Do Chumbo à Burocracia: Como Mataram Nossa Consciência de Classe
Nada é acaso. A derrota que sofremos não foi um raio em céu azul, não foi uma sucessão de erros táticos, não foi falta de sorte. Foi história. Foi luta de classes. E, como em toda luta, há vencedores e vencidos. Nos anos de chumbo, entre as décadas de 1970 e 1980, nós éramos a classe proletária organizada. Não pedíamos licença ao Estado burguês, não dependíamos de suas verbas, não esperávamos suas eleições. Construíamos nosso poder diretamente, nas fábricas, nas greves, nas assembleias, nas ruas. Tínhamos consciência de classe. Sabíamos quem éramos, quem era o inimigo e o que precisávamos fazer. Hoje, não temos nem mesmo consciência de categoria. O que aconteceu?
A resposta começa na distinção entre proletário e trabalhador. Proletário é o despossuído que, para viver, vende sua força de trabalho ao capital. Ele não tem meios de produção, não tem terra, não tem máquina. Tem apenas o corpo. Seu trabalho concreto produz valores de uso, mas seu trabalho abstrato gera valor. E desse valor, uma parte volta como salário; a outra, a maior, é apropriada pelo capitalista como mais-valia. Essa é a exploração fundamental. O proletário que compreende isso, que se organiza com seus iguais para enfrentar o capital, que constrói greves, ocupações, piquetes, assembleias, esse proletário tem consciência de classe.
Nos anos 1970 e 1980, no Brasil, essa consciência existia. As greves do ABC, as ocupações de fábrica, as assembleias massivas, os comitês de base, tudo isso era expressão de um proletariado que não esperava nada do Estado, porque sabia que o Estado era o comitê executivo da burguesia. A organização era independente. A luta era direta. A greve era a arma. A solidariedade era o cimento. Não havia burocracia sindical que nos controlasse, porque os sindicatos ainda eram nossos. Não havia imposto sindical que nos corrompesse, porque o financiamento vinha da contribuição voluntária e consciente dos operários. A classe estava nas ruas, e as ruas eram nossas.
O que veio depois foi a contraofensiva do capital. E ela foi meticulosa, planejada, executada com precisão cirúrgica. A burguesia brasileira, associada ao capital internacional, entendeu que não poderia nos vencer apenas com repressão. A repressão funcionava até certo ponto. Prendia, torturava, assassinava. Mas a repressão também inflamava, radicalizava, unificava. Era preciso algo mais sofisticado. Era preciso corromper. Era preciso criar uma camada de dirigentes que se interpusesse entre a classe e o capital, que traduzisse a revolta em negociação, que transformasse a greve em acordo, que canalizasse a energia revolucionária para os canais seguros da democracia burguesa.
O instrumento dessa corrupção foi o imposto sindical. O Estado burguês passou a cobrar um dia de trabalho de cada trabalhador e a repassar esse dinheiro aos sindicatos. A partir desse momento, o sindicato deixou de depender de seus membros. Deixou de precisar convencer, mobilizar, organizar. O dinheiro caía do céu, pingava na conta, garantia salários, carros, viagens, congressos. O dirigente sindical deixou de ser um operário que voltava para a fábrica depois da assembleia e passou a ser um burocrata profissional, um gestor de recursos, um administrador de conflitos. Seu interesse material se separou do interesse da classe. Ele já não precisava da greve; precisava da paz. Já não precisava da mobilização; precisava do reconhecimento estatal. Já não era proletário; era oligarquia operária.
A oligarquia operária é uma camada de trabalhadores que recebe salários e benefícios acima do valor da força de trabalho. Ela é paga com uma fração da mais-valia global que o capital cede para manter a dominação. Nos países imperialistas, essa fração vem dos superlucros extraídos das colônias e semicolônias. No Brasil, um país dependente, a fonte é mais estreita, mas o mecanismo é o mesmo: o capital destina uma parcela de seu lucro para comprar a lealdade de uma minoria de dirigentes. Esses dirigentes, por sua vez, se tornam os defensores mais ferrenhos da ordem. Não querem o fim da exploração; querem geri-la. Não querem a revolução; querem um cargo no Ministério do Trabalho.
O estamento político burocrático é a outra face da mesma moeda. Ele não está apenas nos sindicatos, mas nos partidos reformistas, nas ONGs, nas assessorias, nos gabinetes parlamentares. Sua função é a mesma: administrar a luta de classes para que ela não ultrapasse os limites da ordem burguesa. Ele negocia com o patrão em nome do trabalhador. Converte a greve em dissídio coletivo. Substitui a assembleia pela audiência de conciliação. Transforma o piquete em processo judicial. Sua renda provém do fundo público, das contribuições obrigatórias, do financiamento eleitoral. Em última instância, é uma dedução da mais-valia global. Um custo que o capital paga para manter a dominação com o mínimo de atrito.
O reformismo foi a ideologia que justificou essa estrutura. Ele nos disse que a revolução era impossível, que o socialismo viria aos poucos, que era preciso ocupar o Estado para transformá-lo, que o voto era uma ferramenta de mudança, que a greve deveria ser usada com moderação, que a negociação era mais eficaz que o confronto. Ele nos convenceu a sair das ruas e esperar quatro anos. A depositar nossa confiança em candidatos, em partidos, em parlamentos. A acreditar que a classe dominante aceitaria ser democraticamente derrotada. A esquecer que o Estado burguês não é um árbitro neutro, mas uma máquina de opressão a serviço do capital.
O resultado está diante dos nossos olhos. Saímos das ruas e nunca mais voltamos. Nossa consciência de classe se dissolveu. Deixamos de nos ver como proletários, como membros de uma classe com interesses históricos antagônicos aos do capital. Passamos a nos ver como indivíduos, como "colaboradores", como "empreendedores de si mesmos". A ideologia do mérito substituiu a solidariedade. O medo do desemprego substituiu a coragem da greve. A esperança no próximo pleito substituiu a ação direta. E a oligarquia operária, o estamento burocrático e o reformismo seguem firmes, administrando nossa derrota, justificando nossa paralisia, vivendo de nossas costas.
A crise atual está dissolvendo as bases materiais dessa estrutura. A taxa de lucro cai. O capital já não pode pagar tantos intermediários. A oligarquia operária perde seus privilégios. O estamento burocrático perde suas verbas. O reformismo perde sua credibilidade. Mas, em vez de se unirem à classe para a ruptura, essas camadas se agarram ao sistema que as criou. Viram base de massa do fascismo. Defendem o nacionalismo, a xenofobia, o Estado policial. O reformismo, que um dia prometeu o socialismo, revela-se como antecâmara do fascismo. Quando não pode mais comprar a lealdade com migalhas, o capital recorre ao chicote. E a oligarquia operária e a burocracia apoiam o chicote.
Nossa tarefa é romper com essa herança. Reconstruir a organização independente do proletariado, sem vínculos com o Estado burguês, sem dependência de suas verbas, sem intermediários profissionais. Recusar o imposto sindical e toda forma de financiamento estatal da luta operária. Recusar a transformação da greve em negociação, da assembleia em audiência, do piquete em processo judicial. Retomar a ação direta como forma de luta. Reconstruir a consciência de classe, que começa na fábrica, na mina, no campo, na periferia, na experiência cotidiana da exploração e na solidariedade com os que sofrem a mesma exploração.
Não será fácil. A oligarquia operária e o estamento burocrático lutarão com unhas e dentes para manter seus privilégios. O reformismo nos oferecerá novas ilusões, novos candidatos, novas promessas. O fascismo nos ameaçará com violência. Mas a história não acabou. A mesma classe que um dia parou o país, que ocupou fábricas, que enfrentou a ditadura, que construiu greves massivas, ainda existe. Está dispersa, fragmentada, desmoralizada, mas existe. E a crise do capital, que se aprofunda a cada dia, nos empurrará novamente para a luta.
Nada é acaso. Nossa derrota foi construída pela burguesia com seus instrumentos de corrupção e cooptação. Nossa vitória será construída por nós, com organização independente, consciência de classe e ação direta. Os anos de chumbo nos ensinaram que é possível. A oligarquia operária e o estamento burocrático nos ensinaram o que evitar. A crise atual nos ensina que não há saída dentro da ordem. Resta-nos retomar o caminho interrompido. Sair das urnas e voltar às ruas. Romper com a burocracia e refundar a solidariedade. Reconstruir a consciência de classe, do chão de fábrica à assembleia geral. Porque o futuro não pertence aos que administram a exploração. Pertence aos que a recusam. Aos que se organizam. Aos que lutam. Aos que não se venderam. Aos que permaneceram, mesmo na derrota, fiéis à sua classe.
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