A 6x1, a CLT e a Escravidão Assalariada
A escala 6x1 é desumana. Trabalhar seis dias para descansar um destrói o corpo, a mente, a família, a vida. Lutar contra ela é justo. Mas é preciso entender o que está por trás. A 6x1 não é um acidente. A CLT não é uma conquista definitiva. Ambas são instrumentos da mesma coisa: a escravidão assalariada.
O que é a escravidão assalariada? É o sistema em que o proletário, por não possuir terra, fábrica, máquina ou matéria-prima, só tem uma alternativa para não morrer de fome: vender sua força de trabalho a quem possui tudo isso. Esse alguém pode ser o patrão da esquina ou a transnacional. Ambos compram a força de trabalho por um salário. O salário paga uma parte do que o proletário produz. A outra parte, a maior, fica com quem comprou. É a mais-valia. É trabalho não pago. É a fonte do lucro. O patrão é apenas a face visível. A classe burguesa é a proprietária real. O patrão manda na fábrica, mas é a burguesia que dita o modo de produção.
Essa é a exploração fundamental. Não é um desvio do capitalismo. É o capitalismo. Todo o resto (jornada, salário mínimo, férias, décimo terceiro, escala de trabalho) é disputa sobre os termos da exploração, não sobre a existência dela. A CLT nunca aboliu a mais-valia. Ela regulou a extração. Disse quanto se pode sugar, de que forma, com quais intervalos. Mas não disse que não se pode sugar. Pelo contrário: deu forma legal à sucção.
Quando a CLT foi criada, a burguesia cedeu porque o proletariado estava organizado e pressionando. Foi uma concessão para salvar o essencial: a propriedade privada dos meios de produção e a extração de mais-valia. Agora, com a crise estrutural do capital, as concessões são retiradas. A taxa de lucro tende a cair. A burguesia precisa compensar. Como? Intensificando a exploração. A reforma trabalhista de 2017 rasgou a CLT. Terceirização, pejotização, trabalho intermitente, uberização. A 6x1, que já era a regra para milhões, se generaliza. A burguesia está descartando os freios que ela mesma aceitou no passado.
Lutar pela 6x1 é necessário, mas é lutar por uma corrente mais curta. A corrente é o trabalho assalariado. Enquanto o proletário vender sua força de trabalho, o fruto do seu trabalho pertencerá à classe que detém os meios de produção. A CLT e a 6x1 são apenas o contrato que regula essa venda. O proletário continuará produzindo riqueza para outro. Continuará sendo explorado. Continuará vendo o que produziu passar na frente dos seus olhos e sumir no bolso da classe que nada produziu.
A abolição da escravidão assalariada é a única saída. Isso significa acabar com a venda da força de trabalho. Significa abolir a propriedade privada dos meios de produção pela classe burguesa. A terra, as fábricas, as máquinas, a tecnologia, tudo o que é necessário para produzir não pode pertencer a uma classe que vive de sugar trabalho alheio. Deve pertencer ao proletariado organizado. Quem produz decide o que, como e para que produzir. O fruto do trabalho fica com o proletário que o produziu.
A luta pela 6x1 pode ser um passo, desde que aponte para além de si mesma. Desde que diga: não queremos só uma escala melhor, queremos o fim da exploração. Se a luta parar na 6x1, se a 6x1 for conquistada e a vida seguir como antes, a burguesia venceu. Deu uma migalha e manteve o fundamental: a propriedade privada dos meios de produção. A exploração continuará. A mais-valia continuará sendo extraída. O proletário continuará sendo um servo moderno, livre para escolher qual fração da burguesia vai sugar seu sangue (se o patrão pequeno, se o grande capital).
A escravidão assalariada é a forma atual da servidão. Na escravidão antiga, o corpo era propriedade. Na assalariada, o corpo é livre, mas a necessidade prende. O chicote é o boleto. A senzala é o aluguel. O feitor é o aplicativo. A CLT foi uma coleira mais frouxa. A 6x1 é a coleira apertando de novo. A luta não pode ser por uma coleira mais confortável. A luta tem que ser para arrancar a coleira.
Fim da escala 6x1 é necessário. Mas o horizonte é a abolição da propriedade privada dos meios de produção pela classe burguesa. Uma é reforma. A outra é ruptura. A reforma alivia. A ruptura liberta. O proletário não precisa de patrão. O proletário não precisa de burguesia. O proletário precisa dos meios de produção. E esses meios já estão aí, construídos por ele mesmo, ao longo de gerações. Só estão nas mãos erradas. É hora de tomar de volta. Não do patrão que também é engrenagem. Da classe que é dona da engrenagem inteira.
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