Paulo Batista Gomes

Paulo Batista Gomes

sexta-feira, 29 de maio de 2026

O Que é Capital

O dinheiro não é uma coisa, seu dono não é uma pessoa, ambos são personificações de uma relação social.

O que é o capital?

O capital não é o dinheiro em si, nem a fábrica, nem a máquina. O capital é uma relação social de produção na qual uma classe (a burguesia) através da força, detém a propriedade privada dos meios de produção e a outra classe (o proletariado) é obrigada a vender sua força de trabalho para viver. O dinheiro é apenas a forma visível dessa relação, o fetiche que esconde a exploração. O dono do dinheiro não é dono porque tem dinheiro, ele tem dinheiro porque ocupa uma posição na relação de classe. Troque o indivíduo, e a relação continua.

Não existe o dinheiro e seu dono, existe a riqueza produzida e expropriada, o essencial é o trabalho real que gerou a riqueza e que essa riqueza é apropriada por quem não trabalhou, simplesmente por controlar os meios de produção. O salário do operário é só uma fração do que ele produziu. O resto (a mais-valia) vira lucro, juro, renda da terra, ou seja, vira a própria substância do "dinheiro do dono".

Da Bolívia ao Irã é o mesmo conflito sob diferentes bandeiras

Na Bolívia, durante o governo de Evo Morales e depois de Luis Arce, o que se viu foi uma tentativa (reformista, contraditória, limitada, mas real) de reverter a expropriação da riqueza nacional pelas corporações estrangeiras (gás, lítio, terras raras). O golpe de 2019 não foi um acidente, foi a reação da burguesia interna e internacional contra qualquer avanço que ameaçasse a propriedade privada dos meios de produção estratégicos. O país voltou a ser palco da luta de classes nua e crua, com o povo indígena e operário de um lado, o capital transnacional e sua classe política local de outro.

No Irã, a relação capital-trabalho aparece distorcida pelo regime teocrático, mas a base é a mesma, a propriedade privada dos meios de produção (com forte presença estatal e de fundações religiosas que funcionam como capitalistas coletivos). A enorme greve dos caminhoneiros, as paralisações de professores e operários, a repressão brutal, tudo isso é a forma iraniana da contradição fundamental entre capital e trabalho. O véu e a mesquita não mudam a exploração. Mudam apenas a ideologia que a justifica.

O que o sistema quer que você acredite é que existem "países diferentes", "culturas diferentes", "problemas locais". Mas a estrutura é sempre a mesma, uma minoria controla os meios de produzir a vida e a maioria é obrigada a vender a força de trabalho. A riqueza gerada por muitos é apropriada por poucos. Seja na Bolívia, no Irã, nos EUA ou na China, a relação capital-trabalho é o motor, com variações locais, mas com a mesma lógica de exploração e expropriação.

Os conflitos identitários, nacionais, religiosos, são reais, mas são secundários. Enquanto o debate se concentrar em "qual cultura é mais oprimida" ou "qual regime é mais autoritário", a classe dominante de cada país continua extraindo mais-valia tranquilamente.

E o que isso tem a ver com o trabalho associado?
Tudo. O trabalho associado (a verdadeira socialização dos meios de produção) é a única forma de romper essa relação. Não se trata de "distribuir melhor a riqueza" ou "tributar os ricos". Trata-se de abolir a expropriação na origem. Quando os produtores, coletivamente, são donos do que produzem e decidem o destino da riqueza, o dinheiro perde seu poder fetichista. O "dono do dinheiro" simplesmente deixa de existir como categoria social.

Bolívia e Irã estão (cada um a seu modo) no centro dessa luta. Um tentou (e está tentando novamente) arrancar da burguesia internacional o controle do gás e do lítio. O outro vive a contradição de um regime que teoricamente se opõe ao imperialismo, mas mantém internamente a mesma estrutura de propriedade privada e por isso enfrenta rebeliões operárias contínuas.

Não há saída pela moral. Não há saída pela identidade. Não há saída pelo bom moço. A única saída é a organização da classe trabalhadora para expropriar os expropriadores e instituir a propriedade coletiva dos meios de produção. Até lá, o dinheiro e seu dono continuarão existindo, não como coisas ou pessoas, mas como a máscara sanguinária de uma relação de exploração que atravessa fronteiras, religiões, cores e gêneros.

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