Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Sobre Isso e Aquilo

Dizer que o feminicídio decorre de “raízes machistas e misóginas” é apenas descrever o fenômeno com outra palavra, sem explicar de onde brotam essas “raízes” em uma sociedade capitalista. Machismo e misoginia não são entidades metafísicas que caem do céu; são formas de consciência e práticas sociais engendradas por relações materiais determinadas. Enquanto se mantiver intocada a estrutura que exige a família como unidade de reprodução da força de trabalho a custo zero, enquanto o trabalho doméstico não for socializado e a mulher continuar sendo a reserva de mão de obra mais barata e descartável, o “machismo” será reproduzido dia após dia, não por “cultura”, mas por função econômica. Ao localizar a causa do feminicídio em “valores culturais” ou “desigualdade de poder entre os gêneros”, esse discurso desvia a mira do alvo real, a propriedade privada, a família como célula econômica, o Estado que administra a violência enquanto se apresenta como solução. É o mesmo movimento que leva a clamar por “educação”, “leis mais duras” e “delegacias especializadas”, respostas que não tocam um fio de cabelo na estrutura de exploração, mas que ampliam o braço repressivo do Estado e dão verniz humanitário à barbárie.
É Fragmentar a luta de classes, reduzindo o feminicídio a uma questão de “gênero” descolada da luta de classes, é dividir os explorados. A mulher que morre assassinada pelo companheiro não morre porque ele “tem valores machistas”; morre porque ele foi educado a exercer autoridade sobre aquela que, no âmbito doméstico, é sua subordinada econômica e social, subordinação essa que o capital exige para transferir para o lar os custos da reprodução da força de trabalho. O agressor é, na imensa maioria dos casos, um trabalhador precarizado, que reproduz na esfera privada a violência que sofre na esfera pública. Tratar isso como “cultura machista” sem conectar à exploração de classe é isentar o capital de sua responsabilidade estrutural.
O discurso que se contenta em apontar “raízes machistas e misóginas” é um discurso que não quer transformar a sociedade, apenas geri-la. Ele naturaliza a família, naturaliza o trabalho doméstico não remunerado, naturaliza o Estado como árbitro, e reduz a luta a uma disputa de “consciências” ou “representatividade”. É o discurso da classe média esclarecida que se sente moralmente superior enquanto mantém incólume a engrenagem que produz o feminicídio em série.
O feminicídio não se combate com “mudança cultural”. Combate-se com a destruição das relações de produção que o engendra, socialização do trabalho doméstico, abolição da família como unidade econômica, desmontagem do Estado penal, e luta de classes até a extinção do capital. Fora disso, o que se oferece é apenas a gestão humanizada da barbárie.

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