O Capital de Hoje é Trabalho Não Pago de Ontem
O capital que os donos do mundo exibem hoje não caiu do céu. Não é fruto de engenhosidade, de risco, de esperteza. É trabalho não pago acumulado. Cada máquina, cada prédio, cada ação na bolsa, cada latifúndio é trabalho vivo que foi sugado, cristalizado e apropriado pela classe dominante. Esse processo não começou ontem. Começou quando a acumulação primitiva arrancou o produtor de sua terra, de sua ferramenta, de seu saber, e o jogou no mercado como vendedor de força de trabalho. Daí em diante, a roda girou: o proletário produz, o burguês embolsa, o capital cresce. O capital de hoje é a mais-valia de ontem, de anteontem, de séculos. É trabalho morto que domina o trabalho vivo. É o suor do seu avô, do seu pai, seu, transformado em propriedade alheia.
Essa é a base material. Sobre ela se ergue todo o resto. A propriedade privada dos meios de produção não é um detalhe jurídico. É a chave que separa o produtor do fruto, o trabalho da riqueza, a humanidade da sua própria obra. Enquanto essa chave estiver na mão da classe burguesa, não há salário que resolva, não há reforma que baste, não há eleição que mude a essência. A necessidade do proletariado é simples: para viver, precisa acabar com a propriedade que o explora. Não se trata de dividir melhor. Trata-se de abolir. A propriedade privada dos meios de produção não pode ser regulada, tributada ou humanizada. Ela precisa ser extinta. Esse é o ponto de partida.
Mas não para aí. A burguesia não se sustenta apenas com a fábrica. Ela criou instituições que reproduzem a dominação para além do chão da mina e da linha de montagem. A família monogâmica é uma delas. Não a família como afeto, como vínculo livre entre pessoas que se amam. Mas a família como unidade econômica, como célula de transmissão da propriedade privada, como espaço onde a mulher serve sem salário e o filho aprende a obedecer. A família monogâmica organiza a herança, garante que o capital passe de pai para filho, naturaliza a hierarquia, esconde a exploração doméstica sob o tapete do amor. A revolução que queremos não destrói o afeto. Destrói a forma social que prende o afeto à propriedade.
A sociedade de classes também precisa cair. Não há convivência possível entre explorador e explorado. A classe burguesa não abrirá mão do poder porque foi convencida. Ela só recua quando a alternativa é ser varrida. A história não dá exemplos de classe dominante que entregou o poder voluntariamente. Cada direito arrancado foi conquistado na greve, no confronto, na rua. Cada reforma foi resposta ao medo da ruptura. A sociedade dividida entre proprietários e despossuídos é a fonte de toda violência. A fome é violência de classe. O desemprego é violência de classe. A guerra é violência de classe. A solução não é paz entre as classes. A solução é o fim das classes.
E o Estado, o que é? A classe burguesa aparece pouco na televisão. Ela manda através do Estado. O Estado é a forma política da dominação de classe. Ele existe para garantir que a propriedade privada permaneça intocada, que a exploração continue legal, que a greve seja criminalizada, que a revolta seja reprimida. Quando a burguesia se sente segura, o Estado aparece como democracia, direito, cidadania. Quando a luta de classes se aguça, o Estado mostra a cara: exército na rua, toque de recolher, estado de exceção. Não há Estado neutro. Não há Estado que sirva a dois senhores. O Estado serve à classe que detém os meios de produção. Por isso a pauta do proletariado não é ocupar o Estado, não é reformar o Estado, não é eleger um gerente melhor para o Estado. É destruir o Estado burguês e construir o poder próprio: conselhos, assembleias, comitês de base. O poder de quem produz.
Essa é a pauta. Propriedade privada, família monogâmica, sociedade de classes, Estado. Não são quatro problemas separados. São quatro pilares do mesmo sistema. Derrubar um sem derrubar os outros é trocar o lugar da opressão. A história já tentou domar a lógica do lucro. Já tentou regular, já tentou humanizar, já tentou conciliar. Fracassou todas as vezes. Porque a lógica do lucro é incompatível com a lógica humana. O capital precisa expandir-se ou morre. Para expandir-se, precisa sugar trabalho vivo e recursos naturais sem fim. Mas o trabalho vivo é finito (o corpo cansa, adoece, morre) e a natureza é finita (o planeta dá sinais de esgotamento todo dia). A lógica do lucro conduz ao desastre. A lógica humana conduz à vida.
Falar em revolução não é bravata. É a conclusão que a realidade impõe. O capital não tem mais nada a oferecer além de barbárie: desemprego estrutural, destruição ambiental, guerras, estados de exceção, descarte de populações inteiras. A classe burguesa já não pode governar como antes. O proletariado já não pode viver como antes. A ruptura está posta. Não como possibilidade remota. Como necessidade imediata. O capital é o mesmo: trabalho morto acumulado que suga trabalho vivo. A solução é a mesma: arrancar os meios de produção das mãos da burguesia, destruir suas instituições de dominação, construir o poder proletário.
É hora da lógica humana. É hora de revolução internacional e permanente.
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