A Abundância Represada: Por que Produzimos Tanto e Vivemos Tão Mal
A humanidade nunca produziu tanta riqueza. As fábricas cospem mercadorias em velocidades espantosas. Os campos colhem safras recordes. A tecnologia permite que uma fração mínima do trabalho social total baste para alimentar, vestir, abrigar e cuidar de cada ser humano do planeta. No entanto, a fome persiste. A miséria cresce. A falta de moradia se alastra. A água potável é negada a milhões. Os hospitais não têm remédios. As escolas não têm estrutura. Há alguma coisa profundamente errada nessa equação. E o erro não está na natureza, não está na técnica, não está na capacidade humana de produzir. Está na forma social que determina o que, como e para quem se produz.
A escassez que experimentamos hoje não é um fato natural. É uma construção social. É o modo como o capital organiza a produção para garantir que a abundância potencial jamais se realize como abundância real para a maioria da humanidade. O capital não pode permitir a abundância. Se permitisse, deixaria de ser capital.
Para entender por que, é preciso voltar à célula do sistema: a mercadoria. Toda mercadoria é uma unidade contraditória entre valor de uso (sua utilidade concreta, sua capacidade de satisfazer uma necessidade humana) e valor de troca (trabalho humano abstrato cristalizado, que só se realiza na venda). Sob o capitalismo, o valor de uso não é a finalidade da produção. É apenas o suporte do valor de troca. O capitalista não produz alimentos porque as pessoas têm fome. Produz alimentos porque pode vendê-los. Se não puder vender, não produz. Se o preço de venda não cobrir os custos e garantir lucro, não produz. A necessidade humana só é atendida se for necessidade solvente, ou seja, necessidade com dinheiro no bolso. Quem não tem dinheiro não tem fome para o mercado. É um consumidor que não consome, uma boca que não conta, uma vida que não pesa na balança do lucro.
Essa inversão é a raiz da escassez artificial. O capital precisa que as mercadorias sejam escassas o suficiente para manter os preços acima dos custos. Se houver abundância, os preços caem. Se os preços caem, o lucro diminui. Se o lucro diminui, o capital foge. Por isso o sistema destrói alimentos para sustentar cotações. Queima café, despeja leite, enterra toneladas de grãos. Não é absurdo. É cálculo. É mais lucrativo destruir o excedente do que distribuí-lo, porque a distribuição gratuita derrubaria os preços e comprometeria a valorização futura. A fome de milhões é um efeito colateral aceitável. O capital não tem estômago. Não tem consciência. Tem apenas o impulso cego de se valorizar.
A mesma lógica opera em todas as esferas. Por que há falta de moradias em cidades abarrotadas de prédios vazios? Porque o imóvel não é construído para abrigar pessoas, mas para render aluguel, para especular, para lavar dinheiro. O solo urbano é mercadoria. A moradia é mercadoria. O direito de morar se subordina ao direito de lucrar. Por que há falta de medicamentos em países que abrigam os maiores laboratórios do mundo? Porque o medicamento é mercadoria, protegido por patentes (cercas jurídicas que garantem o monopólio da venda e impedem a produção genérica). A cura é propriedade privada antes de ser direito. O doente é consumidor antes de ser paciente.
A abundância está represada. As comportas são as relações sociais capitalistas. A propriedade privada dos meios de produção, o trabalho assalariado, a produção voltada ao lucro, são essas as travas que impedem que a riqueza real chegue a quem a produz.
Em tempos pré-capitalistas, a escassez era real. A produtividade do trabalho era baixa. A natureza impunha limites duros. Uma colheita ruim significava fome para a comunidade inteira. Nesses tempos, o que se dividia era a miséria. Todos apertavam o cinto. A solidariedade forçada pela escassez gerava formas de sociabilidade comunitária, laços de reciprocidade, mecanismos de partilha do pouco que havia. O capitalismo dissolveu essas formas. Libertou as forças produtivas, elevou a produtividade a patamares inéditos, criou as condições materiais para a abundância. Mas o fez sob a forma da propriedade privada e da exploração. O resultado é que, no lugar da divisão da miséria, o que se divide agora é outra coisa: a exploração do proletariado.
A mais-valia (trabalho não pago, a parte da jornada que o proletário entrega de graça ao burguês) é um bolo. Os capitalistas disputam esse bolo entre si. A concorrência entre eles é feroz. O grande capital engole o pequeno. A transnacional esmaga o patrão local. O rentista suga o industrial. O capital financeiro drena a economia real. Mas o bolo que eles disputam é sempre o mesmo: trabalho alheio cristalizado. A disputa entre burgueses não alivia a exploração do proletariado. Ela a intensifica. Porque, para ganhar do concorrente, cada burguês precisa arrancar mais do seu proletário. Baixar salário, alongar jornada, intensificar ritmo, precarizar vínculo. A guerra de todos contra todos no mercado se traduz em pressão redobrada sobre quem produz.
O proletariado segue excluído da abundância que ele mesmo criou. A miséria que lhe sobra não é falta de produção. É excesso de exploração. É a forma social que impede o acesso ao que já foi produzido. O proletário produz o carro, mas não pode comprá-lo. Constrói o prédio, mas não pode morar nele. Cozinha o restaurante, mas come marmita fria. Cuida do filho do burguês, mas deixa o seu na creche precária. Essa é a esquizofrenia do capital: a separação radical entre quem produz e quem desfruta, entre o trabalho e a riqueza, entre a capacidade técnica e a realidade social.
A tecnologia, que poderia ser o instrumento da libertação humana, torna-se, sob o capital, instrumento de intensificação da exploração. A automação não reduz a jornada; elimina postos de trabalho e aumenta a carga dos que ficam. A inteligência artificial não libera tempo livre; controla o ritmo, vigia o desempenho, descarta quem não atinge as metas. A engenharia genética não cura doenças; patenteia sementes e medicamentos, cobrando royalties de quem precisa comer e de quem precisa viver. O capital transforma cada avanço técnico em nova forma de sucção.
A escassez artificial não afeta apenas o consumo. Afeta também a natureza. O capital trata a terra como fonte inesgotável de matéria-prima e como depósito infinito de rejeitos. Extrai minérios, derruba florestas, contamina rios, suga aquíferos, perfura o subsolo, envenena o ar. Tudo em nome do lucro. Quando a natureza dá sinais de esgotamento (secas, inundações, incêndios, pandemias), o capital responde com novas mercadorias: créditos de carbono, seguros climáticos, tecnologias verdes que são apenas novas formas de acumulação. A crise ambiental não é um acidente. É o metabolismo do capital em sua fase terminal. O sistema que produz escassez artificial para os humanos produz também escassez real para o planeta.
A contradição entre abundância e escassez é, no fundo, a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção. As forças produtivas (a tecnologia, a ciência, a organização do trabalho, a capacidade humana de transformar a natureza) atingiram um nível que permite a satisfação das necessidades de todos com uma fração do trabalho social atual. As relações de produção (a propriedade privada, o trabalho assalariado, a produção para o lucro) são um entrave. Elas represam a abundância. Elas transformam a capacidade de produzir em capacidade de excluir.
Por isso a luta de classes não é uma briga por um pedaço maior do bolo. É a luta para destruir a cozinha inteira e reconstruí-la sob controle de quem realmente cozinha. Não se trata de redistribuir a escassez. Trata-se de abolir a escassez. De destravar a abundância represada. De subordinar a produção à necessidade humana, e não à valorização do capital. Isso significa abolir a propriedade privada dos meios de produção. Colocar a terra, as fábricas, as máquinas, a tecnologia a serviço de todos. Significa abolir o trabalho assalariado. Ninguém mais vende sua vida por um salário. A jornada é reduzida ao mínimo necessário. O trabalho penoso é eliminado pela automação. O tempo livre se torna a medida da riqueza.
Isso não é sonho. É uma possibilidade real, material, inscrita no desenvolvimento das forças produtivas. O que falta é a consciência dessa possibilidade. O que falta é a organização do proletariado para realizá-la. O que falta é a ruptura com a ideologia que naturaliza a escassez e nos convence de que "não dá para todo mundo".
Essa ideologia tem muitas faces. A face malthusiana diz que a pobreza é culpa dos pobres, que se reproduzem como coelhos e esgotam os recursos. A face neoliberal diz que o mercado aloca os recursos de forma eficiente e que a interferência estatal gera distorções. A face reformista diz que é possível regular o capital, humanizá-lo, fazê-lo funcionar para todos. Todas são falsas. Todas escondem o fato de que a escassez não é natural, mas socialmente produzida. E que a única forma de eliminá-la é eliminar as relações sociais que a produzem.
A revolução não é a tomada do poder em meio à penúria, para repartir a miséria. É a tomada do poder para destravar a abundância. Para abrir as comportas. Para fazer chegar a cada ser humano o que a humanidade já é capaz de produzir. O socialismo não é a gestão estatal da escassez. É a superação da escassez pela abolição da forma valor. É a produção voltada à satisfação das necessidades humanas, livremente associadas, conscientemente planejadas. O comunismo não é a divisão igualitária da miséria. É o fim da miséria.
A abundância já existe. Está aí, diante dos nossos olhos, mas está trancada. As chaves da prisão estão nas mãos da burguesia. A classe que detém os meios de produção prefere destruir o excedente a distribuí-lo. Prefere a barbárie à cessão da propriedade. Prefere queimar comida enquanto milhões passam fome. Prefere manter prédios vazios enquanto milhões dormem na rua. Prefere patentear a cura enquanto milhões morrem de doenças evitáveis. Essa é a lógica do capital. Não há reforma que a dome. Não há regulação que a humanize. Não há eleição que a transforme.
A única saída é arrancar as chaves. Tomar os meios de produção. Socializar a terra, as fábricas, a tecnologia. Organizar a produção conforme as necessidades, não conforme o lucro. Reduzir a jornada, eliminar o trabalho penoso, liberar tempo para viver. Isso é possível. É necessário. É urgente. A cada dia que passa, a contradição se agrava. A abundância represada apodrece de um lado. A miséria cresce do outro. O planeta geme. As guerras se multiplicam. Os estados de exceção se banalizam. O capital caminha para a barbárie porque já não tem nada a oferecer além de destruição.
Cabe ao proletariado decidir se aceita a barbárie ou se toma o que é seu. A escassez é uma mentira. A abundância é a verdade. E a verdade, quando compreendida pelas massas, se transforma em força material. Em greve. Em bloqueio. Em ocupação. Em poder. Em revolução. A hora é de escolher.
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