O Lumpemproletariado como Estratégia: Capital, Guerra e a Produção do Descartável
O capital não é apenas um sistema de exploração do trabalho formal, nem se resume à relação patrão-empregado regida por contratos e leis burguesas. Em seu movimento real, o capital produz permanentemente uma massa de seres humanos considerados excedentes, descartáveis ou "inúteis" para a acumulação "legal". É essa massa (o lumpemproletariado) que este artigo examina não como acidente ou patologia social, mas como produto direto e funcional do próprio modo de produção capitalista. Longe de ser um resíduo passivo, o lumpemproletariado é mobilizado ativamente, sua força de trabalho (viva, precária, desprotegida) circula e reproduz mais-valia sem que seus agentes tenham consciência plena do papel que exercem. Essa mais-valia, apropriada pelos donos dos meios de produção, retroalimenta a indústria bélica, financia guerras geopolíticas e guerras civis nas periferias, e retorna ao mercado na forma de violência mercadorizada, completando assim um circuito necropolítico que sustenta o capitalismo contemporâneo.
Trabalho vivo sem consciência de classe
O proletariado clássico (aquele que vende sua força de trabalho em troca de salário, dentro de uma relação jurídico-contratual) já não é a única figura da exploração. Ao lado dele, o capital mobiliza o que Marx chamou de trabalho vivo: a capacidade humana geral de produzir valor, que pode ser extraída mesmo sem vínculo empregatício formal, sem direitos, sem representação sindical. Esse trabalho vivo circula nas economias informais, nas plataformas digitais (uberização), nas terceirizações infinitas e, crucialmente, nas atividades criminalizadas.
O que impede esse trabalho vivo de se reconhecer como classe? A resposta está na própria fragmentação produzida pelo capital: a ilegalidade, a precariedade e a competição pela sobrevivência imediata corroem a consciência coletiva. O trabalhador do bico, o catador de recicláveis, o vigia noturno sem vínculo, o entregador sem proteção, o pequeno traficante da esquina, todos produzem valor real que se converte em capital nas mãos de quem controla os meios de logística, distribuição, armamento e financiamento. Mas essa massa não se vê como proletariado. Vê-se como autônoma, ou como excluída, ou como marginal. É o capital que mais lucra com essa inconsciência.
O lumpemproletariado: força de trabalho excedente e descartada da legalidade burguesa
O lumpemproletariado não é pré-capitalista. É pós-capitalista: produzido pela própria dinâmica de acumulação que gera desemprego estrutural, superpopulação relativa e informalização forçada. A legalidade burguesa (aquela que protege a propriedade privada, os contratos e o Estado de direito) funciona como uma cerca: dentro dela, o trabalho é regulado, tributado, visível; fora dela, o trabalho (e a vida) pode ser explorado sem mediações, sem garantias, e até violentamente eliminado sem maiores consequências jurídicas, pois essa eliminação se dará na periferia, na favela, na fronteira ou na cela.
É precisamente essa massa descartada que o capital utiliza para funções que o proletariado formal não aceitaria ou não poderia executar sem custos políticos elevados: o tráfico de drogas em larga escala, o contrabando de armas, a mineração ilegal, a grilagem de terras, os esquadrões de extermínio que limpam territórios para projetos imobiliários ou agronegócio, e (no plano geopolítico) os mercenários, os paramilitares e as milícias que atuam em guerras por procuração.
Mais-valia lumpenizada: da favela à indústria bélica, e de volta ao mercado
A mais-valia extraída do trabalho vivo lumpenizado não retorna à favela sob a forma de escola, hospital ou saneamento. Retorna como financiamento para a indústria bélica
O esquema é o seguinte: O capital investe (diretamente ou via lavagem) no controle de territórios periféricos através do narcotráfico, do jogo ilegal, da exploração sexual ou do contrabando.
O lumpemproletariado executa o trabalho sujo da logística e da violência cotidiana, recebendo migalhas.
O lucro gigantesco sobe para os estratos superiores do capital financeiro, muitas vezes em paraísos fiscais.
Esse lucro é então aplicado na produção de armas, drones, munições, softwares de vigilância, sistemas de controle de fronteiras e financiamento de exércitos mercenários.
As armas e os mercenários são vendidos ou alugados para governos que desejam esmagar revoltas sociais (em periferias globais) ou para grupos de oposição que desestabilizam governos considerados hostis aos interesses do capital.
· A violência resultante (mortes na favela, na fronteira, na zona de guerra) é então transformada em novas mercadorias: seguros de vida, funerárias, segurança privada, sistemas de monitoramento, reformas penitenciárias que são concessões lucrativas.
O ciclo está fechado: a vida precária produz valor, o valor vira morte, a morte é revendida como serviço.
Moral e ética burguesa: padronizando a subserviência
O capital não prescinde de justificativas morais. Pelo contrário, desenvolve uma ética própria que naturaliza a exclusão e criminaliza a resistência. Essa ética se expressa em discursos de "meritocracia", "empreendedorismo de sobrevivência", "responsabilidade individual" e "law and order". Para o lumpemproletariado, a mensagem é clara: você está fora da lei, portanto não tem direitos; mas sua força de trabalho ainda é útil, desde que aceite as regras do jogo sujo que lhe é oferecido. A favela, o morro, a prisão, são todos celeiros de trabalho vivo sem direitos.
A mesma moral burguesa que condena o tráfico de drogas no varejo (e encarcera em massa seus executores) não vê problema em usar os lucros desse tráfico para financiar a contra-revolução internacional. Os exemplos históricos são abundantes: o financiamento dos Contras na Nicarágua através da venda de armas e drogas (caso Irã-Contras, amplamente documentado), a lavagem de dinheiro do narcotráfico colombiano para campanhas políticas e operações paramilitares, e mais recentemente, o uso de criptomoedas e esquemas de mineração ilegal na Amazônia para financiar redes de desestabilização na América Latina.
Ameaça ao reformismo brasileiro e a perpetuação do ciclo
O reformismo brasileiro (entendido como a tentativa de conciliar democracia burguesa com políticas sociais redistributivas dentro dos limites do capitalismo) sempre foi um alvo frágil. O capital, quando vê ameaçada sua capacidade de extrair mais-valia livremente, não hesita em recorrer às ferramentas que o próprio circuito lumpen-bélico lhe oferece: milícias, desinformação, violência política, sabotagem econômica e, em última instância, golpes de Estado velados ou abertos.
A atual ameaça ao reformismo (seja representado pelo lulismo, pelo petismo ou por quaisquer variantes social-democratas) não vem apenas de setores tradicionais da burguesia industrial ou do agronegócio. Vem também dessa máquina de guerra financiada por capitais de origem obscura, máquina que já ajudou a derrubar governos na Bolívia (2002-2003, com a Guerra do Gás e o papel da USAID), em Honduras (2009), no Paraguai (2012), no Brasil (2016 e tentativas posteriores). Em todas essas operações, o elo entre lumpemproletariado armado, capital do narcotráfico e indústria bélica internacional está presente, ainda que nunca seja mostrado nos editoriais da grande imprensa.
O que está em jogo, portanto, não é uma simples falha de regulação ou um efeito colateral indesejado do capitalismo. É o próprio modo de funcionamento sistêmico: o capital precisa produzir um exército de excluídos legais para executar o trabalho que não pode ser contratado formalmente; precisa transformar esse exército em instrumento de guerra para proteger seus interesses geopolíticos; precisa então matar parte desse mesmo exército (em guerras externas ou internas) para depois vender a segurança contra a violência que ele mesmo patrocinou. É uma máquina de moer vidas que se auto reproduz.
Reconhecer isso é o primeiro passo para romper com a inconsciência do trabalho vivo. O lumpemproletariado não é "marginal" ao capital: é sua vítima mais íntima e, potencialmente, sua contradição mais explosiva. Porque o dia em que o favelado, o preso, o entregador, o catador e o soldado periférico perceberem que o inimigo não é o vizinho, nem o imigrante, nem o dependente químico, mas o sistema que lucra com sua morte, nesse dia, o circuito será quebrado. Até lá, o capital segue seu curso, indiferente, moral e ético apenas para padronizar a subserviência.
Falemos de revolução, internacional e permanente.
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