Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Identitarismo: A Fragmentação que Serve ao Capital

Identitarismo: A Fragmentação que Serve ao Capital


O capitalismo tem uma necessidade vital: dividir para reinar. A classe proletária, se unificada, é a força capaz de enterrar o sistema. Por isso, desde o primeiro dia da acumulação primitiva, o capital fabrica divisões. Umas são materiais: a concorrência entre os próprios proletários pelo emprego, a hierarquia salarial, a terceirização que separa quem está dentro de quem está fora. Outras são ideológicas: o nacionalismo que faz o explorado odiar o estrangeiro em vez do patrão, o racismo que justifica a superexploração de corpos negros, o machismo que naturaliza o trabalho não pago das mulheres. O identitarismo é a forma contemporânea mais sofisticada dessa velha estratégia. Ele não nega as opressões; ele as reconhece, as nomeia, as celebra, as transforma em mercadoria, em carreira, em nicho de mercado, em prisão identitária que impede a unidade de classe.


A raiz de todas as opressões é a exploração do homem pelo homem. A propriedade privada dos meios de produção gerou a divisão da sociedade em classes. A classe proprietária, para manter sua dominação, precisou criar hierarquias dentro da classe explorada. O racismo não é um preconceito antigo que o capitalismo herdou; é uma construção moderna, forjada na colonização e na escravidão, para justificar a transformação de seres humanos em mercadoria. O machismo não é um resquício feudal; é a forma como o capital organiza a reprodução da força de trabalho, confinando a mulher ao trabalho doméstico não remunerado. A homofobia, a transfobia, a xenofobia, todas são ferramentas de fragmentação. Servem para que o proletário branco se sinta superior ao proletário negro, para que o proletário homem se sinta superior à proletária mulher, para que o proletário nativo se sinta superior ao proletário imigrante. Enquanto a classe se divide, o capital se unifica.


O identitarismo opera uma inversão perversa dessa realidade. Ele parte de uma verdade (as opressões existem, são concretas, doem no corpo) e a transforma em essência. Em vez de dizer "a sociedade capitalista oprime negros, mulheres, LGBTs", ele diz "a essência do negro, da mulher, do LGBT é a opressão". A opressão deixa de ser um fato social a ser combatido e se torna uma identidade a ser afirmada. A luta deixa de ser contra o sistema que produz a opressão e passa a ser pelo reconhecimento dentro do sistema. Não se trata mais de destruir as prisões; trata-se de exigir que as prisões tenham alas para todas as identidades. Não se trata mais de abolir o trabalho assalariado; trata-se de exigir que as mulheres tenham os mesmos salários que os homens no mesmo trabalho explorado. Não se trata mais de acabar com a propriedade privada; trata-se de exigir que negros também possam ser proprietários.


O capital adora essa inversão. Ela é inofensiva para a estrutura. Pior: ela é útil. O identitarismo transforma a revolta em consumo. A indústria cultural captura as pautas identitárias e as vende de volta como mercadoria: a camiseta da causa, o filme com protagonista diverso, a propaganda com casal gay, o mês do orgulho patrocinado por bancos. A diversidade vira marketing. A inclusão vira nicho de mercado. O capital, que sempre foi indiferente à cor, ao gênero, à orientação sexual (desde que o lucro esteja garantido), agora descobre que a diversidade pode ser lucrativa. Contrata-se um executivo negro, promove-se uma mulher a gerente, coloca-se uma bandeira arco-íris no logotipo, e tudo continua exatamente como antes. Os acionistas seguem embolsando a mais-valia. Os proletários seguem sendo explorados. Mas agora com representatividade.


O identitarismo também serve para desarmar a luta de classes. Ele fragmenta a resistência em pautas cada vez mais específicas, cada vez mais isoladas umas das outras. O movimento negro luta contra o racismo. O movimento feminista luta contra o machismo. O movimento LGBT luta contra a homofobia. Cada um no seu canto, cada um com sua pauta, cada um com sua identidade. O que deveria ser uma luta unificada contra o sistema que produz todas essas opressões se transforma em uma competição por reconhecimento, por recursos, por visibilidade. Quem é mais oprimido? Quem tem mais direito à fala? Quem ocupa o centro do debate? O capital assiste de camarote. Enquanto os oprimidos discutem entre si quem sofre mais, a classe proprietária segue acumulando.


A esquerda reformista abraçou o identitarismo como tábua de salvação. Incapaz de enfrentar o capital, abandonou a luta de classes e se refugiou na luta por reconhecimento. Em vez de organizar os proletários na fábrica, organiza debates sobre privilégio. Em vez de construir greves, constrói listas de exigências para as empresas. Em vez de questionar a propriedade privada, questiona o vocabulário. O resultado é uma esquerda que fala para si mesma, que domina o jargão acadêmico, que disputa espaços nas universidades e nas redações, mas que perdeu completamente o contato com a classe que deveria representar. O proletário comum (aquele que pega ônibus lotado, que trabalha seis dias por um salário mínimo, que não tem plano de saúde) não se reconhece nessa esquerda. E essa esquerda também não o reconhece. Ele é acusado de machista, de racista, de homofóbico, de ignorante. A desconexão é total.


A extrema direita, por sua vez, agradece. Ela se alimenta do identitarismo. Cada exagero, cada cancelamento, cada acusação descabida vira munição para a direita. Ela se apresenta como a defensora do "cidadão de bem" contra a "ditadura do politicamente correto". Capitaliza o ressentimento dos que se sentem excluídos pelo discurso identitário. E, enquanto a esquerda discute pronomes, a direita organiza milícias, ocupa o Congresso, elege presidentes, aplica o programa do capital sem maquiagem. O identitarismo, que se apresenta como progressista, é objetivamente um aliado da reação. Ele divide o campo popular, desmoraliza a esquerda, oferece à direita o inimigo perfeito.


A solução não é negar as opressões. Elas são reais. O proletário negro é duplamente explorado: como proletário e como negro. A proletária mulher é duplamente explorada: como proletária e como mulher. O proletário LGBT é duplamente oprimido: como proletário e como LGBT. Mas a superação dessas opressões não virá da afirmação da identidade, e sim da abolição da classe. Enquanto existir propriedade privada, existirá exploração. Enquanto existir exploração, o capital produzirá opressões para manter a classe dividida. A luta contra o racismo, contra o machismo, contra a homofobia não pode ser separada da luta contra o capital. Pelo contrário: ela só será vitoriosa quando for parte da luta contra o capital.


Isso significa que o horizonte não é a representatividade, é a revolução. Não se trata de ter mais negros no parlamento burguês, mais mulheres em cargos de chefia, mais LGBTs na propaganda. Trata-se de abolir o parlamento burguês, abolir os cargos de chefia, abolir a propaganda. Trata-se de construir uma sociedade onde a cor da pele, o gênero, a orientação sexual não determinem o acesso à riqueza, porque a riqueza será de todos. O comunismo não é o paraíso das identidades; é o fim da necessidade da identidade como marcador social. Quando a exploração for abolida, as opressões que dela derivam perderão sua base material. O racismo não desaparecerá por decreto, mas sem a necessidade de superexplorar corpos negros, sem a competição por empregos, sem o exército de reserva racializado, ele definhará. O machismo não desaparecerá por decreto, mas sem a família monogâmica como unidade econômica, sem o trabalho doméstico não remunerado como pilar da acumulação, ele perderá sua função.


A luta identitária, nos marcos do capital, é uma luta perdida. O capital é perfeitamente capaz de absorver demandas identitárias sem tocar na estrutura de exploração. Ele concede o casamento gay e mantém a homofobia. Ele promove um feriado da consciência negra e mantém o genocídio. Ele coloca uma mulher na presidência e mantém a superexploração das mulheres. O capital não tem problema com a diversidade. O capital tem problema com o fim da propriedade privada. O identitarismo é a luta que o capital permite, porque é a luta que não o ameaça.


A tarefa do proletariado é recusar essa armadilha. É afirmar que a luta é uma só, porque a causa é uma só: a exploração do homem pelo homem e da natureza. O proletário negro, a proletária mulher, o proletário LGBT são, antes de tudo, proletários. Sua libertação específica depende da libertação de toda a classe. Não haverá fim do racismo sem o fim do capitalismo. Não haverá fim do machismo sem o fim do capitalismo. Não haverá fim da homofobia sem o fim do capitalismo. A unidade da classe é a condição da vitória. E a unidade da classe exige que as pautas identitárias sejam integradas à pauta geral da revolução, não separadas dela.


O identitarismo é a ideologia da fragmentação. O capital é o beneficiário da fragmentação. A revolução é a reunificação. Reunificar o que o capital separou: o proletário branco e o proletário negro, o homem e a mulher, o nativo e o imigrante, o campo e a cidade, a fábrica e a favela. Todos são explorados. Todos são descartáveis. Todos são produtos da mesma engrenagem. A luta é uma só. O inimigo é um só. A vitória será de todos ou não será de ninguém. Não se trata de afirmar identidades. Trata-se de abolir as condições que tornam a identidade uma prisão. Trata-se de construir uma sociedade onde a única identidade que importa é a de ser humano, livre, associado, produtor e desfrutador da riqueza coletiva. O resto é distração. E o capital agradece a distração.

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