2026: O Ano em que o Continente Ferve
O capitalismo mundial entrou em 2026 sem margem para concessões. As contratendências que adiaram a crise nas décadas anteriores (expansão para a periferia, financeirização, superexploração do proletariado) estão esgotadas ou próximas do limite. A taxa de lucro segue pressionada. O capital precisa, mais do que nunca, arrancar mais-valia de onde ainda é possível: do corpo do proletariado. E o proletariado, exaurido, começa a responder.
A pandemia de Covid-19 foi o marco da virada. Revelou que as fronteiras são cercas do capital. O vírus circulou; as vacinas, não. A dívida pública explodiu. Os Estados se endividaram para salvar bancos e corporações, e agora cobram a conta do proletariado. Inflação, arrocho salarial, cortes em saúde e educação, reformas trabalhistas e previdenciárias. O receituário é o mesmo no planeta inteiro, porque a crise é a mesma. O capital precisa socializar as perdas e privatizar os ganhos. Precisa fazer o proletariado pagar pela crise que não criou.
A resposta também começou a ser a mesma. O proletariado internacional, fragmentado pela ideologia nacionalista e pelas fronteiras, começa a romper as cercas. Ondas de protestos eclodem em todos os continentes. Não são movimentos isolados. São a mesma luta, com nomes e rostos diferentes. A greve dos ferroviários no Reino Unido, os bloqueios na França, as ocupações de fábricas na Índia, as manifestações contra a reforma trabalhista na Coreia do Sul, as rebeliões no Quênia, as greves gerais na Bélgica. O ano de 2026 não é um ano de crise; é o ano em que a crise mostra sua face política mais aguda. É o ano em que o proletariado, ainda sem direção revolucionária, começa a sair da defensiva.
Na América do Sul, a ofensiva do capital foi particularmente violenta. O continente sempre funcionou como laboratório das políticas mais brutais de ajuste. Foi aqui que o capital sem maquiagem fez suas primeiras experiências: Chile de Pinochet, Argentina de Martínez de Hoz, Brasil de Collor. Agora, em 2026, o laboratório está de volta. A burguesia continental, associada ao capital internacional, sabe que precisa arrancar o máximo possível antes que a insatisfação proletária se transforme em ruptura. Por isso, a velocidade dos ataques é maior. Por isso, a violência da repressão é maior. Por isso, a resistência também começa a ser maior.
A Argentina foi o primeiro epicentro. O governo Milei é a expressão mais acabada do capital sem disfarce. Sua reforma trabalhista, aprovada em fevereiro de 2026, é um ataque direto ao proletariado argentino. Flexibilização total do contrato de trabalho, fim da estabilidade, terceirização irrestrita, redução de salários, cortes profundos nas aposentadorias, privatização de estatais, entrega de recursos naturais ao capital estrangeiro. Milei é o gerente que a burguesia argentina escolheu para aplicar o programa que a crise mundial exige. Ele não é um acidente. É a continuidade lógica do capitalismo argentino, que passou pelo peronismo, pelo kirchnerismo, pelo macrismo, e agora chega à sua forma mais pura. A burguesia argentina, sufocada pela dívida com o FMI e pela queda da taxa de lucro, não tem mais nada a oferecer. Só o chicote.
Os protestos massivos que explodiram em fevereiro de 2026 na Argentina não são apenas uma reação à reforma trabalhista. São a recusa do proletariado em pagar a conta. As ruas de Buenos Aires, Córdoba, Rosário, Mendoza foram tomadas por sindicatos, movimentos de desempregados, organizações piqueteras, assembleias de bairro. A greve geral parou o país. O governo respondeu com estado de emergência. A repressão foi feroz. Mas o proletariado argentino, que já viveu o corralito, a crise de 2001, a volta do FMI, sabe que não há saída negociada. Sabe que Milei não vai recuar. Sabe que a burguesia não vai ceder. Por isso, os protestos continuam. E tendem a se intensificar.
A Bolívia entrou na onda em maio de 2026. Os protestos começaram com greves localizadas e rapidamente se transformaram em um movimento nacional. Sindicatos, mineiros, transporte, comunidades indígenas, operários urbanos de El Alto, camponeses do altiplano. A greve geral e os bloqueios de estradas paralisaram o país. A exigência imediata era a revogação do estado de exceção e a derrubada do governo de Rodrigo Paz. Mas, por baixo da superfície, a luta é contra a privatização do lítio, a entrega do gás, a destruição das comunidades, a miséria crescente.
Aqui é preciso distinguir com precisão. Os mineiros de Potosí são proletários: despossuídos, vendem sua força de trabalho, produzem mais-valia. Os operários de El Alto, os transportadores assalariados, os metalúrgicos bolivianos também são proletários. Já os camponeses aimarás e quéchuas, as comunidades indígenas que ainda possuem terra coletiva, não são proletários no sentido estrito. São trabalhadores, produzem valores de uso, resistem à expropriação, mas não vivem da venda da força de trabalho. Sua luta é contra a acumulação primitiva que os transforma em proletários, que os despeja, que privatiza seus territórios. Essa distinção importa porque a aliança entre proletários e camponeses precisa ser feita com clareza estratégica: o sujeito revolucionário é o proletariado, mas ele precisa arrastar consigo as outras camadas exploradas e oprimidas.
A crise boliviana de 2026 é a prova final de que o reformismo não resolve a contradição. Ele apenas a administra até o momento em que a administração se torna impossível. O proletariado boliviano, que já derrubou presidentes em 2003 e 2005, que resistiu ao golpe de 2019, que bloqueou estradas e parou o país em 2024, está novamente nas ruas. E a pergunta que fica é: até quando a energia dessa resistência será canalizada para a volta de um novo gerente do capital? Até quando a luta se limitará a pedir a volta de Evo, ou a posse de algum outro líder do MAS, em vez de tomar o poder para si?
A resposta a essa pergunta não está apenas na Bolívia. Está na Argentina, no Chile, no Peru, na Colômbia, no Equador, no Brasil. A América do Sul inteira está em ebulição. O ano de 2026 está sendo o ano em que as lutas isoladas começam a se encontrar. Os mineiros bolivianos (proletários) sabem da greve dos metalúrgicos argentinos (proletários). Os piqueteros argentinos (proletários desempregados e precarizados) sabem dos bloqueios bolivianos. Os caminhoneiros colombianos (pequenos proprietários de seus veículos, não proletários, mas explorados pelo capital) sabem das manifestações no Equador. Os sem-terra brasileiros (camponeses em luta contra a expropriação) sabem da resistência indígena no Peru. As redes sociais, apesar de controladas pelo capital, não conseguem impedir totalmente a circulação da informação. A solidariedade de classe começa a furar os bloqueios midiáticos.
O capital também sabe disso. Por isso, acelera a repressão. Os estados de exceção se multiplicam. A criminalização dos movimentos avança. A imprensa burguesa unifica o discurso: "baderna", "caos", "ameaça à democracia". A esquerda reformista tenta canalizar a insatisfação para a disputa eleitoral, para a "recomposição do campo popular", para a volta ao passado que já fracassou. Mas o passado não volta. A crise estrutural do capital não permite. A única saída é para frente: a ruptura com a ordem burguesa.
A conjuntura de 2026 na América do Sul pode ser resumida em uma frase: o capital não pode mais governar como antes, e o proletariado não quer mais ser governado como antes. É uma situação revolucionária clássica. A classe dominante não consegue mais manter sua dominação sem recorrer à violência aberta. O proletariado não aceita mais as condições de vida que lhe são impostas. Há uma crise que afeta exploradores e explorados. O que falta para que essa situação se transforme em revolução? Falta direção. Falta organização. Falta um partido que não se limite a administrar a crise, mas que aponte para a tomada do poder.
Os conselhos operários, as assembleias de bairro, os comitês de greve, as cooperativas de proletários, as comunidades camponesas que resistem à expropriação (todas essas são formas embrionárias de poder). Mas são fragmentos. Falta a unidade. Falta a coordenação. Falta o programa. O programa é simples de enunciar, difícil de executar: abolição da propriedade privada dos meios de produção, fim do trabalho assalariado, destruição do Estado burguês, construção do poder dos conselhos.
A América do Sul de 2026 está diante de uma encruzilhada. De um lado, a barbárie: mais repressão, mais privatizações, mais destruição ambiental, mais miséria, mais estados de exceção. Do outro, a revolução: a unificação das lutas, a ruptura com o reformismo, a tomada do poder pelo proletariado e seus aliados. Não há terceira via. Não há volta ao capitalismo regulado, ao desenvolvimentismo, ao social-liberalismo. Essas foram tréguas. A trégua acabou. O capital está em sua fase terminal. Ou o enterramos, ou ele nos enterra.
Os protestos de 2026 na Bolívia e na Argentina não são eventos isolados. São capítulos da mesma guerra. A guerra do capital contra a humanidade e o planeta. A guerra do proletariado contra o capital. A linha de frente hoje está em La Paz, em Buenos Aires, em El Alto, em Córdoba. Amanhã estará em São Paulo, em Santiago, em Lima, em Bogotá. A geografia do capital divide. A lógica humana une. O que está em jogo não é a escala 6x1, não é o preço do gás, não é o nome do presidente. O que está em jogo é a sobrevivência da espécie. O capital já decidiu: prefere a barbárie a ceder a propriedade. Cabe ao proletariado decidir se aceita a barbárie ou se toma o que é seu. O ano de 2026 está sendo o ano da escolha. E a escolha se faz na rua. Na greve. No bloqueio. Na ocupação. Na luta. Sem parasitas. Sem fronteiras. Um só mundo. Uma só classe. Uma só luta.
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