O Capataz: Função, Consciência e Lugar na Extração de Mais-Valia
Ele não é proletário. Ele não é burguês. Ele é o capataz. Sua função no processo de produção capitalista não é produzir valor, mas sugar valor de quem produz. Ele não opera a máquina; ele vigia quem opera. Ele não carrega o peso; ele cronometra quem carrega. Sua existência se justifica por uma única razão: intensificar a extração de mais-valia. E ele sabe disso. Tem consciência do seu papel. Não é um alienado, uma vítima do sistema, um coitado que foi corrompido sem perceber. Ele percebe. Ele escolhe. Ele defende o sistema porque o sistema o beneficia. E é por isso que ele não é camarada. É inimigo.
Para entender o capataz, é preciso partir da base material. O capital só se valoriza extraindo mais-valia do trabalho vivo. O trabalhador vende sua força de trabalho; o capitalista a consome. A parte da jornada em que o trabalhador reproduz o valor do seu salário é trabalho necessário. A parte que excede, que vai para o bolso do capitalista, é trabalho excedente, mais-valia. O capital, para aumentar sua massa de lucro, pode alongar a jornada (mais-valia absoluta) ou, quando a jornada encontra limites legais e físicos, pode intensificar o trabalho dentro da mesma jornada (mais-valia relativa). Em ambos os casos, é preciso alguém que vigie, que controle, que imponha o ritmo, que quebre a resistência, que demita os que não acompanham. Essa pessoa é o capataz.
O burguês não está no chão de fábrica. Ele não tem tempo, não tem interesse, muitas vezes não tem estômago. O burguês delega a sujeira. Contrata um trabalhador, dá a ele um pouco mais de salário, um título, uma autoridade minúscula, e o incumbe de fazer o trabalho sujo: arrancar mais produção de seus iguais. O capataz é um trabalhador que mudou de função. Deixou de produzir valor e passou a extrair valor. Sua posição na hierarquia da produção mudou, e com ela mudou sua posição de classe. Ele agora é um pequeno-burguês. Não possui meios de produção, mas possui autoridade sobre os produtores. Vive de uma fração da mais-valia global que a burguesia cede a ele como pagamento por seu serviço de opressão.
Essa posição é estrutural. O capital precisa do capataz para funcionar. Sem ele, a resistência operária seria muito mais difícil de quebrar. A greve seria mais fácil. A sabotagem seria mais frequente. O ritmo seria mais lento. O capataz é a correia de transmissão entre o capital e o trabalho, o elemento que traduz a exploração abstrata em opressão concreta, cotidiana, pessoal. Ele é o olhar que vigia, a voz que grita, a caneta que assina a advertência, o dedo que aponta o despedido. Sua função não é um acidente; é uma necessidade do sistema. Sem capatazes, o capitalismo não opera.
Mas o capataz não é apenas uma engrenagem. Ele é um ser humano com consciência. E aqui está o ponto decisivo que o torna desprezível. Ele não é um alienado que não sabe o que faz. Ele sabe. Ele vê o colega que ontem estava ao seu lado e hoje está sob seu comando. Ele vê a miséria que sua pressão gera. Ele vê o cansaço, a humilhação, o desespero. Ele sabe que está do lado de quem explora. Ele sabe que sua função é sugar. E ele aceita. Ele gosta. Ele se realiza nisso. Sua consciência não é a consciência de classe do proletário, que aprende na luta que é explorado e precisa se unir para se libertar. Sua consciência é a consciência do pequeno-burguês: ele quer subir, quer ser patrão, quer ser rico. Ele se identifica com o burguês, não com o proletário. Ele aspira ao mundo dos que mandam, não ao mundo dos que fazem. Por isso, ele é um defensor ativo do sistema. Ele não quer o fim do capitalismo; ele quer um lugar melhor dentro dele.
Essa consciência não é falsa no sentido de ignorância; é falsa no sentido de ilusão. Ele acredita que pode se tornar burguês. Acredita no mérito. Acredita que seu crachá de "líder" ou "supervisor" é o primeiro passo para a riqueza. O capital alimenta essa ilusão com prêmios, com promoções, com a ideologia do "colaborador". Mas a realidade é que ele nunca será burguês. Ele é um proletário que traiu sua classe em troca de migalhas. Sua posição é precária. Na primeira crise, ele é descartado como qualquer outro. Mas, enquanto dura a ilusão, ele a defende com unhas e dentes. Ele é o mais feroz defensor da propriedade privada, o mais raivoso inimigo do comunismo, o mais estridente porta-voz do discurso do mérito. Ele precisa acreditar nisso. Se não acreditasse, teria que admitir que é um traidor e um tolo.
Por isso, o capataz é um inimigo de classe. Não um inimigo acidental, mas um inimigo necessário, produzido pelo sistema e consciente de seu papel. Ele não quer se redimir. Ele não quer ser "salvo" pela revolução. Ele quer que a revolução seja esmagada. Ele quer que as coisas continuem como estão, com ele em cima e os outros embaixo. Ele é o primeiro a furar a greve. O primeiro a dedurar o colega. O primeiro a chamar a polícia. O primeiro a votar em fascista. Sua lealdade ao capital é total, porque seu ser social inteiro depende do capital.
A luta de classes, portanto, inclui necessariamente o enfrentamento ao capataz. Não se trata de convencê-lo. Não se trata de dialogar com ele. Não se trata de esperar sua redenção. Trata-se de derrotá-lo. De neutralizá-lo. De arrancá-lo de sua posição de poder. Nas greves, nas ocupações, nas insurreições, o capataz é um dos primeiros alvos. Não por vingança pessoal, mas por necessidade estratégica. Enquanto ele estiver no comando, a exploração seguirá. Sua autoridade precisa ser destruída para que a solidariedade operária floresça. A fábrica ocupada expulsa o capataz. A assembleia operária ignora o capataz. O poder dos conselhos dissolve a função do capataz. Ele só pode ser varrido do processo produtivo, e sua função só pode ser abolida com a abolição do trabalho assalariado.
A existência do capataz revela a natureza do capitalismo. Um sistema que precisa produzir traidores para funcionar está condenado. Um sistema que compra a consciência de alguns para oprimir a maioria é um sistema podre. O capataz é a prova viva da putrefação moral do capital. Mas ele também é um aviso. Ele mostra o que acontece quando um explorado aceita as migalhas do explorador. Ele mostra que a consciência de classe não é automática; ela precisa ser construída na luta, contra as ilusões que o capital oferece. Cada capataz que se mantém fiel ao patrão é uma derrota temporária. Cada capataz que é expulso, cada função de chefia que é abolida e substituída pela decisão coletiva, é uma vitória.
O fim do capitalismo será também o fim do capataz. Não haverá lugar para ele na sociedade comunista. Sua função desaparecerá. Sua consciência pequeno-burguesa será varrida pela nova sociabilidade. Ele terá que se tornar um produtor como os outros, ou perecer. E a classe, que não o reconhece como camarada, não derramará lágrimas por ele. O futuro não pertence aos que vigiam, aos que oprimem, aos que traem. Pertence aos que produzem, aos que lutam, aos que constroem a solidariedade. O capataz escolheu seu lado. A história o julgará. E o julgará como inimigo.
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