Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Revolução Não Anuncia Seu Próprio Nome

A Revolução Não Anuncia Seu Próprio Nome: Bolívia, Mídia e a Hora da Classe Trabalhadora

Enquanto os holofotes da grande imprensa se concentram no Oriente Médio, fabricando consensos para a guerra e servindo aos interesses geopolíticos do imperialismo, uma luta de classes de primeiríssima grandeza ferve em solo latino-americano. A Bolívia, nos últimos meses, tornou-se o palco de uma resistência que não pede permissão para existir e que a mídia burguesa (por isso mesmo) prefere silenciar. Mas a história não se decide nas manchetes. Decide-se nas ruas. E é das ruas de La Paz, dos bloqueios dos mineiros e das greves da Central Operária Boliviana (COB) que emergem as lições mais urgentes para o proletariado de todo o continente.

O Judeu Alemão Errou, Não Foi na Alemanha

Karl Marx não era vidente. Ele não previu que a revolução socialista irromperia primeiro na atrasada Rússia czarista, e não na avançada Alemanha industrial. Isso nos ensina uma lição metodológica fundamental, as leis do movimento do capital se manifestam de forma desigual e combinada. A crise explode onde as contradições são mais agudas, onde a miséria e a opressão criam as condições subjetivas para a insurreição, não necessariamente onde a teoria apontaria como "mais maduro".

A Bolívia de 2026 é exatamente esse ponto de irrupção inesperada. Não se trata de uma revolução socialista em curso, mas de uma resistência anticapitalista que pode, se acertar seu rumo, transcender os limites do reformismo. O governo de centro-direita de Rodrigo Paz, eleito em novembro de 2025, representou a derrota eleitoral do ciclo do MAS e a ascensão de uma agenda francamente liberal. Mas a classe trabalhadora boliviana não aceitou passivamente a ofensiva do capital. Respondeu com greves, bloqueios e ocupações  e a mídia surpresa fingiu que nada estava acontecendo.

O Ulianov Não Esperava e Quase Chegou Atrasado

Lenin estava no exílio na Suíça quando a Revolução de Fevereiro de 1917 eclodiu na Rússia. Ele não previu a data. Mas, ao chegar, não hesitou em atirar-se na voragem dos acontecimentos, forjando as Teses de Abril que apontavam para a tomada do poder. A analogia com o momento boliviano é cristalina, o cenário é fluido, imprevisível, e a vanguarda não pode se dar ao luxo de esperar o "momento perfeito" ou de lastimar o "atraso".

Os mineiros bolivianos não esperaram a bênção de nenhuma teoria. Diante da ameaça representada pela Lei de Terras 1720(que permitia a conversão de pequenas propriedades em garantia bancária, abrindo as porteiras para a especulação), eles simplesmente pegaram seus dinamites e foram para as ruas. Os camponeses bloquearam estradas. A COB convocou greve geral por tempo indeterminado. A pauta se ampliou para aumento salarial de 20% e libertação de presos políticos. Ninguém pediu permissão a Marx ou a Lenin. Apenas agiram.

Estão Falando do Oriente Médio e Nada da Bolívia

Esta é a cereja do bolo da hipocrisia burguesa. Enquanto a guerra no Oriente Médio  (uma guerra interimperialista que serve aos interesses do complexo industrial-militar e do lobby sionista) alimenta a indústria das manchetes e a geopolítica dos monopólios, uma luta de classes ferve na América Latina. Por que o silêncio? Porque a mídia hegemônica fala do que lhe convém. O silêncio sobre a Bolívia não é omissão, é censura de classe. Seu objetivo é isolar os explorados, desmobilizar a solidariedade internacional e impedir que a chama boliviana incendeie outros campos.

A grande imprensa não quer que o trabalhador brasileiro saiba que seus companheiros bolivianos estão parando o país com bloqueios. Não quer que o camponês argentino descubra que a luta pela terra reacendeu nos Andes. Não quer que o proletariado chileno veja que a greve geral é possível. A informação, no capitalismo, é uma mercadoria e quem paga define a pauta.

O Que Está Realmente Acontecendo na Bolívia

Afastemos as cortinas de fumaça. A crise boliviana é um livro aberto sobre a barbárie capitalista.

A centelha foi a Lei de Terras 1720. Para o governo Paz, ela serviria como "modernização", permitir que pequenos proprietários usassem suas terras como garantia bancária. Para os camponeses e indígenas, era a porta de entrada para a especulação imobiliária, o fim da terra comunal e o retorno disfarçado do latifúndio. A lei foi revogada sob pressão das ruas, mas o estrago já estava feito, a desconfiança estava plantada, e a luta se generalizou.

Mineiros, camponeses, professores e a COB organizaram uma greve geral que isolou La Paz por semanas. O governo respondeu com 3.500 policiais para desmantelar os bloqueios, gerando confrontos brutais no centro da capital. E, quando a situação ficou insustentável, Paz chamou a ajuda externa, um avião militar do governo ultraliberal de Javier Milei com 12 toneladas de alimentos para aliviar a pressão. É a internacionalização da reação burguesa, o capital se une através das fronteiras para esmagar a resistência da classe trabalhadora.

Os Reflexos para o Proletariado Latino-Americano

A crise boliviana derruba todos os mitos sobre a passividade da classe trabalhadora. Ela nos ensina, pelo menos, três lições imediatas.

O inimigo é um só. Seja o governo de Paz, de Milei, de Lula ou de qualquer outro administrador do capital, a resposta da classe trabalhadora, quando organizada, é a mesma, greve, bloqueio, ocupação. A luta não é contra este ou aquele governo, é contra a essência neoliberal de todo Estado burguês.

O isolamento é a tática do inimigo. O silêncio da mídia e o apoio externo a Paz fazem parte da estratégia para conter a revolta e impedir seu contágio. A solidariedade de classe, através das fronteiras, é nossa principal arma. Um mineiro boliviano em greve é um aliado do trabalhador brasileiro em luta, mesmo que a imprensa tente esconder esse fato.

A hora é agora. A revolução não espera o aniversário de Marx nem a chegada de Lênin. Ela é feita nas trincheiras do presente. E nas trincheiras da Bolívia, neste exato momento, trava-se uma batalha que é de toda a América Latina. A vanguarda que hesita, que analisa demais, que espera o "momento maduro", está fadada a chegar atrasada, ou a não chegar nunca.

O Que Fazer?

Não podemos nos dar ao luxo do silêncio. A primeira tarefa é romper o bloqueio informativo imposto pela mídia burguesa. Denunciar a mentira. Divulgar a luta dos mineiros, dos camponeses, da COB. Fazer ecoar na América Latina o grito que vem dos Andes.

A segunda tarefa é extrair as lições táticas da resistência boliviana. A greve geral, os bloqueios de estradas, a ocupação das cidades, tudo isso é um manual de combate que a classe trabalhadora pode e deve replicar. Não se trata de copiar táticas, mas de aprender com a combatividade alheia.

A tarefa mais fundamental, é organizar. A solidariedade não pode ser apenas retórica. É preciso construir redes concretas de apoio, de comunicação, de coordenação entre as lutas dos explorados de todo o continente. O capital já é internacional. A resistência precisa se tornar internacional também.

A história está passando, camaradas. E ela não espera pela permissão da mídia. Que a combatividade dos mineiros e camponeses bolivianos sirva de farol para o proletariado de todo o continente. Como dizia Rosa Luxemburgo: "A revolução é magnífica. Todo o resto é bobagem."

A luta é na Bolívia, é na América Latina, é em todo lugar onde o capital explora. Ela é internacional e permanente.

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