Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Tecnologias e Desemprego a Contratação Insolúvel do Capital

Tecnologia e desemprego: a contradição insolúvel do capital

O capital precisa do trabalho vivo. Sem a extração de mais-valia (o trabalho não pago que o trabalhador realiza além do tempo necessário para reproduzir sua subsistência) não há lucro. Essa é a lei fundamental do modo de produção capitalista, demonstrada por Marx no Livro I de O Capital.

Mas o capital também precisa competir. E a competição o força a substituir trabalho vivo por máquinas. A automação aumenta a produtividade, reduz custos unitários, intensifica o controle sobre o processo produtivo. Do ponto de vista do capitalista individual, é uma estratégia vitoriosa.
Do ponto de vista do sistema como um todo, é uma contradição em movimento.

O dilema

Quanto mais o capital automatiza, menos trabalhadores ele precisa empregar. Quanto menos trabalhadores empregados, menos trabalho vivo disponível para gerar mais-valia. Quanto menos mais-valia, menos lucro. O sistema, ao buscar maximizar o lucro, destrói a única fonte do lucro.

O capital responde a essa contradição com três movimentos, todos insuficientes.

Primeiro, a superexploração dos que restam. Sobre os trabalhadores que ainda estão empregados, o capital exige jornadas mais longas, ritmo intensificado, salários rebaixados. A mais-valia absoluta e relativa são extraídas até o limite fisiológico.

Segundo, a expansão para novas fronteiras. O capital desloca a produção para periferias onde o trabalho é mais barato, as leis trabalhistas são frágeis ou inexistentes, e a organização sindical é reprimida. Mas a automação também chega a essas regiões, e a concorrência entre países pobres rebaixa ainda mais os salários globais.

Terceiro, a fuga para a financeirização. Diante das dificuldades na esfera produtiva, o capital se refugia na especulação financeira (derivativos, títulos públicos, operações algorítmicas de alta frequência). Mas a finança não cria valor; ela transfere renda e canibaliza a própria produção que a sustenta. É um sistema que vive de extrair o que resta do trabalho vivo alhures.

Os descartados

Os trabalhadores expulsos do processo produtivo não são apenas "desempregados". São um exército industrial de reserva estrutural (um contingente crescente de seres humanos que o capital não sabe o que fazer).

Eles não são mais necessários à valorização. Tornam-se sobra, excesso, escória. O capital responde a essa sobra com sua versão da solução final: precarização generalizada (bicos, uberização, trabalho sem direitos), Estado penal (criminalização da pobreza, encarceramento em massa), guerras (que destroem vidas e "limpam" excedentes populacionais), ou renda básica como esmola administrada, uma proposta que não questiona a propriedade privada, apenas permite que os descartados sobrevivam sem explodir o sistema (reformas).

A aporia

O capital não pode abolir o trabalho vivo sem abolir a si mesmo. Mas ele precisa reduzir o trabalho vivo para competir e maximizar o lucro. É uma aporia real, não lógica, uma contradição que se manifesta na história, não apenas no papel.

O que vemos hoje é um sistema que automatiza para produzir mais com menos trabalhadores, superexplora os que sobram no mercado de trabalho e descarta os que não cabem mais em seus cálculos de rentabilidade. O resultado é uma sociedade cindida: de um lado, os integrados (precariamente); do outro, um contingente crescente de "inúteis para o sistema" que sobrevive à margem, sem acesso a direitos, sem função reconhecida, sem futuro.

O que isso significa para a luta de classes

A boa notícia é que essa contradição é insolúvel dentro do capitalismo. O sistema não tem resposta final para o desemprego tecnológico que não seja a barbárie (coerção, guerra, extermínio lento ou rápido). Ele caminha para sua própria negação: elimina a fonte do valor que o sustenta.

A má notícia é que a classe trabalhadora, fragmentada e desorganizada, ainda não compreendeu que seu inimigo não é a máquina (ludismo),mas o controle capitalista sobre a máquina. A automação poderia significar redução da jornada de trabalho, lazer criativo, produção voltada às necessidades humanas. No capitalismo, significa desemprego, fome e violência.

A única saída lógica e humana é a superação da propriedade privada dos meios de produção e a organização social do trabalho, não para eliminar a tecnologia, mas para colocá-la a serviço da redução do trabalho penoso, não da eliminação dos trabalhadores.
O capital não pode se reproduzir sem o trabalho vivo. Mas ele age como se pudesse, porque a concorrência o força a substituir trabalho por máquinas. O resultado é um sistema em contradição consigo mesmo, que destrói as condições de sua própria reprodução.

Enquanto a propriedade privada não for abolida, o capital continuará tentando resolver o impossível: lucrar sem explorar. E sua resposta será sempre a mesma: descartar gente como descarta máquinas obsoletas.
O desenvolvimento das máquinas é o caminho pelo qual o capital realiza sua fantasia de produzir sem trabalho. É também o caminho pelo qual ele cavará sua própria sepultura.

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