Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O Indivíduo que o Capital Cria e Esmaga

O Indivíduo que o Capital Cria e Esmaga


O capitalismo adora falar de indivíduo. Em todo canto, a história se repete: você é único, você é livre, você pode ser o que quiser. O empreendedor de si mesmo, o vencedor, o que saiu do nada e chegou ao topo. A televisão repete, a internet repete, o chefe repete. Mas quando o trabalhador acorda às quatro da manhã, pega duas conduções, bate ponto, almoça em vinte minutos, volta para casa exausto e ainda tem que sorrir para o cliente, ele sente na pele que essa história não fecha. A conta não bate. A liberdade prometida não chega nunca.


Marx olhou para esse indivíduo que o capitalismo propaga e fez a pergunta simples: que indivíduo é esse? De onde ele veio? Do que ele vive? A resposta está no trabalho. O ser humano se fez humano transformando a natureza, plantando, construindo, criando. Foi pelo trabalho coletivo que a espécie saiu da caverna e ergueu cidades. Mas aí veio a propriedade privada dos meios de produção. A terra, a máquina, a ferramenta, a tecnologia viraram posse de uma minoria. A maioria ficou sem nada. Só restou o próprio corpo. E esse corpo virou mercadoria.


Aqui está a raiz do problema. O indivíduo sob o capital não é um indivíduo qualquer. É um vendedor de si mesmo. Ele oferece sua força de trabalho como quem vende um saco de batata. Se encontra comprador, come. Se não encontra, passa fome. Sua singularidade, seu talento, seu sonho, sua história não interessam ao mercado. Interessa se ele sabe operar a máquina, se atende bem o telefone, se carrega o peso, se dirige o caminhão. O resto é supérfluo. O capital transforma a pessoa em função, em peça, em custo.


Essa é a primeira violência. A segunda é pior. Depois de vender sua força de trabalho, o trabalhador entra na fábrica, no escritório, na plataforma do aplicativo. Ali ele produz. Produz sapatos, produz códigos, produz relatórios, produz entregas. Mas o fruto do seu trabalho não lhe pertence. Pertence ao dono dos meios de produção. O operário faz o carro, mas não pode comprá-lo. O pedreiro ergue o prédio, mas não pode morar nele. O cozinheiro prepara o jantar, mas come marmita fria. O que ele produz vira propriedade alheia. Ele se reconhece no que fez, mas o que fez está longe, nas mãos de outro. Ele trabalha o dia inteiro e, no fim do dia, está mais pobre, mais cansado, mais vazio.


Essa separação entre o produtor e o produto é a alienação. O indivíduo se torna estranho a si mesmo. Sua atividade, que deveria ser expressão de sua vida, vira só meio para sobreviver. Ele não trabalha porque quer, mas porque precisa. Não cria porque ama, mas porque é obrigado. Seu tempo de trabalho não é tempo vivido; é tempo vendido. E quanto mais ele produz, mais o mundo ao redor se enche de mercadorias que ele não pode ter, mais o patrão enriquece, mais ele se apequena.


Mas a alienação não para na fábrica. Ela invade a vida inteira. O capitalismo junta os trabalhadores na cidade, no bairro, no metrô, mas ao mesmo tempo os separa. Cada um é concorrente do outro. A vaga de emprego é disputada. A promoção é disputada. O espaço no estacionamento é disputado. Até o afeto vira competição. A amizade vira rede de contatos. O amor vira contrato. A solidariedade vira troca de favores. O indivíduo aprende desde cedo que deve desconfiar, que deve levar vantagem, que deve se impor. O outro não é parceiro; é obstáculo, é ameaça, é degrau.


O resultado é um indivíduo partido. Ele sente que precisa dos outros, porque sem os outros não há comida na mesa, não há teto, não há cuidado. Mas ao mesmo tempo trata os outros como instrumento ou como inimigo. Ele quer ser amado, mas mede o amor pelo preço do presente. Ele quer ser livre, mas entende a liberdade como poder de comprar. Ele quer ser único, mas veste a mesma roupa, fala as mesmas gírias, posta as mesmas fotos, corre atrás dos mesmos sonhos prontos que a propaganda vende. O capital promete indivíduos e entrega cópias.


E a pior parte: o indivíduo começa a achar que isso é natural. Que sempre foi assim. Que a competição é a lei da vida. Que o forte vence e o fraco perece. Que se ele está mal é porque não se esforçou, não estudou, não acordou mais cedo. Ele internaliza a derrota como culpa pessoal. O sistema some da cena. No palco, só ele e sua falha. E aí ele corre mais, trabalha mais, se endivida mais, dorme menos, sorri menos, vive menos. Tudo para alcançar um padrão de indivíduo que o próprio sistema impede que ele alcance.


Essa é a armadilha. O capitalismo fala de indivíduo o tempo inteiro, mas a base material da sociedade impede a individualidade real. Individualidade real exige tempo. Tempo para pensar, para criar, para errar, para recomeçar. Exige segurança. Saber que o amanhã não trará fome, despejo, desamparo. Exige comunidade. Gente com quem se possa contar sem ter que pagar. Nada disso existe sob o capital. O que existe é o medo. Medo do desemprego, medo da doença, medo da velhice, medo do fracasso. E sob o medo, ninguém floresce. Sob o medo, a pessoa se encolhe, se defende, se adapta. Vira o que o sistema precisa que ela seja: produtiva, dócil, ansiosa, solitária.


O socialismo é acusado pelos defensores do capital de querer destruir o indivíduo. De querer transformar todo mundo em formiga, em número, em massa. Essa acusação é velha, é repetida, mas é falsa. O socialismo não quer destruir o indivíduo. Quer destruir as condições que impedem o indivíduo de existir. Quer acabar com a propriedade privada dos meios de produção, que faz do trabalho alheio a fonte do lucro de poucos. Quer acabar com o trabalho assalariado, que transforma a vida em mercadoria. Quer colocar a fábrica, a terra, a tecnologia nas mãos de quem produz. Quer que a produção seja decidida coletivamente, conforme as necessidades humanas, e não conforme a rentabilidade.


Isso não é o fim do indivíduo. É o começo dele. Porque quando ninguém mais precisar vender sua vida por um salário, o tempo livre se expande. O tempo livre é o chão onde a individualidade cresce. É nele que o ser humano estuda o que ama, faz o esporte que gosta, pinta, canta, escreve, cuida dos seus, participa das decisões coletivas, experimenta, falha, tenta de novo. O trabalho deixa de ser fardo e passa a ser expressão criativa, porque não é mais imposto de fora, mas escolhido conscientemente como parte da vida comum. O indivíduo comunista não é a formiga cinzenta que o capitalista pinta para assustar. É o ser humano inteiro, que desenvolve todas as suas potencialidades, que não é mutilado pelo trabalho repetitivo, que não é esmagado pela competição.


Marx chamou isso de reino da liberdade. Ele começa onde termina o reino da necessidade. A necessidade é o trabalho obrigatório para garantir a sobrevivência material. Essa necessidade nunca será abolida; sempre será preciso plantar, construir, limpar, curar. Mas o que o socialismo faz é reduzir esse trabalho ao mínimo, por meio da tecnologia e da organização coletiva, para que sobre o máximo de tempo livre. Nesse tempo livre, o indivíduo é realmente dono de si. Não precisa se vender, não precisa competir, não precisa fingir. Pode ser, enfim, o que quiser ser.


Enquanto isso não chega, o trabalhador segue na corda bamba. De um lado, o discurso que o exalta: você é livre, você é empreendedor, você é único. Do outro, a realidade que o esmaga: a catraca, o ponto, a meta, o aplicativo que controla cada minuto, a conta que não fecha, o aluguel atrasado, o filho doente, o sono roubado. O indivíduo que o capital produz é um sobrevivente, não um vivente. É alguém que passa a vida correndo atrás do que precisa e nunca alcança o que deseja. Que sonha o sonho que a propaganda vendeu e acorda no pesadelo que a exploração impôs.


A solução não é se ajustar melhor ao sistema. Não é fazer terapia para suportar a insuportável jornada. Não é meditar para aceitar o inaceitável arrocho. Não é pedir aumento para comprar o que ontem não podia e amanhã também não poderá. A solução é mudar a lógica inteira. É recusar a forma social que transforma tudo em mercadoria: o trabalho, a terra, o alimento, o afeto, o tempo. É construir, desde já, os embriões do mundo novo. A greve que para a fábrica e decide o ritmo. A ocupação que toma a terra e planta comida. A assembleia que reúne o bairro e decide o destino da rua. A solidariedade que fura o bloqueio do medo e mostra que o outro não é inimigo, mas companheiro.


O indivíduo que o capitalismo diz defender não existe. É uma miragem. O que existe é o proletário que carrega o sistema nas costas e recebe em troca migalhas, promessas e culpa. O verdadeiro indivíduo só nascerá quando a sociedade inteira se organizar para que cada um possa viver, e não apenas sobreviver. Isso não é sonho. É necessidade histórica. A roda do capital está moendo gente, natureza e futuro. A humanidade não aguenta mais. Ou derrubamos essa máquina e construímos outra, fundada na cooperação e na liberdade real, ou seremos todos triturados por ela. A escolha está posta. E ela não se faz no voto, no consumo, na reclamação solitária. Ela se faz na rua, na greve, na organização, na decisão coletiva de não aceitar mais ser peça. De ser, enfim, humano.

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