Nas Ruas, a Indignação e a Desesperança: O Estado Burguês como Balcão de Negócios
A indignação está nas ruas. A desesperança também. E entre as duas, o proletariado oscila. A indignação é a resposta imediata à opressão. A desesperança é a conclusão prematura de que não há saída. Ambas são reais. Ambas são compreensíveis. Mas nenhuma das duas é suficiente. A primeira precisa se organizar. A segunda precisa ser combatida com a única arma que a classe possui: a compreensão materialista da sua situação e a ação coletiva para transformá-la.
A função do Estado burguês nunca foi tão clara. Ele não é um árbitro neutro. Não é o representante do interesse geral. Não é o guardião da justiça. É um balcão de negócios da classe dominante. Um balcão onde se vendem e se compram favores, onde se negociam isenções, onde se distribuem privilégios. O parlamento é o balcão principal. O judiciário é o caixa. O executivo é o gerente. A polícia é o segurança que expulsa os que não podem pagar. E o povo, que sustenta tudo com seu trabalho, é mantido do lado de fora, na fila, esperando uma senha que nunca chega.
O orçamento público é o registro contábil dessa negociata. Bilhões para os bancos, para o agronegócio, para as empreiteiras, para as transnacionais. Migalhas para a saúde, a educação, a moradia, o transporte. Os juros da dívida pública consomem mais que a soma de todos os gastos sociais. E a dívida, que nunca será paga, é o instrumento pelo qual a burguesia financeira saqueia o trabalho vivo de gerações inteiras. O Estado burguês não é um Estado endividado; é um Estado que transferiu a riqueza nacional para os credores e deixou o povo pagando a conta.
A crise estrutural do capital aprofunda esse balcão. A taxa de lucro cai. A acumulação desacelera. A burguesia precisa de mais. Então o balcão acelera as vendas: privatizações, desregulamentação, flexibilização, arrocho, ajuste fiscal. Tudo para recompor a taxa de lucro. Tudo para transferir mais riqueza do trabalho para o capital. O Estado não é um obstáculo ao capital; é seu instrumento. Não é um freio; é um acelerador.
A indignação nas ruas é a resposta a esse assalto. Mas a indignação, sozinha, não derruba o balcão. Precisa se transformar em organização. Em comitês de base. Em assembleias populares. Em greves que paralisaram a produção. Em ocupações que desafiem a propriedade. Em formas de poder que não passem pelo balcão. Formas que nasçam da própria classe, que decidam por si mesmas, que não peçam licença a nenhum gerente.
A desesperança é a arma mais eficaz da burguesia. Ela não precisa reprimir se consegue convencer a classe de que não há alternativa. Por isso o capital investe tanto em propaganda, em entretenimento, em religião, em drogas. Para que o proletário sinta que a luta é inútil, que o sistema é eterno, que a única saída é individual. A desesperança é a jaula invisível. E a única forma de quebrá-la é a ação coletiva. Nada cura a desesperança como a greve vitoriosa. Nada devolve a esperança como a ocupação que resiste. Nada prova que o sistema não é eterno como a experiência concreta de que ele pode ser desafiado.
O Estado burguês é um balcão de negócios. Mas os balcões podem ser fechados. As mercadorias podem ser confiscadas. Os gerentes podem ser expulsos. Não por decreto, não por eleição, não por acordo. Pela força organizada da classe que produz tudo. A revolução não é a tomada do balcão. É a sua destruição. É a construção de uma sociedade onde não há mercadoria a ser vendida, nem favor a ser comprado, nem privilégio a ser herdado. Onde a produção é decidida por quem produz. Onde a riqueza é distribuída conforme as necessidades. Onde o Estado, esse balcão da classe dominante, definha e desaparece.
As ruas estão cheias de indignação. A desesperança ronda. Mas a história não acabou. O trabalho vivo continua pulsando. E enquanto pulsar, há luta. E enquanto houver luta, há esperança. Não a esperança passiva de quem espera. A esperança ativa de quem constrói. O balcão está aberto. Mas a fila do lado de fora está crescendo. E um dia, a fila vai derrubar o balcão.