Do Geral ao Específico: O Choque Radical entre Capital e Trabalho na Crise Estrutural
O método correto é este: partir do geral para entender o específico. O específico não se explica por si mesmo. A crise na Bolívia, os protestos na Argentina, a instabilidade no Brasil, as greves na Europa, o avanço do fascismo nos Estados Unidos, nada disso se compreende isoladamente. Tudo é manifestação local de uma contradição global. E a contradição global é uma só: o choque radical entre capital e trabalho na crise estrutural do modo de produção capitalista.
A crise é estrutural porque atinge os fundamentos do sistema. Não é uma crise cíclica, dessas que se resolvem com a destruição de parte do capital e a recomposição da taxa de lucro. As contratendências que historicamente adiaram o colapso (a expansão imperialista, a superexploração da periferia, a financeirização, o endividamento estatal) estão esgotadas ou próximas do esgotamento. A lei da queda tendencial da taxa de lucro, que Marx demonstrou como tendência do desenvolvimento capitalista, já não encontra válvulas de escape capazes de restaurar a acumulação em bases estáveis. O capital respondeu à crise de 2008 com mais especulação, mais arrocho, mais destruição de direitos. Depois vieram pandemia, guerra, colapso ambiental. Cada resposta aprofunda a ferida. O trabalho vivo, única fonte de valor, é simultaneamente espremido e tornado supérfluo pela automação. Essa aporia (o capital precisa do trabalho vivo para se valorizar, mas a concorrência o obriga a eliminá-lo) é insolúvel dentro do sistema.
O choque entre capital e trabalho não é uma metáfora. É a realidade material da luta de classes em escala mundial. De um lado, o capital, trabalho morto acumulado, que precisa sugar trabalho vivo para se reproduzir. Do outro, o proletariado, a classe que produz toda a riqueza e não possui nada além do próprio corpo. O capital, em crise, precisa arrancar mais-valia de onde ainda é possível. E o faz com violência redobrada: arrocho salarial, precarização, flexibilização, desemprego em massa, corte de direitos, privatização de tudo o que é público. O proletariado, exaurido, começa a responder. E a resposta também é global.
Na Europa, o capital sangra e faz sangrar. A social-democracia, que administrou o capitalismo com rosto humano durante décadas, está em colapso. O neoliberalismo, que prometeu prosperidade, entregou estagnação, desigualdade e decadência. A austeridade, imposta após 2008, destruiu os serviços públicos, precarizou o trabalho, endividou famílias. A resposta veio: greves no Reino Unido, na França, na Bélgica, na Alemanha. Movimentos de desempregados, de precarizados, de jovens sem futuro. E, ao mesmo tempo, o avanço da extrema direita, que canaliza a revolta para o nacionalismo, a xenofobia, o racismo. O capital, sem margem para concessões, aposta na barbárie. A Europa proletária sangra sob o chicote da austeridade e sob a ilusão do fascismo.
No continente americano, o capital sangra e faz sangrar de forma ainda mais brutal. A América Latina é o laboratório onde o neoliberalismo fez suas primeiras experiências e onde a resistência aprendeu a lutar. A crise estrutural se manifesta na dependência, na superexploração, na entrega dos recursos naturais, na financeirização da dívida pública. Os governos reformistas, que prometeram humanizar o capital, fracassaram. O capital não tem mais margem para concessões. A resposta é a violência: golpes, estados de exceção, criminalização dos movimentos sociais, repressão policial. E a resistência: greves gerais, bloqueios de estradas, ocupações de terra, insurreições populares. A Bolívia, a Argentina, o Chile, a Colômbia, o Peru, o Equador, o Brasil. Cada país é um elo da mesma corrente. Cada luta é uma manifestação local da mesma contradição global.
Nos Estados Unidos, o capital sangra e faz sangrar. A crise de 2008 foi enfrentada com o resgate dos bancos e o empobrecimento da classe trabalhadora. A pandemia aprofundou a desigualdade. A inflação corroeu os salários. O proletariado respondeu com greves, com organização sindical em empresas antes intocáveis, com movimentos contra a violência policial e o encarceramento em massa. E o capital respondeu com a extrema direita, com o fascismo, com a militarização das cidades, com a criminalização dos movimentos. O choque é radical. Não há mediação possível. Ou o capital vence, e a barbárie se aprofunda. Ou o proletariado vence, e a sociedade é transformada.
O choque entre capital e trabalho é global porque o capital é global. Ele não reconhece fronteiras. Extrai lítio na Bolívia, cobre no Chile, petróleo na Nigéria, mão de obra barata em Bangladesh. Transfere valor da periferia para o centro. Concentra riqueza nos bolsos de poucos e miséria nos corpos de muitos. A Europa proletária também sangra, ainda que menos que a África. O capital não tem pátria; tem interesse. E o interesse do capital, em crise, é a intensificação da exploração, a destruição de direitos, a barbárie.
A resposta do proletariado também precisa ser global. A luta não pode se limitar às fronteiras nacionais. O capital já globalizou a produção, a circulação, a exploração. O proletariado precisa globalizar a resistência. A solidariedade internacional não é caridade; é necessidade de sobrevivência de classe. A derrota dos mineiros bolivianos enfraquece os metalúrgicos brasileiros. A vitória de uma greve na Europa fortalece a luta em todo o mundo. A classe é uma só, ainda que dividida por fronteiras, idiomas, culturas. A unidade é a condição da vitória.
A crise estrutural do capital não garante o socialismo. Abre a possibilidade. A barbárie é o outro desfecho possível. E a barbárie avança. O fascismo cresce. A guerra se multiplica. O planeta se aquece. A miséria se espalha. A escolha entre socialismo e barbárie não se fará nas urnas, nos parlamentos, nos editoriais. Far-se-á na luta de classes. O choque entre capital e trabalho é radical. E radical será o desfecho. Ou o capital destrói a humanidade, ou o proletariado destrói o capital. Não há terceira via. Não há meio-termo. A hora é de organização, de luta, de revolução internacional e permanente. O resto é ilusão.
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