Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Acefalia e Extermínio

Acefalia e extermínio: a última fase da moral do capital

O projeto da extrema direita não se confunde com as velhas formas de dominação burguesa. Não se trata apenas de privatizar o que é público, de desmontar direitos sociais, ou de impor uma agenda econômica neoliberal. Trata-se de algo mais radical e mais letal: a produção da acefalia. A cabeça cortada. A impossibilidade de qualquer projeto, crítico ou conformista, revolucionário ou reformista. O aniquilamento da própria potência de pensar, de organizar, de resistir.

Este movimento não busca formar nem deformar. Busca eliminar a possibilidade da forma. Não quer educar para o capital, como no velho ciclo descrito por Marx, no Livro I de "O Capital", onde a escola preparava a força de trabalho para a disciplina fabril. Quer tornar a educação irrelevante, substituí-la pelo fuzil, pelo algoritmo que isola, pelo ruído infinito que consome qualquer silêncio onde um pensamento pudesse nascer.

A eliminação direta como método

A fração da classe dominante que hoje comanda o projeto de extrema direita já não acredita na hegemonia cultural. Não busca convencer o explorado de que sua posição é justa ou inevitável. Busca que o explorado não exista como sujeito. Daí a violência como método cotidiano, o extermínio como política de Estado, a mentira como moeda corrente, a alegria sádica na destruição, porque a destruição tornou-se o único conteúdo positivo de sua "moral".

O velho judeu de Trier já havia percebido, em seus escritos sobre a acumulação primitiva, que o capital não nasceu do convencimento, mas da violência aberta (cercamento dos campos, expropriação dos camponeses, leis sanguinárias contra os expropriados). O que se vê hoje é essa violência primitiva reeditada em escala global e com meios tecnológicos que o século XIX não podia imaginar. Mas há uma diferença crucial. No passado, a violência servia para empurrar o trabalhador para a fábrica. Hoje, a violência serve para empurrá-lo para fora da própria humanidade.

A moral da morte e o risco planetário

A classe dominante em sua fração mais reacionária sabe que sua ação põe em risco toda a vida no planeta. As mudanças climáticas, a corrida armamentista, as pandemias evitáveis, a intoxicação dos solos e das águas, tudo isso é consequência previsível, anunciada, do seu modo de produção e de destruição. Ela não se importa. Por quê?

Porque o horizonte temporal da acumulação é o próximo trimestre, não as próximas gerações. Porque, como Marx demonstrou ao analisar a contradição entre forças produtivas e relações de produção, o capital tende a tratar a natureza e o próprio trabalhador como barreiras a serem rompidas, não como condições a serem preservadas. O que o século XXI acrescenta é a escala, a lógica do lucro tornou-se tão radicalmente parasitária que não se contenta em explorar o trabalho vivo, está disposta a extinguir o próprio trabalho vivo e, com ele, a humanidade, desde que os últimos dias sejam de lucro.

Essa é a moral da morte, não uma morte como sacrifício redentor, mas como gesto de soberania do senhor que, não podendo mais comandar o escravo, prefere matá-lo e matar-se junto. É o niilismo do capital em sua fase terminal. Só resta destruir, porque construir exige o outro e o outro na forma do trabalhador que resiste ou do ecossistema que se esgota, tornou-se insuportável.

O que resta fazer

A tarefa daqueles que ainda querem a vida (não apenas sobreviver, mas viver humanamente) é recusar essa acefalia. É construir, nas brechas que a barbárie ainda não conseguiu esterilizar, formas de pensamento e de organização que recolocam a cabeça no lugar. Não uma cabeça que comande de cima, mas uma cabeça coletiva que pense a partir da carne do mundo.

Marx escreveu, nas suas análises sobre a jornada de trabalho, que o capital é "vampiro" que suga o sangue do trabalho vivo. Mas o vampiro, na literatura, só teme duas coisas: a luz do dia e a estaca no coração. A luz do dia é a consciência de classe desperta. A estaca é a organização autônoma dos que produzem toda a riqueza. Nenhuma das duas será encontrada nos manuais de boas maneiras políticas ou nas alianças com a fração “civilizada” da burguesia. Serão construídas na contramão da acefalia.

A classe dominante, em sua moral da morte, já assinou sua própria sentença. Ela não se preocupa morta, mas nós, os vivos provisórios, temos outro horizonte. Ou lutamos para que a vida prevaleça, ou seremos arrastados pela destruição que ela mesma preparou. Não há meio-termo.

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