O materialismo é dialético, científico e histórico. Esses três termos não são etiquetas separadas, não são gavetas que se abrem conforme a ocasião. São dimensões de um único e mesmo método, que se implicam mutuamente e não podem ser entendidas isoladamente. Quem isola uma das três, arranca o coração do método e o transforma em coisa morta.
O materialismo é, antes de tudo, a recusa radical de toda explicação idealista da realidade. Não é a consciência que determina a vida, é a vida que determina a consciência. Os homens produzem sua existência material antes de produzir filosofia, arte ou religião. Comem, bebem, abrigam-se, vestem-se. Para isso, transformam a natureza com seu trabalho. Essa é a base, o chão, o ponto de partida inegociável. Não há materialismo sem a centralidade do trabalho vivo. Toda riqueza social vem do gasto de cérebro, músculo e nervo que transforma a matéria natural em valores de uso. O resto (ideias, instituições, Estados, deuses) se ergue sobre essa base e, em última instância, é determinado por ela. Mas o materialismo marxista não é economicista. Ele não diz que a economia explica tudo mecanicamente. Diz que a economia é a base sobre a qual as outras esferas se desenvolvem com relativa autonomia e retroagem sobre ela.
O materialismo é dialético porque a realidade é contraditória. Não há nada, em nenhum lugar, que não contenha sua própria negação. A mercadoria é valor de uso e valor. O trabalho é concreto e abstrato. A fábrica socializa a produção e privatiza a apropriação. O capital produz o proletariado, e o proletariado, ao se desenvolver, nega o capital. A dialética é a ciência das leis gerais do movimento, tanto do mundo exterior quanto do pensamento humano. Ela não é uma fórmula que se aplica de fora; é a própria lógica do real que se impõe à observação. Quem suprime a dialética suprime a contradição. E quem suprime a contradição suprime o movimento. Resta uma fotografia morta, um mundo de coisas fixas, um capitalismo eterno.
A dialética marxista é revolucionária porque, ao mostrar que tudo o que existe merece perecer, ela não deixa pedra sobre pedra. Cada formação social é um momento de um processo, não um ponto de chegada. O capitalismo não é o fim da história; é uma forma transitória, gerada por condições determinadas e destinada a ser superada por condições que ela mesma engendra. A burguesia produz seus próprios coveiros. A dialética é o reconhecimento teórico dessa transitoriedade.
O materialismo é científico não porque imita as ciências naturais, não porque aplica mecânica e biologia à sociedade. É científico porque descobre as leis objetivas do movimento social. Leis que não dependem da vontade dos indivíduos, que operam nas costas dos agentes, mas que podem ser conhecidas e, conhecidas, dominadas. Marx não fez profecias. Fez ciência. Mostrou que a lei do valor regula a produção capitalista, que a extração de mais-valia é a fonte do lucro, que a composição orgânica do capital tende a crescer e a taxa de lucro tende a cair, que a superpopulação relativa é produto necessário da acumulação. Essas leis não são dogmas; são expressões de relações sociais determinadas. Alteradas as relações, alteram-se as leis. O que era lei sob o capital deixa de operar sob o trabalho associado.
A ciência marxista não separa sujeito e objeto. O proletariado é, ao mesmo tempo, objeto da exploração e sujeito da revolução. A ciência que explica a exploração é a mesma que arma o explorado para a luta. Não há neutralidade. A Economia Vulgar se diz científica porque constata regularidades e descreve o movimento aparente. Mas ela é ideológica, porque naturaliza o que é histórico. A crítica da economia política é científica porque desvela a essência sob a aparência, a exploração sob o contrato, a mais-valia sob o lucro. E faz isso de um ponto de vista de classe: o ponto de vista do proletariado, que é o único interessado em desvendar a realidade por inteiro.
O materialismo é histórico porque as categorias que ele estuda não são eternas. Valor, capital, salário, lucro, juro, renda da terra, tudo isso são formas sociais que nasceram em determinado momento e desaparecerão em outro. A história não é uma coleção de fatos mortos, mas um processo de desenvolvimento e substituição de modos de produção. Cada modo de produção (comunismo primitivo, escravismo, feudalismo, capitalismo) tem suas leis próprias, suas contradições próprias, suas classes em luta. A passagem de um a outro não é automática; é obra da luta de classes, da revolução, da violência parteira da história.
O método histórico exige estudar cada formação em sua especificidade, em seu movimento interno, em sua gênese, desenvolvimento e decadência. Marx não projetou o capitalismo sobre as sociedades antigas. Criticou duramente os economistas que viam na Grécia e em Roma as mesmas leis da Inglaterra vitoriana. Mostrou que o modo de produção asiático, com suas comunidades aldeãs e seu Estado centralizado, era uma formação distinta, que não cabia no esquema simplista escravismo-feudalismo-capitalismo. O etapismo stalinista é a negação do materialismo histórico; é a projeção mecânica de um esquema europeu sobre toda a história mundial.
Ser dialético, científico e histórico significa recusar o dogma. O método não é um martelo para bater em todos os pregos. É um guia para a investigação concreta. Cada época, cada região, cada conjuntura exige análise nova. As leis gerais do materialismo histórico não dispensam o estudo detalhado; elas o orientam. Saber que a luta de classes é o motor da história não basta. É preciso saber que classes estão em luta, em que condições, com que aliados, com que programa, com que tática.
A classe trabalhadora precisa desse método como precisa do ar. Sem ele, fica à mercê das ilusões. A burguesia oferece sua própria versão do materialismo: um economicismo rasteiro que reduz tudo a custo e benefício, a oferta e demanda. E oferece sua própria versão da dialética: a dialética do mercado, que transforma quantidades em qualidades, a poupança que vira capital, o trabalho que vira emprego, o consumidor que vira cidadão. E oferece sua própria versão da história: uma história linear, progressiva, onde o capitalismo é o ponto culminante e a democracia burguesa é a forma definitiva de governo.
O materialismo dialético, científico e histórico é a negação de todas essas ilusões. Ele mostra que o capital é uma relação social exploradora, não um objeto neutro. Mostra que o mercado não é um espaço de liberdade, mas de coerção muda. Mostra que a democracia burguesa é a forma política da ditadura do capital, e que a verdadeira democracia começa quando os produtores tomam nas mãos os meios de produção e decidem coletivamente o que produzir, como produzir e para quem produzir.
Esse método é a arma teórica do proletariado. Não foi feito para adornar estantes. Foi feito para ser usado na fábrica, na greve, na ocupação, na assembleia. Foi feito para que a classe entenda de onde vem o lucro, por que a crise explode, para que serve o Estado. Foi feito para que a classe saiba que a história não é destino, que as correntes foram forjadas por mãos humanas e podem ser quebradas por mãos humanas. Foi feito para que o trabalho vivo, que cria toda a riqueza, tome o que é seu e construa o trabalho associado, o reino da liberdade, a sociabilidade humana, enfim reconciliada consigo mesma e com a natureza.
O materialismo é dialético porque a realidade é movimento, contradição e superação. É científico porque conhece as leis desse movimento. É histórico porque sabe que essas leis são transitórias, nascidas da ação humana e pela ação humana transformáveis. Os três termos formam uma unidade indissolúvel. Romper essa unidade é cair no idealismo, no positivismo ou no etapismo. Mantê-la viva é manter viva a chama da revolução. E é dessa chama que o proletariado precisa para iluminar o caminho e incendiar o velho mundo.
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