Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Culpa Não é Sua

A Culpa: Uma Crítica Materialista a partir de Marx

Toda formação social produz não apenas mercadorias, mas também os afetos e as representações necessárias à sua reprodução. A culpa, longe de ser um sentimento natural ou universal, é uma produção histórica cuja gênese e função só podem ser compreendidas a partir das relações de produção capitalistas. Essa é uma análise da culpa ancorada diretamente na obra de Marx, prescindindo dos comentadores e buscando no próprio texto marxiano as categorias necessárias para desmontar esse afeto funcional à dominação burguesa.

O fetichismo da mercadoria e o ocultamento da relação social

No capítulo I de O Capital, Marx demonstra que a mercadoria é um objeto misterioso não por suas propriedades naturais, mas porque reflete aos homens as características sociais do seu próprio trabalho como se fossem propriedades naturais dos produtos do trabalho. O fetichismo da mercadoria consiste em fazer com que uma relação social entre pessoas assuma a forma fantasmagórica de uma relação entre coisas.

A culpa opera de maneira análoga. Ela transforma uma relação social (a exploração do trabalho pelo capital) em uma relação do indivíduo consigo mesmo. O desemprego, que é uma exigência estrutural do capital (a necessidade de um exército industrial de reserva, como Marx mostra no capítulo XXIII de O Capital), aparece ao trabalhador como fracasso pessoal. A miséria, que é produzida ativamente pela apropriação privada da mais-valia, aparece como merecimento do pobre. A exploração, que é a essência da relação capital-trabalho, aparece como resultado do esforço individual.

A culpa é o fetichismo levado ao terreno dos afetos. Ela faz com que o trabalhador se veja como causa de sua própria exploração, exatamente como o fetichismo faz com que os homens vejam o valor como propriedade das coisas.

A ideologia alemã e a produção dos afetos dominantes

Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels estabelecem um princípio metodológico fundamental: "As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes". Isso significa que a classe que tem os meios de produção material tem também os meios de produção intelectual (e, podemos acrescentar, os meios de produção afetiva).

A culpa não é, portanto, um sentimento que surge espontaneamente da consciência individual. Ela é produzida e reproduzida pelos aparelhos ideológicos da classe dominante, a escola (que ensina o mérito e a responsabilização individual), a família (que transmite a ética do trabalho e do dever), a religião (que mantém a estrutura da dívida original), a mídia (que individualiza a violência policial e a pobreza).

A moral burguesa, da qual a culpa é o afeto central, é a moral da classe dominante. Ela não é imposta pela força bruta (embora a força esteja sempre no horizonte) mas pela hegemonia, pela capacidade de fazer com que as ideias e os sentimentos da burguesia sejam vividos pelos trabalhadores como se fossem seus.

A mais-valia e a dívida impossível

Há uma estrutura profunda que conecta a culpa à mais-valia. O trabalhador vende sua força de trabalho por um salário que corresponde ao valor necessário para sua reprodução. Mas, ao longo da jornada de trabalho, ele produz um valor superior ao que recebe. Essa diferença (a mais-valia) é apropriada pelo capitalista sem qualquer contrapartida.

O trabalhador é, portanto, credor do capital. Ele produziu uma riqueza que não lhe pertence, que é usada para explorá-lo ainda mais. A culpa aparece precisamente para inverter essa relação, faz o trabalhador sentir-se em dívida com o capital. Ele deve "gratidão" pelo emprego, "reconhecimento" pelo salário, "lealdade" à empresa que o explora. A culpa é a dívida imaginária que oculta a dívida real, a dívida do capital com o trabalho.

Nos Grundrisse, Marx observa que o capital é essencialmente relação social, não coisa. A culpa, como afeto, é a forma subjetiva dessa relação invertida, ela faz o trabalhador viver como débito o que é, na verdade, crédito.

A acumulação primitiva e a produção do trabalhador culpado

No capítulo XXIV de O Capital, Marx descreve o processo de acumulação primitiva, a expropriação violenta dos produtores diretos de seus meios de produção. Camponeses foram expulsos de suas terras, artesãos foram despossuídos de suas ferramentas, e uma massa de despossuídos foi forçada a vender sua força de trabalho para sobreviver.

Esse processo violento, que é a verdadeira gênese do capitalismo, foi acompanhado por uma intensa produção ideológica. Os expropriados foram tratados como vadios, preguiçosos e criminosos. Leis sanguinárias contra a vadiagem, na Inglaterra dos séculos XVI e XVII, puniam com chibatadas e marcas a fogo aqueles que se recusavam a trabalhar nas condições impostas pelos patrões.

A culpa nasce aí, como estigmatização do expropriado. Não bastava tomar a terra do camponês, era preciso fazê-lo se sentir culpado por estar sem terra. Não bastava expulsar o artesão de sua oficina, era preciso fazê-lo se sentir culpado por estar desempregado. A culpa é o complemento subjetivo da acumulação primitiva.

A moral do mérito e a legitimação da exploração

A moral burguesa é uma moral do mérito. Ela postula que cada um recebe conforme seu esforço, sua competência, sua virtude. Os ricos são ricos porque trabalharam mais, ou porque foram mais inteligentes, mais ousados, mais merecedores. Os pobres são pobres porque não se esforçaram o suficiente.

Marx demonstra, em toda sua obra, que essa é uma inversão ideológica. A riqueza do capitalista não vem de seu trabalho (ele pode não trabalhar jamais), mas da apropriação do trabalho alheio. A pobreza do trabalhador não vem de sua preguiça (ele pode trabalhar doze horas por dia), mas da expropriação do que produz.

A culpa é o afeto que ancora essa moral do mérito no corpo dos explorados. O trabalhador sente culpa por não "vencer na vida", por não "dar conta", por não "se esforçar o suficiente". Ele internaliza a justificativa ideológica da sua própria exploração. A culpa é a autoculpabilização do explorado, sem a qual o sistema seria insustentável, porque ninguém aceitaria voluntariamente ser explorado sabendo que essa exploração é injusta e desnecessária.

A culpa é uma produção histórica do capitalismo, forjada nas relações de exploração e internalizada como afeto dominante. Sua função é ocultar a dívida real do capital com o trabalho, individualizar a contradição social e paralisar a ação coletiva. A moral burguesa, da qual a culpa é a emoção central, é a ideologia dos exploradores vivida pelos explorados como se fosse sua.
Recusar a culpa não é recusar a responsabilidade. É recusar a inversão ideológica que faz do trabalhador o devedor quando ele é o credor. É recusar a paralisia reformista que impede a luta radical. O proletário não precisa se sentir culpado por sua exploração, precisa se indignar. Não precisa pedir desculpas por existir, precisa se organizar. Não precisa aguardar absolvição, precisa tomar o que é seu.

A única culpa que merece ser nomeada, do ponto de vista da história, é a daqueles que, tendo consciência da exploração, preferem senti-la como culpa individual em vez de transformá-la em ação coletiva. A esses, não resta esperança. Aos que se organizam, resta o mundo.

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