emergem as lições mais urgentes para o proletariado de todo o continente.

O Judeu Alemão Errou, Não Foi na Alemanha

Karl Marx não era vidente. Ele não previu que a revolução socialista irromperia primeiro na atrasada Rússia czarista, e não na avançada Alemanha industrial. Isso nos ensina uma lição metodológica fundamental, as leis do movimento do capital se manifestam de forma desigual e combinada. A crise explode onde as contradições são mais agudas, onde a miséria e a opressão criam as condições subjetivas para a insurreição, não necessariamente onde a teoria apontaria como "mais maduro".

A Bolívia de 2026 é exatamente esse ponto de irrupção inesperada. Não se trata de uma revolução socialista em curso, mas de uma resistência anticapitalista que pode, se acertar seu rumo, transcender os limites do reformismo. O governo de centro-direita de Rodrigo Paz, eleito em novembro de 2025, representou a derrota eleitoral do ciclo do MAS e a ascensão de uma agenda francamente liberal. Mas a classe trabalhadora boliviana não aceitou passivamente a ofensiva do capital. Respondeu com greves, bloqueios e ocupações  e a mídia surpresa fingiu que nada estava acontecendo.

O Ulianov Não Esperava e Quase Chegou Atrasado

Lenin estava no exílio na Suíça quando a Revolução de Fevereiro de 1917 eclodiu na Rússia. Ele não previu a data. Mas, ao chegar, não hesitou em atirar-se na voragem dos acontecimentos, forjando as Teses de Abril que apontavam para a tomada do poder. A analogia com o momento boliviano é cristalina, o cenário é fluido, imprevisível, e a vanguarda não pode se dar ao luxo de esperar o "momento perfeito" ou de lastimar o "atraso".

Os mineiros bolivianos não esperaram a bênção de nenhuma teoria. Diante da ameaça representada pela Lei de Terras 1720(que permitia a conversão de pequenas propriedades em garantia bancária, abrindo as porteiras para a especulação), eles simplesmente pegaram seus dinamites e foram para as ruas. Os camponeses bloquearam estradas. A COB convocou greve geral por tempo indeterminado. A pauta se ampliou para aumento salarial de 20% e libertação de presos políticos. Ninguém pediu permissão a Marx ou a Lenin. Apenas agiram.

Estão Falando do Oriente Médio e Nada da Bolívia

Esta é a cereja do bolo da hipocrisia burguesa. Enquanto a guerra no Oriente Médio  (uma guerra interimperialista que serve aos interesses do complexo industrial-militar e do lobby sionista) alimenta a indústria das manchetes e a geopolítica dos monopólios, uma luta de classes ferve na América Latina. Por que o silêncio? Porque a mídia hegemônica fala do que lhe convém. O silêncio sobre a Bolívia não é omissão, é censura de classe. Seu objetivo é isolar os explorados, desmobilizar a solidariedade internacional e impedir que a chama boliviana incendeie outros campos.

A grande imprensa não quer que o trabalhador brasileiro saiba que seus companheiros bolivianos estão parando o país com bloqueios. Não quer que o camponês argentino descubra que a luta pela terra reacendeu nos Andes. Não quer que o proletariado chileno veja que a greve geral é possível. A informação, no capitalismo, é uma mercadoria e quem paga define a pauta.

O Que Está Realmente Acontecendo na Bolívia

Afastemos as cortinas de fumaça. A crise boliviana é um livro aberto sobre a barbárie capitalista.

A centelha foi a Lei de Terras 1720. Para o governo Paz, ela serviria como "modernização", permitir que pequenos proprietários usassem suas terras como garantia bancária. Para os camponeses e indígenas, era a porta de entrada para a especulação imobiliária, o fim da terra comunal e o retorno disfarçado do latifúndio. A lei foi revogada sob pressão das ruas, mas o estrago já estava feito, a desconfiança estava plantada, e a luta se generalizou.

Mineiros, camponeses, professores e a COB organizaram uma greve geral que isolou La Paz por semanas. O governo respondeu com 3.500 policiais para desmantelar os bloqueios, gerando confrontos brutais no centro da capital. E, quando a situação ficou insustentável, Paz chamou a ajuda externa, um avião militar do governo ultraliberal de Javier Milei com 12 toneladas de alimentos para aliviar a pressão. É a internacionalização da reação burguesa, o capital se une através das fronteiras para esmagar a resistência da classe trabalhadora.

Os Reflexos para o Proletariado Latino-Americano

A crise boliviana derruba todos os mitos sobre a passividade da classe trabalhadora. Ela nos ensina, pelo menos, três lições imediatas.

O inimigo é um só. Seja o governo de Paz, de Milei, de Lula ou de qualquer outro administrador do capital, a resposta da classe trabalhadora, quando organizada, é a mesma, greve, bloqueio, ocupação. A luta não é contra este ou aquele governo, é contra a essência neoliberal de todo Estado burguês.

O isolamento é a tática do inimigo. O silêncio da mídia e o apoio externo a Paz fazem parte da estratégia para conter a revolta e impedir seu contágio. A solidariedade de classe, através das fronteiras, é nossa principal arma. Um mineiro boliviano em greve é um aliado do trabalhador brasileiro em luta, mesmo que a imprensa tente esconder esse fato.

A hora é agora. A revolução não espera o aniversário de Marx nem a chegada de Lênin. Ela é feita nas trincheiras do presente. E nas trincheiras da Bolívia, neste exato momento, trava-se uma batalha que é de toda a América Latina. A vanguarda que hesita, que analisa demais, que espera o "momento maduro", está fadada a chegar atrasada, ou a não chegar nunca.

O Que Fazer?

Não podemos nos dar ao luxo do silêncio. A primeira tarefa é romper o bloqueio informativo imposto pela mídia burguesa. Denunciar a mentira. Divulgar a luta dos mineiros, dos camponeses, da COB. Fazer ecoar na América Latina o grito que vem dos Andes.

A segunda tarefa é extrair as lições táticas da resistência boliviana. A greve geral, os bloqueios de estradas, a ocupação das cidades, tudo isso é um manual de combate que a classe trabalhadora pode e deve replicar. Não se trata de copiar táticas, mas de aprender com a combatividade alheia.

A tarefa mais fundamental, é organizar. A solidariedade não pode ser apenas retórica. É preciso construir redes concretas de apoio, de comunicação, de coordenação entre as lutas dos explorados de todo o continente. O capital já é internacional. A resistência precisa se tornar internacional também.

A história está passando, camaradas. E ela não espera pela permissão da mídia. Que a combatividade dos mineiros e camponeses bolivianos sirva de farol para o proletariado de todo o continente. Como dizia Rosa Luxemburgo: "A revolução é magnífica. Todo o resto é bobagem."

A luta é na Bolívia, é na América Latina, é em todo lugar onde o capital explora. Ela é internacional e permanente.

A Crise Boliviana Exige Uma Leitura Radical

Por Que a Crise Boliviana Exige Uma Leitura Radical

A grande mídia, quando muito, trata a Bolívia com manchetes apressadas sobre "crise política" ou "instabilidade social". A dita "imprensa alternativa", quando se dispõe a cobrir o assunto, faz o que fez até agora, entrevista Evo Morales. Ouve-se o ex-presidente, suas análises ponderadas, suas críticas ao governo neoliberal de Rodrigo Paz, suas propostas de "recomposição do campo popular". E pronto. O problema parece resolvido no plano da opinião.
Isso não é apenas insuficiente. É ideológico. É uma cortina de fumaça que impede a classe trabalhadora de enxergar a verdadeira natureza do que está em curso na Bolívia e no mundo.

O Reformismo não Vai à Raiz

Evo Morales foi, durante seus quase quatorze anos de governo, um administrador do capitalismo boliviano. Nacionalizou alguns setores, distribuiu migalhas aos movimentos sociais, cooptou lideranças indígenas e operárias, e manteve intacta a estrutura fundamental da exploração, “a propriedade privada dos meios de produção”. Seu governo foi, na melhor das hipóteses, uma versão com verniz nacionalista e andino do mesmo capitalismo que hoje, sob Paz, se mostra em sua face mais liberal e truculenta.

Ouvir Evo Morales sobre a crise atual é como ouvir um ex-gerente reclamar do novo gerente. Ele pode apontar erros de gestão, pode denunciar a violência do atual governo, pode até convocar manifestações. Mas ele não pode (porque sua posição de classe não permite) apontar a raiz do problema. E a raiz do problema não é Paz, não é o neoliberalismo, não é o imperialismo americano. A raiz do problema é o modo de produção capitalista.

Enquanto a análise se limitar a trocar os nomes (criticar Paz, louvar Evo, esperar que o MAS retorne ao poder) estaremos no terreno da administração da crise, não da sua superação. A questão não é quem governa a Bolívia. A questão é se a classe trabalhadora boliviana vai continuar aceitando ser explorada por qualquer patrão, seja ele nacional ou estrangeiro, seja ele aliado de Evo ou de Paz?

A Crise Boliviana é a Crise do Capitalismo Mundial

O que está em curso na Bolívia não é uma "crise política" localizada. É uma manifestação aguda da crise estrutural do capitalismo global. O sistema entrou em uma fase de superacumulação, de esgotamento das condições de reprodução social, de destruição ambiental e humana em escala planetária. Cada tentativa de restaurar a taxa de lucro (com austeridade, com guerras, com ataques aos direitos trabalhistas) aprofunda a crise, porque destrói a única coisa que realmente produz valor, a força de trabalho viva, saudável e organizada.

Na Bolívia, isso se traduz na tentativa do governo Paz de reverter as nacionalizações, abrir as terras ao capital especulativo, flexibilizar os direitos trabalhistas e cortar os gastos sociais. A resposta dos mineiros, camponeses e trabalhadores urbanos (greve geral, bloqueios de estradas, ocupação das cidades) não é uma "reação a medidas impopulares". É a recusa da classe trabalhadora em pagar a conta de uma crise que não criou.

Essa recusa é revolucionária em potência. Mas ela só se tornará efetivamente revolucionária se a classe trabalhadora boliviana romper com a tutela do reformismo (seja o de Evo, seja o de qualquer outra liderança que se limite a pedir "diálogo" e "negociação") e construir seus próprios instrumentos de poder.

O Silêncio da Imprensa (Burguesa e "Alternativa") é Cúmplice

A grande mídia silencia sobre a Bolívia porque não lhe interessa que a classe trabalhadora mundial saiba que é possível parar um país com greve geral e bloqueios. O exemplo boliviano é perigoso demais para ser mostrado.

A "imprensa alternativa" reduz a Bolívia a uma entrevista com Evo Morales porque isso é confortável. É confortável porque não exige ruptura. É confortável porque permite que o leitor progressista se sinta informado e engajado sem precisar mudar uma vírgula de sua própria prática política. É confortável porque mantém a ilusão de que o problema é "o neoliberalismo" (um intruso que pode ser expulso com boas políticas e bons governos) e não o capitalismo, que é a própria estrutura da sociedade.

Mas a verdade, camaradas, é dura, o neoliberalismo não é um desvio do capitalismo. É a sua forma mais honesta. É a forma como o capital se apresenta quando não precisa mais fazer concessões. O governo Paz é apenas o capital sem maquiagem. O governo Evo foi o capital com maquiagem indígena e social. A maquiagem caiu. O rosto é o mesmo.

O Que a Classe Trabalhadora Precisa Fazer

Primeiro, recusar a narrativa reformista. Não se trata de apoiar Evo contra Paz. Trata-se de construir uma alternativa (independente, de base, autônoma, revolucionária) que não dependa de nenhum gerente do capital, seja ele de “esquerda” ou de direita.

Segundo, aprender com as táticas da luta boliviana. A greve geral, os bloqueios, as ocupações (tudo isso é um manual de combate que precisa ser estudado e aplicado). Mas sem a ilusão de que táticas, por si só, fazem a revolução. Elas são ferramentas. O que falta é a consciência de classe e a organização política que transforme a greve em poder.

Terceiro, internacionalizar a solidariedade. O capital já é internacional. Os mineiros bolivianos em greve são nossos companheiros de classe, no Brasil, na Argentina, no México, em toda parte. Apoiá-los não é caridade. É reconhecer que a luta deles é a nossa luta, e que a derrota deles enfraquece a todos nós.

Quarto, e mais importante, romper com a ilusão de que a solução virá de cima, de um governo bom, de um líder carismático, de uma aliança de partidos progressistas. A solução virá de baixo, da organização autônoma da classe trabalhadora, da construção de conselhos, de assembleias, de comitês de greve que não peçam licença a nenhum patrão, a nenhum Estado, a nenhuma liderança tutelar.

Camaradas, a crise boliviana não é sobre Evo Morales. Não é sobre Rodrigo Paz. Não é sobre o MAS. É sobre a classe trabalhadora, sobre sua capacidade de resistir, de se organizar e, no limite, de tomar o poder.
Enquanto a “esquerda institucional” e a imprensa "alternativa" continuarem entrevistando Evo e discutindo os rumos do reformismo, estarão perdendo a única coisa que realmente importa, a hora da classe trabalhadora.
A hora é agora. A luta é na Bolívia, é na América Latina, é no mundo inteiro. E a única pergunta que vale é, de que lado você está, do lado dos que administram a crise, ou do lado dos que querem enterrar o capitalismo?
A luta é pela superação radical da ordem burguesa. Ela é internacional e permanente.

Sobre o Pateta da TV

Sobre o Pateta da TV.

É pior, é ideológico, o sistema não comporta mais concessões. Diminuído o trabalho vivo pela introdução da produção tecnológica (trabalho morto), o exército de reserva ( trabalho vivo)não serve para nada e na relação de (entre) coisas deve ser eliminado. Essa a contradição fatal do capital organizado: sem extração de mais-valia suficiente para manter taxa de lucro, o capital impõe a quem ainda consegue sobreviver da venda de sua força de  trabalho a impossibilidade de existência. Junte a isso a impossibilidade de fornecimento infinito de matéria prima (a natureza avisa de seu esgotamento todos os dias). Ou nos livramos do capitalismo, sua propriedade privada dos meios de produção, sua sociedade de classes, ou se finda a vida no planeta.

Bolívia, Uma Crise Insolúvel Dentro do Capital

A crise é insolúvel dentro do capital

O estado de exceção na Bolívia não vai resolver a crise, assim como não resolveu em nenhum lugar onde foi aplicado. Ele pode, temporariamente, desarticular a resistência e permitir algumas privatizações, alguns cortes, alguma recomposição da taxa de lucro. Mas a contradição de fundo permanece: o capital precisa de trabalho vivo para se valorizar, mas desenvolve as forças produtivas a ponto de tornar o trabalho vivo supérfluo; precisa de valores de uso para produzir mercadorias, mas esgota a natureza em escala planetária; precisa de consumidores, mas comprime salários e descarta populações inteiras.

A crise boliviana é um capítulo da crise mundial do capital. A resposta do capital a essa crise é a barbárie: estado de exceção, repressão, guerra, destruição ambiental. A resposta da classe trabalhadora só pode ser a ruptura. Não a troca de gerentes, não a volta ao reformismo que já mostrou seus limites históricos, mas a construção de poder próprio, a reapropriação social dos meios de produção, a abolição da propriedade privada e do trabalho assalariado.

O estado de exceção é o sinal de que o capital já não pode governar como antes. Resta saber se a classe trabalhadora compreenderá que também não pode mais ser governada como antes. A hora é de escolher: ou o capital nos enterra com seus estados de exceção e sua destruição planetária, ou enterramos o capital antes que seja tarde.

Tecnologias e Desemprego a Contratação Insolúvel do Capital

Tecnologia e desemprego: a contradição insolúvel do capital

O capital precisa do trabalho vivo. Sem a extração de mais-valia (o trabalho não pago que o trabalhador realiza além do tempo necessário para reproduzir sua subsistência) não há lucro. Essa é a lei fundamental do modo de produção capitalista, demonstrada por Marx no Livro I de O Capital.

Mas o capital também precisa competir. E a competição o força a substituir trabalho vivo por máquinas. A automação aumenta a produtividade, reduz custos unitários, intensifica o controle sobre o processo produtivo. Do ponto de vista do capitalista individual, é uma estratégia vitoriosa.
Do ponto de vista do sistema como um todo, é uma contradição em movimento.

O dilema

Quanto mais o capital automatiza, menos trabalhadores ele precisa empregar. Quanto menos trabalhadores empregados, menos trabalho vivo disponível para gerar mais-valia. Quanto menos mais-valia, menos lucro. O sistema, ao buscar maximizar o lucro, destrói a única fonte do lucro.

O capital responde a essa contradição com três movimentos, todos insuficientes.

Primeiro, a superexploração dos que restam. Sobre os trabalhadores que ainda estão empregados, o capital exige jornadas mais longas, ritmo intensificado, salários rebaixados. A mais-valia absoluta e relativa são extraídas até o limite fisiológico.

Segundo, a expansão para novas fronteiras. O capital desloca a produção para periferias onde o trabalho é mais barato, as leis trabalhistas são frágeis ou inexistentes, e a organização sindical é reprimida. Mas a automação também chega a essas regiões, e a concorrência entre países pobres rebaixa ainda mais os salários globais.

Terceiro, a fuga para a financeirização. Diante das dificuldades na esfera produtiva, o capital se refugia na especulação financeira (derivativos, títulos públicos, operações algorítmicas de alta frequência). Mas a finança não cria valor; ela transfere renda e canibaliza a própria produção que a sustenta. É um sistema que vive de extrair o que resta do trabalho vivo alhures.

Os descartados

Os trabalhadores expulsos do processo produtivo não são apenas "desempregados". São um exército industrial de reserva estrutural (um contingente crescente de seres humanos que o capital não sabe o que fazer).

Eles não são mais necessários à valorização. Tornam-se sobra, excesso, escória. O capital responde a essa sobra com sua versão da solução final: precarização generalizada (bicos, uberização, trabalho sem direitos), Estado penal (criminalização da pobreza, encarceramento em massa), guerras (que destroem vidas e "limpam" excedentes populacionais), ou renda básica como esmola administrada, uma proposta que não questiona a propriedade privada, apenas permite que os descartados sobrevivam sem explodir o sistema (reformas).

A aporia

O capital não pode abolir o trabalho vivo sem abolir a si mesmo. Mas ele precisa reduzir o trabalho vivo para competir e maximizar o lucro. É uma aporia real, não lógica, uma contradição que se manifesta na história, não apenas no papel.

O que vemos hoje é um sistema que automatiza para produzir mais com menos trabalhadores, superexplora os que sobram no mercado de trabalho e descarta os que não cabem mais em seus cálculos de rentabilidade. O resultado é uma sociedade cindida: de um lado, os integrados (precariamente); do outro, um contingente crescente de "inúteis para o sistema" que sobrevive à margem, sem acesso a direitos, sem função reconhecida, sem futuro.

O que isso significa para a luta de classes

A boa notícia é que essa contradição é insolúvel dentro do capitalismo. O sistema não tem resposta final para o desemprego tecnológico que não seja a barbárie (coerção, guerra, extermínio lento ou rápido). Ele caminha para sua própria negação: elimina a fonte do valor que o sustenta.

A má notícia é que a classe trabalhadora, fragmentada e desorganizada, ainda não compreendeu que seu inimigo não é a máquina (ludismo),mas o controle capitalista sobre a máquina. A automação poderia significar redução da jornada de trabalho, lazer criativo, produção voltada às necessidades humanas. No capitalismo, significa desemprego, fome e violência.

A única saída lógica e humana é a superação da propriedade privada dos meios de produção e a organização social do trabalho, não para eliminar a tecnologia, mas para colocá-la a serviço da redução do trabalho penoso, não da eliminação dos trabalhadores.
O capital não pode se reproduzir sem o trabalho vivo. Mas ele age como se pudesse, porque a concorrência o força a substituir trabalho por máquinas. O resultado é um sistema em contradição consigo mesmo, que destrói as condições de sua própria reprodução.

Enquanto a propriedade privada não for abolida, o capital continuará tentando resolver o impossível: lucrar sem explorar. E sua resposta será sempre a mesma: descartar gente como descarta máquinas obsoletas.
O desenvolvimento das máquinas é o caminho pelo qual o capital realiza sua fantasia de produzir sem trabalho. É também o caminho pelo qual ele cavará sua própria sepultura.

O Lumpemproletario Como Estratégia da Ordem Burguesa

O Lumpemproletariado como Estratégia: Capital, Guerra e a Produção do Descartável

O capital não é apenas um sistema de exploração do trabalho formal, nem se resume à relação patrão-empregado regida por contratos e leis burguesas. Em seu movimento real, o capital produz permanentemente uma massa de seres humanos considerados excedentes, descartáveis ou "inúteis" para a acumulação "legal". É essa massa (o lumpemproletariado) que este artigo examina não como acidente ou patologia social, mas como produto direto e funcional do próprio modo de produção capitalista. Longe de ser um resíduo passivo, o lumpemproletariado é mobilizado ativamente, sua força de trabalho (viva, precária, desprotegida) circula e reproduz mais-valia sem que seus agentes tenham consciência plena do papel que exercem. Essa mais-valia, apropriada pelos donos dos meios de produção, retroalimenta a indústria bélica, financia guerras geopolíticas e guerras civis nas periferias, e retorna ao mercado na forma de violência mercadorizada, completando assim um circuito necropolítico que sustenta o capitalismo contemporâneo.

 Trabalho vivo sem consciência de classe

O proletariado clássico (aquele que vende sua força de trabalho em troca de salário, dentro de uma relação jurídico-contratual) já não é a única figura da exploração. Ao lado dele, o capital mobiliza o que Marx chamou de trabalho vivo: a capacidade humana geral de produzir valor, que pode ser extraída mesmo sem vínculo empregatício formal, sem direitos, sem representação sindical. Esse trabalho vivo circula nas economias informais, nas plataformas digitais (uberização), nas terceirizações infinitas e, crucialmente, nas atividades criminalizadas.

O que impede esse trabalho vivo de se reconhecer como classe? A resposta está na própria fragmentação produzida pelo capital: a ilegalidade, a precariedade e a competição pela sobrevivência imediata corroem a consciência coletiva. O trabalhador do bico, o catador de recicláveis, o vigia noturno sem vínculo, o entregador sem proteção, o pequeno traficante da esquina, todos produzem valor real que se converte em capital nas mãos de quem controla os meios de logística, distribuição, armamento e financiamento. Mas essa massa não se vê como proletariado. Vê-se como autônoma, ou como excluída, ou como marginal. É o capital que mais lucra com essa inconsciência.

O lumpemproletariado: força de trabalho excedente e descartada da legalidade burguesa

O lumpemproletariado não é pré-capitalista. É pós-capitalista: produzido pela própria dinâmica de acumulação que gera desemprego estrutural, superpopulação relativa e informalização forçada. A legalidade burguesa (aquela que protege a propriedade privada, os contratos e o Estado de direito) funciona como uma cerca: dentro dela, o trabalho é regulado, tributado, visível; fora dela, o trabalho (e a vida) pode ser explorado sem mediações, sem garantias, e até violentamente eliminado sem maiores consequências jurídicas, pois essa eliminação se dará na periferia, na favela, na fronteira ou na cela.

É precisamente essa massa descartada que o capital utiliza para funções que o proletariado formal não aceitaria ou não poderia executar sem custos políticos elevados: o tráfico de drogas em larga escala, o contrabando de armas, a mineração ilegal, a grilagem de terras, os esquadrões de extermínio que limpam territórios para projetos imobiliários ou agronegócio, e (no plano geopolítico) os mercenários, os paramilitares e as milícias que atuam em guerras por procuração.

 Mais-valia lumpenizada: da favela à indústria bélica, e de volta ao mercado

A mais-valia extraída do trabalho vivo lumpenizado não retorna à favela sob a forma de escola, hospital ou saneamento. Retorna como financiamento para a indústria bélica
O esquema é o seguinte: O capital investe (diretamente ou via lavagem) no controle de territórios periféricos através do narcotráfico, do jogo ilegal, da exploração sexual ou do contrabando.
O lumpemproletariado executa o trabalho sujo da logística e da violência cotidiana, recebendo migalhas.
O lucro gigantesco sobe para os estratos superiores do capital financeiro, muitas vezes em paraísos fiscais.
Esse lucro é então aplicado na produção de armas, drones, munições, softwares de vigilância, sistemas de controle de fronteiras e financiamento de exércitos mercenários.
 As armas e os mercenários são vendidos ou alugados para governos que desejam esmagar revoltas sociais (em periferias globais) ou para grupos de oposição que desestabilizam governos considerados hostis aos interesses do capital.
· A violência resultante (mortes na favela, na fronteira, na zona de guerra) é então transformada em novas mercadorias: seguros de vida, funerárias, segurança privada, sistemas de monitoramento, reformas penitenciárias que são concessões lucrativas.
O ciclo está fechado: a vida precária produz valor, o valor vira morte, a morte é revendida como serviço.

Moral e ética burguesa: padronizando a subserviência

O capital não prescinde de justificativas morais. Pelo contrário, desenvolve uma ética própria que naturaliza a exclusão e criminaliza a resistência. Essa ética se expressa em discursos de "meritocracia", "empreendedorismo de sobrevivência", "responsabilidade individual" e "law and order". Para o lumpemproletariado, a mensagem é clara: você está fora da lei, portanto não tem direitos; mas sua força de trabalho ainda é útil, desde que aceite as regras do jogo sujo que lhe é oferecido. A favela, o morro, a prisão, são todos celeiros de trabalho vivo sem direitos.

A mesma moral burguesa que condena o tráfico de drogas no varejo (e encarcera em massa seus executores) não vê problema em usar os lucros desse tráfico para financiar a contra-revolução internacional. Os exemplos históricos são abundantes: o financiamento dos Contras na Nicarágua através da venda de armas e drogas (caso Irã-Contras, amplamente documentado), a lavagem de dinheiro do narcotráfico colombiano para campanhas políticas e operações paramilitares, e mais recentemente, o uso de criptomoedas e esquemas de mineração ilegal na Amazônia para financiar redes de desestabilização na América Latina.

Ameaça ao reformismo brasileiro e a perpetuação do ciclo

O reformismo brasileiro (entendido como a tentativa de conciliar democracia burguesa com políticas sociais redistributivas dentro dos limites do capitalismo) sempre foi um alvo frágil. O capital, quando vê ameaçada sua capacidade de extrair mais-valia livremente, não hesita em recorrer às ferramentas que o próprio circuito lumpen-bélico lhe oferece: milícias, desinformação, violência política, sabotagem econômica e, em última instância, golpes de Estado velados ou abertos.

A atual ameaça ao reformismo (seja representado pelo lulismo, pelo petismo ou por quaisquer variantes social-democratas) não vem apenas de setores tradicionais da burguesia industrial ou do agronegócio. Vem também dessa máquina de guerra financiada por capitais de origem obscura, máquina que já ajudou a derrubar governos na Bolívia (2002-2003, com a Guerra do Gás e o papel da USAID), em Honduras (2009), no Paraguai (2012), no Brasil (2016 e tentativas posteriores). Em todas essas operações, o elo entre lumpemproletariado armado, capital do narcotráfico e indústria bélica internacional está presente, ainda que nunca seja mostrado nos editoriais da grande imprensa.

O que está em jogo, portanto, não é uma simples falha de regulação ou um efeito colateral indesejado do capitalismo. É o próprio modo de funcionamento sistêmico: o capital precisa produzir um exército de excluídos legais para executar o trabalho que não pode ser contratado formalmente; precisa transformar esse exército em instrumento de guerra para proteger seus interesses geopolíticos; precisa então matar parte desse mesmo exército (em guerras externas ou internas) para depois vender a segurança contra a violência que ele mesmo patrocinou. É uma máquina de moer vidas que se auto reproduz.

Reconhecer isso é o primeiro passo para romper com a inconsciência do trabalho vivo. O lumpemproletariado não é "marginal" ao capital: é sua vítima mais íntima e, potencialmente, sua contradição mais explosiva. Porque o dia em que o favelado, o preso, o entregador, o catador e o soldado periférico perceberem que o inimigo não é o vizinho, nem o imigrante, nem o dependente químico, mas o sistema que lucra com sua morte, nesse dia, o circuito será quebrado. Até lá, o capital segue seu curso, indiferente, moral e ético apenas para padronizar a subserviência.
Falemos de revolução, internacional e permanente.