Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sexta-feira, 29 de maio de 2026

A Crise Boliviana Exige Uma Leitura Radical

Por Que a Crise Boliviana Exige Uma Leitura Radical

A grande mídia, quando muito, trata a Bolívia com manchetes apressadas sobre "crise política" ou "instabilidade social". A dita "imprensa alternativa", quando se dispõe a cobrir o assunto, faz o que fez até agora, entrevista Evo Morales. Ouve-se o ex-presidente, suas análises ponderadas, suas críticas ao governo neoliberal de Rodrigo Paz, suas propostas de "recomposição do campo popular". E pronto. O problema parece resolvido no plano da opinião.
Isso não é apenas insuficiente. É ideológico. É uma cortina de fumaça que impede a classe trabalhadora de enxergar a verdadeira natureza do que está em curso na Bolívia e no mundo.

O Reformismo não Vai à Raiz

Evo Morales foi, durante seus quase quatorze anos de governo, um administrador do capitalismo boliviano. Nacionalizou alguns setores, distribuiu migalhas aos movimentos sociais, cooptou lideranças indígenas e operárias, e manteve intacta a estrutura fundamental da exploração, “a propriedade privada dos meios de produção”. Seu governo foi, na melhor das hipóteses, uma versão com verniz nacionalista e andino do mesmo capitalismo que hoje, sob Paz, se mostra em sua face mais liberal e truculenta.

Ouvir Evo Morales sobre a crise atual é como ouvir um ex-gerente reclamar do novo gerente. Ele pode apontar erros de gestão, pode denunciar a violência do atual governo, pode até convocar manifestações. Mas ele não pode (porque sua posição de classe não permite) apontar a raiz do problema. E a raiz do problema não é Paz, não é o neoliberalismo, não é o imperialismo americano. A raiz do problema é o modo de produção capitalista.

Enquanto a análise se limitar a trocar os nomes (criticar Paz, louvar Evo, esperar que o MAS retorne ao poder) estaremos no terreno da administração da crise, não da sua superação. A questão não é quem governa a Bolívia. A questão é se a classe trabalhadora boliviana vai continuar aceitando ser explorada por qualquer patrão, seja ele nacional ou estrangeiro, seja ele aliado de Evo ou de Paz?

A Crise Boliviana é a Crise do Capitalismo Mundial

O que está em curso na Bolívia não é uma "crise política" localizada. É uma manifestação aguda da crise estrutural do capitalismo global. O sistema entrou em uma fase de superacumulação, de esgotamento das condições de reprodução social, de destruição ambiental e humana em escala planetária. Cada tentativa de restaurar a taxa de lucro (com austeridade, com guerras, com ataques aos direitos trabalhistas) aprofunda a crise, porque destrói a única coisa que realmente produz valor, a força de trabalho viva, saudável e organizada.

Na Bolívia, isso se traduz na tentativa do governo Paz de reverter as nacionalizações, abrir as terras ao capital especulativo, flexibilizar os direitos trabalhistas e cortar os gastos sociais. A resposta dos mineiros, camponeses e trabalhadores urbanos (greve geral, bloqueios de estradas, ocupação das cidades) não é uma "reação a medidas impopulares". É a recusa da classe trabalhadora em pagar a conta de uma crise que não criou.

Essa recusa é revolucionária em potência. Mas ela só se tornará efetivamente revolucionária se a classe trabalhadora boliviana romper com a tutela do reformismo (seja o de Evo, seja o de qualquer outra liderança que se limite a pedir "diálogo" e "negociação") e construir seus próprios instrumentos de poder.

O Silêncio da Imprensa (Burguesa e "Alternativa") é Cúmplice

A grande mídia silencia sobre a Bolívia porque não lhe interessa que a classe trabalhadora mundial saiba que é possível parar um país com greve geral e bloqueios. O exemplo boliviano é perigoso demais para ser mostrado.

A "imprensa alternativa" reduz a Bolívia a uma entrevista com Evo Morales porque isso é confortável. É confortável porque não exige ruptura. É confortável porque permite que o leitor progressista se sinta informado e engajado sem precisar mudar uma vírgula de sua própria prática política. É confortável porque mantém a ilusão de que o problema é "o neoliberalismo" (um intruso que pode ser expulso com boas políticas e bons governos) e não o capitalismo, que é a própria estrutura da sociedade.

Mas a verdade, camaradas, é dura, o neoliberalismo não é um desvio do capitalismo. É a sua forma mais honesta. É a forma como o capital se apresenta quando não precisa mais fazer concessões. O governo Paz é apenas o capital sem maquiagem. O governo Evo foi o capital com maquiagem indígena e social. A maquiagem caiu. O rosto é o mesmo.

O Que a Classe Trabalhadora Precisa Fazer

Primeiro, recusar a narrativa reformista. Não se trata de apoiar Evo contra Paz. Trata-se de construir uma alternativa (independente, de base, autônoma, revolucionária) que não dependa de nenhum gerente do capital, seja ele de “esquerda” ou de direita.

Segundo, aprender com as táticas da luta boliviana. A greve geral, os bloqueios, as ocupações (tudo isso é um manual de combate que precisa ser estudado e aplicado). Mas sem a ilusão de que táticas, por si só, fazem a revolução. Elas são ferramentas. O que falta é a consciência de classe e a organização política que transforme a greve em poder.

Terceiro, internacionalizar a solidariedade. O capital já é internacional. Os mineiros bolivianos em greve são nossos companheiros de classe, no Brasil, na Argentina, no México, em toda parte. Apoiá-los não é caridade. É reconhecer que a luta deles é a nossa luta, e que a derrota deles enfraquece a todos nós.

Quarto, e mais importante, romper com a ilusão de que a solução virá de cima, de um governo bom, de um líder carismático, de uma aliança de partidos progressistas. A solução virá de baixo, da organização autônoma da classe trabalhadora, da construção de conselhos, de assembleias, de comitês de greve que não peçam licença a nenhum patrão, a nenhum Estado, a nenhuma liderança tutelar.

Camaradas, a crise boliviana não é sobre Evo Morales. Não é sobre Rodrigo Paz. Não é sobre o MAS. É sobre a classe trabalhadora, sobre sua capacidade de resistir, de se organizar e, no limite, de tomar o poder.
Enquanto a “esquerda institucional” e a imprensa "alternativa" continuarem entrevistando Evo e discutindo os rumos do reformismo, estarão perdendo a única coisa que realmente importa, a hora da classe trabalhadora.
A hora é agora. A luta é na Bolívia, é na América Latina, é no mundo inteiro. E a única pergunta que vale é, de que lado você está, do lado dos que administram a crise, ou do lado dos que querem enterrar o capitalismo?
A luta é pela superação radical da ordem burguesa. Ela é internacional e permanente.

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